revista bula
POR EM 21/04/2009 ÀS 02:59 PM

Chorando na chuva

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Em 1991, o grupo norueguês A-Ha esteve em Goiânia, num show memorável. Os reis do technopop se apresentaram no Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira. Era abril, se não me engano, e houve chuva.

O público era muito jovem, especialmente de menininhas. Quando o vicking bonitão Morten Harket, vocalista do grupo, apareceu, a moçada berrou histericamente e lágrimas verdadeiras lambuzavam as maquiagens precoces naqueles rostinhos inocentes, mas sequiosos por malícia.

Mas o que eu estaria fazendo lá? Well... fui levar minha filha Érica de 12 anos pra ver o show e pra não me perder dela, assisti também. Por precaução de minha filha, chegamos mais cedo e conseguimos um local bacana, bem na frente do palco, sobre o tablado erguido na grama. Na hora do tumulto quase fomos esmagados contra a cerca que separava o público do palco. Mas tudo era festa.

Durante o show, teve umas cenas estranhas que bem traduzem a visão que os europeus, especialmente os nórdicos, têm de nós. Um assistente do grupo atirava maçãs, com toda força, contra os fotógrafos, sempre que eles arriscavam uma aproximação mais ousada.

No início até achei engraçado, os fotógrafos contorcendo como toureiros para se desviarem dos petardos. Mas fiquei irado quando uma resvalou na costela de um lambe-lambe infeliz e acertou em cheio a minha testa. Fosse eu o Newton, talvez tivesse inventado ali mesmo uma nova teoria da gravitação universal. Mas o que me ocorreu foi apenas um palavrão.

Afora isso, o show teve instantes de comoção. Quando o vocalista vicking, como um deus Thor martelou nossos corações com o megahit romântico Crying in the rain (chorando na chuva) esqueci minha contrariedade pela maçã na testa e entrei no clima.

E me peguei, emocionado como o diabo, cantando e chorando no meio da chuva, que por uma feliz coincidência caiu bem mansinha naquela hora.

Quase vinte anos se passaram. Meus filhos cresceram, casaram-se e se foram e mal se lembram que existe A-Ha. Eu e Tânia Eloísa meu chão e minha brisa, de certa forma já estamos curtindo aquela fase da vida que os psico não sei o quê chamam de síndrome do ninho vazio. No lufa-lufa do dia-a-dia, na luta insana pelo ganha-pão, nem dei por fé que essas lembranças tinham ficado adormecidas no porão.

Mas agora por último, uma amiga, que nem suspeita de minhas velhas lembranças, me presenteou com um CD do A-Ha. Inseri no som do carro enquanto cobria meus itinerários quotidianos.  Quando chegou a faixa 9, exatamente Crying in the rain, foi como revolver aquele mundo antigo. Um mundo de velhas emoções, agora curtidas pelo tempo e pela minha condição de velhote do coração fraco e cada vez mais comovido, me tomou de supetão em pleno rush das duas da tarde.

Meio trêmulo, abri o vidro do carro, estirei a mão pra fora e colhi um punhado de pingos da chuva e joguei no rosto, sobre as lágrimas.  
 

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