revista bula
POR EM 08/03/2012 ÀS 11:34 PM

A mulher é o negro do mundo

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No dia 8 de março comemora-se o Dia Internacional da Mulher. Se as fontes de pesquisa não me traíram, a data remonta de um levante de mulheres russas no início do século passado, durante a 1ª Guerra Mundial, a reivindicarem melhores condições de vida e de trabalho. Notem: há tempos as mulheres reclamam dos homens... 

Aguarda-se, a qualquer momento, um levante contrário ainda mais substancial, no qual as mulheres hão de exigir uma trégua à modernidade, metendo o pé no freio, engatando uma marcha a ré, dosando os inúmeros afazeres, a fim de proporcionar um cotidiano mais razoável, menos estressante. Em matéria de infarto do miocárdio, elas estão empatando com a gente... 

Mulher, única criatura do universo capaz de sustentar as multi-tarefas: trabalho fora do lar, trabalho dentro do lar, estudo, procriação, cuidados aos rebentos e ao parceiro (leia-se “com ele ter intimidades, rotineiramente, ainda que não esteja tão disposta aos jogos amorosos quanto se desejaria”). 

Valadão — mais conhecido nos meios políticos, nos prostíbulos de luxo e nos cassinos subterrâneos da cidade como Dandãozinho das Moças, já sabe bem o que fará para comemorar a data. Aproveitando que a esposa viajou para visitar o pai que está morrendo de câncer, Valadão mandou entregar à esposa, logo cedo, uma completa cesta de café da manhã com um bilhetinho escrito assim “Amo-te”. “É batata”, ele comenta e recomenda. 

Por outro lado, encomendou também ao Valadares — assessor de um Deputado Federal famoso pelos recrudescentes discursos homofóbicos e pregações religiosas arcaicas — duas gêmeas asiáticas, preferencialmente muito jovens, a fim de realizar um menageatruá (ao encomendar profissionais da fornicação ao colega de pôquer, Valadão exibiu os seus parcos conhecimentos na Língua Francesa para se referir ao sexo-a-três). 

“Pô, Valadão, você anda pedindo cada coisa difícil...” (o assessor chamou as mulheres de “coisa”). “Fala com o deputado, fala com o deputado...”, Valadão retruca em tom de brincadeira, como se deputados fizessem mágica, como se fossem capazes de tudo, como se tivessem todos os canais abertos, como se estivessem acima da lei, da ordem e das escutas telefônicas. 

Valadão ocupa um irrelevante cargo comissionado no Estado e só aguarda um abono do Governo para empreender o seu mais ousado projeto erótico: viajar para a Tailândia e faturar uma jovem da tribo das pescoçudas (ele utiliza o termo “faturar” como se estivesse tratando de mercadorias, notas fiscais e livros-caixa). Conhecidas também como mulheres-girafa, aquelas criaturas são treinadas desde a infância a colocarem no pescoço aros metálicos, a fim de o alongarem ao máximo, tornando-se por fim mais belas e atraentes aos homens da tribo. 

Sempre que consegue mentir para a esposa e dar uma fugidinha, Valadão aumenta ainda mais o seu portfólio de experimentos sexuais de alcova. Convicto que esteja no caminho certo (ou seja, aproveitar a vida ao máximo, usufruindo de tudo o que o dinheiro, o poder e o tráfico de influência proporcionam de bom), Valadão mantém um arquivo virtual de acompanhantes que é revelado somente aos companheiros de jogatina.

Elas são loiras, morenas, ruivas, uma obesa mórbida, uma manca, uma cega, uma surda-muda, uma portadora de necessidades especiais, uma idosa, uma freira, uma universitária, uma aeromoça, uma índia amazonense legítima que não fala uma só palavraem português. Certa vez, ocorreu a ele reivindicar uma virgem, mas Valadão morre de medo de ser pego pela mulher, pela família ou pela Polícia Federal.  Então desistiu daquela arriscada empreitada pedófila. 

Mas o assunto de hoje não são os homens, muito menos o Valadão e sua trupe, que sequer existem, embora saibamos que existam tantos por aí (deu pra entender, gente?).  O tema desta crônica é a mulher em seu minguado “dia internacional”. 

São tantas as possibilidades de abordagem que nem sei por onde começar. Falar de quem? Das mulheres pescoçudas da Tailândia? Das antigas gueixas com seus pequenos pés deformados, atados desde a infância para agradar aos homens? Das mulheres modernas com silicone industrial em suas tetas? Das meninas africanas circuncidadas com canivete para serem salvas dos orgasmos e dos maus espíritos? Das meninas brasileiras e de todos os continentes deste maldito planeta (“Maldito” ficou forte demais? Usemos, então, “injusto planeta”...) abusadas sexualmente pelos pais, padrastos, parentes, amigos, vizinhos e estranhos? Das prostitutas feias e baratas, humilhadas no centro da cidade? Das atraentes “dançarinas de boate” exportadas para mundo inteiro como se fossem picanha e suco de laranja? Das mulheres abortadeiras clandestinas que morrem à míngua, por hemorragia ou septicemia? Das mães solteiras com filhos que ninguém quer reconhecer? Das mulheres que amam demais? 

Trago comigo desde a adolescência uma obscura vocação para ser “um ombro amigo” das mulheres, quando terminava escutando, consolando e até namorando as ex-namoradas dos meus ex-amigos. Atrelado a este estranho fardo, eu me formei médico ginecologista e lido profissionalmente com o sexo oposto há mais de duas décadas. Creio então que possua propriedade no tema para lucubrações. Posso dizer que as conheço cada vez mais, embora as compreenda cada vez menos. 

Pensando nelas e no quanto elas parecem infelizes, embora não admitam (nunca se sabe se uma mulher está realmente dizendo a verdade...), eu transcrevo a letra da canção “Woman is the nigger of the world”, composta pelo ex-Beatle John Lennon nos anos 70. Bem que ela poderia ser intitulada de outra forma: “We are really sorry”, por exemplo. Quem ainda não conhece deveria ouvir. Comenta-se que há mulheres que gostam de apanhar (??!!), mas a canção é um tapa na cara dos homens. Espero que a tradução tenha ficado melhor que o texto acima. Apreciem. 

A mulher é o negro do mundo
Sim, ela é...
Pense a respeito, faça algo a respeito 

Nós a fazemos pintar o rosto e dançar
Se ela não agir como uma escrava, nós dizemos que ela não nos ama
Se ela é legítima, nós dizemos que está tentando ser um homem
Enquanto, colocando-a pra baixo, nós fingimos que ela está acima de nós 

A mulher é o negro do mundo
Se você não acredita em mim, dê uma olhada na que está com você
A mulher é a escrava das escravas
É, sim... É melhor gritar a respeito 

Nós a fazemos aguentar e criar os nossos filhos
E então nós a consideramos desinteressante
Por ser uma mulher gorda e velha como uma galinha
Nós dizemos a ela que a casa
É o único lugar onde ele deveria permanecer
Então nós reclamamos que ela é desinteressante demais para ser nossa amiga 

Nós a insultamos todos os dias na TV
E queremos saber por que ela não tem coragem e ousadia
Quando ela é jovem, nós matamos o seu desejo de ser livre
Enquanto, dizendo a ela para deixar de ser esperta
Nós a botamos pra baixo por ser tão estúpida 

A mulher é o negro do mundo
Sim, ela é...
Se você não acredita, dê uma olhada na que está com você
A mulher é a escrava das escravas
Pense a respeito, é melhor gritar a respeito 

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