revista bula
POR EM 11/03/2008 ÀS 02:34 PM

No último domingo do mês

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Levantamos um pouco mais cedo no último domingo de fevereiro, pois não podíamos perder o encontro do Grupo Dom Quixote. A manhã era chuvosa e fria, com um vento oblíquo a sacudir os ramos mais altos das sibipirunas. Nos olhamos sem dizer nada, mas podíamos adivinhar o pensamento um do outro.

Na saída, minha mulher perguntou:

-Você acha que vai aparecer alguém?

Não que seja um otimista de carteirinha, mas prefiro tentar. De fato, o dia não começava com cara de quem convida para uma reunião para discutir determinada leitura. Nosso encontro, todo último domingo de cada mês, atualmente acontece no Templo da Cidadania,
em Ribeirão Preto. E fomos os primeiros a chegar.

Quando estava abrindo a boca para dar resposta àquela pergunta da Roseli, eis que o portão se abre e aparece um guarda-chuva apontado contra nós. Bem, pensei, sozinhos não vamos ficar.

A idéia de formar um grupo de leitura de literatura, surgiu-nos durante uma visita que fizemos, em
2002, a nosso amigo Luiz Cruz, escritor de Franca. Fomos encontrá-lo reunido com um grupo de umas quinze pessoas, todos eles com papel na mão acompanhando a leitura de uma integrante do grupo. Ficamos sabendo que se reuniam periodicamente para ler e discutir textos (contos e crônicas) produzidos por eles mesmos.

No último domingo de janeiro de 2003, lá estávamos nós, com cerca de mais umas dez pessoas, discutindo a formação de um grupo que se dedicasse a ler textos literários. Essa primeira reunião, assim como todas do ano de 2003, foi feita no ateliê da Jair Yanni, poeta e artista plástica.

Depois de algumas adaptações no modelo herdado do grupo de Franca, escolhemos o primeiro livro a ser lido. Ah, sim, porque nessa primeira reunião ficou estabelecido que leríamos textos fundamentais da literatura universal alternadamente com livros de escritores brasileiros. E a primeira escolha recaiu sobre o Dom Quixote. Ninguém conseguiu terminar a leitura em um mês, por isso tivemos de fazer novas adaptações no formato que adotamos. Teríamos sempre uma leitura anual paralela às leituras mensais.

Desde então (janeiro de 2003) até hoje, o grupo se reúne todos os últimos domingos de cada mês por cerca de duas horas: das 9h às 11h. O respeito pelos compromissos familiares é um dos ingredientes que nos tem mantido em atividade por mais de cinco anos.

Foram por volta de sessenta autores que visitamos, com suas sessenta visões de mundo diferentes, vazadas em sessenta estilos diversos, tratando de sessenta dramas humanos. Dante, Thomas Hardy, Stendhal, Cervantes,
Dostoiévski, alguns dos estrangeiros; Machado, Alencar, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Carlos Herculano Lopes e tantos outros, autores da literatura brasileira.  

Em cada reunião, começa-se marcando o dia do próximo encontro, e se escolhe o livro a ser lido no mês seguinte.

Pois bem, e como ainda festejamos aniversários, damos e ganhamos muitos livros durante o ano.

Nem todos os integrantes iniciais continuam ainda hoje, mas um núcleo de aproximadamente dez pessoas é formado por membros fundadores. Procuramos nunca ultrapassar os 15 integrantes, porque cada um deles deve ter a oportunidade de expor suas impressões da leitura. E é dessas impressões que todos nós vamo-nos enriquecendo, pois sempre aparece um detalhe que passara despercebido, uma interpretação em que não se tinha pensado, a descoberta de uma jóia que havia ficado soterrada.

Depois do primeiro guarda-chuva, em questão de cinco minutos apareceram quase todos os membros atuais.

A discussão de dois sermões de Vieira foi muito rica, pois somos de profissões variadas, com opiniões políticas e religiosas diversas. O Sermão da Sexagésima e o Sermão do Bom Ladrão foram esmiuçados até às 11h da manhã. O Padre António Vieira deve ter-se virado na sepultura, com tudo que ouviu.

Para o último domingo de março, precisamos ler Reparação, de Ian McEwan. Preciso começar logo porque tem mais de 450 páginas.

Vamos nessa?!
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