revista bula
POR EM 22/07/2008 ÀS 01:14 PM

Dois poemas de Augusto Monterroso

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Na direção contrária ao ¿Por qué no te callas?, o guatemalteco Augusto Monterroso escreveu: Cuando tengas algo que decir, dilo; cuando no, también. Escribe siempre.
 
Li a respeito dele, falecido em 2003, que era um autor de minicontos. Na minha opinião, são minipoemas, como este “epitáfio”, carregado de humor, que traduzo a seguir:
 
 
Epitáfio achado no cemitério
Monte Parnaso de San Blas, S.B
 
Escreveu um drama: disseram que se julgava Shakespeare;
 
Escreveu uma novela: disseram que se julgava Proust;
 
Escreveu um conto: disseram que se julgava Tchekhov;
 
Escreveu uma carta: disseram que se julgava Lord Chesterfield;
 
Escreveu um diário: disseram que se julgava Pavese;
 
Escreveu uma despedida: disseram que se julgava Cervantes;
 
Deixou de escrever: disseram que se julgava Rimbaud;
 
Escreveu um epitáfio: disseram que se julgava morto.
 
 
Lendo os seus poemas -chamemo-os assim, talvez não mais de “mini”, pois o poema é sempre maior que a forma que ele contém- lembrei-me de René Char, E.E. Cummings, Samuel Menashes, Giuseppe Ungaretti e D.H. Lawrence. O texto traduzido a seguir poderia ser colocado lado a lado de um pansie (pronuncia-se como o francês pensée, “pansê”, título de um livro de poemas-pensamentos de D.H. Lawrence):
 
 
Cavalo imaginando Deus
 
“Apesar do que dizem, a idéia de um céu habitado por Cavalos e presidido por um Deus com figura eqüina repugna ao bom gosto e à lógica mais elementar, raciocinava dias destes o cavalo.
 
Todo mundo sabe -prosseguia em seu raciocínio- que se os Cavalos fôssemos capazes de imaginar Deus, o imaginaríamos na forma de Ginete.”
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