revista bula
POR EM 10/04/2008 ÀS 03:14 PM

Devoções de Dona Dalva

publicado em

 Pequeno e jocoso tratado do espiritismo         

Mulher sofrida, de alma calejada, e que já passara por tantas peripécias na vida, como ela mesma dizia, nem por isso esmorecia na luta pela sobrevivência. Mesmo com todas as vicissitudes, ainda que despojada de seus bens, enfrentava as situações adversas; saía a campo com o seu espírito de luta, buscava recursos, trazia soluções. E nada a impedia de dedicar boa parte da vida a praticar a caridade, ajudar os semelhantes.
           
Azuis, os olhos pareciam clarear a penumbra e as teias de aranhas no coração de cada um, como se ali vasculhassem velhos papéis, por isso não deixavam de causar um certo incômodo. Assim, com os olhos agudos feito facho de lanterna, Dona Dalva penetrava o interior das pessoas, ia dizendo tudo que havia dentro delas. Mexia com o passado, arrancava segredos, jogava as verdades todas pra fora. Pessoas havia que se envergonhavam, e umas que choravam, mas Dona Dalva compreendia e punha consolo. Benzia, dava passes mediúnicos, dava conselhos, ensinava simpatias, passava remédios e pregava o Evangelho Segundo o Espiritismo, a doutrina codificada por Allan Kardec. Foi indo, enveredou-se por caminhos que só levavam às encruzilhadas da fé e das crendices, superstições e desconfiança. Deu de misturar joio ao trigo kardecista, por assim dizer, num misto de centro espírita e terreiro de umbanda. Foi indo e veio vindo até o fim da vida de idas e vindas. Por onde a vida vai e se esvai, é no tempo e nas intempéries de seus caminhos que ela vai se esvaindo, até que vai indo e não vai mais. Volta e meia, a vida vai e não volta pra contar como é que foi. Às voltas consigo mesma, de si mesma se perde numa de suas voltas. Tantas as voltas que o mundo dá em torno do sol, que nem se sabe a quantas uma vida anda. Foi meio assim que Dona Dalva se perdeu no emaranhado das devoções, no cipoal de sua fé. Foi indo pelas sendas do kardecismo, enveredou-se por um desvio e acabou nuns terreiros umbandistas, indo-se de “aparelho” (médium) do kardecismo a “cavalo” da umbanda, ora servindo de “cambão” pra preto velho, ora se deixando “tomar” por entidades ruins, espíritos truculentos, desses que chegam bufando e escoiceando feito bode. E tome marafo, amiúde uma cachaça da pior espécie, e tome fedorentas baforadas de charuto barato ou cigarro de fumo igualmente ordinário, “macaia legítimo”, na irônica expressão de alguns. Velas pretas e vermelhas — uma vez Flamengo, sempre Flamengo — sobre as linhas de giz das simbologias; o cinco-salomão dentro de um círculo, e flechas, espadas e pequenas estrelas ao redor do cinco-salomão. Pontos de invocação aos espíritos desencarnados, pretos-velhos bonachões e outras entidades, se dando que também baixasse no terreiro algum “encosto”, espírito mau ou apenas atribulado, inconformado com a desencarnação e ainda apegado às coisas terrenas; espírito de pouca luz, em estado de choro e tristes gemidos, podendo que ali fosse chamado a fim de ser consolado e doutrinado; ou ainda, sem ser chamado, viesse de intrometido ou por conta própria um exu a mando da quimbanda, o lado negro do espiritismo, o baixo espiritismo, calcado em rituais de sangue, bruxaria, satanismo, a magia negra, enfim. Arruaceiro dos brabos, ali com os seus cascos, criador de casos e dotado de força bruta, um “esprito” desses dá muita canseira aos médiuns, assim como enfrentar um bêbado brigão, botando pra quebrar no bar da esquina de suas estripulias. De resto, a velha peleja do bem contra o mal, se bem que há males que vêm pra bem, embora nem sempre o bem seja o melhor que se tem. Também o Diabo não é tão feio como se pinta, como dizem, e até já existe a expressão “doce pimenta”, corroborando o velho ditado de que pimenta no curió dos outros é refresco. Tudo é relativo, diria Einstein, cuja Teoria da Relatividade tem sido questionada, variando-se o prisma conforme o movimento ou ponto de vista. E tem esse negócio de tudo que é ruim ser culpa do Diabo. Esse maniqueísmo do bem e do mal. Já pensou se o mal acaba? O que seria do bem? Só poderia ser o bem absoluto, a ir-se pela doutrina do persa Mani — donde maniqueísmo — ou Manes, lá no século III. Outra margem é supor que, se o Diabo morrer, Deus fecha o boteco. E vai viver de quê, aqui na Terra? Nesse caso, os guardiões dos rebanhos, presumidos representantes de Deus neste mundo, irão plantar batatas — o maná da gleba prometida pela reforma agrária —, para alimentar os famintos que assolam a face da Terra.          
         
O Diabo, o Diabo, o Diabo. Os pactuados afirmam que o cabra até que é um bom sujeito e prazerosa companhia, bom violeiro, bom jogador de sinuca e de truco, chegado numa pinguinha de engenho, ou pinga de alambique, e mulherengo que só ele, manhoso, molemolengo, todo cheio de dengos e chamegos por um rabo de saia, tão certo quanto ferrenho numa queda-de-braço, batuta numa briga e ligeiro num rabo-de-arraia, golpe traumatizante em que o capoeirista apóia as mãos no solo, gira o corpo sobre a cabeça e procura atingir com os calcanhares a cabeça do adversário. E se o adversário segura um dos pés do capoeirista, este usa a mão do inimigo como ponto de apoio para o rabo-de-arraia com um pé só. Dá pra encarar-se um demônio desses? Então vai lá e vê se encara.
         
Das coisas hilárias que se contam, uma delas é que Mané Preguiça, da turma de pinguços do naipe de Zé Bolacha e Bunda Murcha, foi ao terreiro de umbanda — aonde, na verdade, ia em busca do marafo dos pretos velhos —, e disse pro “guia” que estava com a vida atrapalhada, por causa de algum “encosto”. Recebeu a inesperada e exata resposta de que ele estava era precisando de caçar serviço e deixar de viver encostado nos outros. 
         
Dezembro de 1847. Coisas estranhas ocorrem na casa da família Fox — John Fox, sua mulher e as duas filhas mais novas, Margaret, de quatorze anos, e Kate, de doze anos —, em Hydesville, condado de Wayne, no Estado de Nova Iorque, nos Estados Unidos da América. Fenômenos de casa assombrada, que deram origem ao Espiritismo, a partir das investigações realizadas por Allan Kardec, pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail, ilustre pedagogo francês, médico e discípulo de Pestalozzi. Anos depois, Margaret e Kate confessaram à imprensa que tudo não passara de uma farsa e que não podiam mais viver com aquilo — o segredo, o peso na consciência e o sentimento de culpa —, e que se sentiam bastante arrependidas pelo que fizeram, obrigadas pela irmã mais velha. Por fim, pediram perdão às pessoas, por tê-las enganado. Na época dos fenômenos paranormais, que atraíram muitas pessoas à casa da família, e por causa deles, os Fox foram acusados de bruxaria e tiveram que se refugiar na casa da terceira filha, a mais velha, que morava em Rochester.
         
Codificado, mais tarde, por Kardec — antes da confissão de fraude das irmãs Fox —, o Espiritismo sustenta a existência de um mundo invisível, dissemina a tese da reencarnação dos espíritos e de estágios de aperfeiçoamento espiritual na Terra. No plano terreno — pois há o plano celestial —, a doutrina espírita difunde o Evangelho e se pauta pelos princípios humanitários, com a prática da caridade: Fé, Esperança e Caridade, o seu lema. Esperança é a última que morre, podendo que morra logo de saída, dada a sua mania de sempre sair na frente. O kardecismo, ou espiritismo kardecista, repassa o ensinamento da purificação: “Limpai o corpo e o espírito, como se limpa, por fora e por dentro, o copo e o prato”. Diante da assertiva de que a fé, mesmo do tamanhozinho de um grão de mostarda, remove montanhas, Dona Dalva pegava-se com todos os espíritos de luz, entre eles Eurípedes Barsanulfo, Bezerra de Menezes, Batuíra, André Luiz e Dr. Fritz. Pras bandas da umbanda, ia-se de apego pelo ícone de Zé Pelintra, um preto todo de branco — terno, chapéu e sapatos, típicos do antigo malandro carioca —, a cujo espírito ela servia de “cavalo”. Mas ela pegava pra valer mesmo era com o Divino Pai Eterno e a Santa Maria Madalena. Na verdade, pegava com Deus e tudo que era santo. Ao deitar-se para dormir, rezava assim: “Com Deus eu me deito, com Deus eu me levanto, com a graça de Deus e do Divino Espírito Santo”. Pela manhã, fazia a oração de São Bartolomeu, guardador de casas contra todo mal, sobretudo o roubo, além de protetor das mulheres na hora do parto. Pedia também a proteção de Santo Expedito, o santo das causas perdidas ou impossíveis. Conta-se dele, como se conta de todos os santos, uma história interessante: fora ele comandante da XI Legião Romana e, certo dia, tocado pela graça do Espírito Santo, decidiu converter-se. Surge-lhe, então, o espírito do mal sob a forma de um corvo, gritando: “Cras! Cras!” — palavra latina que significa “amanhã”. Mas Expedito não queria adiar sua conversão, por isso matou e esmagou o corvo, gritando por sua vez: “Hodie!” — hoje. Não é por menos ser ele invocado pra resolução de problemas urgentes e de difícil solução. O mais que se conta, e aqui falto de maiores detalhes, é que o convertido Expedito foi vítima da ira do imperador Deoclesiano, sendo sangrado até morrer e então decapitado.
        
 Dona Dalva tinha lá os seus oratórios e colocava pinga num dedal, pra adular Santo Onofre ao fazer-lhe pedidos, ou já como recompensa pelas graças obtidas; caso contrário, enterrava o santo — a pequenina imagem — de cabeça pra baixo, avisando-o que só o desenterraria quando ele cuidasse de suas obrigações e atendesse-lhe aos tais pedidos. Devota por demais, festejava os Santos Reis, a 6 de janeiro, e os três santos juninos, cujas datas, 13, 24 e 29, serviam-lhe de dezenas para uma fezinha no jogo do bicho, ou de uma possível milhar em frações lotéricas. Fechava o ano com o presépio de Natal, seguido pelo “Réveillon de pobre” — dizia com resignada ironia —, saudando o Ano Novo com um vinho tinto de má qualidade e sardinha enlatada, igualmente ordinária.         
         
Em outros tempos, Dona Dalva levara uma vida melhor, mas foi perdendo tudo pelas demandas da vida e terminou pobre, quase na miséria absoluta, vivendo da caridade alheia, ela que tanto já fizera pelos outros. O espiritismo, ela mesma dizia, não traz riqueza material — embora se possa dele sobreviver, como em outras religiões, algumas até, diga-se de passagem, primando pela descarada extorsão financeira ou de bens alheios, jóias, imóveis, automóveis, via de hipnose coletiva ou de lavagem cerebral que atinge as raias do fanatismo e a impunidade criminal, sob o manto constitucional da liberdade de credo, que, aliás, deveria ser revista, sob certos aspectos, no âmbito nocivo de suas práticas. Pobre Dona Dalva! Temerosa por sua casa construída em beira de córrego — invasão de área pública —, temia e esperava sempre pela tromba-d’água na cheia de São José, a 19 de março, mas não arredava pé de sua precária propriedade, pois era só o que tinha de seu, por direito adquirido de terceiro e pago com o dinheiro de seu suor, como enfatizava, alegando ainda os gastos feitos para ampliação da casa e outros benefícios, como instalação de água e luz, portanto pagando taxas e também o imposto predial. De resto, mesmo ali com a casa sendo alvo de enchentes, e constantemente perseguida por fiscais da prefeitura e do Estado, Dona Dalva fincava o pé e sempre se valia puxando pela lei de usucapião, desta forma protelando as perseguições, e para tanto gastando, sem poder, com advogados. Arraigada no sincretismo de sua religiosidade, por ocasião da Festa do Divino, em julho, partia a pé para as romarias. Na Festa de Nossa Senhora do Rosário — a santa dos pretos —, ou das Congadas, ia ver a santa e os pretos com suas danças e sedas coloridas. Outro santo de sua devoção era Sebastião, já nas trovoadas e chuvas de janeiro — “trovoadas de São Sebastião”, diziam os antigos —, aquelas que precediam o dia 20. E uma de suas santas preferidas era a protetora dos olhos, Santa Luzia, a 13 de dezembro, dia de banharem-se as vistas com água e alecrim ou aquela veludosa “plantinha de Santa Luzia”, deixados, de véspera, numa vasilha d´água, pra que a santa os santificasse e lhes desse o poder preventivo aos males da visão. As crianças sempre curiosas com aquele par de olhos azuis que a santa trazia num prato.
         
Abaixo de Deus, só Jesus era rei. Ainda assim, a polivalente Dona Dalva entrava em rodas de Pombagira, como também beijava a barra do estrelado vestido de Iemanjá e, nas causas de maior embaraço, recorria aos préstimos de Sete Flechas e do poderoso Tranca Rua, já que São Jorge Guerreiro, a 23 de abril, andava ocupado com o dragão na lua, senão campeando famigerados exus ou envolvido com os orixás nos candomblés da Bahia, e sabe-se lá se num rodopio de capoeira, vez que na Bahia basta um berimbau pra uma rasteira baiana, e qualquer coisa parecida com tambor pra começo de carnaval. Dizem que em noites de candomblé uma tal de cabocla Jupira é recebida por médium do sexo feminino, daí escolhe um dos homens e o leva a um quarto, pra fazer sexo com ele — quanto privilégio! Não se tem notícia de que Dona Dalva pegasse com a sensual Jupira, mas a cabocla Jacira era uma de suas tantas invocações. De permeio com Allan Kardec, ou de um transe a outro, havia o ritual umbandista de mãos dadas, formando uma corrente, e o punhal apontado pra lua; suscetível aos arrepios aquele que se deixasse envolver pela atmosfera do momento. E vá-se entender uma mulher como Dona Dalva: kardecista, umbandista e católica. Justificava-se afirmando que, assim como os homens se assemelham perante o Pai Celestial, todas as religiões são iguais em nome de Deus. Contudo, não escondia sua intolerância para com os Crentes, embora lhes tenha algumas vezes visitado a igreja e até deixado que a mergulhassem nas águas de um simbólico rio Jordão!
         
Na casa de Dona Dalva, certas sessões espíritas pontuavam-se por práticas burlescas e até um pouco de farsa, perceptível ao freqüentador atento ou mínima e necessariamente cético para então perceber, senão que ele próprio se dando ao jogo do fingimento, ou ainda, tomado pelo transe e sentindo-o arrefecer, mantendo-o de modo forçado. Por certo enganasse a alguns, mas não a outro igualmente atento, a não ser que um e outro fizessem por manter-se a farsa, mantida a cumplicidade. Lavem-se as mãos e leve-se Pilatos ao banco dos réus.
         
Bom mesmo, pros meninos que acompanhavam os pais nas sessões espíritas, era a incorporação dos gêmeos Cosme e Damião; os médiuns sentados no chão e, com a fala dengosa das crianças, pedindo brinquedos, guaraná e balinhas, exigindo que os meninos presentes brincassem com eles e compartilhassem balas e refrigerante. Uma festa, e uma graça aquelas entidades gêmeas, em corpo de gente adulta, arremedando o comportamento infantil, fazendo beicinho, emburrando e dando birra.
        
 “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas”, admoestação do Evangelho que amiúde se repetia ali nos trabalhos do Centro. Já em suas horas de instrução solitária, além das obras de Kardec, Dona Dalva lia A Cruz de Caravaca, o Livro de São Cipriano com capa de alumínio e, sob o argumento de que se deve conhecer as armas e malefícios do inimigo, folheava também o Livro Negro de São Cipriano, voltado para os feitiços. Costurando-se a boca de um sapo com o retrato da pessoa lá dentro, é o mesmo que costurar perereca de mulher puladeira de cerca. Isso não está no livro, é apenas um exercício ou excesso de imaginação aqui do autor; mas sabe-se que, a exemplo da galinha preta, não se descarta o sapo nas práticas de feitiçarias, tão certo quanto costurar-se na boca de um cavalo morto o nome da pessoa a quem se deseja o mal ou mesmo a morte. Também era certo que Dona Dalva sabia das coisas, tais como as orações de São Marcos Manso e São Marcos Bravo, além do Credo de trás pra frente e outras artimanhas ou invencionices. “Senhor, faça de mim um instrumento da vossa paz”, da oração de São Francisco de Assis, estava sempre em seus lábios, talvez pelo fato de ter sido uma mulher contraditória, caridosa por um lado e por outro muito conflituosa com os outros e consigo mesma, vítima de uma pilha de nervos. Quando não estava fazendo nada, jogava pedras nos entes queridos, mas queria bem a todos, não mais a este nem menos àquele, como fazia questão de ressaltar; caridosa e amorosa a seu modo, criava os filhos dos outros, pois ela mesma não podia concebê-los, em virtude de um “útero infantil”, ou útero virado, vá se saber. Gostava de agradar às crianças e tratar bem aos animais, acolhendo-os em sua casa, sempre cheia de meninos, gatos e cães. No dia de Cosme e Damião, 27 de setembro — fala-se em datas gêmeas, 26 e 27 —, promovia a festa de doces e bolos pra meninada, e de sete em sete anos, pelas graças concedidas por Deus num momento periclitante da saúde, cumpria a promessa de alimentar sete cachorros, colocando diante de cada um deles o prato de comida farta.
         
Pra não faltarem as coisas em casa — nem comida, nem dinheiro, nem saúde —, atirava ao fogo um punhado de grãos de arroz e feijão, açúcar e café, farinha de mandioca e cascas de alho e cebola. Pra purificar a casa dos maus fluidos, provindos do mau-olhado, da inveja ou olho-gordo, acendia incenso, defumador Indiano ou Pai Jacó. Na sexta-feira, botava para feder um chifre queimado — e não é que era até agradável? —, fumegando todos os cômodos da casa e, assim, afugentando de seu lar os espíritos malignos e outros flagelos que andam pela face da Terra. Um banho de descarrego, à base de ervas, livrava a pessoa de todas as urucubacas e de suas próprias inhacas, bodum, cecê ou catinga de sovaco, que o mais se curava à custa de taca com raminho de arruda ou de alfavaca, tudo rimando em aca e banhando-se com álcool e arnica.
         
Dona Dalva era “doutora”, conforme se gabava, meio que brincando, meio que se levando a sério. Dizia que Allan Kardec, professor ginasial de Lyon (França) e ordenador do Espiritismo, fora um médico e ela achava que também deveria ter estudado medicina e se tornado uma doutora de verdade. Outra hora, dizia que bom seria se fosse advogada, afeita que era aos argumentos em defesa de causas alheias ou advogando em causa própria. Já como doutora não precisava de nenhuma ferramenta pra realizar operações; ao contrário de outros médiuns, não enfiava bisturi, tesoura ou pinça no olho ou nos bofes de ninguém; operava apenas com os toques e os passes das mãos mediúnicas, a chamada operação espiritual, sem a sangria de cortes ou a traumática supuração de repulsivos tumores. Antes, havia o ritual de um corpo médico, por assim dizer, em torno do paciente; os médiuns compenetrados e serenos com as palavras e movimentos. O cenário lembrava mesmo uma sala de operações num hospital, mas dava a impressão de estar-se numa outra dimensão da realidade. “Para tudo é preciso preparação de espírito”, segundo Exupéry —, e os preparativos dos médiuns pareciam, com efeito, espiritualmente sintonizados. Ninguém menos do que o doutor Eurípedes Barsanulfo, ou então Dr. Fritz, via de orações e profunda concentração dos médiuns, descia no recinto para realizar a cirurgia. Curioso era que, mesmo estando de olhos fechados, ajudando a firmar a corrente, a gente podia até senti-los, a modo de vê-los em seus preparativos, calçando luvas, como fazem os médicos antes de uma operação. Isso era mesmo curioso, uma vez que luvas ali não existiam; então eram vistas por uma sugestão da mente concentrada, como se ali acompanhasse todos os movimentos. E com aquelas operações espirituais, acredite se quiser, havia quem se dissesse realmente curado.
         
Dona Dalva também fazia revelação do paradeiro de pessoa desaparecida ou de objeto perdido, dinheiro, jóias, retrato ou peça íntima de alguém, desconfiado de que a fotografia ou a peça fora roubada pra se fazer feitiço, tão comuns que eram, naquele tempo, as mandingas de encruzilhada, onde não faltavam a farofa de galinha preta e a garrafa de pinga ou cerveja, das quais faziam bom proveito os boêmios que, às seis da manhã, retornavam de farras etílicas, de porres homéricos, das sem-vergonhices nos cabarés da vida. Havia todo um preparativo pra realizar-se a revelação: Dona Dalva jejuava, tomava um banho de ervas, se vestia de branco e se fechava sozinha num quarto já purificado pela limpeza; alvura de nuvens no céu, ou de capuchos de algodão ao sol, os lençóis e fronhas sobre os quais ela então se deitava e se concentrava de olhos fechados, certamente depois de invocar São Longuinho, da Seção de Achados e Perdidos dos Correios e Telégrafos. Alguma coisa sempre se encontrava naquelas revelações, ainda que não fosse o objeto perdido ou a pessoa procurada; no mínimo, não se logrando os fins pretendidos pela revelação, obtinham-se as palavras de consolo, consolidadas pelo poder de Nossa Senhora da Consolação.
         
Os remédios, Dona Dalva receitava-os sempre naturais: ervas, raízes, sementes e pétalas de rosa. Curava toda sorte de mazelas deste mundo velho, e descobria até ouro enterrado e perdido nos cafundós do tempo — na verdade, de suas noturnas empreitadas pelas fazendas, à procura de supostas tachas cheias de moedas de ouro, e cavando-se a terra segundo suas mediúnicas orientações, houve notícia de terem encontrado apenas uma alça de tacho. Desmanchava feitiço, revelava o paradeiro de objeto roubado, fazia voltar marido malandro e fugido, reatava namoro rompido, recomeçava o acabado. Também lia a sorte, traçava o baralho, pedia o corte, desfiava a vida, o amor e a morte. As rimas vinham nos dizeres dos volantes que Dona Dalva mandava imprimir e espalhar pela cidade, tomando por certo que a propaganda é a alma do negócio; mas este, no seu caso, não ia lá muito bem. O texto rimado partiu de um certo João Ribeiro, pernambucano e poeta de cordel que freqüentava o centro espírita. Dona Dalva gostava de poesia, dizia que poesia fazia falta a este mundo atribulado. Pegava muito com Nosso Senhor dos Passos, pra ele guiar os passos incertos do mundo, e com Nossa Senhora das Candeias, pra ela alumiar os caminhos e livrar a vida de todos os perigos.         
         
Escorada na premissa de que não cai uma só folha sem que Deus seja servido, e na crença de que Deus não tem nenhum filho a perder, rogava por todos, amigos e inimigos, e mesmo pelos bichos brutos e danados. Mas ai de quem a pegasse de pá virada, em fases mênstruas, nos famigerados dias de tensão pré-menstrual, ou já menstruada, e mais tarde ao calor da menopausa, que ela então tinha os seus avessos, sua Lua Negra, seu lado Lilith, o mito arcaico e obscuro, e dava retorno com reza braba, espalhava a peste por toda parte. Bolhazinha de nada virava pênfigo, fogo-selvagem; coceirinha fútil degenerava em ferida, abria-se em carne viva; galinha poedeira logo sofria de oveiro caído, galo tinha gogo, pintinho ficava cego de um olho com verrugas; recém-nascido variava pra zarolho ou perigava do umbigo; mulher casada dava doideira, botava a roupa na cabeça, mostrando as vergonhas; homens de cara feia derivavam pra lobisomens; beatas ficavam histéricas, se atirando pra cima do padre e gritando Eu quero! Eu quero!, que nem um bando de quero-queros alvoraçados. Numa dessas fases negras, a praga pegou até um bobo, coitado: mordeu a língua e ficou ga-ga-gago.
         
Resta dizer que, em dias benéficos, Dona Dalva foi também parteira de mão cheia, ajudou muitas mulheres a parir e aumentar o berreiro da vida.
         
Um dia, carcomida pelos males da idade — cheia de dores e diuturnos gemidos octogenários —, Dona Dalva desencarnou-se deste mundo. Dias depois, seu espírito incorporou-se num médium, só pra repetir, como em vida tantas vezes repetira, que a vida é um livro aberto, que a melhor escola do mundo é o mundo mesmo e que ninguém sabe o que perde senão depois de perdido. Por fim, disse que o mundo é uma ilusão, e que Deus é Deus. Daí se despediu e se foi para sempre.

 
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