revista bula
POR EM 29/07/2008 ÀS 08:00 PM

Gigantes pela própria natureza

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As ilhas Galápagos, que pertencem ao Equador e se situam no chamado “meio do mundo” têm um símbolo inequívoco que lhes fornece o nome: as tartarugas gigantes. Há dois significados para Galápagos em espanhol: cágado e sela, já que os grandes cascos destes répteis lembram uma sela de cavalo.
Independente disto, estes animais realmente são gigantes pela própria natureza: os machos alcançam um metro e meio e cerca de 250 kg (junte apenas 4 e você tem uma tonelada). Foram servidas em banquetes para quase todos os navegantes que visitaram as ilhas, começando pelo Frei Tomas de Berlanga, arcebispo do Panamá, que durante uma viagem ao Peru em 1535, perdeu-se para descobrir oficialmente as ilhas. Não se tem certeza se o Frei disse que “Deus escreve certo por linhas tortas”, já que ele achou as ilhas pouco convidativas, apesar de entrar para a história por este acontecimento.
Outro visitante inusitado das Galápagos foi Robinson Crusoé, cujo nome real era Alexander Selkirk e que quatro anos depois de ser resgatado da ilha que vivera sozinho na Costa do Chile, apareceu por lá em 1709, pouco antes de saquear o porto de Guayaquil.
Estima-se que 250 mil destas tartarugas existiram no arquipélago antes da chegada do homem. Hoje são 15 mil, pois todos esses visitantes estavam sempre à buscar alimento fácil. Provavelmente três espécies de tartarugas gigantes foram levadas à extinção por causa deste “overkill”. É mais triste ainda saber que os navegantes comiam apenas as patas delas (cerca de 5% do peso do animal), já que o restante do corpo era intragável (não dava pra fazer buchada de tartaruga). De vez em quando, usavam as reservas de gordura das “tortoises” como óleo e aproveitavam-se também de suas reservas de água doce, que é escassa na maior parte das ilhas.
Hoje, as 11 espécies restantes do gênero Geochelone sp. são divididas pelos pesquisadores em dois grupos principais: as que têm casco em forma de sela, com pescoço e patas alongadas, próprias para buscar alimento acima do solo e as com casco arredondado que comem gramíneas rasteiras (veja as fotos).

Quatro tartarugas macho e uma tonelada de peso.
Ao fundo, o Ronaldo agachado, serve de escala

Uma das espécies com casco em forma de sela, estica o pescoço na busca por comida
Não se sabe ao certo, mas os ancestrais destes animais teriam vindo sobre troncos que flutuaram errantes até as Galápagos e à partir de então, passaram por um processo intitulado radiação adaptativa, isto é, as espécies se diferenciaram dependendo do local onde cresceram. Na ilha Isabela, por exemplo, a maior do arquipélago, mas também a mais nova (700 mil anos), existe cinco espécies de tartarugas gigantes, uma para cada região dos cinco vulcões da ilha (pelo menos dois ainda ativos).
As tartarugas alcançam fácil 150 anos, mas alguns indivíduos parecem ter mais de 180 anos e podem ter sido vistos e examinados pelo próprio Darwin. Outro fato curioso é o “Lonesome George” ou “Solitário George”, um macho que vive na Estação de Pesquisa Charles Darwin e é o último espécime de Geochelone abingdoni (veja foto). Tempos atrás, uma recompensa de 10 mil dólares foi oferecida para quem encontrasse uma fêmea de G. abingdoni. Ninguém conseguiu, mas George ganhou a companhia de duas fêmeas de outra espécie. Eles se divertem acasalando, mas elas não põem ovos. Já estão pensando em clonar o George.
Enquanto isto, para salvar as outras populações de tartaruga, além dos programas de re-introdução das espécies, uma verdadeira batalha contra as espécies exóticas acontece: é a caça aos ratos e porcos selvagens que comem os ovos nos ninhos, cachorros selvagens que predam as tartaruguinhas e uma espécie de burro que pisoteia os ninhos. Com exceção do rato (que chegou clandestinamente em navios), os outros foram levados propositadamente, mas ganharam a floresta, cresceram e se multiplicaram, pois não tinham predadores e havia muitas presas...
De qualquer forma, os moradores da ilha são os maiores aliados na defesa e preservação das tartarugas gigantes, não necessariamente por causa da tal “consciência ecológica”, mas porque uma tartaruga viva rende mais dinheiro do que muitas mortas.
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