revista bula
POR EM 03/08/2011 ÀS 01:47 PM

As crianças da Somália e os hipopótamos do Okavango

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As imagens são de arrepiar. De cortar o coração. Isto é, para quem ainda tem pele que arrepia e coração para ser cortado num golpe de indignação diluída em elétrons de misericórdia.   As crianças dilaceradas pela fome no Chifre da África, região nordeste que abrange os países da Somália, Etiópia, Djibouti e Eritreia, chegam a 10 milhões. 29 mil já apagaram por absoluta carência de proteína nos últimos 90 dias, só na Somália, segundo um levantamento do Centro de Controle de Prevenção de Doenças dos Estados Unidos. E este número pode explodir nos próximos dias, pois a ONU afirma que pelo menos 640 mil crianças somalis se encontram no estado extremo da fome absoluta.

O grupo fundamentalista Al Shabab, que se diz aliado da rede Al Qaeda, é quem atualmente domina as partes mais afetadas da região. O grupo alega que tudo não passa de mentiras do Ocidente. Que tudo vai muito bem, obrigado, que não há surto de fome coisa nenhuma. E assim, O Al Shabab não permite a entrada dos socorristas das organizações de ações humanitárias.

O Ocidente (ou comunidade Internacional?) faz corpo mole, cara de paisagem. Alega que não é possível fazer muita coisa para tirar as crianças da garra da morte, de serem usadas como combustível de uma estratégia odiosa e infernal de dominação política. Afinal, não é de bom alvitre intervir nas questões internas dos países, é preciso respeitar a autonomia e o destino das nações, o livre-arbítrio dos povos, blábláblá-blábláblá.

Não vou nem dizer que se aquelas criancinhas esquálidas, só pele e osso do Chifre da África, fossem todas elas loirinhas de olhos azuis, tipo assim nórdicas,  a conversa era bem outra, porque falar dessas coisas nesses termos é uma grosseria, uma atitude politicamente incorreta. Como não quero ser portador dessa lepra pós-fim-da-história, me calo.

Pronto, calei. Mas antes só uma observação grosseira: Criança abandonada a gente vê muito; mas alguém viu algum bezerro abandonado por aí?

Isto é só para perguntar:  e se tivesse petróleo, ouro ou mesmo lítio no Chifre da África e o grupo Al Shabab estivesse impedindo a retida dessas commodities, existiria algum assessor prudente, algum diplomata ponderado que aconselhasse a Comunidade Internacional a não estourar o Al Shabab e restabelecer o fluxo do bem interrompido?

Enquanto isso, para o bem e para o mal, com ou sem indignação, a gente vai se empanturrando de gordura trans e alucinógenos (i)lícitos. Até ser também alcançado pela morte. Não esquálidos como os defuntos das crianças do Chifre da África. Mas balofo como um hipopótamo boiando nas águas serenas do rio Okavango, nas planícies do Kalahari.

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