revista bula
POR EM 19/03/2008 ÀS 11:51 AM

Frente a frente

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A ruptura não tinha sido percebida de imediato. Apesar de instalada entre eles, bem durante, Anselmo e Joana continuavam acreditando poder salvar alguma coisa do que fora seu amor, razão daquele casamento. Por dez anos, desde o nascimento do primogênito até a chegada da caçula, estiveram sempre empenhados na aprendizagem de alguma espécie de dor. A lenta aprendizagem que só é possível graças ao hábito de sofrer como se não houvesse outra saída. Foi aos poucos a descoberta do rancor que os unia. Devagar. 

Houve fraldas e óleos e conta-gotas, nesses dez anos. Dor de ouvido, diarréia, coqueluche e sarampo.  
 
O nascimento de Aninha marcou o último ato conjunto do casal. Já dormiam, então, em camas separadas. Fruto derradeiro.
 
– Nosso dever já está cumprido – repetiu Joana como um desabafo que pudesse sal-var suas vidas.
 
Na rua, além do jardim, o trânsito se aproximava da noite nos postes e nos faróis dos automóveis. Na lenta passagem do ônibus, difícil e sofrida por causa da ladeira, perderam o ritmo de sua respiração, como se estivessem de pulmões parados. Por isso, conferiram-se com olhos tímidos, quase extraviados, sem, contudo, se encontrarem. Joana, quando o ônibus desapareceu com seu fragor, ambos anoitecidos, recomeçou a respirar como sabia, que era de forma lenta e profunda, uma respiração que a defendia dos achaques e das manias do marido. Portanto, Joana respirava em sua própria defesa. Diferente de Anselmo, que tinha uma respiração curta e rápida e respirava para atacar.  
Dever cumprido.
 
Os quatro filhos cresceram em caldo azedo, onde todos os dias. E seu crescimento era o próprio ácido que se despejava no caldo. A vida estragava-se lenta sem atender aos apelos das idades sucessivas que se passavam irreversíveis. Foi assim que chegaram as rugas e os cabelos brancos e esmaeceram todos os cheiros e perderam o brilho todas as cores. Foi assim que o corpo começou a responder com dificuldade aos prazeres que a memória continuava teimando em manter vivos.
 
As estações se passavam, mas havia os filhos para criar, e criar os filhos era deixá-los formar suas próprias famílias. Dever de pais. Aninha, principalmente, parecia não ter pressa. Era a caçula, e o silêncio dos dois não conseguia perturbá-la. Acostumada ao caldo em que se criara, dele parecia não ter vontade de sair.
 
A varanda não era mais que um lugar, o lugar onde estavam. Os vasos de antúrios já não existiam àquela hora porque as sombras se apoderavam de tudo. Joana recolheu as mãos e cruzou os dedos no regaço. Além dos vestígios do trânsito ? ruídos e luzes ? ela não via nem ouvia mais nada. Então suspirou com o corpo todo para sentir que atingira totalmente a velhice. Seu peito murcho estremeceu, mas apenas uma vibração bem leve, porque já lhe faltava o vigor para os grandes gestos. Anselmo estava com o rosto mar-cado por vincos. Sua testa, suas faces, as crateras de seus olhos, lugar algum que não trouxesse as marcas impuras de uma vida sendo aos poucos desperdiçada em favor dos filhos: aquela idéia do dever. Sua respiração, com a lenta chegada da noite, começava a serenar como chaga em busca de cicatriz. De fato ele não estava agitado como era seu costume. Vontade nenhuma de dizer fosse o que fosse naquela primeira noite só deles, sem encargos, sem filhos por que responder. Estendeu os braços ainda cabeludos sobre a mesa, uma espécie de dominação territorial, mas então não os moveu mais, como se estivessem ali aguardando, um ao lado do outro, quase paralelos. 
 
Anselmo levantou-se como um vulto escuro e ficou parado, talvez esperando alguma pergunta, uma observação qualquer, que o ajudasse a decidir. Não foi muito o tempo que esperou, pois fazia trinta e tantos anos que já conhecia o resultado. Com a chave na mão deu o primeiro passo.
 
 Bem, está na hora de fazer minhas malas.
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