revista bula
POR EM 07/10/2008 ÀS 09:12 AM

Síncope

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As pernas não respondiam. Por mais que tentasse, nada. Estavam ali imobilizadas, soltas, distendidas, presas à cama. Algo que ele demorou a compreender. Somente tomando consciência da real situação em que se encontrava, quando, num átimo, sentiu um leve formigamento na perna esquerda, o que o fez, subitamente, tentar tocá-la, mas não pôde, estava preso, do tronco para baixo, totalmente à mercê do que ele sempre temera: a total dependência dos outros.
 
O quarto velho e desgastado compunha um ambiente triste e desolador, imprimindo no branco manchado de suas paredes a história de muitas vidas que por ali passaram. Do teto, também pintado de branco, um pouco mais conservado, pendiam duas finas correntes, nas quais os tubos de soro eram fixados, servindo, muitas vezes, aos olhos toldados de algum paciente, como apêndice dos seus delírios.
 
Era longe demais para chorar, para lembrar-se de qualquer coisa que o tornasse ao comum, ao familiar. Uma feição grave se apossou do seu rosto, parecia desconhecer tudo, inclusive a si mesmo, de quem não lembrava o nome. Tudo era muito longe, diria distante, como os dedos dos pés que não se mexiam, não serviam para nada, totalmente inúteis. Quem o teria deixado ali, que mal fizera para que um filho da puta qualquer o imobilizasse daquela maneira? Se pelo menos ele pudesse se lembrar de alguma coisa, um nome que fosse; quem sabe o dele.
 
Um desespero tomou conta de si, precisava acalmar-se, o corpo estava molhado de suor. Alguém veio, caminhou em sua direção, estacou ali, bem próximo dele, mas nada disse. Uma fragrância silvestre invadiu o quarto. Tinha de se segurar, não havia nada a fazer, era só esperar. Talvez alguém que viera acabar de fazer o serviço. Bastariam mais dois passos, o travesseiro, e pá! Acabou. Um verdadeiro pânico sobre ele se abateu.
 
Acenderam as luzes, e ele, como que aliviado, mas ainda sem saber de nada, contemplou os grandes olhos verdes da enfermeira que esboçara um sorriso, depositando a bandeja de remédios e seringas na mesinha ao lado da sua cama, quando, delicadamente e satisfeita, inoculou a agulha da seringa no tubo de soro, posteriormente prometendo que ele ficaria bom. Logo tudo acabará! Sentiu-se aliviado.
 
Por um momento, certo torpor, uma quentura percorrera-lhe o corpo, foi quando pôde divisar, do outro lado, numa cama parecida com a sua, um senhor de uns setenta anos, cabelo branco e escasso, todo entubado e amarrado pelos pulsos. Estava num sanatório, num hospício, pensou. Sua cabeça girou, sentiu o que lhe restava do corpo bambo, mas um sentir sem muita esperança. Um sentimento alheio a tudo, como aquele que se tem quando reencontramos pessoas que há muito não víamos, que por elas alimentávamos muita feição e encantamento, mas que, ao revê-las, descobrimos que o nosso poder criador é lastimável, o que amávamos era o longe, o distante. Naquele momento conseguimos varrer os últimos vestígios de uma existência, de um compartilhamento. Adormeceu.
 
Acordou com uma grande vontade de esvaziar a bexiga, foi ao desespero. Como? Como sairia dali para mijar? estava paralisado, preso duplamente pelas pernas e pelo soro que o obrigava a conservar a mão esquerda sobre o lençol, sobre o colchão da cama. Ouviu um som vindo de fora, percebeu que se tratava de um rádio, um programa religioso. Muita gritaria. Inquietou-se. Sua bexiga iria estourar, o que fazer? Tentou chamar a enfermeira, mas o som ficara preso na garganta, estava muito fraco, debilitado. Com uma mão começou a pressionar o pinto, que também estava adormecido. Que loucura! Do outro lado, o senhor da cama estrebuchava, tentava se soltar, fazendo um alarido estranho, um som esquisito, um piado, um chiado, sabe-se lá, eram espasmos seguidos, parecendo que após tamanho esforço, o homem não se restabeleceria, mas contrariando as previsões, ele se acalmara, o cansaço se esvaíra, e ele voltara a dormir.
 
Também não resistiu, deixou-se abater, mijou-se todo, mas também nada mais importava, estava ali mesmo, imobilizado, inútil, desprezado. Por um bom tempo quedou aliviado, era o que parecia. Uma sensação de bem estar, de alívio. Mas a felicidade durou pouco, fora arrastado por um sentimento de perda, de desprezo. O coração era puro ruído, como uma velha máquina de arroz, ia e vinha, parecendo querer arremessá-lo para outra realidade, talvez menos cruel. Não tinha certeza de qual. Viver era mesmo muito difícil, principalmente na condição em que se encontrava. Ali, preso, sozinho. Ao som do seu coração, mais uma vez adormeceu.
 
Bom dia! Bom dia! Fora acordado pelos berros do médico que o saudara. Como vai o meu paciente? Parece-me muito bem! Ouvia tudo aquilo ainda desconfiado, sem saber bem ao certo do que se tratava. Tentou virar-se subitamente, mas fora impedido por uma dor bem aguda, vindo da sua virilha; nisso percebeu que tinha conseguido mexer a perna, os dedos dos pés. Não podia acreditar naquilo que estava fazendo, ele que há tão pouco estivera em pânico, sem ninguém, imobilizado, a mercê dos outros. Agora ali, sentindo dor, mexendo com as partes baixas.
 
Levou a mão ao pinto, pôde senti-lo. Apalpou o saco, estava crescido, suado, grudado na sua perna nua. Um sentimento de alegria tomou conta de todo o seu ser. O médico a tudo assistia sem entender nada, estava ali, contemplando aquele homem que se redescobria. Mais uma vez falou: vejo que a anestesia já passou, deixe-me ver o corte, puxou de supetão o curativo. Perfeito! a cirurgia foi um sucesso, não há mais hérnia, agora é só repouso. Você está de alta, vou pedir a enfermeira para tirar o seu soro, na próxima semana você vem para tirarmos os pontos.
 
Um telefone tocou, deu-se conta que estava na mesinha ao lado da sua cama. Pôde reconhecê-lo como seu, um celular. Esticou o braço direito para pegá-lo. Alô! Disse ele. Uma voz melodiosa respondeu: Amor, estou indo buscá-lo, preparei um café da manhã delicioso para você. Por um momento, contemplou os raios de sol que entravam pelo velho vitrô, sorveu o ar da manhã e sorriu aliviado.
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