revista bula
POR EM 02/12/2012 ÀS 03:16 PM

David Toscana, Francisco Coloane e Carlos Maria Dominguez: três paisagens literárias

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A geografia literária de três países de língua espanhola que nos cercam com sua presença em muitos outros vetores — do comércio à História e ao turismo — nos diz mais sobre eles do que um contato direto. Seus autores, mais recentes como o mexicano David Toscana, ocultos como o uruguaio Carlos Maria Dominguez ou clássicos como o chileno Fran­­cisco Solano, relatam seus universos imaginários fortemente arraigados em paisagens que sobram. No deserto, na beira rochosa do mar ou no descampado, paisagem é ficção, tão real quanto um sonho ou a imagem num espelho.


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POR EM 30/11/2012 ÀS 08:21 PM

Tudo o que nós somos é poeira no vento

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Nunca fui muito adepto à prática humana corriqueira de se colocar nome de bicho em gente, e nome de gente em bicho. Fracos em criatividade, os índios, além de plagiarem a nomenclatura dos fenômenos da natureza (trovão, tempestade, peido, etc), sempre foram craques neste mister.

Atolados na lama da solidão — ou, ao contrário, despegados, sentindo-se felizes, livres e a salvo do restante da falida humanidade — muitos colocam nomes próprios até mesmo em samambaias. Há quem garanta seja possível se comunicar, em bom e alto tom, com as plantas. Não duvido. Tio Fidelmino, por sinal, conversava com árvores antes de ser diagnosticado com Alzheimer. Criado na roça, primo Anacleto, desavisado do iminente risco leguminoso, apaixonou-se por melancias após fazer amor com uma delas.

Eu suplico: não desistam deste texto. Ele melhorará, tenho fé. E mais: não riam! Debochar do amor é sinal de mediocridade. Quem, entre vocês, por exemplo, não terá utilizado o pegajoso tratamento “docinho de coco” ao se referir à pessoa amada? Eu, que pouquíssimo amo e amei, além de não ser diabético, ainda considero a alcunha deveras ridícula, além de hipercalórica. Da mesma forma, “moranguinho do agreste” soa mal pacas, sem falar no risco que se corre em, ao se comer da “fruta”, acabar intoxicado por agrotóxicos e ressentimentos. Eu confesso: ao saber da predileção do primo pela fruta rechonchuda, nunca mais consegui tomar suco de melancia.


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POR EM 24/11/2012 ÀS 11:27 AM

Para sempre Emmanuelle

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Faz-se pertinente e justíssimo o seguinte preâmbulo: o erotismo (ou a pornografia, sei lá, alguém aí, por favor, me acuda!) ficou mais brocha com a morte da atriz holandesa Sylvia Kristel. Corroída aos 60 anos de idade por um câncer de garganta, Sylvia gozou (sem trocadilhos, senhores!) de enorme popularidade em motéis, saunas, cinemas e banheiros domésticos do mundo inteiro, por conta da lasciva personagem Emmanuelle, diva da sacanagem cinematográfica nos anos 70. Ao concluir a redação desta crônica, haverei, sim, de render à musa das bolinações genitais vespertinas, um derradeiro e comovido tributo. Mãos à obra! Vamos ao texto, que o tempo urge...

Meretrício por meretrício, eu prefiro a companhia simplória da pseudo-universitária Emanuele (codinome abrasileirado, escrito faltando um “eme” e um “éle”). Mentira por mentira, eu escolho as enganações de Maria da Anunciação — a iletrada (e desletrada) Emanuele — cuja alcunha foi a ela imposta, ainda nos primórdios da prostituição na cidade de Pasárgada, ocasião em que, impulsionada pela condição miserável de vida, patrocinada pela mãe alcoólatra, contava 14 anos incompletos e 40 quilos mal pesados.

Não me condenem! Não me atirem as suas pedras! Não me tratem como a uma Madalena com um pênis entreaspernas. Conheci as lides alcoviteiras de Emanuele já na adultidade, no auge da sua tarimba profissional. Tenho lá também os meus lamentáveis e desprezíveis momentos de humanismo (muitas vezes, eu sofro de recaídas, esqueço que sou bicho, e me permito humanizar).


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POR EM 22/11/2012 ÀS 09:02 PM

Salman Rushdie escreve carta para Deus

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Caro Deus,

Se Você existe, e se é como O descrevem — onisciente, onipresente e, acima de tudo, onipotente —, com certeza não irá tremer em seu assento celestial ao ser confrontado por um simples livro [“Os Versos Satânicos”] e seu escrevinhador, não é? Os grandes filósofos muçulmanos com frequência discordam em relação à Sua relação precisa com os homens e os atos humanos.

Ibn Sina (Avicena) argumentava que Você, por estar muito acima do mundo, limitava-se a tomar conhecimento dele em termos muito gerais e abstratos. Ghazali discordava. Qualquer Deus “aceitável ao islã” conheceria em minúcias tudo o que acontecesse sobre a superfície da terra e teria uma opinião a respeito.


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POR EM 22/11/2012 ÀS 08:27 PM

Especial Alain Resnais

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O amor pode perdoar sem esquecer, nos diz o diretor Alain Res­na­is e a roteirista Mar­gue­rite Duras no filme fundamental de 1959, “Hiroshima, Mon A­mo­ur”. É, como todos, um filme so­bre cinema: a mulher francesa participa de um documentário sobre a necessidade da paz depois da hecatombe nuclear, mas ela mesma é a protagonista do filme que estamos vendo, e que vai mais fundo do que os falsos apelos pacifistas, já que joga pesado com a necessidade real de convívio depois do massacre e a única saída para isso é resgatar o amor perdido e abrir-se para uma nova relação.

Ela precisa ficar em dia com uma dívida com o passado. Tinha soterrado na memória o episódio em que amou um soldado alemão na Segunda Guerra, em plena Fran­ça ocupada e por isso foi punida com o encarceramento e a loucura. Por ter essa ferida aberta dentro de si, tornou-se incapaz de amar. O encontro com um arquiteto japonês, que tem tudo para ser um momento descartável de sexo, se transforma numa sessão psicanalítica, em que o amante/doutor encarna o personagem assassinado, o soldado alemão, e faz com que ela re­cupere cada instante do desejo que enfrentou barreiras e preconceitos e jogou-a na condenação por parte dos seus conterrâneos.


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POR EM 20/11/2012 ÀS 11:03 PM

10 livros que eu gostaria de ter escrito

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Não se trata aqui, como o título deixa claro, dos melhores livros que já li ou daqueles que me transformaram. Essas seriam outras listas, talvez com poucos elementos de interseção com esta. Trata-se sim daqueles livros que me fizeram comentar, com inveja: “Putz, eu queria ter escrito isso”. Também não são livros monumentais (do tipo “Grande Sertão: Veredas”, “A Montanha Mágica” e “Os Sertões”), sobre os quais poder-se-ia fundar uma língua, uma nação, uma geração, ou todas essas coisas de uma só vez. Essas obras parecem o fruto de uma vida de trabalho de almas gigantescas cujo tom extrapola os limites do nosso diapasão. Nesses casos, não há lugar para a inveja da escrita, apenas um misto de temor e respeito diante do tamanho da tarefa.


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POR EM 19/11/2012 ÀS 05:44 PM

Dosimetria, barracos e equívocos da lógica

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Quando estudante de Direito, confesso que muitas vezes quase me deprimi, por não conseguir entender direito as lições de dosimetria. Como é que se calcula de maneira justa e correta as penas para um réu, ou ter argumentos convincentes para contestar as penas estipulados por um juiz? Eu me perguntava. E não conseguia respostas. Saí do problema numa boa: evitei me arriscar na advocacia criminal.

Hoje vejo que sofri à-toa, pois mesmo os ministros do supremo, que são as maiores autoridades do poder judiciário, não sabem dosar as penas. E não os vejo se deprimirem por conta dessa, digamos, deficiência técnica. Quando muito batem cabeça, armam barracos, acusam os colegas de qualquer coisa que ninguém entende (eles falam em latim) e trocam gentilezas de estúpidos. Mas fica nisso mesmo. Nem uma excelência apeia de suas poses, nem rasga as vestes de super-heróis de gibi rodado em mimeógrafo.


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POR EM 18/11/2012 ÀS 10:09 PM

A odisseia do espírito

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A "História da Literatura Ocidental", de Otto Maria Carpeaux, é um dos maiores testemunhos do humanismo no século 20

Jorge Luis Borges escreveu, em “A Biblioteca de Babel”, que “nalguma estante de algum hexágono (raciocinaram os homens) deve existir um livro que seja a cifra e o compêndio perfeito de todos os de­mais”. Tal livro, contextualizado, é Deus ou um simulacro de Deus. Inspirado no símbolo borgiano, proponho ao leitor deste suplemento um análogo de proporções mais modestas; outro livro — literalmente falando — que ambicionou compendiar todos os demais (de valor), foi escrito em português e se encontra no Brasil, onde foi também redigido, entre 1944 e 1945. O autor que o engendrou é de algum modo fantástico, e Borges o depararia num crítico — mais coerente falar aqui em historiador da literatura — nascido no império austro-húngaro no ano de 1900, chamado Otto Maria Carpeaux: o homem que leu quase tudo. Não é tanto exagero assim, se nos valermos de uma evidência concreta, bem ao alcance das mãos: a “História da Literatura Ocidental”, sua obra mais importante.


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POR EM 16/11/2012 ÀS 08:53 PM

Segura na mão de Deus e vaia

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“O sujeito já era. Pode avisar a família.” Feito o diagnóstico, o doutor arrancou as luvas e foi atender outro paciente que bebera soda cáustica com campari, e agora vomitava feito o diabo (não se sabia ao certo se sangue, se bile ou se campari), incomodando a todo mundo, sem, contudo, dar um fim aos seus cruéis dilemas existenciais.

Um amigo de Azor (era este o nome do falecido) foi o primeiro a saber do óbito e a choramingar. Sem rodeios, sem classe, enxugou as lágrimas do narigão na manga da camisa e telefonou para a esposa do morto comunicando a tragédia tintim por tintim. Teve a impressão de ouvir gargalhadas do outro lado da linha (certamente, um equívoco seu), junto com ruídos de algum objeto se quebrando, quem sabe um vaso derrubado com o impacto do cotovelo e da notícia. Tem gente que até gosta do papel, mas, é péssimo dar as más notícias.

O velório foi mais rápido e animado que o habitual, com equipe carpideira, discursos inverídicos, a meninada aprontando correria pelos corredores, mulheres desfalecendo, a viúva sendo cobiçada pelos velhacos (entrada nos trinta, ela apetecia a libido da homarada), e piadistas incorrigíveis descontraindo os bastidores da dor. Funerais custam os olhos da cara, vocês sabem. Quiçá ainda pudéssemos enterrar os nossos queridos em covas rasas, embrulhados em lençóis limpos, à sombra dos carvalhos. Por causa de profundas restrições orçamentárias, o corpo de Azor foi colocado num caixão popularesco, o mais barato do mórbido portfólio oferecido pelos papa-defuntos, confeccionado com ripas de compensado recicladas a partir de caixotes de tomate. Para a sorte de Azor, esta particularidade salvaria a sua vida.


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POR EM 13/11/2012 ÀS 07:39 PM

A última entrevista de Manuel Bandeira

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Ninguém sabe explicar como aquele homem, castigado, tantos anos, pela doença, não amargou. Disse Mário de Andrade: “Eu fico espantado de como há certos homens no mundo! Tu, por exemplo. Essa sublime bondade inconsciente, bem no íntimo, de quem nem sabe que é bom”. Vou além. Acho que Manuel Bandeira nem tem plena consciência de sua imensa envergadura de gente e poeta. Acho que, talvez, os quatro anos que viveu em sua terra, Recife, é que explicam, mais que os males, o homem de hoje. Diante de mim está o gigante de nossa poesia: Manuel Bandeira, em seu modesto apartamento, atulhado de livros e calor humano, na Avenida Beira-Mar, no Rio. Do bem que lhe querem todos, da ternura que desperta em quem dele se aproxima, basta dizer que Mário de Andrade só o tratava de Manu ou Manuelucho; Rodrigo Melo Franco de Andrade lhe deu o nome de Manula; Madame Blank, sua amiga de almoço de todo o dia, o trata de Mané. Creio que nunca ninguém teve tanto apelido, tanta gente querendo chegá-lo à sua amizade. 


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