revista bula
POR EM 01/03/2008 ÀS 06:20 PM

Morte e Vida Severina

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Não foi no sertão pernambucano, não. Foi aqui mesmo, em Serrana. Um menino de quinze anos matou outro menino de quinze anos. Não conheço os detalhes da história, as razões que levaram uma criança a tirar a vida de outra criança. Não tive a curiosidade mórbida de procurar saber. A notícia, vazia das motivações e revestida apenas dos aspectos trágicos do ato final, me fez lembrar do João Cabral de Melo Neto. Severino, retirante, tenta explicar o que é morte severina e diz:

 

morremos de morte igual,

mesma morte severina:

que é a morte de que se morre

de velhice antes dos trinta,

de emboscada antes dos vinte,

de fome um pouco por dia  

 

A notícia do jornal, sumária, quase impassível, informa sem comentários que a vítima, depois de atingida por dois dos cinco disparos de um revólver, cambaleante andou cerca de oitenta metros e procurou abrigo em uma escola antes de morrer. Já lecionei nessa escola e, apesar do tempo que já faz, isso me atingiu. Querendo ou não, estou envolvido em um crime. Em um crime juvenil.

 

Estes dois garotos poderiam estar ainda na escola, competindo com seres imaginários, consumindo seus ódios em situações e competições com seres formados de palavras. Se isso tivesse acontecido, provavelmente estariam passando agora por aquele portão de ferro, conversando como amigos, sonhando com um futuro que não fosse assim tão severino.

 

Me ocorre, então, um conceito que o Pedro Bandeira vive afirmando. A literatura é exercício de emoções. Com o livro na mão, ama-se, odeia-se, cometem-se as mais cruéis vinganças, mas sem vítimas reais.

 

Há um outro ingrediente nesta história absurda, que, este sim, me perturba. A vítima andou cerca de oitenta metros e procurou abrigo em uma escola. Dá pra perceber? Foi uma morte emblemática. Em seus momentos de agonia, o garoto vislumbrou onde poderia ser salvo. Infelizmente viu isso já tarde demais. Também não sei se estar com o corpo dentro de um edifício faz alguma diferença. Acho que não. Nem toda escola oferece a oportunidade de contato com a literatura.

 

Não conheço os detalhes da história, mas sei algumas coisas que me pesam. Sei que os dois estavam competindo. Qual o objeto da competição? Isso não importa. Desde cedo aprende-se que vivemos em um mundo competitivo. E somos induzidos a competir. Por tudo. Essa é a palavra de ordem da civilização que estamos preparando para os pósteros. Se você não aprende a competir, se você não se prepara para enfrentar a competição, não está preparado para a vida. Deve ser exterminado. A exaltação do vencedor, em tempos de competição, levou o exercício da competição daquelas duas crianças até o extremo: a eliminação física.

 

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