revista bula
POR EM 12/08/2008 ÀS 06:31 PM

Quem vende o seu voto, vota contra si mesmo

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Como se já não bastasse todo tipo de mazela social: crimes hediondos, seqüestros, estupros, corrupção de toda monta, ainda temos de conviver, em período eleitoral, com uma das mais abomináveis práticas: o comércio do voto. Comércio, porque há mais de um agente nesse negócio, quem compra, compra de alguém; quem vende, vende para alguém; pode ocorrer que alguém compre de algumas pessoas (intermediário ou atravessador) e venda para outra pessoa (candidato). Portanto, não se pode dizer que comprar voto é uma prática de mão única, não, muitos são os envolvidos; muitos são os corrompidos; muitos são os corruptores; muitos são os corruptos, esse bichinho inofensivo, como bem diria aquele personagem do Jô Soares.
 
Quando se fala em compra de votos, o que nos vem à cabeça é alguém pagando uns trocados para aquele ser (eleitor) que se propõe a vender o seu voto. Pode ser assim, mas não é essa a regra, os candidatos são muito criativos e, se valendo das carências e necessidades dos eleitores, inventam mil e uma maneiras de burlar a justiça eleitoral. Segundo uma pesquisa:  são alimentos diversos: sal, açúcar, óleo, tíquetes de leite, bebidas , dentaduras, óculos, sapatos, roupas, ajuda para obter documentos, pagamento de fiança de presos, cimento, areia, pedra, tijolos e outros materiais de construção; ferramentas, insumos agrícolas, uniformes para clubes esportivos, bolas e redes, enxovais, cobertores, berços e tantas outras coisas, que chegam a estarrecer qualquer cidadão de bem.
 
O negócio tem proporções tais que, segundo dados do IBGE, citados pelo Movimento pelo Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), lançada no dia 19 de novembro de 2007, na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em Brasília, desde as eleições de 2000, até a data do lançamento dessa campanha, mais de 600 políticos foram cassados, por corrupção eleitoral, pela Justiça. O Movimento pelo combate à Corrupção Eleitoral, no sentido de coibir tal Prática tão nefasta, criou o lema “Voto Não Tem Preço, Tem Conseqüência”.
 
Tudo isso só foi possível, graças às mobilizações populares, ao empenho da imprensa em não camuflar nada, à atitude de políticos honestos, comprometidos com as melhorias em todos os setores da sociedade, com os avanços sociais. Graças a essas mobilizações, conseguiu-se a aprovação da Lei 9.840, que proíbe a compra de votos e o uso eleitoral da máquina administrativa, como podemos ler no seu Art. 41-A:  “Ressalvado o disposto no art. 26 e seus incisos, constitui captação de sufrágio, vedada por esta lei, o candidato doar, oferecer, prometer, ou entregar, ao eleitor, com o fim de obter-lhe o voto, bem ou vantagem pessoal de qualquer natureza, inclusive emprego ou função pública, desde o registro da candidatura até o dia da eleição, inclusive, sob pena de multa de 1.000 a 50.000 UFIRs, e cassação do registro ou do diploma, observado o procedimento previsto no art. 22 da Lei Complementar no 64/90."
 
Muita coisa vem mudando para melhor, ao longo desses anos, como a Lei 9.840. Por conta dela, os malversadores do erário foram cassados; os abusos econômicos vêm sendo combatidos, como podemos confirmar nos dados da Agência Brasil de Comunicação, com o número de políticos cassados até o ano de 2007: Minas Gerais 71; Rio Grande do Norte 60; São Paulo 55; Bahia 54; Rio Grande do Sul 49; Ceará 37; Paraíba 36; Goiás 33; Santa Catarina 25; Piauí 22; Mato Grosso 20; Mato Grosso do Sul 18; Rio de Janeiro 18; Roraima 17; Paraná 16; Maranhão 14; Pará 14; Pernambuco 14; Rondônia 13; Sergipe 10; Amazonas 2; Acre 1; Distrito Federal 1. 
 
Combater práticas tão perversas - como a do poderio econômico de vencer a qualquer preço, sem se preocupar com quer que seja, matando, apezinhando, alijando do processo, perseguindo, o que nos faz lembrar a fábula do lobo e do cordeiro, de Jean de La Fontaine (La Fontaine) - é de fundamental importância para todos nós, pois só assim teremos de fato um país democrático, igualitário, comprometido com o bem-estar de sua população. Cada um precisa despertar para sua responsabilidade como cidadão, capaz de banir práticas tão obtusas como essa da compra de votos. Precisamos ter consciência de que o voto vendido são vidas que estão sendo roubadas, são recursos que deixarão de ser aplicados na saúde, na educação e na cultura. Não podemos nos calar, temos de alardear para que todos sejam fiscais da moralidade na política, para que cada indivíduo saiba que quem vende o seu voto, vota contra si mesmo.
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