revista bula
POR EM 22/11/2010 ÀS 08:32 PM

Deus me livre de mim!

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A razão é um atributo do Homo sapiens, uma especificação de fábrica que nos distingue da fauna geral. A razão nos leva a certas práticas que são tipicamente humanas, tais como a cultura, o desenvolvimento do conhecimento e sua acumulação, a reflexão sobre as próprias atitudes e aprender com os erros próprios e dos outros, principalmente a melhoria da condição de vida através da capacidade empreendedora. Talvez seja por isso que  ainda nos primórdios da civilização essa capacidade foi reconhecida e legitimada como um mandamento divino. Daí o Deus de Abraão ter ordenado em suas primeiras manifestações formais: Crescei e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra.

Este é por certo o mandamento que o homem mais vem cumprindo à risca. Até com certo garbo e arrogância. Porque aqueles outros (não matarás, não roubarás, não desejarás a mulher do próximo, respeitarás pai e mãe, não levantarás falso testemunho etc) o ser humano, como coletividade, não tem dado a mínima. E parece que enquanto mais avança no desenvolvimento das ferramentas, esses ditames ancestrais, que bem poderiam ser perenes, vão caindo no esquecimento coletivo. Já na questão de dominar a terra, de avançar sobre os bens naturais, sem ao menos os importar com os malefícios que nossas ações possam nos trazer, seja para a nossa geração, seja para as gerações futuras, temos sidos convictos, muito além da conta.

Nosso instinto empreendedor está eivado de pulsões de vandalismo. Estudos biológicos comprovam que a parte do cérebro que comanda o nosso senso empreendedor está acondicionada juntamente com resquícios evolutivos de propensão  vandalista,  do tempo em que as aves eram o tope da linha da criação animal. As aves são vândalas por princípio. Uma galinha, por exemplo, é capaz de jogar tudo pro alto e por terra, numa ciscação medonha, se tiver esperança de encontrar um grão que seja de cereal num ambiente. Outro dia, caminhando pelo Parque Vaca Brava, pude perceber que as flores de um ipê amarelo caiam metodicamente, uma depois da outra, numa sequência frenética e desesperada. Observei que entre a ramada havia um periquito ordinário, cortando flor por flor, numa fúria incontida. Observei, ou deduzi  que ele não tirava nenhum proveito derrubando as flores daquele modo. Aquilo apenas atendia à ânsia de empreendedorismo vândalo das aves, ao instinto de promover a bagaceira. Os agricultores sabem que quando as maritacas atacam os arrozais o estrago é total. Não porque elas comem tudo, mas porque elas derrubam os cachos, comendo alguns grãos, aqui e ali. Daí ser preciso vigiar a roça com argumentos de fogos ou alguns espantalhos em forma de palhaços Tiririca, distribuídos em pontos estratégicos.

Nós humanos somos assim. Com relação ao planeta, o suporte de nossa vida, nós somos a galinha ciscadeira, o periquito na florada do ipê amarelo, a maritaca no arrozal maduro. Somos o bicho feroz de nós mesmos. Um ladrão quando mata alguém para lhe retirar um simples par de tênis, ou um empreendedor que aterra as nascentes de um córrego para que o loteamento dê umas unidades a mais, está cumprimento esses comandos infelizes de cérebro de galinha, que também são nossos. Com a diferença que a galinha não tem os dispositivos da razão para lhe sofrear os instintos tóxicos e o Homo sapiens tem essa reserva moral a que pode recorrer, quando quiser, para orientar eticamente suas atitudes.

No entanto, o Homo sapiens, é um animau çinixtro, pois mesmo tendo os meios adequados para agir com correção e ética, ele se deixa convenientemente dominar por seus instintos de galinha. Está mais ligado no que julga ser o bem-estar pessoal imediato em detrimento do bem-estar coletivo duradouro. Se for possível apresentar lucro no balanço no final do mês, não se importa em causar prejuízo perpétuo para a vida, em todos os seus quadrantes. 

O vandalismo de autoaniquilamento do Homo sapiens é um projeto coletivo que perpassa a todas as instituições humanas. A religião, a política, a economia, o mercado, tudo. Aliás, as religiões, pelo menos as de orientação cristã, têm se esmerado na criação das condições que levem o homem à autodestruição. Para essas religiões, o ser humano caminha fatalmente para um momento de Apocalipse, da revelação final. Não tem como torcer. Crescer e multiplicar-se etc. são o modus operandi dessa máquina escatológica, que haverá de aniquilar a todos, criando assim as condições propícias para que o Messias, um Deus super-herói pimpão, todo poderoso e socorrista nos redima da desgraça final. Quando já não tiver ficado pedra sobre pedra e houver estabelecido o choro coletivo e o ranger de dentes geral.

Depois desse susto imenso e desse protagonismo espetacular, será edificado seu reino pacífico e ordeiro, sem os tais instintos de galinha que contaminam a razão humana em nossa condição pré-apocalipse. Um reino quiliásmico (de mil anos). Todo mundo fará parte desse reino: cristãos, judeus, espiritistas, muçulmanos, budistas, animistas. Até os ateus terão seu lugar e ficarão por ali, meio vendidos, com cara de budão.  Os vivos e os mortos de todos os tempos serão convocados, inclusive os fetos vítimas de aborto. Os mortos serão plenamente restabelecidos em sua conformação de carne e osso e os vivos mantidos como se acham, num botox integral e definitivo. Onde haverão de se abrigar tanta gente? Pelo menos o Apocalipse de João não dá pistas de que vá haver espaço físico pra todo mundo. O livro medonho fala de uma Nova Terra, sem dar conta de que haverá algum planeta salubre em anexo, ou mesmo um pedaço em forma de aplique a este que temos o costume de habitar e afligir. Didaticamente, a ordem de arrasar o planeta está no primeiro livro da Bíblia e a superstição de que seremos salvos numa ação espetacular está no último.

Esse utopismo desbragado, que está na base de nossa cultura (considerando que do ponto de vista sociológico até ignorância é cultura), legitima qualquer ação humana que seja para dar relevo e implemento ao nosso desenvolvimentismo teleológico (com uma finalidade previamente estabelecida: o Apocalipse). Podemos destroçar os biomas, como a mata atlântica, o cerrado, o mangue, as coxilhas, a mata amazônica. Podemos derramar petróleo no mar, sem culpa, nem dó. Podemos atufar ruas e vias do mundo com nossos carrões irados, defecando veneno. Podemos mudar de discurso num repente, como o governo brasileiro que defendia o etanol com fervor apostólico pela sua baixa toxidade ao meio ambiente, mas foi só pintar o petróleo do pré-sal, acenando com a possibilidade de uma grana mais avultada, que o discurso mudou num passe de mágico.

Por dindim podemos puir nossa camada de ozônio com nossos gases peçonhentos, podemos rebentar com o equilíbrio climático, podemos emporcalhar a água, podemos moer a pau as condições favoráveis à vida. Afinal estamos apenas cumprindo o mandamento de crescer e multiplicar, dando vazão ao nosso instinto predatório de galinha e nos aproximando da revelação final, para o exercício do protagonismo divino. Para isso serve mais o instinto ancestral do que a razão adquirida já na condição humana.

Não consigo me ver no espelho de minha consciência sem me assustar: Deus me livre de mim.

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