revista bula
POR EM 05/10/2012 ÀS 09:11 PM

Aconteceu na esquina da Pegasus com a Caralho-de-Asas

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Cornélio ganha a vida vigiando carros e pessoas na esquina da Pegasus com a Caralho-de-Asas. Teve a infância malograda já ao nascer, por acaso, de parto domiciliar bruto, desassistido, no conturbado seio familiar de degredados sociais. O pai era um viciado incorrigível ao ponto de beber a caubói copos de álcool combustível; a mãe, mulher analfabeta, parideira aidética de uma renca de filhos.

Sob o barraco de lona preta de um cômodo só, descobriu deste cedo o quanto o Homem estorvava os planos de Deus na construção de um mundo melhor. O mais incrível é que cria na divindade com a mesma convicção que um deputado acredita jamais será pego em escutas telefônicas comprometedoras.

Então, na prática, ele foi deseducado, adestrado na dureza insigne das ruas, na crueza dos seus pares igualmente miseráveis, resignados companheiros do abandono e da negligência social. Pode-se dizer que escapuliu por um milagre, um capricho do Pai, quem sabe, naquele cenário caótico a que muitos teimam chamar “família”.

Não. Aquilo não era uma família, uma célula da sociedade, conforme dizem os empolados. Na melhor das hipóteses, uma célula cancerosa que se replica independentemente, a despeito da lei, da ordem, do progresso, e dos aumentos substanciais do PIB. Poder-se-ia dizer aquilo era uma matilha de cães sarnentos entregues à própria sorte.

Não neguem: todo mundo, um dia, já desejou matar um flanelinha, um desconhecido, um inimigo, um ex-amigo, um parente, um qualquer um. Passar com o carro por cima. Dar nele um tiro. Mandar bater no folgado até virar geleia. Eu mesmo já desejei aniquilar um monte de gente, mas não passei de um remorso, de fugazes ímpetos de auto-destruição, de uma gastrite nervosa, de algumas sessões de terapia e dezenas de rugas na testa.

Cornélio até que é um ser agradável de encontrar, de vez em quando. Ele guarda um carisma difícil de explicar, mas não abre mão de uns trocadinhos. Ameaçar ele não ameaça, mas já riscou latarias de gente mal criada com o seu prego vingador, ferramenta de justiça terrena e divina.

Tomávamos garapa juntos sob a sombra de uma mungubeira e, enquanto a vida seguia o seu ritmo claramente estúpido, ele contava o episódio que o marcaria para sempre, até que Deus finalmente o convocasse para subir a Mansão dos Mortos (ele começava assim o relato daquele melodrama, e a sua fé imorredoura num Criador deixava-me deveras comovido, para não dizer, desenxabido).

Mês de agosto: calor, ar seco, mal estar, narinas sanguinolentas, tardes paralíticas. Sofre-se em demasia com a estiagem que assola o cerrado nesta época do ano. Vigilante de gentes e automóveis, Cornélio nota a passagem de uma senhora septuagenária, magérrima, cenho convincente, a qual arrasta com dificuldade um daqueles carrinhos confeccionados com tela metálica, de se fazer feira, e que parecia muito pesado, ao ponto de arquear toda a estrutura.

Imaginou que a velhota levava consigo algum tipo de carne fresca, pois o sangue ralo gotejava na calçada, deixando um rastro rubro, enquanto ela seguia em frente. Peças de alcatra? Uma banda de leitoa? Um carneiro inteiro? Frango desossado? Sabe-se lá: aquela feira era só fartura...

Atravessou a galope a rua movimentada, desviando do afã mortífero dos motoristas, e ofereceu os seus préstimos para puxar a pesada mercadoria. A mulher bufava, parecia não escutar o sujeito. Apressou os passos, enfezou ainda mais o rosto, tentou se livrar do flanelinha.

Cornélio insistiu na abordagem, oferecendo-se, de graça, para levar o carrinho. “Ela parecia minha mãe”, ele diz, floreando o relato, demonstrando um resquício de afeto que nunca teve pela mãe (então, não seria um resquício, certo?!), senão aquela moribunda que o pariu, como fizera outras tantas vezes, a seus miseráveis irmãos, sob o barraco paupérrimo feito com lona preta doada pelo município. Que bela ação social do senhor prefeito...

Desta feita, Cornélio cometeu um erro grave de avaliação, um atrevimento. Ao supor tivesse a velhinha algum grau de deficiência auditiva — isto sem considerar o ronco dos motores e a gritaria de outros transeuntes —, tocou em seu ombro esquálido, fazendo com que ela brecasse e o mirasse dentro dos olhos com um visgo que seria do próprio demo (ele carregou mais uma vez nas palavras).

“Fica difícil de descrever...”, ele insiste. Ela tinha o rosto suado, grave, sisudo, apavorante, desafiador, urgente, um misto de dor, angústia e maldade, entende? Eu entendi perfeitamente a descrição. A mulher grunhiu ininteligível como um animal em fuga. Atabalhoada, disparou em correria, a puxar o carrinho misterioso. Desta vez, cruzou a avenida sem o mínimo zelo que o caos das cidades grandes exige. Ora, não estava passeando pelo parque numa tarde de domingo em Pasárgada...

Foi atropelada por uma caminhonete, o corpo franzino arremessado a, pelo menos, uns vintes metros. O parachoque atingiu também o carrinho metálico, fazendo voar nacos de carne sobre o asfalto quente. Seria plausível até fritar um ovo em plena via pública, tamanho o calor deste mês de agosto, o chamado “mês de cachorro doido”. Não. Nada de alcatra, lombo de porco, paleta de cordeiro, frango desossado. Carne humana: braços, canelas, rótulas e uma cabeça de homem rolando feito uma bola até tocar a sarjeta.

Cornélio faz uma pausa na deglutição da garapa e comenta em gestos teatrais a trabalheira danada que ele teve para afastar quatro ou cinco cães vira-latas que se revezavam naquele banquete sórdido, inusitado, esdrúxulo, surreal, um espetáculo execrável em todos os sentidos. Enxotar dali os curiosos e os pensamentos agnósticos que, enfim, germinavam na sua cachola foi um custo.

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