revista bula
POR EM 09/11/2012 ÀS 07:26 PM

A quem interessar possa, estou colocando o meu na reta

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Nestes tempos bicudos em que quase ninguém mais envia e recebe cartas, e que as únicas visitas que recebemos em casa são de oficiais de justiça e das equipes de combate à dengue, chegou-me pelo correio eletrônico uma longa e impressionante mensagem, uma espécie de manifesto redigido por um meu leitor desconhecido.

Ele clama que a mensagem seja replicada aos meus contatos, que é exatamente o que eu faço agora. Aliás, aqueles que não se sentirem de forma nenhuma feridos nos brios, bem que poderiam colaborar também com a divulgação do tal texto, o qual poderá representar uma baita oportunidade de negócio para muitos. Eis o texto, queridos leitores. Abre aspas:

Não. Não vou negar. Não farei como Pedro que, por três vezes, a despeito das advertências futurísticas do Nazareno, negou que o conhecesse aos truculentos soldados de Roma. Também não me arvorarei no cinismo populista de se negar mensalões: “Eu não sabia de nada...”, quá! Da mesma forma, não recorrerei à covardia de um caubói Bush, ao insistir que, sim, havia sim armas de destruição em massa mocosadas por Saddam Hussein no Iraque.

Não, irmãos. Não vou tirar o meu da reta. Aliás, colocá-lo-ei, agora mesmo, aqui, neste espaço, para que todos tomem a devida ciência, para que soe aos quatro cantos, a transpor as fronteiras, a dispensar os afazeres de inquéritos, grampos, delações premiadas e Comissões Parlamentares Mistas de Inquérito: moçada, eu tô colocando o meu na reta!

Além do apego indisfarçável à fama e notoriedade, estou precisando demais de dinheiro. Aviso, portanto, aos interessados que, a partir deste momento, entrego-lhes o meu corpo, ao lance inicial promocional de vinte mil patacas mais uma bacia zincada tamanho G e dez bisnagas de gel de minâncora.

Festejado jirau das futilidades, a internet prestou-se, recentemente, ao “Leilão da Virgindade” de jovens “cabaço”, que é o termo chulo que utilizamos, toscamente, na cidade de onde eu provenho. Não dá para imaginar que criatura energúmena e mal amada pagaria cerca de um milhão e meio de moedas para copular com alguém sem qualquer experiência sexual. A mim parece um investimento dos mais desmesurados, típico de quem trepa mal. Sexo é andar de bicicleta, irmã: melhora-se com a prática.

Antenado às tendências esdrúxulas e rasas da sociedade de consumo, a qual é auto-carcomida, tamanha a sua imbecilidade, eu também decidi levar alguma vantagem nesta zorra. Cansei do papel do certinho, da estirpe de bom rapaz. Logo: às cucuias com a idoneidade!

Moreno alto, bonito e sensual. Talvez, eu seja a solução dos seus problemas. Carinhoso, bom nível social. Inteligente e à disposição prum relacionamento íntimo e discreto. Realize seu sonho sexual. Pra qualquer tipo de transação, sem compromisso emocional, só financeiro. Realize seu sonho sexual. Sigilo total. Sexo total.

Já que perdi a velha compostura (conforme dizia Tia Genoveta em relação aos políticos de sua época) e despossuo, a partir de hoje, o mais ínfimo escrúpulo, copiei o parágrafo acima de uma canção antiga chamada “Amante Profissional” (Herva Doce, 1982), que sacudiu a geração dos anos 80, período em que o rock nacional (que, de rock mesmo, tinha praticamente nada) dominava o mercado fonográfico.

Eis o meu perfil: sei que pode parecer baixeza moral mas, eu meço um metro e oitenta de estatura, não sou nem tão bonito, nem tão sensual como diz a referida letra da música, porém, vocês bem sabem, internet e internautas engolem qualquer coisa. Nesta seara virtual, o vomitório é espetacular e a curtição da audiência é generalizada. Dá até pra se sentir meio intelectual ao se publicar baboseiras na rede. Não adianta reclamar: cada um tem o blog que merece, companheiro. Ou seja, pimenta no blog dos outros é refresco.

Talvez, eu não seja a solução dos seus problemas, mas, o cachê, posso assegurar, resolverá todos os meus, exceto os tangentes à dignidade. Mas isso já é outro departamento. Mais tarde eu me arrependo e me entendo com Deus, Doutora Carlota (a terapeuta) e a mamãe. Remorsos de última hora sempre destravaram os portões do paraíso.

Continuando: sou, sim, uma pessoa muito carinhosa (perguntem ao meu rottweiller, seus cães!), de bom nível social, com curso superior, embora, a autoestima inferior. Inteligente é pouco: sou mais esperto que a maioria dos deputados. De outra sorte, não estaria aqui leiloando o próprio corpo que, garanto, no que tange às vias posteriores, é absolutamente virgem de fornicação, exceto aquelas de natureza hipocrática, desferidas com fins humanitários, pelo bom Doutor Jivago, um grande urologista de mãos pequenas. Glória a ti, Senhor!

Declaro que, sim, estou, sim, a fim, à disposição, não somente para um relacionamento íntimo e discreto, mas, acima de tudo, uma prestação de serviços da maior qualidade, que é o que demanda a sociedade consumista perfeccionista moderna (satisfação total ou o seu dízimo de volta), com direito à meia-luz, vinho espanhol de safra antiquíssima, CD do Barry Manilow (estarei desatualizado quanto aos cantores românticos da hora?) e toalhinhas higienizantes com aroma de pêssego ou alfazema (a escolha é sua).

Realizar sonhos. Que ser humano, afora os mentecaptos, ousariam deixar de sonhar? Até mesmo os miseráveis à beira do abismo existencial sonham com um pedaço de corda para um ato derradeiro, o último nó. Quem sou eu para inibir o sonho de outrem?! Sonho, sim, madame, como sói ocorre à maioria de vós. Tal e qual um efeito manada, eu vislumbro um futuro melhor, confortável e feliz, ou seja, acima do extraordinário poder do amor, eu acredito no poder ordinário do dinheiro, a razão maior de viver e que move cerca de 90% da humanidade a acordar pela manhã todos os dias, urinar na latrina e sussurrar: obrigado, Senhor, por mais um dia!

Mas, falando em negócios, mais ainda em negócios, prossigamos, pois este manifesto já se aproxima do fim, assim como o efeito verborrágico do álcool e a vossa paciência franciscana. Não sou homem que se acovarda nos momentos de crise. Não. Não sou daqueles que, surpreendidos pelas pedras drummondianas do caminho, tiram os seus da reta. Ao contrário, estou colocando o meu na reta, chapas!

Declaro aberto mais um lascivo leilão da mediocridade. Em vossas mãos entrego o meu corpo para o mais completo deleite. E que Deus e mamãe me perdoem. Já a Doutora Carlota Joaquina, esta não. Doutora Carlota só precisa mesmo é do meu cheque. Acesse www.internetaceitatudo.com.br e saiba mais sobre o menos.

Fecha aspas.

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