Cidades da perdição
O que será das cidades, quando tiverem de enfrentar o improviso de séculos de caos planejado? Quem viverá livre de medo, quando os demônios das drogas, em hordas de bárbaros, produzirem ondas de selvagem insanidade? Então teremos saudades do tempo em que tínhamos medo de trombadinhas. Um improviso planejado não é para qualquer presidente, governador ou prefeito: é preciso muitos deles juntos, para se conseguir tamanho descalabro fazedórico. Quanto à retórica, vai bem, obrigado, e não cansa de aprimorar sua lábia malandra, em milionários congressos partidários.
Nas cidades da perdição, todos estão seguros de estarem perdidos, até mesmo os que se dão por achados, e se acham os tais — reis da cocada preta, imunes á violência, e aos perigos da urbe trepidante. Primeiro inventaram os corredores de ônibus, para tornar mais rápido o tráfego dos novos escravos, conduzidos, aos magotes, em levas de desesperados, pelos novos navios negreiros, a cortar sobre trilhos ou rodas os rios de aço do tráfego. Quando foi que começaram a improvisar este caos, em politiqueiro planejamento? Para onde fugirão os urbanóides normóides, quando a tsunami da violência e da criminalidade ocupar até mesmo o espaço dos sonhos, pelo qual se devaneava poder-se ter paz e segurança na vida retirada do campo? Pois o futuro das cidades conflagradas é naufragar nos desastres da tragédia anunciada.
Em que paraísos artificiais esperam descansar os fazedores do Armagedom? O absurdo terá paradeiro, depois que as mulheres, perdendo o dom da ternura e do cuidado, aceitarem, friamente, matar inocentes, em nome de ideias dementes? Haverá esperança, quando mulheres-bomba não recuarem do gesto insano, ao ver crianças sorrindo e brincando, em um parque? Quando a tsunami do lixo avançar, onde o luxo e a luxúria terão sossegado e garantido lugar? Nas cidades do medo as pessoas tendem colocarem-se no piloto automático da linguagem do medo e do perigo.
Quando foi que se cometeu o auto-engano linguístico de supor que se possa aplacar a violência da bandidagem pelo simples ato semântico de chamar um contumaz delinquente de reeducando? Quando as cidades deixaram de ser esperança e solução, e passaram a ser a doença da civilização? Quando as metrópoles vertiginosas passaram a ser ameaça à integridade da Vida? Quem matou o tempo da lentidão? Nas cidades inchadas, conflagradas pelas cracolândias, e a criminalidade sem freios, sobreviver é a ordem do dia — e dá em samba do crioulo doido, em que no certo ou no errado, todos estão de algum modo certos.
A catastrófica inundação do Rio repete a tragédia de Angra dos Reis, e os discursos são os mesmos... o mesmo empurrar com a barriga, no fugir às causas do desastre, e no adiar as soluções razoáveis. A natureza é regida por leis, e nunca chega de uma vez: vai dando sinais, que se não forem escutados, resultam em desastre anunciado. Prevenir e dar continuidade às ações pode fazer toda a diferença. Não há como ignorar a lei da gravidade: tudo o que é precariamente colocado à beira de precipícios e encostas, tende a desabar, cair, sob o império das águas. Pior ainda quando um bairro inteiro é construído sobre um antigo aterro sanitário, como aconteceu no morro do Bumba, em Niterói. Mas no Brasil dos políticos profissionais a ficha do bom senso demora a cair — e quando acontecem as calamidades, não é o pão dos políticos que cai com a manteiga pra baixo. Até quando nossas tragédias serão anunciadas como favas contadas? Até quando o Rio será a cidade maravilhosa onde a voracidade imobiliária convive com um mar de lama e de calamidades, tão previsíveis que já fazem parte do calendário e da pauta dos jornalistas?

