revista bula
POR EM 03/10/2012 ÀS 10:20 PM

Tetro, de Francis Ford Coppola

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Toda arte é a sua contingência. Transcender não é ignorar os limites, ao contrário, é ter consciência deles. Um filme não existe fora do cinema. Antes de ser um gênero, é um filme e disso ele não escapa. Seu foco é a sua própria natureza: seja qual for o desdobramento, volta para si mesmo. É preciso abordar o cinema para fazê-lo. Grandes cineastas transformam esse destino, essa camisa de força, em grande arte. Como Francis Ford Coppola, por exemplo, tanto como diretor contratado em estúdio de “O Po­deroso Chefão” quanto no independente “Tetro”. Entre esses dois polos, ele trafega entre a celebração e maldição procurando manter o foco. O gênio que acaba transgredindo faz filmes, não sucessos ou fracassos.

O que é Godfather? Cinema. Marlon Brando imita Eward G. Robinson, paradigma do chefão mafioso de Hollywood desde Little Cesar (1931), colocando bochechas falsas para convencer os chefões de que ele era o ator certo. Gestos étnicos como bater na cara do interlocutor e que são confundidos com a italianidade. O clipe do batismo coincidindo com a eliminação da concorrência. A música pontuando a narrativa. Assim também, “Tetro”, colagem cinematográfica em que o cineasta busca a própria identidade, que em vez de estar na família, está no próprio cinema. As chamadas citações de filmes fazem parte da carne de que é feito “Tetro”. Duas obras da dupla inglesa Michael Powell e Emeric Pressburger , “Red Sho­es” (1948) e “Os Contos de Hof­fmann” (1951), fazem parte da memória doméstica, mas no filme é a substância da postura artística assumida pelos Tetrocini, em que a originalidade e o talento convivem com grandes obras, da música à dança, a literatura e ao cinema. O tempo presente é em preto e branco, origem do cinema, e a memória é em cores, a ilusão de uma vida equilibrada e perfeita que se estilhaça em acidentes, concorrência, retaliações, vinganças, separações, dor e morte.


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POR EM 02/10/2012 ÀS 11:03 PM

Gabriel García Márquez: o escritor em seu labirinto

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Um trabalho acadêmico sobre Gabriel García Márquez serviu para resgatar memórias pessoais e ao mesmo tempo mergulhar na representação dos mitos do heroísmo sul-americano. García Márquez, mestre em desvendar o imaginário de uma cultura pontuada pelo exagero, nos dá no seu livro “O General em Seu Labirinto” um quadro terrível de Símon Bolívar, o ex-líder que faz uma descida aos infernos ao longo de um rio. Exatamente o contrário da ascensão que sua lenda experimenta hoje, cercada de equívocos por meio de eventos políticos.

Por isso, é bom resgatar a literatura no que ela tem de mais contundente, a capacidade de nos abrir os olhos e o coração para as muitas faces da opressão.

Onde andará meu Quixote? A edição espanhola de bolso, em papel bíblia, cheia de ilustrações, que alguém me deu de presente nos anos 1960, deve andar perdido em algum canto da biblioteca improvisada ao longo do tempo na minha casa. Especialmente as ilustrações desse primoroso exem­plar são a pista fundamental para analisar o livro de García Már­quez. Um quadro representando de Bolívar deitado fez emergir na minha memória os desenhos e pinturas dessa edição comemorativa do romance de Miguel de Cervantes. Nessas imagens, o cavaleiro da triste figura jaz, no fim da vida, enlouquecido e alquebrado pelas lutas contra gigantes imaginários.


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POR EM 30/09/2012 ÀS 07:28 PM

Japoneses praticaram canibalismo na Segunda Guerra Mundial

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Antony Beevor lançou na Eu­ropa o que está sendo consi­derado um de seus mais im­portantes livros, “A Segunda Guerra Mun­dial”, com 1200 páginas. O filósofo John Gray escreveu, no “New Statesman”: “Esta é a narração mais completa e objetiva sobre o curso da guerra. E a mais comovedoramente humana que já se es­creveu”. O historiador Max Has­tings disse, no “Sunday Ti­mes”: “Ninguém sabe melhor que Beevor como traduzir a dura matéria da história militar em um drama humano vivo, co­movedor e impactante”.

Pesquisador infatigável, e não um mero consultor da bibliografia, Beevor descobriu que militares japoneses usavam prisioneiros de guerra como “gado”. Segundo resenha de Guillermo Altares, do “El País”, “eles eram mantidos com vida só para serem assassinados, um a um, com o objetivo de serem devorados”. Era “uma estratégia militar sistemática e organizada”. Não era um ato isolado. Entre as vítimas estavam papuenses, australianos e norte-americanos.

Os Aliados, embora informados da história, optaram pelo silêncio, para não chocar as fa­mílias dos militares mortos. Al­tares relata que, para Beevor, a Segunda Guerra Mundial “não começa com a invasão da Polônia, e sim um mês antes e em outra parte do mundo, em agosto de 1939, no rio Khalkin-Gol. Aquela batalha, na qual o Exército Vermelho derrotou os japoneses na Manchúria, demonstrou que Zukhov era um dos grandes generais soviéticos e significou uma grande lição para Tóquio, que abandonou a intenção de abrir uma segunda frente na Sibéria. Se Stálin tivesse que proteger sua retaguarda no Extremo Oriente, o conflito talvez tivesse sido muito diferente”.


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POR EM 30/09/2012 ÀS 06:47 PM

Os 50 melhores filmes de todos os tempos segundo a revista inglesa Sight e Sound

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O filme “Um Corpo que Cai”, de Al­fred Hitchcock, foi eleito o melhor filme de todos os tempos, em pesquisa realizada pela revista “Sight and Sound”, do British Film Institute. “Um Corpo que Cai” assumiu o lugar que há 50 anos era ocupado por “Cidadão Kane”, de Orson Welles.

Para chegar ao resultado, a publicação entrevistou 846 críticos de cinema, acadêmicos, distribuidores, roteiristas e programadores de todo o mundo. “Um Cor­po que Cai” (1958), entrou pela primeira vez na pesquisa em 1982 — dois anos depois da morte de seu diretor — e ficou na sétima posição. Em razão do corte pelo número de votos recebidos, a relação contém 52 filmes. O BFI realiza a pesquisa a cada dez anos. 


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POR EM 28/09/2012 ÀS 08:57 PM

Coluna antissocial do Prestes

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“Há homens que lutam um dia, e são bons. Há outros que lutam um ano, e são melhores. Há os que lutam muitos anos, e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida, são os trogloditas do MMA”

(Prestes, colunista antissocial)

Pasárgada, sexta-feira, dia 28 de setembro de 2012.

O renomado cirurgião dentista Teotônio Brocca acaba de chegar de uma bocada em Toronto. Apesar do Rei do Boticão afirmar que estava fazendo um fellow em Boca do Lixo, comenta-se à boca miúda que o profissional, na verdade, acompanhava uma comitiva de deputados (e acompanhantes) em viagem oficial de férias àquele país, por conta do erário. Isto está cheirando mal...

Mal começaram as chuvas, os apagões na cidade já aconteceram, e o cavalo do carroceiro Zé Malaquias morreu fulminado por um raio. Para não desperdiçar tanta carne equina, Zé convidou a vizinhança para um churrasco às pressas em plena terça-feira. No dia seguinte, todos forjaram atestados médicos falsos e apresentaram aos respectivos departamentos pessoais.

Numa festa de aniversário regada a muita cerveja barata e baixarias, Tonho Frentista declarou a todos os presentes que engravidou sim a cunhada. Quando esta edição foi fechada o IML ainda fazia a assepsia do local, de tal sorte que não há informações precisas quanto a mortos e feridos. Igualmente ferida com a traição do marido, o ilibado Desembargador Braguilha, Dona Vulva e amigas partiram ontem para um cruzeiro pelo Caribe. Só para mulheres. Isto porque o cruzeiro dos cornos sai só na semana que vem. Não perca esta oportunidade.


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POR EM 27/09/2012 ÀS 08:32 PM

Ver, o verbo do cinema

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Filme é o que enxergamos, inclusive a elipse, quando a cena nos remete a algo fora da tela. O exercício de ver serve para abordar o cinema pelo que ele é, quando estão dispostos os elementos chave para decifrarmos o que é visto. Limpar a obra da Sétima Arte de intenções adventícias é uma atividade valiosa, principalmente quando assistimos o trabalho de cineastas como Kubrick, Spielberg ou Chaplin. Ou quando conseguimos nos esclarecer sobre filmes aparentemente banais que provocam insights importantes para o trabalho ensaístico. Nesta coletânea de textos, aprofundamos essa percepção sobre o que o cinema nos mostra de mais impactante.


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POR EM 26/09/2012 ÀS 09:04 PM

Não aprendemos afinal onde fica Samarcanda

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Houve uma mulher em minha vida. Bem, houve mulheres na vida de todos os homens: nenhuma novidade aqui, nada de novo sob o sol. Mas quantos de nós reconhecemos todas as implicações desse fato? Quem, na correria da vida moderna — esse eterno clichê do qual sempre reclamamos —, pensa no que ganhou ou perdeu ao fim de uma história de amor? Pode ser até pior: quantos de nós percebemos a possibilidade de um amor quando ela surge, como as pequenas epifanias do Caio Fernando Abreu, e não a rechaçamos?

Quando eu a conheci, já era amigo de seus pais, mas não tinha ideia de sua existência. Ela morava em outro país e eles nunca mencionaram o fato de que tinham uma filha. Um dia, no nosso costumeiro encontro de sábados, cheguei ao bar de sempre e lá estava ela com os pais e os amigos comuns. E eu estava acompanhado de uma namorada quase noiva.

O que senti? Reconstruímos sempre o que passou com as sensações do presente. Mas eu, desde aquele dia, pensei muitas vezes no que ocorreu e é sempre a mesma imagem que me vem à lembrança: fiquei tomado por sua presença. Lembro-me do vestido que ela usava, o tamanho do cabelo, os gestos, o exato lugar em que se sentou. Mas não me lembro de nenhuma, absolutamente nenhuma conversa que tenha ocorrido naquela mesa: não sei o que disse a ela ou aos amigos, não sei o que ela conversou. Parece ter existido só a completude da sua existência até então desconhecida para mim e a partir dali mudando o curso de um dia — uma vida — que começara como outro qualquer.


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POR EM 25/09/2012 ÀS 03:40 PM

Especial cinema argentino

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“O Segredo dos Se­us Olhos”, de Juan José Cam­­panella, é a composição de uma peça clássica em três movimentos. É um filme de amor dentro dos parâmetros conhecidos, ou seja, um casal próximo demais que não consegue se tocar durante o filme todo e só encontra uma solução no final. É um filme policial seguindo os trilhos do filme noir, onde um investigador solitário procura saber algo que todos querem esconder. E é um filme político, na linhagem das grandes obras do gênero, pois denuncia a origem da injustiça nas tramas do poder, e não na natureza humana.

A demonstração de força de um assassino estuprador diante de dois funcionários da Justiça, num elevador fechado, é a cena mais assustadora do filme. O bandido foi descoberto numa investigação criminal, mas está solto graças aos bons serviços de deduragem para a ditadura argentina. Quem treme não é o criminoso, mas as pessoas pagas pelo Estado para fazer valer a lei. Essa é a fonte da tragédia: o país condena as vítimas e estimula os algozes. O resultado é uma sociedade amordaçada, amores frustrados, casamentos partidos, processos arquivados.


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POR EM 24/09/2012 ÀS 08:36 PM

Intocáveis, de Oli­vier Naka­che e É­ric To­le­­dano

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“Intocáveis” (In­tou­chables), de Oli­vier Naka­che e É­ric To­le­­dano, foi o fenômeno absoluto de bilheteria na França em 2011, um dos filmes mais vistos na história do cinema francês, levando às salas de exibição mais de 20 milhões de pessoas. Garantia de sucesso no resto do mundo? Não necessariamente. Fenômenos comerciais, como “A Riviera Não É Aqui” (2008) e “Os Visitantes” (1993), passaram quase batidos em outros países. Os americanos, por exemplo, preferiram assistir ao horrível remake hollywoodiano de “Os Visitantes” a ver o original.

Com “Intocáveis”, a história é outra. Talvez por conta do gênero cinematográfico. Comédias francesas sempre foram melhores do que filmes de ação. “In­tocáveis” é uma comédia? A julgar apenas pela sinopse do filme a resposta é não. Afinal, no centro da história — baseada em fatos reais — está um tetraplégico. Vitimado por um acidente com parapente, ele se vê obrigado a contratar um cuidador, que vem a ser um vigarista de primeira. Digamos então que o filme está mais para uma tragicomédia do que comédia. A verdade é que “Intocáveis” apresenta uma versão otimista sobre as limitações e desafios vividos pelos dois personagens principais e é, ao mesmo tempo, humanista, tocante e muito engraçado. Tudo bem que a produção tenha uma vocação para o politicamente incorreto, mas tem o mérito de ser conduzida num tom surpreendentemente justo.


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POR EM 23/09/2012 ÀS 01:04 PM

40 trocas de insultos entre escritores e cantores famosos

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A literatura e a música são um terreno fértil para intrigas. Não foram poucas as vezes que nomes consagrados da literatura e da música mundial deixaram a elegância de lado e alfinetaram colegas de ofício. Pequenas declarações se transformaram em polêmicas gigantes e inimizades eternas. Nesta edição, publico uma seleção de insultos literários e musicais. A lista compila “grosserias” de escritores e músicos de díspares perfis, nacionalidades e épocas. Na seleção aparecem escritores canonizados como William Faulkner, Ernest Hemingway, Virginia Woolf, Gore Vidal, Oscar Wilde, Truman Capote, Nietzsche e Henry James. E músicos ilustres como Mick Jagger, Elvis Costello, George Harrison, John Lennon, Jerry Lee Lewis, Elton John e Caetano Veloso. Em comum entre eles, o fato de um dia, por mera provocação, impulso, raiva, terem externado suas opiniões pouco elegantes sobre seus companheiros de ofício.


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