revista bula
POR EM 15/12/2011 ÀS 07:25 PM

O céu (danificado) pode esperar

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Posso até estar enganado, mas não há um assunto mais importante e urgente para o governo, em parceria com toda a sociedade brasileira, do que promover ações efetivas para a redução nas emissões de CO2 e estabelecer políticas econômicas baseadas em sustentabilidade ambiental. No entanto, o governo anda ocupado demais com espumas para cuidar do caldo.   

Por que essa urgência e essa importância? Ocorre que qualquer outra ação do governo que venha a se frustrar, o estrago advindo será menor do que aquele provocado por uma eventual ruína de nossos biomas. Afinal, constituímos um país em que a riqueza está basicamente amparada pelos recursos climáticos e naturais. É claro que em qualquer lugar do mundo o ambiente se constitui no suporte da vida. Mas no Brasil, além de ser o suporte da vida, é também o suporte da grana.   

O governo Dilma herdou do governo Lula uma proposta, ainda que meia-boca, que tenta conciliar crescimento econômico com preservação ambiental, começando com a meta de reduzir 39% das emissões de carbono até o ano de 2020. Aliás, esta foi a bandeira que a então candidata Dilma abanou aos ambientalistas. Ao que parece, a presidente Dilma até agora não acordou para o problema. Ou pelo menos não tem  conseguido se desvencilhar de questões supérfluas e menores, que vêm vampirizando seu sangue administrativo e exaurindo as forças de comando. Seu governo não consegue energia extra para aplicar à governança além das questões das demissões em série de seus ministros trapalhões. Foram sete rodados em 11 meses e é possível que mais um ainda rode para fechar o ano numa conta mais cabalista e simétrica, de um ministro defenestrado a cada 45 dias.   

Então o que se vê, segundo os especialistas, é uma queda brutal de prioridade do tema na agenda do Planalto. O que Lula avançou em 2008 e 2009 (paralisou em 2010), Dilma retrocedeu em 2011. 

Além das demissões seriais, outras ocorrências enfraquecem o apego do governo à preservação. Um deles é a realização da Copa em 2014. Outro são as olimpíadas de 2016. Tudo o que se faz é pensando na Copa em primeiro lugar e secundariamente nas Olimpíadas. (Até já escrevemos um artigo neste espaço sobre o assunto com o título: Os benefícios do pensamento singelo.)  Outro ainda, sem dúvida, é a discussão acalorada sobre o projeto do Código Florestal pelo congresso, como se a nova peça jurídica fosse trazer soluções mágicas ou mesmo novos rumos à questão de tal modo a deixar qualquer ação preservacionista obsoleta ou fora do foco.  

Os grupos interministeriais para discutir e apresentar diretrizes ficaram mornando, cozinhando o galo de suas responsabilidades. Dizem que as reuniões às vezes até acontecem, mas com pauta frouxa e sem rumo. Os ministros que deveriam se fazer presentes e liderar as discussões, acabam mandando representantes para “assinar a frequência”. 

Assim, as metas intermediárias para que o país chegue com a redução de 39% na emissão de seu gás pernicioso, ficam empacadas (não vai aqui nenhuma referência ao PAC que também parece não ir bem).  

O governo já abriu o bico em relação aos planos detalhados dos cortes de emissões em 11 setores, da indústria à agropecuária, que seriam apresentados em 15/12/2011. Não ficarão prontos. O Fundo, que aplicaria 380 milhões em 2011 em financiamento de ações para a redução de emissões pela indústria, não aplicou nenhum tostão. O plano de reduzir em 80% o desmatamento da Amazônia até 2020 vai de mal a pior; 2011 deve fechar com um desmatamento maior que 2010. O governo criou um fundo de R$ 2 bilhões para investir este ano em agricultura de baixo carbono. No entanto, está fechando o ano com o desembolso pífio de 110 milhões, ou seja: 5,5% da meta.  

Vai aqui um esclarecimento: A redução de 39% da emissão de CO2 até 2020 não significa que iremos produzir 39% menos poluição em 2020 do que produzimos hoje, o que seria um plano realmente ousado. A meta do governo é reduzir em 39% da diferença entre o que emite hoje e o que emitiria em 2020 se nada fosse feito. Na verdade, mesmo que o governo cumpra suas metas ambientais, estaremos poluindo brutalmente mais do que hoje.

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