revista bula
POR EM 10/03/2008 ÀS 09:36 AM

Anhangüera: herói ou vilão?

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Não dá para se fazer uma avaliação dos empreendimentos realizados por Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhangüera, sob a luz da conjuntura atual. Para avaliar esse ícone da História de Goiás, com o mínimo de justiça, é preciso, primeiramente, situá-lo no contexto do segundo quartel do século 18, no auge do período colonial.

Havia uma ordem mundial, cuja sustentação era o sistema colonial vigente. Havia um pacto que, simplificando, funcionava assim: A colônia (no caso Brasil, Goiás) entrava com a matéria prima, basicamente ouro e produtos agrícolas. Em troca a metrópole promovia a integração dentro de uma ordem econômica nacional e internacional e dava, sobretudo, proteção contra invasores estrangeiros.

Pelo Tratado de Tordesilhas de 1494, das terras descobertas na América do Sul, só era de Portugal o que ficasse a leste dessa linha, que ia do Rio de Janeiro à foz do Parnaíba, entre Piauí e Maranhão. Mas o tratado foi sendo derruído pela ação dos bandeirantes, que ignoravam a divisória e iam adentrando os sertões. Não fosse a ação desses homens intrépidos, o Brasil teria hoje mais ou menos um décimo de sua extensão territorial. Goiás mesmo seria resultante da colonização espanhola. Talvez a gente não fosse um estado-membro, mas estado um soberano, assim como Paraguai, Bolívia, Honduras, Nicarágua.

O historiador Afonso Taunay considera o Anhangüera como um dos mais brilhantes servidores da Coroa Portuguesa de todos os tempos. Foi destemido, realizador, operante e honesto (coisas que tanto nos carecem hoje em dia). Sua bandeira que descobriu as minas dos Goyazes foi extremamente arriscada, mas muito bem sucedida. Pelos feitos extraordinários, a Coroa o premiou com o pedágio dos rios, de São Paulo até Goiás, com faixas de terras às margens da estrada, além de tê-lo nomeado o primeiro superintendente das minas.

Na prática, Anhangüera foi o nosso primeiro governador, enfeixando nas mãos o executivo, o legislativo e o judiciário (não há que taxá-lo de ditador, pois só meio século mais tarde é que Montesquieu conceberia o sistema de separação de poderes). Apesar das dificuldades e de todo tipo de carências, implementou a mineração com eficácia, descobriu novas frentes de ouro e diamante, atendendo aos anseios da Coroa, como um administrador diligente.

Seu sucesso despertou ira invejosa em outros políticos. Nessa disputa de bens e poderes, Anhangüera foi covardemente prejudicado. Primeiramente lhe afanaram as passagens dos rios, que eram uma fonte considerável de renda. Depois lhe tomaram as terras. Na tentativa de recuperar seus bens, recorreu à justiça portuguesa. Seu sobrinho Bento Paes, advogado, morreu afogado em Lisboa, quando atuava no processo. Seu genro João Leite (que dá nome a um dos rios que serve Goiânia) foi assassinado por um integrante de sua comitiva, a caminho de Lisboa, para onde ia atuar no processo.
 
Anhangüera foi rebaixado a comandante das forças (que não existiam).  Em 1739, o novo governador, vendo a injustiça que sofria e a penúria por que passava, lhe concedeu uma arrouba de ouro como antecipação de seus direitos. E em sua homenagem chamou o distrito de Santana (fundado por Anhangüera) de Vila-Boa (Bueno do castelhano). E esta foi a primeira capital do Estado.

Mas Anhangüera parece ser mesmo um herói fatal. Dado a sofrer perseguições até séculos depois de sua morte. Não é de ver que agora há políticos, não sei se por ignorância ou má-fé, que lhe atribuem estupros de índias e outros crimes hediondos e querem derrubar sua estátua do centro da cidade?  

 

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