revista bula
POR EM 02/03/2008 ÀS 12:46 PM

Medíocres

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A mediocridade é um dos piores males. Há dois tipos. A mediocridade-lobo e a mediocridade-cordeirinho. O medíocre-cordeirinho é aquele brilhantemente retratado no filme Zelig, de Woody Allen. Leonard Zelig, o personagem, fica famoso pela impressionante capacidade de se camuflar para se parecer com quem está do lado. Entre duas pessoas gordas, Zelig fica gordo. Entre negros, negro. Entre rabinos ortodoxos, um rabino ortodoxo (com roupa e tudo). Se alguém diz que gostou de um livro, ele também gostou. Se seguem um líder, ele também. Perguntado por que fazia isso, Zelig responde: “Queria ser aceito e amado por todo mundo”. Woody, por vez, quando perguntado sobre a mensagem do filme (como se não fosse óbvia o suficiente), menciona a fraqueza de espírito das pessoas que tentam “se encaixar” o que, no limite, pode levar ao fascismo.
 
O medíocre-cordeirinho, ao contrário do que o nome sugere, é extremamente perigoso. Sua existência inautêntica (está dissolvido no impessoal, diria Heidegger) é moldável ao sabor dos ventos da maioria que, como já nos mostraram os sábios Nelson Rodrigues e Henrik Ibsen, é estúpida. Inércia é a palavra-chave. O medíocre-cordeirinho senta-se todo dia em frente à TV e se deixa contaminar por toda a sorte de lixo. Depois levanta-se, dorme, no dia seguinte acorda, vai ao trabalho, que executa maquinalmente, como numa Metrópolis de Fritz Lang. Aceita tudo placidamente, como vontade divina, vontade essa que lhe foi transmitida por um porta-voz auto-proclamado de Deus. Acrítico, detesta pensar, não considera que compense o esforço.
 
O medíocre-lobo não é muito diferente. Leva mais ou menos a mesma vidinha. Só que, por ironia do destino ou carisma (medíocres-lobos não raramente são extremamente carismáticos), assumem posições de maior ou menor poder. Esses são particularmente perigosos. Têm poder, mas não sabem usá-lo. Como são medíocres, não acham necessário justificar seus atos convenientemente. Se confrontados com a razão, teimarão, contra todas as evidências, ainda que tenham um lampejo de consciência da própria mediocridade. Parafraseando Dostoiévski, se tiverem de escolher entre a verdade e sua própria teimosia, ficarão com a última.
 
Há exemplos históricos de sobra. Hitler foi um típico medíocre-lobo (tudo bem, vá lá que ele não tenha levado uma vidinha mais-ou-menos, mas era um baita dum medíocre). Os alemães da época foram seus cordeirinhos. Há exemplos de sobra também aqui mesmo e agora. Mas esses eu deixo pra vocês refletirem a respeito.

 

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