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POR EM 04/06/2012 ÀS 10:22 PM

A ética da estética

publicado em

Escultura de Gunther von HagensJá tratei desse assunto alhures (Revista Filosofia Ciência & Vida, ed. Escala), mas volto a ele por conta do anunciado fechamento do Lixão de Gamacho (o aterro sanitário Jardim Gamacho, em Duque de Caxias, RJ, o maior da América latina), retratado no documentário “Lixo Extraordinário”, do artista brasileiro radicado nos EUA, Vik Muniz. 

Entre os extras da caixa da Versátil para “Decálogo” do diretor polonês Krysztof  Kieslowski, há uma entrevista dele a um grupo de jornalistas poloneses muito interessante. Respondendo a uma pergunta a respeito de sua decisão de abandonar os documentários e se voltar exclusivamente pra ficção, Kieslowski pondera que tal decisão se deu por ter percebido ser impossível realizar documentários sem se envolver com os sujeitos do lado de lá da câmera. Uma situação que se configurava um dilema ético que, pra ele, tornou-se insuportável, o que o fez optar por evitá-lo. 

Situação idêntica aconteceu com os realizadores de “Lixo Extraordinário”. Estes são registrados conversando sobre a mudança que estavam provocando nas vidas de seus protagonistas. Num primeiro momento, ficaram surpresos com a atitude positiva, orgulhosa (no bom sentido) e otimista dos catadores entrevistados. Acostumaram-se com isso. Mas num segundo momento, à medida em que esses saíam de sua rotina para ajudar no projeto de Vik, realizando, portanto, algo “mais nobre” e podendo vislumbrar até uma melhora de vida, começam a revelar seus verdadeiros sentimentos em relação à sua atividade: não queriam voltar pra ela. 

Afinal, a intervenção dos documentaristas estava sendo boa ou má? Seu projeto até poderia resultar em ganhos pra comunidade e pra associação dos catadores, mas poderia acontecer que não mudasse (individualmente) a vida de ninguém. Se Kieslowski visse o filme, certamente diria: “Eu não avisei?” 

Outra questão ética suscitada pelos documentários é a da objetividade. Ninguém é ingênuo de imaginar que exista algo plenamente objetivo, isento, em qualquer meio de comunicação. O caso dos documentários não é diferente. Podem não ser ficção, não são inventados, mas também não são o “real”, mas cortes dele. E a maneira com que se junta esses recortes será determinante para direcionar o olhar (e a opinião) do espectador na direção desejada. 

Um exemplo maravilhoso disso, é o documentário da antropóloga Débora Diniz, “Uma História Severina”, sobre aborto de feto anencefálico. Adoro usar esse filme em sala de aula quando discuto temas controversos em Bioética com meus alunos. Um exercício que faço serve pra dar uma ideia do poder desse curto (25 minutos) filme. Logo no início da aula, antes de passá-lo ou sequer conversar sobre ele, peço aos alunos que, sem se identificar, escrevam num papelzinho sua escolha entre quatro opções, relativas à sua posição em relação ao aborto: 1— Contra em qualquer situação; 2 — Contra apenas nos casos previstos em lei (estupro e risco de morte pra mãe); 3 — Admite outras exceções além das previstas na lei; 4 — A favor em qualquer situação. O resultado costuma ser um empate entre as duas posições intermediárias (2 e 3), ou seja, a maioria está disposta a aceitar as exceções da lei ou as da lei e algumas outras. Em seguida passo o filme. Daí, antes de discuti-lo, peço para repetirem o processo. Quase todos migram para as posições 3 e 4. Praticamente ninguém permanece nas 1 e 2. Isso antes de dizermos uma palavra sequer sobre o filme, pra evitar que eu ou a discussão os influencie.  (Essa experiência pedagógica será apresentada no Congresso Mundial de Bioética, em Roterdam, Holanda, no final de junho de 2012, com o título “Visual Cognition and Moral Judgment”, juntamente com “Movies as tools for discussions in Ethics and Bioethics”).           

Evidentemente, Diniz sabe disso: “Afirmar a pretensão do documentário etnográfico de representar o real não significa assumir que as imagens sejam mais objetivas ou neutras que os conteúdos da narrativa etnográfica escrita. Nas duas formas de apresentação, a presença da autora ou da diretora determina o texto, a escolha das cenas, a seleção das entrevistas, as tomadas e os cortes, pois o roteiro é uma peça que corresponde às escolhas de quem conta a história”. (Pelas Lentes do Cinema: Ética e Bioética em Pesquisa, Ed. UnB, 2007). 

A aparente interferência de Diniz em seu documentário é próxima de zero. Em nenhum momento ela dá sua opinião, ou mostra entrevistas com pessoas que compartilham sua opinião. Ainda assim, o resultado é muito mais eficiente do que, por exemplo, “Não Matarás”, de autoria do Instituto Nina Rosa, no qual, para se defender uma tese, apresenta-se entrevistas de pessoas cegamente engajadas com a causa. Neste, fica fácil identificar o viés e suas falhas. Naquele, nem tanto. O que não significa que “Não Matarás” seja “menos ético” do que “Uma História Severina”. 

A essa altura, o leitor já se deu conta de que simpatizo com a tese de Diniz — permissão de escolha para mãe de anencéfalo, se o mantém até o final da gravidez ou não —, do que com a de Nina Rosa — não usar animais nunca para nada. Admito que isso possa me influenciar. Ainda assim, é fato que os pontos apresentados por Diniz são cientificamente irrefutáveis, enquanto os de “Não Matarás”, não (por exemplo, que existem alternativas para animais em TODAS as situações de pesquisa). 

Até aqui tratamos de documentários bem intencionados, mas que não necessariamente figurariam numa galeria de belos filmes, nem mesmo “Lixo Extraordinário”, que trata de arte, pois sua intenção é mais social. Em outras palavras, seriam exemplos em que a Ética preponderou sobre a Estética (ou que a Estética serviu à Ética). Há um exemplo do contrário, embora involuntariamente. “É Triunfo da Vontade”, da cineasta alemã Leni Riefenstahl. Sua intenção foi puramente doutrinária, de propaganda nazista (portanto “ética” sob seu ponto de vista), mas acabou entrando para a galeria dos belos filmes da história do cinema. Suspende-se o julgamento ético em nome da Estética.

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