revista bula
POR EM 02/04/2008 ÀS 08:05 AM

O medo do Honório

publicado em

O escuro está debaixo de seus olhos – escuridão, mas Honório não quer ver. Não quer claridade nenhuma porque todos os detalhes foram planejados no silêncio de seus pensamentos, mesmo os mais tenebrosos. Afasta o cobertor e move simultânea e lentamente as duas pernas, sentando-se na beirada da cama. Faz cinco anos que enterrou Irene, mas isso não é motivo para que não tome todas as noites as maiores precauções para não perturbar a esposa.

Conhece de cor os caminhos e suas encruzilhadas, sabe como dar cada um dos passos que devem levá-lo ao fim do medo.

Concebeu a idéia ao abrir os olhos em uma manhã de inverno. Primeiro ocorreu-lhe o pensamento não muito claro, por causa dos restos de sono, segundo o qual estava vivo e acordando. Mantinha ainda os olhos fechados. Uma ponta do edredom cobria-lhe uma parte do rosto, e Honório percebeu que o ar expelido pelas narinas criava uma pequena zona de calor na ponta da coberta com que, de madrugada, provavelmente, protegeu-se do frio. Parou de respirar alguns segundos para descobrir quão próximas caminham a vida e a morte. Qualquer movimento, pensou, e mesmo dos mais sutis.

 Com os pés plantados no piso do quarto, Honório vai-se desdobrando até ser um homem inteiro com sua altura. Faz rapidamente a checagem de suas últimas decisões e conclui que está tudo perfeito, como se a vida, então, começasse a arredondar.

Enquanto não abrisse os olhos, poderia considerar-se em total repouso, o que lhe pareceu conveniente em uma manhã fria de inverno. Afastou a ponta do edredom e permitiu que o ar entrasse e saísse com total liberdade. De olhos fechados, a respiração era saudável – um ar sem os sobressaltos da noite.

Já vinha carregando há vários anos o medo de alguma surpresa. Sim, porque, enquanto dormia, era um corpo inteiramente desprevenido. Não exercia controle sobre o ambiente nem podia saber o que ocorria ao redor, quando estava dominado pelo sono. Honório, ultimamente, detestava ter de dormir e desligar-se, entregue por completo às ameaças de um mundo hostil.

Uma noite acordou com o vento que entrava pela janela do quarto, sacudindo as cortinas e levantando o lençol. Ficou imóvel na cama, os sentidos abertos, totalmente abertos para descobrir de onde e como se desencadearia a agressão. Apenas seus olhos moviam-se em todas as direções, mudos e grandes. Minutos de silêncio absoluto e dolorida tensão. Alguém abrira a janela enquanto ele dormia? Seus ouvidos engatilhados não registravam nada além do farfalhar das cortinas e da luz azulada que entrava com o vento. Aos poucos o dia amarelava sem que nada acontecesse. Honório, finalmente, levantou-se com o pijama ainda impregnado de medo e seu cheiro ácido.

Aquele foi um dia estragado por pesquisas e suposições. Procurou rastros no jardim, examinou o portão, imaginou escadas e desconfiou dos vizinhos. Não chegava a uma conclusão e justo por não chegar a uma conclusão as ameaças tornavam-se maiores. Tudo pode ser, murmurava com a testa enrugada. Tudo pode ser.

No fim daquela semana, quando o pensamento começava a ocupar-se de coisas mais amenas e corriqueiras da vida, Honório sentiu uma pontada do lado esquerdo, pouco abaixo do mamilo. Isso foi logo depois do jantar. Imóvel, com os olhos muito abertos, auscultou-se durante quase meia hora. A pontada retornou mais forte ainda. Desligou a televisão para observar melhor o que estava acontecendo. Aguda e forte, a pontada, rápida como deveria ser um colapso cardíaco. Fulminante. Embrulhada nesse pensamento chegou a sensação de desconforto: suas mãos suavam. Seria o caso de internar-se num hospital? Melhor esperar um pouco mais. Mas era preciso estar atento, caso contrário não teria como pedir socorro. Resolveu sentar-se na poltrona ao lado do telefone. Ao primeiro sinal, decidiu.

Leu enquanto seus olhos conseguiam decifrar aqueles sinaizinhos. Então fechou o livro e seus braços distendidos bocejaram querendo adormecer. Conferiu a hora no relógio da parede. Não tinha feito nem meia volta. Foi à cozinha e tomou um copo de água. Apalpou-se com método, reconheceu reentrâncias e protuberâncias, esfregou as mãos nos braços nus. Voltou à poltrona ao lado do telefone. A noite era lenta, seus ruídos cada vez mais distantes. Lembrou-se de Irene, então, e achou que não faria mal nenhum chorar pela esposa. Com isso sentiu-se um pouco mais reconfortado, com forças para enfrentar a noite.   

Passou toda aquela madrugada bem desperto, esperando o primeiro sinal, que não veio mais. E a manhã o iluminou sentado na poltrona, com os olhos ardendo e injetados de sangue.

Depois dessa noite em claro, nunca mais teve sossego o Honório, desconfiado que andava de que em tudo escondiam-se ameaças. Não dormia sem examinar uma última vez todas as portas e janelas, mesmo assim, muitas vezes depois de deitado tornava a levantar-se, pois não tinha certeza de haver examinado direito a porta da cozinha. No quarto, novamente, ajoelhava-se ao lado da cama, afundava a cabeça até a testa encostar no piso para que nenhum desvão debaixo da cama restasse livre de seu exame. Só então deitava-se para descansar. Mal fechava os olhos, contudo, lembrava-se das torneiras, do registro do gás, e voltava, já no fim das forças, a verificar os mil esconderijos das ameaças potenciais.

O sono, por fim, aproximava-se lento e silencioso, e Honório fechava os olhos sem perceber que o cansaço não era maior do que o medo. Então, um gato que miava no jardim, uma garrafa que um bêbado quebrasse na calçada, um estralo de uma viga no telhado, qualquer coisa punha-o outra vez desperto.  

As noites, de olhos abertos e ouvidos atentos, eram noites muito escuras, muito lentas, e em geral as manhãs encontravam Honório exausto, exalando aquele mesmo cheiro de medo, com que não se acostumava.

Finalmente, ao abrir os olhos naquela manhã fria de inverno, percebeu subitamente que não havia muita diferença entre sono e vigília. Se mantivesse os olhos fechados, podia fingir que estava dormindo. Quando abriu finalmente os olhos de maneira muito dissimulada, inventando em tudo aquilo um fingimento, imaginou que poderia enganar também os perigos de que se via cercado. Depois de muitas noites fechadas, naquele momento ele sorriu.

De pé, ao lado da cama, primeiro estabelece o equilíbrio, e com as pontas dos dedos mede a distância em que fica a parede. São quatro passos para a direita. Está descalço e seus pés gozam por instantes o contato do piso frio. Pára e pensa. As duas janelas são manchas na parede oposta, são dois quadriláteros de uma tênue claridade leitosa. Tão fraca, a claridade, que não é suficiente para que ele consiga distinguir os móveis com os olhos. Na fotografia do pensamento, contudo, sabe a exata posição de cada objeto com seus contornos e quinas.

Honório avança lentamente porque agora não há mais razão nenhuma para pressa. Na casa toda ele é o único ser que se move, mas se move como se não existisse, um corpo sem os limites de seu território, um silêncio que ultrapassa a porta da sala e chega à cozinha.

A cozinha é um conjunto articulado a dormir à espera da manhã. Em pouco tempo também ele vai poder repousar quieto, muito quieto e sem medo ao lado de Irene, que continua dormindo.    
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2019 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br
wilder morais
renovatio