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POR EM 12/07/2011 ÀS 09:29 PM

Crítico insinua que Tom Jobim e Cartola são plagiários

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O mais polêmico e destemido crítico de música do Brasil volta a atacar, agora na revista “Cult”. Na entrevista “João Gilberto é um bom malandro”, concedida ao jornalista Daniel Silveira, José Ramos Tinhorão não economiza palavras fortes nas suas críticas e prova que permanece como um “devorador” de mitos. A música “Chega de saudade”, de Tom Jobim, “vem do tema do filme ‘Sob o Domínio do Mal’, de 1962, de John Frankenheimer. ‘Desafinado’ é igual a uma canção de Gilberto Alves, e ‘Eu sei que vou te amar’ é a mesma melodia de ‘Dancing in the dark’”. Tinhorão não usa a palavra “plagiário”, mas aponta, sem tergiversar, as “fontes” de Jobim.

Ao mesmo tempo em que implica com João Gilberto, antigo desafeto, e Tom Jobim, Tinhorão é menos cruel com Cartola: “Fiz uma descoberta que me deixou muito triste. Descobri que a melodia de ‘As rosas não falam’, de Cartola, na verdade é de dois caras do jazz. A melodia vem de ‘La Rosita’, de Coleman Hawkins e Ben Wester”. No caso de Jobim, o repórter nada pontua; no de Cartola, não perdoa e cita a palavra “plágio”. A resposta de Tinhorão: “Pode ser um plágio involuntário, mas que ele ouviu isso, não há a menor dúvida”.

Embora as denúncias de plágio sejam duras, e a turma da bossa nova possivelmente irá defender Tom Jobim do “mal-humorado” Tinhorão, as críticas mais contundentes são dirigidas a João Gilberto (e devo dizer que simpatizo com os petardos de Tinhorão): “João Gilberto é um bom malandro. Ele inventou uma coisa, inegavelmente. Aquela batida de violão, o aproveitamento dos contratempos dentro do [compasso] dois por quatro. Em vez de ser uma coisa metronômica, batida certinha, ele vai e volta. Como é uma batida que permite a superposição de uma harmonia de música norte-americana, acabou dando certo. Ele é um cara meio fora do esquadro. Não é uma sujeito de ligar muito para as pessoas, e foi malandro, aproveitou-se dessa fama e cultiva o folclore em torno disso, do atraso, da dúvida sobre ele ir ou não aos shows. E aí todo mundo o chama de gênio. O mérito dele é inegável, mas esses caras viram elefantes brancos. Coitado, já viu como está a voz dele? Nem consegue mais articular direito. E a culpa é do ar condicionado. Esse eu admiro, é um espertalhão”.

A bossa nova é inspirada na música americana, diz Tinhorão, repetindo uma crítica antiga (e ainda válida). “Monta-se uma harmonia norte-americana tão disfarçada que parece música brasileira. Isso não é uma vitória da música brasileira. Os brasileiros ofereceram aos norte-americanos uma nova visão da própria música. É mais fácil para o americano ouvir. Por que Sinatra canta Tom Jobim e não Nelson Cavaquinho? Porque não casaria. Sinatra canta Jobim porque aquilo casa com o que ele já fazia nos Estados Unidos.”

Tinhorão agora está estudando para escrever um livro sobre congada, “talvez a festa mais popular do Brasil”. Vale a pena ler toda a entrevista. A “Cult”, que está nas bancas, contém um dossiê sobre o filósofo francês Michel Foucault.

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