revista bula
POR EM 28/05/2012 ÀS 09:37 PM

Felicidade é emitir gás estufa

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Nossas máquinas são poderosas e a tecnologia avança numa velocidade que até dá vertigem. O nosso jeito de ser civilizado, com o desenvolvimentismo a todo custo, nos conduziu a um momento na história da Terra em que temos nas mãos o poder de traçar o nosso próprio destino como espécie. É a Era Antropozoica, já reconhecida pelos estudiosos do assunto. Que fique claro que não se trata uma verdade absoluta. É mais ou menos como as doenças evitáveis. Uma pessoa pode optar por não ser fumante, acreditando que com isso vai evitar o enfisema e o câncer nas vias respiratórias. No entanto, por outras razões, artificiais ou naturais (genéticas, por exemplo) essa pessoa pode vir a desenvolver uma dessas doenças. Podemos fazer todas as lições da sustentabilidade e mesmo assim sermos exterminados pela patogenia de um vírus mutante, ou mesmo por uma pedrada sideral, como se acredita ter ocorrido com os Dinos, há 65 milhões de anos.

Mas o fato é que o velho mandamento do Pentateuco “Crescei e multiplicai-vos, enchei a Terra e submetei-a” foi cumprido da forma mais bruta e cabal. A manada humana atingiu um número assustador de indivíduos e nossa civilização chegou a uma concepção de vida em que viver consiste em ser feliz. E felicidade é consumir. E consumir implica em emitir gás estufa, consumir o planeta com a mesma voracidade com que as lagartas consomem as folhas de jasmim. Nossa felicidade é poluidora, daí que adotar um novo estilo de vida, que seja ambientalmente sustentável, nos causaria imensa dor. O que queremos é ser felizes. Ainda que com isso estejamos comprometendo a nossa própria continuidade. Trocar o nosso conceito de felicidade, ou mesmo abrir mão da felicidade no conceito atual parece estar fora de cogitação. Este motivo vem se juntar aos demais que já listamos em outros artigos das razões pelas quais é muito difícil tomarmos uma atitude efetiva, no particular e no coletivo, que implique em maior sustentabilidade dos recursos naturais.

Já existe um descompasso entre o consumo e a regeneração ambiental. Segundo o "Living Planet Report" do Fundo Mundial para a Natureza (WWF) “no final do anos de 1980, a humanidade passou a consumir recursos mais rapidamente do que a Terra poderia regenerá-los, e essa lacuna está aumentando a cada ano. Os impactos planetários dos estilos de vida altamente consumistas praticados no mundo industrializados não podem ser generalizados: o fato é que o planeta simplesmente não é capaz de arcar com muitas pessoas que consumam como os norte-americanos”. Segundo um estudo que pode ser visto em aqui, se todo mundo vivesse da mesma maneira que um norte-americano médio, simplesmente precisaríamos de 5,3 planetas com recursos semelhantes aos da Terra. E até agora os poderosos olhos do Hubble não vislumbrou nem 0,3 planeta com essas características na imensidão dos anos-luz do firmamento em que seu olhar perscruta infatigavelmente.

E, para preocupação geral do dos terráqueos, essa disparidade de consumo entre um cidadão de país rico e outro de país pobre, antes de gerar a necessidade de se buscar maior parcimônia e equilíbrio no consumo dos bens, gera mesmo é a sensação de injustiça. Primeiro a pergunta fatal: por que eles consomem tanto e nós consumimos tão pouco? Ou seja, por que eles são tão felizes e nós tão fracassados? Os grandes consumidores não perguntam nada. Num segundo momento, essa sensação de injustiça vai se agigantar, quando vierem as intempéries do clima (elevação dos mares, secas, dilúvios, calor horrível, desertificações, declínio da fertilidade do solo), as doenças e a escassez de todo tipo e os pobres do mundo saberem que o seu terror é consequência direta da felicidade auferida por outros que acabaram por brocar o planeta antes que os pobres tivessem acesso à felicidade.

Quanto se trata de poupar a natureza e, por consequência, a vida, o mundo está cheio de Pilatos. A china, por exemplo, que já vem alçando-se à condição de o maior emissor de gás de efeito estufa em razão de ter se tornado o chão de fábrica do mundo, já avisou: “Precisamos de um novo modelo de desenvolvimento que signifique altos padrões de vida com emissões mais baixas per capta. Se alguém encontrar esse modelo, a China o seguirá.” 

Enquanto ninguém assume uma posição moral e efetiva de defender a plataforma que nos sustém, os indicadores econômicos, ao estilo norte-americano, continuam sendo o talismã da civilização. Ou seja: é mais importante o registro de crescimento e lucro no balanço do fim do ano do que assegurar a existência da vida no final do século.

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