revista bula
POR EM 24/11/2008 ÀS 08:35 PM

Deus e os ovos no porta-malas

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As atitudes de rebeldia foram chegando com a adolescência, devagar, quase que imperceptivelmente. Uma roupa mais corajosa hoje, uma resposta mais dura amanhã, um gesto mais abusado, um prego na língua ou um tatoo nas cadeiras depois. Atitudes que os pais jogavam na conta das inquietações da idade. Um indicador seguro era o boletim da escola, que mantinha níveis aceitáveis para o histórico da família.

Mas quando Analisa descobriu que havia a noite e que na noite havia a balada e que na balada havia... Aí, sim.

Caiu num deslumbre endiabrado. Acabou o tempo para a escola e a família. Passava o dia na internet, alimentando comunidades, atualizando o blog, combinando com a galera sobre a balada que empreenderiam à noite. Duas coisas a tiravam do computador: baladas e compras. Adquiria os modelitos de grife, cada vez mais arrasantes, tanto pelo preço, quanto pela extravagância. Eram, como se diz, roupas de andar pelado.  

E no embalo, de balada em balada, Analisa foi selecionando um grupo maneiro de amigos irados. O tititi que rolava é que ela pertencia mesmo a uma galera da pesada.

No dia em que visitou seu blog, a mãe levou um choque e teve de ser internada. Logo na primeira página estava lá sua filinha querida, sensualmente despachando uma fila enorme de marmanjos mal-encarados, numa seção coletiva de beijos na boca.

Nas páginas seguintes desfilava uma alegoria de horrores. Analisa, com uma malícia medonha, se apresenta fazendo roleta-russa com um revólver prateado. Na seguinte, puxando um brau. Depois, cafungando um carreirão de cocaína sobre um espelho ordinário, desses com moldura cor de cenoura. Na próxima, braço na chincha, recebendo na veia uma dose cavalar de outra droga qualquer.

Mas quando a mãe entrou na área pornô, caiu desmaiada, logo ao ver um piercing animal trespassado nas partes. Nem chegou a ver as orgias tipo hardcore que a pequena fazia e jogava na rede, daquelas de deixar Calígula rodopiando na catacumba.

Quando a mãe se recuperou do choque, juntou-se com outros familiares e orelhou a filha e a internou numa clínica de drogados, ou de malucos, não sei.

Semanas depois, quando finalmente teve alta, a turma já estava esperando Analisa para o retorno à mesma vida de antes. A mãe desesperou-se, mas antes que o marido e outros parentes chegassem para ajudá-la na operação de impedimento, a filha pegou o carro da mãe na garagem, pôs a galera pra dentro e acionou o portão para novamente mergulhar no mundo.

Sem mais a fazer, a mãe entrega ao sobrenatural: vai com Deus, minha filha.

- O carro já tá cheio, mãe. Se Deus quiser ir, só se for no porta-malas.

 Aquela noite Analisa bateu o carro. E bateu feio. Todos morreram. Ficaram irreconhecíveis nos destroços.

Mas, no que sobrou do porta-malas, a mãe encontrou uma cartela de ovos, esquecida ali na última compra. Por incrível que pareça, estavam intactos. A mãe acha que foi um capricho de Deus.  

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