revista bula
POR EM 28/02/2008 ÀS 07:08 PM

Jardim do Éden

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Eu dirigia o meu carro calmamente, fato bastante incomum no atual trânsito da cidade, onde tem prevalecido a lei da buzina, da velhacaria e da deseducação. Parar antes da faixa de pedestres, por exemplo, tem sido risco constante de colisão. Além da possibilidade de abalroamento na traseira do carro, por conta da imprudência e pressa de algum estressado, se arrisca a ouvir xingamentos os mais cabeludos da parte de motoristas convictos que é inadmissível dirigir com paciência e solidariedade. São coisas da vida moderna, das metrópoles enfurecidas, da banalização da descompostura.

Então, avistei à minha direita, uma dupla peculiar: um senhor muito senil e um rapaz de vinte e poucos anos. O mancebo esbravejava, gesticulava, puxava o velho pelo braço, economizando cortesia, exigindo que caminhasse. Julguei a atitude do rapagão deveras grosseira e não me contive. Desacelerei a máquina. Arrisquei ser castigado por algum fiscal de trânsito e estacionei em local proibido. Apressei os passos e me aproximei do jovem, o qual despejava insultos sobre o pobre ancião (ele aparentava oitenta e tantos anos). Perguntei ao moço o porquê da algazarra, já recomendando calma, uma vez que o mesmo usava de força desproporcional, tentando arrancar o idoso agarrado à grade do condomínio. De fato, ele parecia colado nela. O jovem soltou o braço muxibento do acompanhante, finalmente, e explicou que há exatos quarenta minutos estavam ambos ali, estancados sob sol escaldante, pois o filho da puta cismara de empacar na calçada, agarrando-se ao gradil, como se estivesse fundido nele, pois não soltava de jeito nenhum. O rapaz apresentou-se como enfermeiro, embora, confessou-me, jamais tenha freqüentado uma aula sequer de enfermagem. Na verdade, estava desempregado há muitos meses e resolvera atender a um anúncio de jornal no qual alguém procurava alguém para tomar conta de alguém. Mentiu, forjou referências espetaculares, com a conivência de dois ou três amigos, e conseguiu a vaga.


No começo, o serviçal imaginava que o idoso fizera apenas uma pausa na sua caminhada matinal, para apreciar o jardim do condomínio que, de fato, estava bastante florido e bem cuidado. O visual contrastava com a feiúra do prédio antigo, localizado num bairro com alto índice de violência urbana (furtos, assaltos e outras atrocidades). Contudo, o tempo foi passando e o velho ali permanecia, mirando o jardim, sem balbuciar palavra, com os olhos assim meio vidrados, perdidos, estacionados, distantes. O moço perdera a paciência com o doente (um entojo, foi assim que ele disse). Ele segredou que estava naquela função temporariamente, pois não conseguia emprego de jeito nenhum, e tinha contas a pagar, mulher e filhos para prover, e tudo o mais; não gostava de zelar de um sujeito inválido como aquele, mas cada um carrega a sua cruz nesse mundo-de-meu-deus; e que aquele episódio seria a gota d’água, a última vez em que tolerava os devaneios de um demente traiçoeiro; e que pediria demissão logo mais à noite, se aparecesse alguém da família, é claro, pois aquele pessoal andava muito relapso....


Chamei o homem pelo nome, tentando convencê-lo a soltar as barras de ferro, pois um filete de sangue ralo escorria pelo metal, denunciando fissuras, ferimentos na sua frágil pele de gente velha. O rapaz repreendeu-me, impaciente, alertando que de nada valeriam os meus argumentos, pois o paciente há anos não emitia qualquer som, senão gemidos, e não respondia a nada que produzisse ruídos na face da terra. O rosto do velho estava pálido e recoberto com um suor viscoso. Espasmos finos deixavam sua face ainda mais grave. O olhar paralisado estacionara no jardim. Uma pequena multidão de curiosos já se formara ao redor de nós. Muitos se apressaram em dar palpites e sugestões, em recriminar o rapazola, em tumultuar o ambiente pelo simples prazer de ver o circo pegar fogo. Nada, ninguém, nenhum argumento fazia com que o pobre senhor soltasse a grade do condomínio, na qual, visivelmente, ele se feria, pois uma poça rasa de sangue formava-se na calçada, atraindo formigas tão enxeridas como aquela gente. O homem senil não arredava o corpo de jeito algum. Alguém sugeriu telefonassem a equipe de resgate do corpo de bombeiros, ou para algum parente. Quem sabe, um filho não convenceria o pai a ser razoável, a largar de ser teimoso e soltar, de uma vez por todas, aquelas barras de ferro enferrujadas. Leigos, quase todos criam no risco de o homem adquirir um tétano e morrer. O suposto enfermeiro sorriu, evidenciando nervosismo e sarcasmo, garantindo que, àquela hora do dia, seria um milagre se algum parente aparecesse, pois as visitas andavam muito minguadas, e os filhos, gente rica e importante da cidade, tinham lá os seus compromissos e atribulações cotidianas. Eles mesmos é que teriam que resolver a parada. Algum desmiolado sugeriu que se dobrasse e quebrasse algum dedo do mentecapto senhor, a fim de ele bambear, amolecer, entregar os pontos, e largar em paz, de uma vez por todas, a grade do prédio. É claro, ninguém levou a sério sua provocação.


O homem, então, sussurrou palavras que ninguém conseguiu entender (o alvoroço era grande; um fiscal de trânsito chegou, sim, e multou, sim, o meu carro, cumprindo, cegamente, a sua missão). A doença de Parkinson degenerara o seu corpo, deixando-o rígido, lento, trêmulo, incompatível com o dinamismo, a loucura, o caos da vida cotidiana. A voz fora embargada por conta da paralisia das cordas vocálicas, sintoma comum à doença. Era evidente que ele chorava, embora, nenhuma gota de lágrima escorresse dos seus olhos paralíticos. Ele fitava o jardim florido, bem cuidado _ repito _, enfeitado com borboletas amarelas e um inesperado colibri que, alheio às esquisitices humanas, sugava o néctar matinal das flores. O velho se agarrava à grade com toda a força restante ao definhado corpo. Finalmente, eu deduzi que ele desejava atravessar pelo vão daquela grade, e adentrar o jardim, participar da paisagem, integrar-se ao colorido. Quem sabe, ele ansiava mesmo desgarrar daquela vida tola e sem sentido, e do arcabouço metálico em que ela se transformara, aviltando o fiasco de lucidez e dignidade ainda acesa em sua mente. Sim. Caminhar. Deixar para trás uma vida inconveniente e suas inconvenientes personagens. Caminhar. Caminhar dentro daquele jardim bonito. Tão bonito que, para uma mente malograda e triste como a sua, dir-se-ia se tratar mesmo do paraíso, do jardim do Éden.

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