revista bula
POR EM 25/03/2008 ÀS 11:07 AM

A escada que leva ao céu

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Pessoa de minha total confiança foi quem me contou. Uma dessas loiras contratadas por canais de televisão para divertir e instruir o povo brasileiro foi pega cometendo o que mais elas cometem: uma gafe dantesca. São esses os momentos em que mais sentimos a falta do Stanislaw Ponte Preta. Sentimos nós, os que tiveram a sorte de viver numa época em que ele vivia. E escrevia. Seu Festival de Besteiras que Assolam o País, além de fazer as delícias de uma geração inteira, era uma válvula na panela de pressão, que foi a ditadura de 1964, mas não eram besteiras apenas de políticos. Uma de suas frases mais célebres - “Televisão é máquina de fazer doido” - comprova a abrangência de seu olhar arguto e caberia muito bem neste caso relatado por meu amigo.

A dita loira, interrogada por alguém sobre A divina comédia, de Dante (mas isso também já é crueldade), não teve dúvida e lascou, com a maior cara-de-pau, que tinha rido do início ao fim do livro.  Pobres meninas, obrigadas que são, no fogaréu de programas ao vivo, a fingir o que não são porque não podem decepcionar seu público sempre ávido por heroínas.

Conheço muita gente que nos continua merecendo o maior respeito e que confessa honestamente não ter lido A divina comédia. Pode ser uma deficiência cultural,jamais um defeito humano. Mas nossas apresentadoras, as tais heroínas, não sabem disso.
 
A palavra “comédia”, nos séculos XIII e XIV, quando Dante viveu, não significava o mesmo que hoje. Transcrevo de um prefácio de Hernâni Donato para uma edição brasileira da Divina Comédia, o seguinte: “’cômico’ designava o estilo preferentemente adotado para tratar assuntos em que ao sublime se combinasse o trivial; o religioso ao profano; o alento ao desalento, enfim a contradição que é o homem governado por sentimentos e paixões”. Em outros autores encontra-se a palavra “comédia” com o sentido de narrativa com final feliz em oposição à tragédia, invariavelmente com final catastrófico.

Ora, minha cara apresentadora, ninguém ri das terríveis descrições do inferno, sobretudo nesta, que é a primeira concepção concreta, visual, do lugar que, segundo alguns, está cheio de boas intenções. E que dizer do purgatório, ou limbo, para onde, entre outros, foram enviados todos aqueles que viveram antes do cristianismo? Você riria do paraíso ao ver o êxtase em que mergulha o poeta ao subir até o último círculo, onde se depara com a luz perfeita, com a bondade sem mácula?

Não, por aqui, na Botocúndia temos o hábito de rir de tudo. Rimos até do céu e do inferno, principalmente quando queremos fingir que lemos um livro.

Só pra terminar, e lembrando uma entrevista recente de Umberto Eco: o inferno é infinitamente mais interessante do que o purgatório e o céu. No inferno nos identificamos, lá se encontram nossos vícios, os vícios humanos. E quem não os tem? A coisa amarela no limbo e se santifica no céu. A Beatriz, como imaginá-la a mulher amada, aureolada de luz da santidade? Com o rosto geralmente voltado para o alto e os olhos cravados no Ser Perfeito? E os círculos de anjos luminosos que ora dançam, ora cantam, tudo sem defeito algum?   

Não tenho notícia a respeito das convicções do Umberto Eco (assim mesmo, sem o “h”, como se escreve em italiano) a respeito de religião. Talvez seja ateu e, por isso, não deseje o céu nem tema o inferno. Lembro-me de que declarou sua preferência com um sorriso bastante malicioso. O que me parece indiscutível, entretanto, (pelo menos foi a impressão que me causou) é que o julgamento do mestre prende-se apenas a uma avaliação poética.
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