revista bula
POR EM 20/10/2008 ÀS 03:44 PM

Grandeza e miséria dos jornais

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Há no romance Ilusões perdidas, de Balzac, situações que parecem ter sido inspiradas em nossa época. O jornalismo é a porta pela qual o personagem de Ilusões perdidas entra para o hospital das letras, em busca de glória e dinheiro. Entre nós, não faltou exemplos de literatos de nomeada que exerceram atividade jornalística, seja no batente duro das redações, ou na moleza de serem cronistas do cotidiano - a ponto de terem cunhado o bordão: "O jornalismo é a lata de lixo do literato frustrado".

Sejamos justos: nem todo jornal é lata de lixo, e nem todo literato que nele trabalhou ou trabalha é frustrado. Muitos se tornaram celebridades, a começar de Machado de Assis.

Mas falo aqui não do jornalismo literário, onde não estão presentes as injunções e pressões "alienígenas", vindas de fontes dignas, digo, detentoras do crédito e do vil metal, que atingem o noticiário político. Assim como nos tempos de Balzac, pior talvez em nossos tempos neocínicos, onde há formas de pressão inexistentes na Europa romântica. Com pequenas mudanças, vemos que que as eras se repetem, não só nas modas, como também nos costumes. "Essa gente bebe copázios em maior número do que os livros que vende".

Não faltam no livro alusões à intemperança etílica dos escritores e artistas em geral. O que reverbera a sátira de Crime e Castigo, de Dostoiévsky, à irresponsabilidade crônica do poetariado de todos os tempos: um bando de bardos (desempregados crônicos dos lumpen das letras) entra em um bar, come, bebe, toca piano com os pés e sai sem pagar, dando-se ao luxo de ameaçar o bodegueiro de denunciá-lo na gazeta  periférica em que escrevem suas lamúrias & louvaminhas.

Mas isto se deu no tempo em que escrever em jornais conferia algum poder e prestígio, visto no halo de santidade que também ostentavam os poetas, segundo Baudelaire, ao anunciar, com as avenidas da modernidade, a decadência do prestígio que conferia o ter alma e espírito. Como tudo o que é sólido desmancha no ar, o halo do poetariado caiu na lama, e foi despedaçado pelos rios de aço do tráfego.

"E então, meus filhos, disse Luciano, ostentando um ar de superioridade: vocês verão que o pequeno farsante pode vir a ser um grande político!". Quantos pequenos ou grandes farsantes não conhecemos, que - entra governo e sai governo - transformam-se em notáveis eminências da vida pública, gatos de palácio, cevados na gamela das benesses palacianas!

Sobre a inveja e a maledicência, inerentes à indigência mental e espiritual do animal humanóide, mas que abunda e prejudica mormente nos meios artísticos e literários: "A inveja, que persegue todas as obras belas como o verme aos bons frutos, tentou morder este livro. Para conseguir encontrar-lhe defeitos, a crítica foi obrigada a inventar teorias como o propósito de distinguir duas literaturas - a que se entrega às idéias e a que recorre às imagens". Motivo pelo qual em reunião de artista plástico e literato quem sai primeiro fica no prejuízo, passando a ser a bola da vez - alvo da malhação ilimitada.

Daí os costumes registrarem o uso de saírem de as rodas desmancharem-se de uma só vez, em debandada geral.

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