revista bula
POR EM 23/09/2008 ÀS 12:21 PM

A ilusão digital

publicado em

Para o professor Marcos Palacios

Mediado por interfaces várias, o homem se apropria da tecnologia e referenda o seu desejo de potência. O que antes era desconhecido, hermético, passa a ser natural, quando, conectado, brinca de deus ao ensaiar, com cores, formas e sons, o grande texto “mundo”. Com um simples toque, é capaz de viajar para as mais longínquas paragens e interagir – na ilusão de sua virtualidade – com outros mundos tão “reais” quanto os seu.

Cada mundo comporta suas peculiaridades, é preciso desvendar-lhe os códigos, as várias linguagens com as quais opera, para sentir-se inserto e dele apropriar-se. Qualquer descuido pode ser fatal, é preciso atenção total para não se deixar contaminar pelas pestes que rondam o ciberespaço, os monstros escondidos nos becos digitais, prontos para atacar o incauto navegador aventureiro.

Assim como o espaço real, o espaço digital também tem seus limites, qualquer desatenção pode custar caro ao transgressor, fazê-lo refém da própria astúcia, mas aí a pena deixa de ser virtual e passa a ser real. Cada um deve saber onde pisar, para não ser tragado pelos movediços links, ali postos, e embarcar num mar textual de mentiras e ciberilusão.
 
Para qualquer viagem é preciso precaução; as provisões devem ser suficientes para o embate da jornada; é preciso ter pleno conhecimento das vias a serem percorridas, para isso o viajante deve munir-se de bússola e mapas, é preciso não confundir as sinalizações, pois como disse o poeta: “Navegar é preciso, viver não é preciso”, mas essa precisão pode ser relativa, caso o navegante desconheça os códigos.

Depois de assegurar-se das dificuldades da viagem, de conhecer o percurso a ser seguido, e dominando aquilo que é básico a qualquer internauta/cidadão, colocamo-nos nos nossos assentos, na cadeira de nossa escrivaninha, e ali viajamos por mundos, até então inimaginados, à procura de novidades, notícias, inventos e/ou por simples curiosidades.

Basta um cabo, ou um sistema que nos permita uma conexão, para mergulharmos hipertextualmente nessa vastidão digital de convivências nem sempre amistosas, mas necessárias, como podemos presenciar, cada vez mais, a proximidade entre a blogosfera e a midiasfera, uma se alimentando da outra, ou quem sabe, uma contribuindo com a outra:  pautando ou repercutindo fatos de uma humanidade há muito esquecida.

O que antes era espaço privilegiado da mídia, de quem detinha o poder econômico, passa a ser de todos, ou de pelo menos de quem quer e tem o que dizer como o são as revistas eletrônicas, como é o caso da Revista Bula, ou dos blogs, que vem crescendo no grau de importância e passam a ter status de formadores de opinião, ganhando espaço nas páginas virtuais de grandes jornais do país, como é o caso do Blog do Noblat, só para citar um exemplo, no jornal O Globo. 

Não sei o que nos aguarda, o que vem por aí, só sei de uma coisa, os saltos são grandiosos, como o que estou dando agora: da virtualidade do meu desktop, ao apropriar-me desses ícones todos,  componho este metatexto, iluminado pelas luzes de uma tecnologia que cada vez mais me seduz e que dela sou refém. Passamos a computar horas e mais horas de navegação, “sem lenço e sem documento”, tendo como bússola apenas a nossa vontade, o desejo de romper rumo, quebrar barreiras, superar limites. Iluminados pela seqüência númerica de “zeros” e “uns”, no limite dos sem limite, na finitude do infinito, um olhar sempre atento buscando na ilusão do que vemos a linguagem mais apropriada para acalentar as nossas horas de “solidão” e “tédio”, na sala de estar do nosso mundo real.

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