revista bula
POR EM 20/07/2012 ÀS 11:49 PM

A imprescindível necessidade de se apontar sempre um culpado para tudo

publicado em

Nos velhos filmes americanos de drama ou suspense, quando um crime ocorria, quase sempre a culpa recaía sobre o mordomo. Ora, na história brasileira, salvo melhor juízo, jamais prevaleceu esta cultura das famílias abastadas acorrerem aos mordomos. No mais das vezes, uma governanta vinda do norte, de pele escura, pobre, semianalfabeta, e que trabalhava praticamente em regime escravo. Um subterfúgio muito utilizado no passado consistia em “pegar uma criança pra criar”, a fim de transformá-la na empregadinha da casa. Caridade ou pura má fé?

Voltando ao cinema, até que se provasse em contrário, a culpa era sempre do mordomo e ponto. Uma vez que a vida imita a arte, e muitos fazem questão de se omitirem o tempo inteiro, vivemos a perseguir mordomos invisíveis na brabeza do cotidiano. Quando falimos, quando pisamos na bola, a culpa é sempre de alguém, exceto de nós mesmos. Desde os deslizes mais simples e bestas, até tragédias horrendas, para o conforto da alma é imprescindível que alguém seja responsabilizado.

Passei as últimas férias com a família no litoral nordestino e posso afirmar a vocês que descansei mais que deputado federal. Foi uma maciota sem tamanho. Apesar do clássico desarranjo intestinal por causa do desacostume com o óleo de dendê e outras iguarias nordestinas, até que o pacote valeu em muito a pena. O contentamento só não foi pleno (e vocês sabem o quanto é espinhoso aos pais agradarem os seus tiranos filhos adolescentes) porque uma criança morreu afogada numa das gostosas piscinas do hotel.

Desde que não seja diversão para neonazistas, em qualquer circunstância, notícias de crianças mortas são sempre uma merda. Quem, em sã consciência, imagina sair em férias com a família e voltar pra casa com um dos filhos embalsamado dentro de uma urna? É uma situação deplorável, mas acontece. E aconteceu.

Chocados, com as pálpebras edemaciadas, os olhares perdidos na infinitude da dor, um ar meio abobado, esquizofrênico, e se sentindo como personagens de um pesadelo sem fim, os pais culparam o hotel. Alegaram negligência, inoperância, lentidão, incapacidade. Em nota oficial, o hotel garantia que o afogamento não passava de uma terrível fatalidade. “Nunca antes na história deste hotel, um fato como este ocorreu...”, comentou o porta-voz, fazendo, sem perceber, uma analogia política que não tinha a mínima graça naquele contexto.

Embora a criança fosse resgatada das profundezas pelas mães do salva-vidas, os parentes insistiam em dizer que não havia nenhum socorrista naquele cenário mortífero cercado de coqueiros, passarinhos, brisa do mar e areia fininha. Quebrando o protocolo do Regulamento Geral para Enfretamento das Situações de Crises do Resort, chorando profusamente que nem moleque, o funcionário (herói atrasado) lamentava ter perdido a oportunidade de salvar aquela vida. Foi de dar dó assistir ao homenzarrão em prantos.

Uma vez que a criança não morreu de tropeço dentro de casa; nem eletrocutado por ter enfiado o dedinho na tomada; nem intoxicado por ter ingerido chumbinho para ratos achando que fosse uma guloseima; nem traumatizado ao cair do berço enquanto a mãe trocava-lhe as fraldas; nem afogado pela curiosidade ao cair de ponta na balde de água; nem engasgado com o leito vomitado, há pouco mamado da cuidadosa teta materna; nem padecido misteriosamente, enquanto dormia, por causa de uma moléstia sem nome, ainda não bem compreendida e nem descrita pelos médicos; há que se buscar culpados, doa em quer doer.

Um fato trágico como este afogamento infantil apenas sustenta em mim a ideia de que o Homem faz questão da dor, da sentença, do castigo, e não abre mão da culpabilidade, ainda que o evento ocorresse à revelia ou pela simples vontade de Deus Pai (é bem assim que o povo diz, leitores...). Se algo saiu errado é porque alguém orquestrou o mal. Podem procurar, pois quem procura acha. Tem que haver um mordomo guardado nalgum canto, alguém sempre disposto a assumir, por nós, toda a responsabilidade pelas fatalidades (?!). Alguém, por misericórdia, assuma a culpa e alivie essa dor!

Uma tragédia puxa outra. Lembrei-me agora do velho Levino, um boiadeiro septuagenário que morava nas plagas do meu falecido avô. Apesar da admoestação da esposa (por que as mulheres teimam tanto em admoestar os homens?), Levino arreou o cavalo, que era tão velho quanto ele, e partiram na tardinha chuvosa prumódi campear as vacas, apartar os bezerrinhos, garantir a ordenha farta para a manhã seguinte.

Nem bem cruzou a primeira porteira, um raio vazou do céu estrondoso atingindo em cheio a cabeça do peão. Levino morreu na hora. O cavalo passa bem, obrigado. Há quem diga que a culpa pelo passamento subitâneo de Levino foi da Teró, que não teve autoridade suficiente para dissuadir o marido antes que ele partisse sob chuva. “Tanta gente morre de raio...”.

Outros imputam responsabilidade ao pangaré, pelo simples fato dele ter saído ileso da estória. Ingênuo, um moleque enxerido insinuou que, quem sabe, a culpa não teria sido do próprio falecido, por conta da audácia, do descuido, por ele ter teimado com a esposa Teró, mas não pode completar o raciocínio porque algum adulto ralhou para que calasse a boca, pois aquilo não era assunto de criança. “Sai pra lá, menino!”.

Nada me tira da cabeça, contudo, que “o destino quis assim...”. São coisas que acontecem, à revelia de todo o zelo de toda a gente. Fatalidade. Aleatoriedade. O acaso. Aquele mesmo acaso que fez a turistinha se desequilibrar e mergulhar para a morte, numa miserável fração de segundos que ninguém percebeu, escapando do diuturno e pegajoso monitoramento dos pais, da piscadela dos salva-vidas, ou da percepção flagrante de qualquer banhista que estivesse ali se refrescando, curtindo as merecidas férias no paradisíaco litoral nordestino. Ninguém engole isso fácil. Mas, fazer o quê?

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2019 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br
wilder morais
renovatio