revista bula
POR EM 01/07/2011 ÀS 02:02 PM

O gás já está aberto. Vamos riscar o fósforo?!

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Ainda na passagem do século 18 para o 19, o economista britânico Thomas Malthus (1766-1834) alertou o mundo sobre um horizonte sombrio à espreita do Homo sapiens. Bradava ele sobre os riscos de um crescimento exponencial da população diante de um crescimento apenas linear da produção de alimentos. Sua hipótese se assentou sobre o fato de que, diante de situações mais favoráveis que as da Idade Média, a população do planeta saltou de 500 milhões para um bilhão de habitantes em 200 anos, já àquela época comprometendo a segurança alimentar. Com a demanda maior que a oferta.

Mal sabia ele que nas décadas seguintes sua engenhosa hipótese cairia em descrédito, pelo fato de que a Revolução Industrial traria em sua esteira a redentora revolução verde, ou a segunda revolução agrícola. Com a adubação massiva, os defensivos, os equipamentos tecnologicamente avançados, a irrigação em larga escala e as novas cultivares mais resistentes, a lavoura foi avançando sobre campos áridos até então, e assim a agricultura de subsistência se transformou no que hoje se conhece como agronegócio. O mundo, confiante e extasiado, assistiu a produtividade se multiplicar por dez nas terras férteis e a produção em terras ácidas se igualar à das terras de cultura. Exemplo bem próximo de nós são os cerrados, que “não serviam nem para criar calangos”, no dizer dos fazendeiros. De repente, pelas suas safras-monstro, passaram e reivindicar o título portentoso de “o celeiro do mundo”.

O verde da biodiversidade foi sendo trocado pelo verde sinistro da monocultura e as algazarras matinais da bicharada em festa cederam lugar a uma “primavera silenciosa”, na terrível e bela definição cunhada por Rachel Carson, para definir o ambiente estiolado pelo DDT (Dicloro-Difenil-Tricloroetano, pesticida usado largamente após a Segunda Guerra).

A fartura de alimentos e a nova logística de distribuição, além de outras melhorias de vida do povo, como o saneamento básico e a medicina preventiva, proporcionaram o aumento considerável da longevidade e a queda vertiginosa da mortalidade infantil. Consequência foi que em pouco mais de dois séculos a população de um bilhão de almas da época de Malthus saltou para sete bilhões em 2011. Não de almas, propriamente, que conotaria cautela e parcimônia no uso dos recursos naturais, mas de consumidores de apetite feroz e paladar aguçado, exigindo para a sua mesa o filé da produção, qualquer que seja ela, sem nenhum remorso em jogar no lixo as rebarbas, ainda que fartas e proteicas. Como os tubarões pescados, dos quais só se aproveitam as barbatanas.

O modelo veio dos Estados Unidos da América do Norte: o mercado como Deus e o consumo como o ápice de uma liturgia hedonista. (Um americano médio consome 4 ou 5 vezes mais que um chinês médio). É o ser humano conquistando a redenção em vida, não pela exploração de seus potenciais intelectivos, — seu suposto diferencial da fauna geral —, mas pelo consumo devasso e insaciável, feito uma sociedade de porcos na pocilga planetária.

Talvez Malthus tivesse sido mais assertivo durante esse tempo em que sua hipótese foi esnobada, se ele tivesse escrito mais ou menos o seguinte: a estupidez humana cresce em progressão geométrica, enquanto o senso de ética e preservação em progressão aritmética.

Não há dúvida de que a tecnologia tem dado saltos espetaculares, sobretudo nos últimos 100 anos. Só que, infelizmente, muito pouco (ou quase nada) tem feito para a conservação efetiva da sustentabilidade ambiental. Voltemos ao case cerrado. O regime de chuvas e vazão das águas ao longo do ano nessa vasta região, segundo os ambientalistas é regulado basicamente por dois fatores: a umidade da mata amazônica e a esponja dos planaltos do cerrado.

A umidade “desce” no Norte para o Centro-Oeste em comboios de nuvens, pelas vias aéreas do planeta. Em condições propícias, essas nuvens se convertem em chuvas sobre a vasta região ao longo de 6, 7 meses do ano. O cerrado, com seu sistema de retenção formado pela biodiversidade, se encarrega de estocar essa água numa esponja no subsolo, que se costuma chama de lençol freático. Essa esponja alimenta as nascentes, os olhos d’água, os ribeiros, os riachos, os rios da região, mantendo-os perenes até o novo ciclo de chuvas do ano seguinte.

Mas o engenho humano, em sua sanha por fartura imediata, o que está aprontado com essa máquina que vinha funcionando como um relógio suíço? Está progressivamente desmatando a mata amazônica e logo chegará a um nível em que a impeça de fornecer suas nuvens ao Centro-Oeste, ou as fornecerá em volume muito abaixo do desejado. O cerrado, que até hoje não alcançou o status de bioma prioritário para preservação, na Constituição Federal, vai sendo desmanchado numa velocidade estonteante, sem qualquer ação efetiva de preservação estratégica para a manutenção da esponja controladora da vazão e perenização das veias de água.

Não é necessário dispor de inteligência privilegiada para saber em que desastre essa ação conjunta e viciosamente interativa vai dar. O cerrado sem chuvas e sem rios perenes será um deserto poeirento e encalorado, insalubre para quase todo tipo de vida. A não ser a algumas bactérias e piolhos-de-urubu (um inseto tinhoso que sobrevive em funis cônicos cavados na areia ou mesmo na poeira). E sabe o que os técnicos de nossos centros de inteligência (que bem poderiam ser de estupidez) têm feito para enfrentar o iminente problema? Seleção de cultivares que possam se desenvolver em meio mais quente e menos úmido. E os nossos legisladores de plantão? Aprovando leis que perdoam os estragos já feitos e dando claros sinais de que se mais estragara mais perdoara.

Mas a velha hipótese de Malthus não está perdida. Agora que a humanidade atinge a marca psicológica de 7 bilhões de habitantes e ameaça chegar a 10 em 2083. Agora que as fronteiras de expansão agrícola vão chegado a seus limites. Agora que a revolução dos transgênicos já dá sinais de limites na produtividade, a previsão sombria de que a haverá um enorme descompasso entre a produção e a demanda de alimentos volta a espreitar nos horizontes da humanidade.

Enquanto isso, o mercado ao redor do mundo promete levar o povo a níveis de consumo semelhantes aos dos americanos, não se importando que isso levará o mais rápido possível à exaustão dos recursos naturais. E povo festivamente busca a redenção! O modelo de exploração sem remorsos dos potenciais do planeta já foi vendido. Só falta agora a sua verdadeira universalização. É como se a gente tivesse aberto o bico do gás. E agora partisse para riscar o fósforo.

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