revista bula
POR EM 26/04/2011 ÀS 01:52 PM

É mentira que a morte não vem nos dias de sol

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Aí que dia 23 de abril é aniversário de morte do meu pai.

Anos atrás, meu pai morreu no domingo de páscoa. No meio da madrugada do sábado para o domingo, na verdade. Eu não estava em casa. Minha mãe me ligou e eu voltei de viagem com meu irmão.

Tínhamos um acordo, consequência dos anos de saúde frágil dele: caso ele morresse no meio da noite, ela só nos acordaria (eu e meu irmão) na manhã seguinte com a notícia. A tese é que não fazia diferença e a noite bem dormida faria falta nos dias pesados que se seguiriam.

Última noite de sono, quando eu ainda tinha pai.

Às oito da manhã o telefone da casa de campo tocou, minha mãe muito calma disse que meu pai tinha passado mal e que estavam indo para o hospital. Era melhor então, eu e meu irmão, voltarmos mais cedo para São Paulo.

Não pedi para falar com ele. Eu sabia.

Fiz em pouco mais de 40 minutos uma viagem que normalmente levaria 1 hora e 15 minutos, parando para trocar um pneu que furou. Cheguei e ainda na garagem do prédio vi meu tio parando o carro. Sentei no chão e chorei. Fiquei ali quase uma hora, sem deixar ninguém falar comigo ou encostar em mim.

Sabia que uma parte da vida tinha acabado ali. A parte das certezas, provavelmente. Sabia que quando levantasse, entrasse no elevador, voltasse para o apartamento, seria outro apartamento. Seria outra mãe me esperando, seria outra vida.

Nos primeiros anos, ia semanalmente ao cemitério do Morumbi, visitar meu pai. Se por acaso você não viu o enterro do Senna (foi no mesmo cemitério) na tv, é basicamente um gramado. Sentava no meu retângulo de grama, em cima do meu pai, fumava um cigarro e bebia uma coca zero, ou uma cerveja. Isso durou uns dois anos. Depois as visitas foram se espaçando cada vez mais.

Não fui ainda ver meu pai este ano. Sábado, dia 23, dormi até tarde e “sem querer” perdi a ida da minha mãe e minha tia. Foram 11 anos. Fugi, medrei, dormi demais, não fui.

Aí apita o celular. E é SMS de um dos meus amigos mais queridos, contando a morte do avô. E eu acabei num cemitério, no dia 23, chorando um morto que não era o meu. Tapa com luva de pelica da vida em mim.

Os 23 de anos atrás e este 23: dias de sol, de feriado. O dia mais triste da minha vida sem trânsito, sem chuva, sem pressa. Tudo quieto e claro. O dia mais triste da minha vida antiga. Nem sei se era vida minha, ou se veio outra depois.

Sem dúvida nenhuma foi a primeira vez em que eu me senti realmente sozinha. Dizem que todo mundo morre só. Tive que aprender a viver só. Não é de todo ruim, mas é menos. Nos dias de erros e imbecilidades, menos gente para me ver caindo. Nos dias de acertos e louros, ninguém para me elogiar com os olhos. Meu pai escrevia cartas lindas, mas o que eu mais gostava era quando ele me elogiava com os olhos.

Meu morto.

Meu pai deixou duas recomendações: que o túmulo fosse num lugar alto, para que quem fosse visitar tivesse uma boa vista e para não empoçar água de chuva, e que não ficasse no caminho do túmulo do Senna. As duas foram respeitadas e obedecidas. Do túmulo do meu pai, a vista é ótima, mas o ar é seco. Não tem sombra e a grama pinica. A grama que fica em cima da cova do meu pai pinica. Não me deixa ficar por lá muito tempo pensando na vida e sinto as formigas subindo pelo tornozelo e vou embora. E acaba a trégua e a vida segue.

No fim das contas não tem trégua e nem tem pai ali. Tem a proximidade física, com qualquer coisa que um dia foi meu pai, que um dia foi meu norte, que um dia fui eu existindo nele. E agora eu só existo em mim e não sei se me basto.

E a grama pinica, mesmo quando eu não estou sentada ali. A lembrança da grama, do dia de sol, dos olhares e do sentido de tudo. Não é mais tudo que têm sentido e só resta levantar e seguir, porque o tempo passa e cada dia vivido a mais, é um dia a menos sobre a grama que pinica. E eu sinto saudade dele, de ter 20 anos e de achar que vai ficar tudo bem.

E saudade de achar que estamos seguros e que a morte não vem nos dias de sol.

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