revista bula
POR EM 23/02/2012 ÀS 03:03 PM

O futuro: adeus, pertences!

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A dizimação e o esgotamento da natureza envolvem causas e feitos complexos. E mesmo sendo o Homo sapiens, pela própria condição, a única espécie animal (embora nossa cultura tradicional quer que sejamos divinos) que poderia se sentir no dever moral de fazer algo efetivo pela preservação da própria vida na Terra, não tem encontrado no conhecimento uma família de pensamento ético que lhe dê segurança psicológica de que vale a pena o sacrifício. É neste contexto, que tenho dito em artigos desta série que, quando o assunto é preservar nossa célula de sobrevivência, o suporte da vida, que é a biosfera, a razão está subjugada pela emoção e a inteligência está a serviço da estupidez.

Ocorre que a maioria de nós funciona melhor e na maior parte do tempo no plano intuitivo e só ascendemos (ou descemos?) ao plano crítico quando somos forçados por algum dilema no plano intuitivo. Em complemento, uma postura hedonista é que orienta nossos atos. Afastamos de alguma coisa se ela nos causa dor ou desgosto e aproximamos de outra se nos causa prazer ou satisfação. Odiamos quem nos repreenda e amamos quem nos elogie. Preferimos um elogio falso a uma repreensão sincera. Quem diz o contrário ou o faz por hipocrisia ou por um surto de racionalidade. Zelar pela preservação do meio ambiente requer desligar o piloto automático da intuição e agir em grande parte com o lado racional e crítico, impondo a si mesmo, aos seus e à sua geração algum tipo de sacrifício e dor. Ou pelo menos a mudança de alguns hábitos e a possível descoberta de outros prazeres que estão além do meramente emocional.

Numa situação assim, não é possível esperar que as pessoas, por atos de simples abnegação, comecem a fazer coisas em sua vida que impliquem em maior respeito ao meio ambiente. Posso até, em algum momento de reflexão, pensar que preciso fazer alguma coisa pela “nossa casa”, mas logo retorno à vala comum das atitudes da “inteligência emocional” em que o hedonismo (prazer e dor) vão orientar meus atos pessoais, sociais e até e sobretudo no tocante ao uso dos bens naturais.

Essas breves considerações nos levam a uma conclusão lógica: a preservação ambiental tem que ser uma iniciativa das corporações e dos governos, por terem, em tese, condições de, a partir de planos racionais e projetos de longo prazo, engendrar políticas e ações que façam com que a sociedade suporte (por meio de investimentos, imposições e compensações) o peso do sacrifício. E também porque as pessoas possam ter a percepção de que o sacrifício é geral e ponderado. Que o grupo, a sociedade inteira, está contribuindo com a causa. A primeira ideia que nos ocorre é que seja injusto que eu preserve e o outro desbaste.

Ocorre que essa conclusão é um tanto quanto enganosa. Há uma reiterada falta de interesse por parte dos dirigentes públicos pelo tema. Qualquer assunto que não traga resultados políticos — e votos! — no curto prazo está fora de cogitação de nossos governantes. Preservação ambiental é um sacrifício coletivo, de benefício difuso e de resultado a longo prazo. Muitas vezes o resultado virá é para a próxima geração (Teremos oportunidade de discutir este aspecto em outro artigo).

Talvez esteja aí um dos maiores desafio da democracia: encontrar alguma forma de atender às necessidades reais dos governados enquanto os governados querem apenas ver atendidos os seus desejos. (Exemplo de distinção entre necessidade e desejo: tenho necessidade de preservar o bosque porque ele ameniza o clima da região, mas meu desejo é derrubá-lo e converter suas árvores em espécie monetária para gastar na balada). Digo que é um desafio da democracia, até porque está fora de cogitação acreditar que exista alguma forma de organização política e social conveniente que não contemple a democracia. Mas diante do grande desafio e da urgência do problema ambiental, a democracia tem que achar uma forma de superar essa deficiência de só governar para atender aos desejos do povo e ficar de bem nas pesquisas de popularidade.

E as corporações, o que podem e devem fazer? Numa clássica definição, empresa é uma pessoa fictícia (meramente jurídica) criada por pessoas reais para atender às necessidades humanas. Ou seja, a dificuldade que uma pessoa real tem de defender o meio ambiente será sem dúvida transferida para a pessoa fictícia. A pessoa jurídica, a corporação, leva em seus “genes” a dificuldade de origem em investir em atividades de retornos incertos e tão diluídos, que não impactem positivamente no balancete no final do semestre. As corporações trazem por princípio, uma tendência humana de trocar o atendimento das necessidades pelo atendimento dos desejos.

O que mais vemos hoje em dia são empresas alardeando que seus empreendimentos são sustentáveis, que seus projetos contemplam a preservação ambiental. No entanto, são apenas esforços de marketing. Com isso refrescam a consciência dos acionistas por crerem (ou fingirem crer) que são investidores de uma empresa que está cuidando da natureza. Por outro lado criam um relacionamento simpático com a clientela que pensa estar dando sua contribuição, quando compram produtos impregnados de suposta ética ambiental. No resumo da ópera, esse marketing societal (nome que se dá a ações que supostamente beneficiam a sociedade) apenas aumenta o consumo, com possível avanço sobre os bens naturais. Em outras palavras, as empresas apenas passam batom sobre os lábios cancerosos.

Mas a questão preservacionista é urgente. Urgentíssima! Se não agirmos já, no futuro, adeus, pertences!

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