revista bula
POR EM 27/07/2012 ÀS 09:49 PM

E aí... comeu, cachorro? (como escrever textos idiotas)

publicado em

“A terra há de comer, já que eu não comi”
(Falcão, cantor, compositor e humorista cearense) 

Convalescendo em sua residência, Randal até que se sentia bem. Afinal, depois de inúmeras investidas, conseguira levar a secretária do chefe para um motel e fazer com ela um pouquinho do que os trezentos e quarenta e sete demais homens da fábrica também sonhavam em fazer, principalmente os casados, os muito tímidos e os incrivelmente religiosos. Vocês sabem, é bem difícil resistir aos aparentemente sensatos argumentos do diabo.

Ele era um vassalo dos mais comuns dentro do organograma administrativo da empresa, de tal forma que os galanteios cotidianos, quase sempre grosseiros (ele não podia ser mais direto), não chegavam a configurar um crime de “assédio moral” contra a moça. Cansada, convencida que fazer sexo com aquele sujeito do baixo escalão tornaria a sua vida mais divertida, topou a empreitada.

— Foi bom pra você, princesa? (perguntou, idiotamente, como se ele fosse o “rei do sexo sem fins reprodutivos”, falsamente interessado no bem estar da colega e se ela ouvira as harpas dos anjos ao final do eletrizante intercurso sexual).

— Foi diferente. Tô sentindo um prurido estranho entre as pernas.

— Putz! Você está com doença e não avisou, mulher?! Eu sou casado! Eu sou casado! (Randal apavorou-se mergulhado na sua descomunal e corriqueira ignorância)

— Tem doença nenhuma, Randal. Eu nunca senti isto antes. Mas tá coçando pracaralho. Minha vagina tá pegando fogo. Dá uma olhada pra mim, meu bem.

— Uau! Tá muito inchada, gata. Há tantos anos pulando cercas, jamais vi coisa parecida...

— Você tá me deixando preocupada, Randal.

— Tá inchada, ora. Bojuda. Crescida. Empapuçada. Mais fofinha que o habitual. Tá até um pouco engraçado. Deve ser porque eu sou um garanhão bem dotado (ele comentou, demonstrando ser mesmo um cavalo em termos de delicadeza com o sexo oposto).

— Não tem graça. Tá coçando, queimando, doendo... Ai, meu pai!

Randal começou a ficar apurado porque a moçoila não parava de coçar a genitália, cravando as bonitas unhas pintadas de vermelho (“Ah... as cores do América Futebol Clube, o meu time do coração...” — gabava-se) com tanta força ao ponto de sangrar.

— Me leva prum pronto-socorro, Randal. Não aguento mais.

— Como assim? Eu sou casado, esqueceu? Além do mais, meu Plano de Saúde não cobre assistência às amantes (ele continuava com comentários cada vez mais cretinos; parecia até uma personagem de um filme de comédia brasileiro).

— Foda-se! Não tá vendo que eu já estou toda esfolada? Mal consigo fechar as pernas. Cara, eu tô sofrendo à beça. Tenha paciência. Tenha piedade.

Com o cu na mão, que é como se diz quando uma pessoa está numa enrascada das graúdas, e já lamentando ter copulado com uma colega de trabalho tão problemática, Randal não teve outra saída senão atender às súplicas dela.

Enquanto dirigia percebeu que a condição da moça tornara-se periclitante, pois um grande volume já se fazia notar sob o vestidinho amarelo da beldade (“Ah... a cor do manto sagrado da Seleção Brasileira...” — como bom brasileiro, Randal adorava futebol, samba, feriados, Caixa 2 e sacanagem), como se ela tivesse uma ereção. Evidentemente, não era o caso daquela bela e cobiçada criatura.

Dentro do consultório do Doutor Epaminondas — um seu amigo ginecologista, sujeito pau-pra-toda-obra, fornecedor contumaz de citotec para os aborteiros da turma, Randal apelava por socorro à companheira de aventura. Àquela altura, a beldade apresentava um espetacular inchaço que tomava conta, não só da vulva, mas também das coxas, virilhas e nádegas.

— Nunca antes na história deste ambulatório, eu vi coisa igual (o doutor fez um chiste ao estilo presidencial de Lula, mas ninguém naquele ambiente conseguiu sorrir).

Não demorou muito, as suas tão cobiçadas pernas de louça (nos dizeres do compositor Chico Buarque) ficaram também deformadas, simulando patas de elefante. Era como se houvesse uma espécie de duto invisível enfiado nalgum orifício da mulher, promovendo um espantoso espetáculo deformante que dava até medo. O médico ordenou à enfermeira que aplicasse alguns eme-éles de substâncias curadoras dentro da veia da secretária.

— Vocês, nas inimagináveis e nefastas brincadeiras sexuais, utilizaram algum tipo de produto aromático, chantilly, pomada japonesa, gel de minâncora, mel de abelha Europa, margarina, saliva ou outro tipo de condimento lubrificante?

— Nada disso, chapa. Tudo aconteceu muito rápido. Há tempos eu desejava traçar esta potranca. O apetite era descomunal. Nem mesmo tive tempo de calçar a camisinha. Havia muitas horas-extras, passivo trabalhista e tesão acumulados, doutor.

— Rapaz, a coisa é grave. Trata-se de um raro episódio de alergia ao esperma. Só pode ser. Vi coisa parecida no Discovery Channel na semana passada (?!).

— E ela vai ficar boa, Epaminondas?

— Boa ela já é (embora fosse um amigo para todas as horas, o ginecologista, além de péssimo profissional de saúde, provou mesmo ser inconveniente, antiético, e um piadista amador sem senso do ridículo). Don’t worry. Nós vamos tirá-la da crise (agora falava como se fosse um pastor tirando o capeta do corpo de uma possuída). Tenha fé. Acredite em Deus, Randal (ele recomendou cheio de cinismo, pois sabia que Randal temia mais a sua mulher e os auditores fiscais da Receita que o próprio Criador).

Mesmo com o misterioso coquetel aplicado nas entranhas da paciente impaciente, o edema avançava de forma fenomenal para o abdome, tórax e face. Em poucos minutos, a moça estava tomada pelo estranho e avassalador fenômeno anafilático que a deixara tão deformada quanto a moral dos homens ali presentes.

— Gente, eu acho que vou explodir... (foram as suas últimas palavras)

Quem avisa amigo é. Ela, de fato, explodiu, repetindo o drama de Dona Redonda, a obesa mórbida de Saramandaia, expelindo fluidos, plasma, perdigotos e nacos de carne pra tudo que foi lado, impregnando todo o consultório, respingando resíduos orgânicos sobre o quadro com o diploma boliviano falsificado, dependurado na parede.

 Quando eu conto esta estória, quase ninguém acredita: Randal e seu amigo ginecologista ficaram colados à parede do ambulatório, suspensos por uma espécie de muco altamente pegajoso, como se fossem troféus, carcaças empalhadas por um caçador de escroques.

O SAMU, a Defesa Civil, a polícia, os repórteres, o pessoal do i-eme-éle, um padre exorcista, um espírito-de-porco, advogados de porta de hospital e muitos curiosos acompanharam a faxina e o resgate da dupla impregnada. Enquanto isto, um faminto cão andaluz, que não estava nem aí para o cretinismo criativo que impera no mercado cultural brasileiro, se fartava com tanta carne moída esparramada pelo chão.      

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