revista bula
POR EM 03/02/2011 ÀS 11:03 AM

Cara, cadê meu ar condicionado?

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Carolina MendesNinguém estava vigiando e o mundo virou na última semana, uma imensa sauna mista. Homens e mulheres de todas as idades, sofrendo com o calor. Como se São Paulo tivesse virado uma axila: quente e úmida. Aconchegante até o limite da sudorese.

Ar parado, tempo passando devagar e a vontade de cochilar depois do almoço, cada dia mais ruidosa e incontrolável. Culpo o calor e a minha pressão arterial que despenca. E a sensação de que eu devia estar numa praia aproveitando o verão e não em São Paulo trabalhando e calculando a logística da reaplicação do meu desodorante. Sensação de que eu deveria, pelo menos, gostar de praias. Não gosto. Não mais. 

Para começar, não gosto da coisa da areia, acho inadequada como pavimento. E as pessoas suadas, ensebadas e seminuas vendendo comida. E a areia melequenta, quando a gente entra no mar, que parece areia movediça. Sim, sou insuportavelmente chata. Na questão praia só, juro. Fiquei assim depois que adolesci. Long, long time ago.

Anos atrás, numa reunião de amigos em uma galeria de arte, um artista plástico do interior de São Paulo, já na faixa dos 50 anos, contou uma história destas lindas e pouco originais, de felicidade infantil, travessuras e um pé de manga. Terminada a história, ele soltou: “Sabe, não imagino felicidade maior do que comer manga  no pé.”  Eu alcoolizada e meio babaca como só os jovens alcoolizados são, soltei: “Eu imagino. Comer manga no pé, num pomar climatizado”. Na hora gargalharam. Bêbados, esses bobocas.

Durante toda a minha vida, até meu pai morrer, eu não soube o que foi passar calor dentro de um carro. “O ar condicionado fica nos 17°C. Sente frio? Traga um casaco, sempre.” Jeitão dele.
Felicidade pra mim tem sido imaginar uma vida bastante parecida com a minha, só que climatizada. Numa temperatura em que um casaquinho é suportável, se o figurino pedir. Tudo nesta vida fica melhor numa temperatura agradável. Sem maquiagem derretendo, sem pizzas de suor nas camisetas, sem testa brilhando oleosa.  

Calor só tem graça quando a gente é criança. Porque a vigilância das mães, as atividades que envolvem água e ambientes externos, relaxam. Mães, essas guerreiras disciplinadoras, sempre  lutando contra resfriados, micoses, joelhos esfolados e bochechas em carne viva descascando por causa do excesso de sol.
 
Quando eu era pequena, passava o verão praticamente todo na praia, só com a parte de baixo do biquíni, boca melecada de picolé de brigadeiro, e nariz bochechas brancos de hipogloss. Lembro que o verão teve, até meus 10 anos, um cheiro adocicado. 

Não sei bem como lidar com o verão, agora adulta. Não cheguei em um ponto de desprendimento da realidade e situação profissional/financeira, que me permitam passar os meses de calor pipocando de um ar condicionado em outro. Infelizmente, acho.

Uma existência surreal, alienante e equivocada, pautada em refrigeração de ar parece genial num dia como o de hoje em que o calor impede que qualquer movimentação saia do mundo das ideias. Vontade de deitar pelada no chão de mármore do banheiro e só levantar depois que acabar o Carnaval. E o Carnaval vai ser em março e fica tudo meio estranho.

Minha realidade balzaca, acima do peso ideal está tão distante da menina de hipogloss no rosto que acordei com brotoejas de calor hoje. Aos 30 anos, calor me dá alergia. Total coisa de bebê gordo. Meu corpo não está sabendo lidar com esse tal de efeito-estufa-aquecimento-global. Começo a odiar a lembrança do cheiro do picolé de brigadeiro, sinto calor no presente e contamino o passado, com a impressão de que já era meio insuportável e eu nem sei se me incomodava tanto.

Não fico muito bem no calor. Bem  no calor só ficam as criancinhas, nos filmes americanos “água com açúcar”, que correm no subúrbio sem muros e portões, com gramados infinitos e sprinklers regando os jardins. Ah sim, com lindos labradores amarelos e camisetas listradas. Na trilha sonora? Musiquinhas felizes. 

Então playlist desta vez ficou assim: musiquinhas americanas que remetem a tempos remotos de verões, hidrantes e criancinhas de tênis all star. 

My guy — Mary Wells

It´s in his Kiss — Aretha Franklin

It´s my party — Lesley Gore

Rescue me — Fontella Bass

I can´t help myself — Four Tops

If you wanna be happy — Jimmy Soul

Stop! In the name of love — The Supremes

Take me in your arms —  Kim Weston

You can´t hurry love — The Supremes

Wishin´and Hopin´-— Dusty Springfield

Try a little tenderness — Otis Redding

Let´s stay together — Al Green

River deep, mountain high — Ike e Tina Turner

Please Mr. Postman — The Marvelettes

My girl Josephine — Fats Domino

Papa was a Rolling Stone — The Temptations

I want you back — Jackson 5

Preferi, desta vez, colocar os clipes mais bacanas, abrindo mão da qualidade do som em alguns casos. Por que recordar é viver, ou quem não era do tempo vai aprender e se divertir.

Sim, grande parte das músicas é Motown, adoro, me deixa.  Meu guilty pleasure. Mulherada trabalhada no delineador, rímel exagerado, cabelão e modelitos bem comportados. Adoro. Sabe, confesso ter um pouco de preguiça de Lady Gaga. Talento e reconhecimento viraram troços esquisitos, encontrados em formatos quase alienígenas. Nada contra, só não me identifico. Culpa minha, provavelmente.

Para acompanhar a playlist eu recomendo qualquer bebida refrescante. Das alcoólicas recomendo caipirinha de sake (mais leve) ou Mojito. Das não alcoólicas, limonada (boa e velha), suco de abacaxi com hortelã, coca-cola MUITO gelada e com MUITO gelo. Ou qualquer coisa que te refresque, ou qualquer coisa que ajude os dias e as horas a voltarem ao ritmo normal.

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