revista bula
POR EM 25/10/2012 ÀS 07:32 PM

Bakhtin Desmas­carado — História de um Men­tiroso, de uma Fraude, de um Delírio Coletivo

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Há um livro explosivo na praça, que ainda estou lendo, im­pressionado: “Bakhtin Desmas­carado — História de um Men­tiroso, de uma Fraude, de um Delírio Coletivo” (Parábola, 509 páginas, tradução de Marcos Marcionilo), de Jean-Paul Bron­ckart e Cristian Bota.

O livro tem um tom de cruzada e de guerrilha contra Mikhail M. Bakhtin e defesa radical de Valentín N. Volóshinov e Pavel Niko­laievitch Medvedev. Bron­ckart e Bota discutem aqueles que ficaram conhecidos como “textos disputados”. Publicados como “de” Volóshinov e Medvedev, seriam “de” Bakhtin.

Bronckart e Bota dizem que, ao se aproximar de Vo­lóshinov e Medvedev, Bakh­tin mudou a linha de seus estudos. Assim, embora apontados co­mo “discípulos” de Bakhtin, este é que teria se inspirado nas ideias dos estudiosos.

Numa desmitificação brutal, Bronckart e Bota afirmam que Bakhtin era “plagiário” A principal obra de Medvedev, “O Método Formal nos Estudos Literários — Introdução Crítica a uma Poética Sociológica” (Contexto, 272 páginas, tradução de Sheila Vieira de Camargo Grillo e Ekaterina Volkova Américo), tem sido apresentada, por alguns críticos, como “de” Bakhtin. Na verdade, sustentam Bronckart e Bota, é mesmo de Medvedev. Os “aliados” de Bakh­tin chegaram a caluniar Med­vedev, apresentando-o como “carreirista”, “cínico” e “mulherengo”, com o objetivo de “diminui-lo”.


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POR EM 21/10/2012 ÀS 08:49 PM

Sobre o direito de dizer merda

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Richard Millet

Você já ouviu falar em Richard Millet? Provavelmente não. Ele é (era, até há pouco) membro do comitê de leitura de uma das mais prestigiosas casas editoriais francesas, a Gallimard. Enfim, não é (era) pouca porcaria não. Mas Millet é também um escritor. E, ainda e sobretudo, um boçal. Um eminente, gigantesco, grotesco, escroto boçal.  Autor do panfleto de 18 páginas intitulado  "Eloge littéraire d'Anders Breivik" (não publicado pela Gallimard, diga-se), por meio do qual faz um "elogio" a Anders Breivik, "fruto tanto da ruína familiar, quanto da fratura ideológico-racial que a imigração extra-europeia introduziu na Europa". Mas quem é Anders Breivik, mesmo? Outro boçal, um norueguês que achou por bem matar um monte de gente em nome de sei lá o quê, já que não importa o que ele diga que o motivou, só tem charme para seus semelhantes na submentalidade — como Millet.


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POR EM 21/10/2012 ÀS 11:34 AM

A última entrevista de Graciliano Ramos

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Numa manhã de dezembro de 1948, dez anos após a publicação de “Vidas Secas”, Graciliano Ramos se confessa ao jornalista e escritor Homero Senna, em sua última longa entrevista



Principio por pedir a Graciliano Ramos que me diga alguma coisa sobre os começos de sua vida, no interior de Alagoas, na cidade de Quebrangulo (não Quebrângulo, como geralmente se diz), onde nasceu. “Mas isso tudo está contado em ‘Infância’. Valeria a pena repetir?” E como eu dissesse que sim, resumiu: “De minha cidade natal não guardo a menor lembrança, pois saí de lá com um ano. Criei-me em Buíque, zona de indústria pastoril, no interior de Pernambuco, para onde, a conselho de minha avó, meu pai se transferiu com a família. Em Buíque morei alguns anos e muitos fatos desse tempo estão contados no meu livro de memórias”. Abro o volume, para conferir, e, entre outras coisas, lá encontro este perfil psicológico do velho Ramos, traçado pelo filho: “Tinha imaginação fraca e era bastante incrédulo. Aborrecia os ateus, mas só acreditava nas contas correntes e nas faturas. Desconfiava dos livros, que papel aguenta muita lorota, e negou obstinadamente os aeroplanos. Em 1934 considerava-os duvidosos”.


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POR EM 19/10/2012 ÀS 03:49 PM

Médico é que nem sal: branco, barato e se encontra em qualquer esquina

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“A Medicina não é melhor nem pior que as outras profissões. Só é diferente porque cuida da vida.” Li esta frase num periódico do Conselho Federal de Medicina (ou da Associação Médica Brasileira, não tenho certeza...), que finalmente resume tudo o que eu penso a respeito desta espinhosa, incompreendida e, várias vezes, usurpada atividade profissional. O autor da mesma é um velho médico nordestino, Celso Matias de Almeida, 84 anos, ex-professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Aposentado há mais de 15 anos, o octogenário doutor não abandonou o eito e passou a atender, voluntariamente, a comunidade pobre de Natal, cidade onde reside. Dentre tantas estórias inspiradoras, o Vovô do Estetoscópio (Por que não? Se a imprensa joga seus holofotes sobre a Vovó do Crack, por que não enaltecer um Vovô do Estetoscópio? A sua maneira, cada qual interfere como pode no caos cotidiano...) conta que duas aventuras, em especial, marcaram-no visceralmente.

Na primeira delas, quando ainda era solteiro, foi retirado às pressas de uma Festa de São João em Currais Novos — RN para acudir, montado no lombo de um burro, uma mulher que paria num sítio em local remoto do agreste. O parto melindroso foi conduzido à luz de velas e, como a própria chama, a campesina deu a luz a uma criança saudável. “Deus ajuda muito os médicos do interior”, ele comenta, a transpirar humildade.


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POR EM 18/10/2012 ÀS 01:50 PM

30 frases clássicas sobre as mulheres

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Dando sequência a série de frases clássicas, reuni para este post 30 aforismos sobre as mulheres. A lista faz um passeio por nacionalidades e épocas e mostra a evolução do tema mulher entre pensadores, escritores, cineastas, reis, filósofos e poetas — do século 15 aos dias atuais. A autenticidade de cada frase foi checada para não incorrer no risco das falsas atribuições em meio a profusão de textos apócrifos e equívocos relativos à autoria. Ao longo da história, opinaram sobre o tema nomes como Dostoiévski, Napoleão Bonaparte, Oscar Wilde, Pirandello, Charles Chaplin, Miguel de Cervantes, Nietzsche, Pablo Picasso, H. L. Mencken, François Truffaut. Irônicos, politicamente incorretos, lascivos ou apaixonados, os aforismos apresentados nesta seleção são, sobretudo, uma homenagem às mulheres, e as verdades contidas neles — boas ou ruins — apenas reforçam a célebre frase de Jean-Jacques Rousseau: “As mulheres constituem a metade mais bela do mundo”.


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POR EM 13/10/2012 ÀS 02:25 PM

Trate logo de lavar este seu poema sujo

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Quando eu era criança, dentre tantos ofícios infantis curiosos, ficava observando as mãos do meu padrinho, um homem velho a quem amava desmesuradamente, enquanto ele e a esposa enchiam, com esmero, uma garrafa de Crush com suco de laranja, para que eu e os meus irmãos pensássemos fosse o famoso refrigerante da moda. Vocês sabem: quem não tem cão caça como gato.

“Quando eu crescer quero ter mãos assim...” — eu pensava ao acompanhar aquela fabulosa fraude doméstica, observando as suas mãos enrugadas e macias, com moitinhas de pelos sobre as falanges. “São mãos de médico, menino...” — explicava a madrinha, sem desgrudar os olhos da garrafa para que o pseudo-refrigerante não derramasse. Para agradar criança, tem gente que faz de tudo.

Finalmente eu cresci e constato agora o quanto estão também peludas as minhas falanges. Contudo, perdi em maciez para a dureza da adultidade. A vida é dura pra quem é mole. É o que dizem. E eu sou mole. No duro.

Acho que ando mais a flor da pele que o próprio Zeca Baleiro. São tantas as coisas que eu tinha a escrever que nem sei bem ao certo por onde começar. Então vou começar dizendo o quanto eu lamento despossuir a mesma alegria incontida de um menino a me oferecer esculturas de balões, no hall de um Posto de Saúde infestado com germes e pensamentos indóceis. “O desgraçado do médico está atrasado...” — reclama uma mulher gorda, cega de um olho.


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POR EM 08/10/2012 ÀS 08:07 PM

Mendigos enjaulados na China são mais obscenos do que nudez da arte

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Fabiano Mai­sonnave, correspondente da “Folha de S. Paulo” em Pequim, publicou uma reportagem, “Cidade chinesa enjaula mendigos na rua”, indicando que os “adeptos” de Mao Tsé-tung, o comunista que matou cerca de 70 milhões de pessoas, perverteram os princípios humanistas. A decisão de enjaular as pessoas foi da Prefeitura de Xinjian. Um funcionário público, que se identificou como Wan, disse candidamente: “Tivemos de considerar ambos os lados: o dos peregrinos [que vão ao tempo Xanshou, que tem 1.700 anos) e o dos mendigos. Há alguns mendigos falsos que apenas querem arrancar dinheiro dos peregrinos”. Teoricamente, o governo estaria protegendo mendigos e peregrinos. No microblog Weibo, os chineses criticaram duramente a prefeitura, o que prova que, apesar da censura e da pressão política, a sociedade chinesa mantém-se ligeiramente crítica.


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POR EM 08/10/2012 ÀS 07:44 PM

Intocáveis: Pretty Woman da era Facebook

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O megassucesso francês “Intocáveis” (de Olivier Nakache e Eric Toledano) tem várias sintonias com outro preferido do público: o americano “Pretty Woman” (de Garry Mar­shall). É a sempre bem aceita síndrome de Cinderela, quando alguém muito pobre tem acesso a um palácio, a um personagem rico e pinta um clima que acaba emocionando a plateia e acaba sempre bem. A prostituta (Julia Roberts) contratada como scort pelo multimilionário depredador de empresas (Richard Gere) é, na versão francesa, o afrodescendente (Omar Sy) que é escolhido como acompanhante do ricaço (François Clu­zet) com todo o perfil do nobre europeu, já que não sabemos qual a origem da sua fortuna.

Em ambos os filmes, o personagem carente acaba experimentando um banho de loja e de cultura. Até a cena da ópera é idêntica. A solenidade do evento artístico é quebrada pelo furão ignorante divertido, para espanto da seleta convivência. Há ainda o contraponto óbvio entre o vazio de quem tem di­nheiro e a alegria de viver de quem não tem. Sim, tolinhos espectadores, di­nhei­­­ro não traz felicidade a não ser que entre no circuito alguém que jamais teria acesso a tanta riqueza e faz tudo ficar com al­gum sentido. A grana, enfim, vale para alguma coisa, desde que o emergente traga de suas origens aquele visgo que só a escravatura é capaz de dar com seu rebolado e seu sapateado. E que ganha o olhar complacente dos funcionários bem postos do privilégio, como o gerente de Hotel de “Pretty Woman” ou as secretárias de “Intocáveis”, todos no papel da fada madrinha que incentiva a presença do ungido no baile.


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POR EM 05/10/2012 ÀS 09:11 PM

Aconteceu na esquina da Pegasus com a Caralho-de-Asas

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Cornélio ganha a vida vigiando carros e pessoas na esquina da Pegasus com a Caralho-de-Asas. Teve a infância malograda já ao nascer, por acaso, de parto domiciliar bruto, desassistido, no conturbado seio familiar de degredados sociais. O pai era um viciado incorrigível ao ponto de beber a caubói copos de álcool combustível; a mãe, mulher analfabeta, parideira aidética de uma renca de filhos.

Sob o barraco de lona preta de um cômodo só, descobriu deste cedo o quanto o Homem estorvava os planos de Deus na construção de um mundo melhor. O mais incrível é que cria na divindade com a mesma convicção que um deputado acredita jamais será pego em escutas telefônicas comprometedoras.

Então, na prática, ele foi deseducado, adestrado na dureza insigne das ruas, na crueza dos seus pares igualmente miseráveis, resignados companheiros do abandono e da negligência social. Pode-se dizer que escapuliu por um milagre, um capricho do Pai, quem sabe, naquele cenário caótico a que muitos teimam chamar “família”.

Não. Aquilo não era uma família, uma célula da sociedade, conforme dizem os empolados. Na melhor das hipóteses, uma célula cancerosa que se replica independentemente, a despeito da lei, da ordem, do progresso, e dos aumentos substanciais do PIB. Poder-se-ia dizer aquilo era uma matilha de cães sarnentos entregues à própria sorte.


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POR EM 05/10/2012 ÀS 08:31 PM

Livro cúmplice

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O livro é cúmplice quando revela o que ninguém sabe. A narrativa nos empolga porque, acreditamos, somos testemunhas de segredos só a nós revelados. É como um tesouro escondido, do qual possuímos a exclusividade do mapa. O autor dormia em seu anonimato de papel antigo até que fôssemos lá abrir uma fresta na sua solidão e degredo. Levamos esse tipo de livro de maneira disfarçada, misturado a coisas comuns, como uma revista ou um impresso qualquer. Se formos flagrados, sacudimos os ombros e pegamos a brochura na ponta dos dedos, com desdém.

Aprendemos coisas como a palavra desdém nessa literatura que não deixou marcas, essa memória oculta, essa única edição sobre o que para sempre foi perdido. Ninguém pode desconfiar do que trazemos embaixo do braço como se fosse uma côdea de pão. Exatamente, côdea é também esse tipo de palavra enterrada em páginas esquecidas. Nós, os leitores oblíquos, costumamos ler obras atiradas no tempo, antes que descubram o quanto é cult, ou importante, ou fundamental. No momento da descoberta, ninguém à vista sabe do que se trata. Você vira o mundo atrás de algumas pistas e não encontra uma só pegada de uma possível leitura. Então, satisfeito, embaixo de cobertas, na curva do quintal, na praça vazia em feriado, você abre, trêmulo, aquela mina anônima, aquele território sagrado onde somos ouvintes de sinetas, passos em castelos, sons de metralha.


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