revista bula
POR EM 24/01/2010 ÀS 07:20 PM

O dragão da toca, o incrédulo e o maria-vai-com-as-outras

publicado em

Criacionismo x Evolucionismo

De quando em quando, sem prévia agenda, acontece naquela cidade estranha de um país remoto, um evento que causa muita dor, morte e comoção a boa parte de seus habitantes.
           
Ao nordeste, existe um morro um tanto sinistro, que pode ser avistado de qualquer ponto do município. Em sua metade superior tem uma caverna medonha, com a cloaca voltada para a cidade. E aquela pantagruélica fissura, pelo menos uma vez em cada geração, arrota um fogo pestilento capaz de chamuscar tudo e todos que se acharem pela frente.
           
Há uma crença firmada que vem dos antigos. Aquela caverna seria a morada de um dragão remanescente de um tempo em que o mundo era habitado por animais fantásticos e homens gigantes. Aquele exemplar feroz teria sido poupado por Deus por ocasião de seu extermínio para cumprir uma tarefa específica: eliminar gente de porção, toda vez que Deus tivesse uma necessidade urgente de ampliar seu rebanho no céu. Em troca, a terra calcinada pelo seu hálito ficaria mais salubre, fértil e produtiva. Morrer queimado pelas chamas do morro passou a ser o sonho de consumo de muita gente, pois se a vida aqui não estava lá essas coisas, a morte pelas chamas era garantia prévia de ser escalado para adentrar os fechos pecuários do Divino Pai Eterno, sem conversão ou muito esforço pessoal.
           
Essa crença contém os três elementos básicos da formação de um dogma: vem de longe, sendo reproduzida pela tradição; foi revelada em delírio ou em sonho para alguém; e esse alguém era detentor de autoridade em grau bastante para proclamar aquilo que deveria ser tomado como verdadeiro.
           
Para os maria-vai-com-as-outras a história contada e recontada estava de bom tamanho. Questionar qualquer dogma é um pecado mortal, além de que é muito mais cômodo aceitar a história como verdade, sem questionar, do que ficar caçando chifres em cabeça de cavalo. Até porque o conhecimento antes de nos mostrar o quanto somos sabidos, nos mostra o quanto não sabemos nada.  
           
Mas havia um grupo de incrédulos. Um grupo pequeno, é bem verdade. De vez em quando essa turma munia-se de ferramentas de alpinismo e rapel e buscava aproximação da caverna na tentativa de comprovar a tese de que ali não havia nenhum dragão remanescente de uma era mágica. Que se tratava mesmo era de um vulcão atípico de atividade esporádica e sazonal.
           
Certo dia o grupo conseguiu escalar o morro e adentrar a caverna. Mas coincidiu que foi exatamente na hora em que o vulcão soltou um arroto e não sobrou nenhum para contar a história dos demais. Esse fatalismo serviu para robustecer ainda mais as crenças no lendário dragão e suas mortes redentoras.

Trazendo a lenda do dragão da caverna daquele país remoto para a nossa realidade cotidiana, podemos ver que as pessoas se comportam diante do mistério de duas maneiras básicas: ou como os incrédulos (em pequena parte) ou como os maria-vai-com-as-outras (em sua grande maioria).
           
Sobre os mistérios do surgimento da vida, por exemplo. É muito mais cômodo acreditar a priori que em determinado momento Deus abriu sua agenda no meio do nada e começou a ticar seus itens previamente anotados: Façam-se os céus e a terra — e tica a primeiro item; haja luz — e tica o segundo item, e assim por diante, até chegar no quinto item e decreta o surgimento da vida. Toma ainda algumas providências de arremate e vai dar uma descansadinha, que ninguém é de ferro.
           
Mas aí vêm os incrédulos com suas inconvenientes indagações. Querem escalar a montanha e certificar o tipo sanguíneo do dragão que não há. Levantam a hipótese de que a vida teria surgido há cerca de 3,5 bilhões de anos atrás, no meio de uma sopa primordial em condições sui generis. O primeiro indivíduo com vida, um germe apenas, como um grão de brasa no carvão, surgido pelo acaso, foi se desenvolvendo com seu instinto orgânico de tentativas e erros e seu faro congênito para saber o que é e o que não é bom para edificar a partir daí o princípio da evolução das espécies.
           
Aquelas bactérias minúsculas foram se organizando em mutualismos, comensalismos, simbioses, parasitismos etc. na defesa precípua de seus interesses corporativos. Criou organismos maiores, mais complexos, com órgãos especializados. “Pensou” em algo com uma espinha dorsal com um feixe nervoso em seu miolo. “Pensou” no cérebro como um centro de comandos. E assim criou animais de todas as faunas. Uma das últimas criações daquelas bactérias tinhosas foi o ser humano, com o seu diferencial da razão e sua possibilidade de, ao modo das bactérias ancestrais, também criar suas próprias ferramentas.
           
Sim. Suas próprias ferramentas. Para as bactérias nós somos a roda, a esteira de tração, o alicate, a chave de boca, a verrumas, o motor a propulsão, a máquina de escrever, o aparelho de ultrassom, a fibra ótica, o chip, enfim. Porque nós e todos os seres de fisiologia complexa, somos apenas ferramentas de uso e disposição das velhas e boas bactérias. Somos o conduíte por onde elas transitam de uma geração a outra com o propósito de perpetuação. E nós as chamamos carinhosa e singelamente de gens.
           
Alguns teólogos de convicção criacionista, essa que Deus abriu a agenda e executou seu trabalho, argumentam que a hipótese da evolução é absurda. Se assim fosse, dizem eles, teríamos que admitir que se jogássemos um punhado de ferro e outros minerais em um poço, em anos aquele material se organizaria de tal forma que poderíamos recolher um relógio suíço.
           
Ora, esse argumento, apesar de já ter convencido meio mundo, me parece um tanto ingênuo e inconsistente. O teólogo que formulou seu argumento não assistiu no ginásio às aulas de biologia e de química. Se não ele saberia distinguir a matéria orgânica da inorgânica. O relógio suíço é feito de matéria inorgânica, que já se acha estabilizado em seu condicionamento atômico, portanto não sujeito à evolução. Quando muito a reações químicas de natureza inorgânica. Já os seres vivos foram forjados a partir da matéria orgânica. Com o atributo da vida, que é uma chama intuitiva congênita, e como já dissemos, é capaz de tentativas e erros, com possibilidades de achar a melhor solução e a ela se adaptar.
           
Mas voltando à nossa parábola do dragão, aquelas pessoas incrédulas se comprovassem sua tese de que o dragão não existe, mas se trata apenas de um vulcão atípico, com sua chaminé lateral, estariam debelando um mistério e estabelecendo outros. Como pôde subsistir, só naquele lugar, um vulcão com aquelas características tão arrevesadas? Quando e por que ele exala seu bafo mortífero? E tantas outras perguntas que continuariam sem respostas. Mas certamente essa descoberta já serviria para que uma legião de maria-vai-com-as-outras não se estabelecesse no leque de sopro abrasador do vulcão e assim poupariam muitas vidas.  O ateu é um crente em profundidade. Crê numa verdade, não naquela estabelecida superficialmente, sem questionamentos. Mas numa verdade mais recôndita, demonstrada e comprovada, ou pelo menos especuladas logicamente.
           
O ser humano, com seu conhecimento e curiosidade, provavelmente nunca abolirá por completo os mistérios do mundo. No entanto, parece que a vontade de cada geração é estender alguns passos para mais longe a raia do que é plausível. Pena que nossa cegueira moral não nos permite evoluir na mesma velocidade, seja no sentido ético, seja no sentido conservacionista da própria espécie. Daí ser o progresso uma faca de dois gumes: ao mesmo tempo em que nos liberta, nos ata a um destino fatal de autodestruição, cada vez mais turbinado.

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