revista bula
POR EM 02/03/2008 ÀS 01:36 PM

Espírito do tempo

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Esta semana assisti, perplexo, a um filme proibidíssimo no Brasil e em várias outras partes do mundo chamado Zeitgeist um termo que em alemão significa espírito do tempo.

É perturbador, desconcertante, um atentado terrorista contra a mentira. Costura uma impressionante relação entre o Cristianismo, o 11 de setembro e os grandes bancos internacionais. Nitroglicerina pura. E, para deixar os banqueiros ainda mais indignados, é de graça. Zeitgeist não tem fins lucrativos e está na internet. Desde junho de 2007, já foi visto mais de 10 milhões de vezes (só na sua versão em inglês) e já é o filme on-line mais assistido da história.

É um daqueles filmes que eles não querem que você veja. Mas atenção: é um filme para ser visto apenas por aqueles que querem pensar e questionar as verdades estabelecidas — portanto, não é para qualquer um. Gente comum, bem comportada e acomodada vai detestar.

A capacidade de nos agitar o pensamento e duvidar das certezas a que somos levados a acreditar e das verdades absolutas que a sociedade nos impõe, são provavelmente as maiores virtudes de filmes/documentários deste gênero.

Para assistir a Zeitgeist é preciso estar desarmado e esquecer tudo o que você sabe sobre os mitos religiosos do cristianismo, por exemplo, e aprender sobre suas conexões com a astronomia e as crenças pagãs de onde os mitos cristãos foram plagiados. É duro de admitir e, por sua lógica incontestável, descobrimos que estamos sendo enganados desde a época do imperador Constantino da Roma antiga.

Passe por essa primeira parte e tente agüentar o tranco porque o que vai ver em seguida vai mexer ainda mais com seus neurônios e suas convicções. Há semelhanças assombrosas como esta frase que você vai acreditar ser do Bush: “Existe um diabo que apoquenta todo homem, mulher e criança nesta grande nação. Precisamos dar passos para salvaguardar as nossas famílias e proteger nossa terra!”

É do Adolf Hitler quando apresentou a GESTAPO aos alemães. A frase do Bush é a mesma coisa: “O nosso inimigo é uma rede radical terrorista e os governos que os apóiam”.

Ao ver o filme se aprende também que o poder financeiro que controla o planeta através de umas poucas instituições americanas não quer que o resto do mundo pense muito. E é por isso que o mundo se tornou tão cheio de entretenimento: raves, álcool, drogas, parques de diversão e, principalmente a televisão. Nela estão os circos, os carnavais, os contadores de histórias que não ensinam, mas distraem, cantores, domadores, jogadores de futebol, etc... Claro que as massas acreditam nas ilusões da caixa mágica. Ela é que é a realidade, não sua vida.

As pessoas do mundo inteiro passaram a agir conforme os ensinamentos da caixa, fazem tudo o que a TV diz pra fazer: vestem-se conforme vêem lá, compram o que dizem pra ser comprado...pensam conforme a TV sugere. 

Não interessa que as massas tenham pensamentos críticos e sejam bem informadas, caminhamos para aquilo que os poderosos estão armando há 60 anos: um só governo mundial que controla o planeta. Já se fala até na nova moeda para esse governo, o amero. Um banco, um exército, um centro de poder. Ao ver o filme se aprende que religião, patriotismo, raça, classe social e todas as outras formas de identificação separatista imposta aos homens têm servido para criar uma população controlada.

Dividir para conquistar —  é o velho lema.

O medo da grande força é um só: que as pessoas descubram sua verdadeira relação com a natureza e a verdadeira dimensão de seu EU.

E tudo é feito pra que isso não aconteça, como o leitor vai comprovar vendo o filme. As outras partes dele são ainda mais apavorantes.

Para vê-lo de graça só há um caminho: www.google.com  , clique o nome do filme lá e veja em partes, cada uma tem mais ou menos 10 minutos. Ou tente vê-lo no www.youtube.com.

O leitor não vai conseguir evitar o choque com o que vai saber pelo filme, mas mesmo chocado deve agradecer o privilégio de fazer parte de uma minoria no mundo que não vai mais morrer tão ignorante e, pior, com a boca cheia de formiga.

 


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POR EM 02/03/2008 ÀS 12:46 PM

Medíocres

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A mediocridade é um dos piores males. Há dois tipos. A mediocridade-lobo e a mediocridade-cordeirinho. O medíocre-cordeirinho é aquele brilhantemente retratado no filme Zelig, de Woody Allen. Leonard Zelig, o personagem, fica famoso pela impressionante capacidade de se camuflar para se parecer com quem está do lado. Entre duas pessoas gordas, Zelig fica gordo. Entre negros, negro. Entre rabinos ortodoxos, um rabino ortodoxo (com roupa e tudo). Se alguém diz que gostou de um livro, ele também gostou. Se seguem um líder, ele também. Perguntado por que fazia isso, Zelig responde: “Queria ser aceito e amado por todo mundo”. Woody, por vez, quando perguntado sobre a mensagem do filme (como se não fosse óbvia o suficiente), menciona a fraqueza de espírito das pessoas que tentam “se encaixar” o que, no limite, pode levar ao fascismo.
 
O medíocre-cordeirinho, ao contrário do que o nome sugere, é extremamente perigoso. Sua existência inautêntica (está dissolvido no impessoal, diria Heidegger) é moldável ao sabor dos ventos da maioria que, como já nos mostraram os sábios Nelson Rodrigues e Henrik Ibsen, é estúpida. Inércia é a palavra-chave. O medíocre-cordeirinho senta-se todo dia em frente à TV e se deixa contaminar por toda a sorte de lixo. Depois levanta-se, dorme, no dia seguinte acorda, vai ao trabalho, que executa maquinalmente, como numa Metrópolis de Fritz Lang. Aceita tudo placidamente, como vontade divina, vontade essa que lhe foi transmitida por um porta-voz auto-proclamado de Deus. Acrítico, detesta pensar, não considera que compense o esforço.
 
O medíocre-lobo não é muito diferente. Leva mais ou menos a mesma vidinha. Só que, por ironia do destino ou carisma (medíocres-lobos não raramente são extremamente carismáticos), assumem posições de maior ou menor poder. Esses são particularmente perigosos. Têm poder, mas não sabem usá-lo. Como são medíocres, não acham necessário justificar seus atos convenientemente. Se confrontados com a razão, teimarão, contra todas as evidências, ainda que tenham um lampejo de consciência da própria mediocridade. Parafraseando Dostoiévski, se tiverem de escolher entre a verdade e sua própria teimosia, ficarão com a última.
 
Há exemplos históricos de sobra. Hitler foi um típico medíocre-lobo (tudo bem, vá lá que ele não tenha levado uma vidinha mais-ou-menos, mas era um baita dum medíocre). Os alemães da época foram seus cordeirinhos. Há exemplos de sobra também aqui mesmo e agora. Mas esses eu deixo pra vocês refletirem a respeito.

 


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POR EM 01/03/2008 ÀS 06:20 PM

Morte e Vida Severina

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Não foi no sertão pernambucano, não. Foi aqui mesmo, em Serrana. Um menino de quinze anos matou outro menino de quinze anos. Não conheço os detalhes da história, as razões que levaram uma criança a tirar a vida de outra criança. Não tive a curiosidade mórbida de procurar saber. A notícia, vazia das motivações e revestida apenas dos aspectos trágicos do ato final, me fez lembrar do João Cabral de Melo Neto. Severino, retirante, tenta explicar o que é morte severina e diz:

 

morremos de morte igual,

mesma morte severina:

que é a morte de que se morre

de velhice antes dos trinta,

de emboscada antes dos vinte,

de fome um pouco por dia  

 

A notícia do jornal, sumária, quase impassível, informa sem comentários que a vítima, depois de atingida por dois dos cinco disparos de um revólver, cambaleante andou cerca de oitenta metros e procurou abrigo em uma escola antes de morrer. Já lecionei nessa escola e, apesar do tempo que já faz, isso me atingiu. Querendo ou não, estou envolvido em um crime. Em um crime juvenil.

 

Estes dois garotos poderiam estar ainda na escola, competindo com seres imaginários, consumindo seus ódios em situações e competições com seres formados de palavras. Se isso tivesse acontecido, provavelmente estariam passando agora por aquele portão de ferro, conversando como amigos, sonhando com um futuro que não fosse assim tão severino.

 

Me ocorre, então, um conceito que o Pedro Bandeira vive afirmando. A literatura é exercício de emoções. Com o livro na mão, ama-se, odeia-se, cometem-se as mais cruéis vinganças, mas sem vítimas reais.

 

Há um outro ingrediente nesta história absurda, que, este sim, me perturba. A vítima andou cerca de oitenta metros e procurou abrigo em uma escola. Dá pra perceber? Foi uma morte emblemática. Em seus momentos de agonia, o garoto vislumbrou onde poderia ser salvo. Infelizmente viu isso já tarde demais. Também não sei se estar com o corpo dentro de um edifício faz alguma diferença. Acho que não. Nem toda escola oferece a oportunidade de contato com a literatura.

 

Não conheço os detalhes da história, mas sei algumas coisas que me pesam. Sei que os dois estavam competindo. Qual o objeto da competição? Isso não importa. Desde cedo aprende-se que vivemos em um mundo competitivo. E somos induzidos a competir. Por tudo. Essa é a palavra de ordem da civilização que estamos preparando para os pósteros. Se você não aprende a competir, se você não se prepara para enfrentar a competição, não está preparado para a vida. Deve ser exterminado. A exaltação do vencedor, em tempos de competição, levou o exercício da competição daquelas duas crianças até o extremo: a eliminação física.

 


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POR EM 28/02/2008 ÀS 07:08 PM

Jardim do Éden

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Eu dirigia o meu carro calmamente, fato bastante incomum no atual trânsito da cidade, onde tem prevalecido a lei da buzina, da velhacaria e da deseducação. Parar antes da faixa de pedestres, por exemplo, tem sido risco constante de colisão. Além da possibilidade de abalroamento na traseira do carro, por conta da imprudência e pressa de algum estressado, se arrisca a ouvir xingamentos os mais cabeludos da parte de motoristas convictos que é inadmissível dirigir com paciência e solidariedade. São coisas da vida moderna, das metrópoles enfurecidas, da banalização da descompostura.

Então, avistei à minha direita, uma dupla peculiar: um senhor muito senil e um rapaz de vinte e poucos anos. O mancebo esbravejava, gesticulava, puxava o velho pelo braço, economizando cortesia, exigindo que caminhasse. Julguei a atitude do rapagão deveras grosseira e não me contive. Desacelerei a máquina. Arrisquei ser castigado por algum fiscal de trânsito e estacionei em local proibido. Apressei os passos e me aproximei do jovem, o qual despejava insultos sobre o pobre ancião (ele aparentava oitenta e tantos anos). Perguntei ao moço o porquê da algazarra, já recomendando calma, uma vez que o mesmo usava de força desproporcional, tentando arrancar o idoso agarrado à grade do condomínio. De fato, ele parecia colado nela. O jovem soltou o braço muxibento do acompanhante, finalmente, e explicou que há exatos quarenta minutos estavam ambos ali, estancados sob sol escaldante, pois o filho da puta cismara de empacar na calçada, agarrando-se ao gradil, como se estivesse fundido nele, pois não soltava de jeito nenhum. O rapaz apresentou-se como enfermeiro, embora, confessou-me, jamais tenha freqüentado uma aula sequer de enfermagem. Na verdade, estava desempregado há muitos meses e resolvera atender a um anúncio de jornal no qual alguém procurava alguém para tomar conta de alguém. Mentiu, forjou referências espetaculares, com a conivência de dois ou três amigos, e conseguiu a vaga.


No começo, o serviçal imaginava que o idoso fizera apenas uma pausa na sua caminhada matinal, para apreciar o jardim do condomínio que, de fato, estava bastante florido e bem cuidado. O visual contrastava com a feiúra do prédio antigo, localizado num bairro com alto índice de violência urbana (furtos, assaltos e outras atrocidades). Contudo, o tempo foi passando e o velho ali permanecia, mirando o jardim, sem balbuciar palavra, com os olhos assim meio vidrados, perdidos, estacionados, distantes. O moço perdera a paciência com o doente (um entojo, foi assim que ele disse). Ele segredou que estava naquela função temporariamente, pois não conseguia emprego de jeito nenhum, e tinha contas a pagar, mulher e filhos para prover, e tudo o mais; não gostava de zelar de um sujeito inválido como aquele, mas cada um carrega a sua cruz nesse mundo-de-meu-deus; e que aquele episódio seria a gota d’água, a última vez em que tolerava os devaneios de um demente traiçoeiro; e que pediria demissão logo mais à noite, se aparecesse alguém da família, é claro, pois aquele pessoal andava muito relapso....


Chamei o homem pelo nome, tentando convencê-lo a soltar as barras de ferro, pois um filete de sangue ralo escorria pelo metal, denunciando fissuras, ferimentos na sua frágil pele de gente velha. O rapaz repreendeu-me, impaciente, alertando que de nada valeriam os meus argumentos, pois o paciente há anos não emitia qualquer som, senão gemidos, e não respondia a nada que produzisse ruídos na face da terra. O rosto do velho estava pálido e recoberto com um suor viscoso. Espasmos finos deixavam sua face ainda mais grave. O olhar paralisado estacionara no jardim. Uma pequena multidão de curiosos já se formara ao redor de nós. Muitos se apressaram em dar palpites e sugestões, em recriminar o rapazola, em tumultuar o ambiente pelo simples prazer de ver o circo pegar fogo. Nada, ninguém, nenhum argumento fazia com que o pobre senhor soltasse a grade do condomínio, na qual, visivelmente, ele se feria, pois uma poça rasa de sangue formava-se na calçada, atraindo formigas tão enxeridas como aquela gente. O homem senil não arredava o corpo de jeito algum. Alguém sugeriu telefonassem a equipe de resgate do corpo de bombeiros, ou para algum parente. Quem sabe, um filho não convenceria o pai a ser razoável, a largar de ser teimoso e soltar, de uma vez por todas, aquelas barras de ferro enferrujadas. Leigos, quase todos criam no risco de o homem adquirir um tétano e morrer. O suposto enfermeiro sorriu, evidenciando nervosismo e sarcasmo, garantindo que, àquela hora do dia, seria um milagre se algum parente aparecesse, pois as visitas andavam muito minguadas, e os filhos, gente rica e importante da cidade, tinham lá os seus compromissos e atribulações cotidianas. Eles mesmos é que teriam que resolver a parada. Algum desmiolado sugeriu que se dobrasse e quebrasse algum dedo do mentecapto senhor, a fim de ele bambear, amolecer, entregar os pontos, e largar em paz, de uma vez por todas, a grade do prédio. É claro, ninguém levou a sério sua provocação.


O homem, então, sussurrou palavras que ninguém conseguiu entender (o alvoroço era grande; um fiscal de trânsito chegou, sim, e multou, sim, o meu carro, cumprindo, cegamente, a sua missão). A doença de Parkinson degenerara o seu corpo, deixando-o rígido, lento, trêmulo, incompatível com o dinamismo, a loucura, o caos da vida cotidiana. A voz fora embargada por conta da paralisia das cordas vocálicas, sintoma comum à doença. Era evidente que ele chorava, embora, nenhuma gota de lágrima escorresse dos seus olhos paralíticos. Ele fitava o jardim florido, bem cuidado _ repito _, enfeitado com borboletas amarelas e um inesperado colibri que, alheio às esquisitices humanas, sugava o néctar matinal das flores. O velho se agarrava à grade com toda a força restante ao definhado corpo. Finalmente, eu deduzi que ele desejava atravessar pelo vão daquela grade, e adentrar o jardim, participar da paisagem, integrar-se ao colorido. Quem sabe, ele ansiava mesmo desgarrar daquela vida tola e sem sentido, e do arcabouço metálico em que ela se transformara, aviltando o fiasco de lucidez e dignidade ainda acesa em sua mente. Sim. Caminhar. Deixar para trás uma vida inconveniente e suas inconvenientes personagens. Caminhar. Caminhar dentro daquele jardim bonito. Tão bonito que, para uma mente malograda e triste como a sua, dir-se-ia se tratar mesmo do paraíso, do jardim do Éden.


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POR EM 28/02/2008 ÀS 02:44 PM

Medíocres e canalhas

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"Apenas por afrontamento insisto na maldade de escrever", confessou Ana Cristina César. Quanto a mim, apenas por lealdade ao sentido daquilo para que fui nascido, insisto na vanidade de escrever. Mesmo sabendo da impotência e inutilidade de tal fazer, o que faz dele um ato falho em si mesmo. Bertolt Brecht o disse de outro modo: "Eu sei que tem gente com sede e fome, mas mesmo assim eu como e bebo". Paul Valéry escreveu, em seu diário de bardo: Quem diz obra diz também sacrifício. A grande questão é decidir aquilo que vamos sacrificar. É preciso saber quem será comido".
           
Até porque, sendo o mundo um cruel e sangrento palco de eterna devoração (uns animais a matar e a comer uns aos outros, para se manterem vivos, assim vivendo em permanente estado de necessidade) a questão a se colocar, quanto ao"sacro ofício", a que têm de submeter-se o poeta e o artista, é: vale a pena sacrificar algo em si, em função da hipotética satisfação de criaturas de alma pequena? Qual ato de amor à verdade pode vingar, ou tornar-se visível, em uma sociedade de mortos vivos, que vive a consagrar e a ministrar a mentira e a hipocrisia em doses cavalares, para um sempre sedento e insaciável mercado?  
 Mesmo sabendo ser a sua entrega à solidão de seu ofício um sacrifício inútil, o verdadeiro artista não desiste, nem permite que o corrompam com promessas de falsos paraísos, a acenar com vanidades que apelam à satisfação dos sentidos. Insiste em manter-se íntegro e leal à dignidade inerente ao seu ofício, como o fez Clarice Lispector, que nunca se quis escritora profissional, para não ter que entregar a liberdade de ser quem era, naquilo que escrevia.  


Em solidão criadora de quem era em si mesma uma atmosfera, a revelar não uma pessoa prosaica, mas uma solidão inquieta, no grande e estranho mundo das palavras em estado de liberdade, em sosinhês de ser ela mesma, não fazia retoques de maquiagem para agradar ou "fazer bonito" à parvoíce de medalhões ululantes. E nestas obstinada recusa em ser repasto no banquete dos vampiros do Deus Mercado, fazia coro às palavras de Albert Camus: "Então, se a lucidez é mentira e hipocrisia, por que não seria a loucura verdade e pureza?"
 


É fácil perceber: um mundo que perdeu a sua alma possibilita, mais do que nunca, o triunfo das nulidades. Assim, medíocres & canalhas passaram a habitar (e a prejudicar abundantemente) o palco de vaidades da literatura e das artes, com plagiadores e diluidores de plantão a ganhar prêmios até mesmo daqueles a quem plagiam. Triste é saber que a literatura é usada como trampolim de alpinismo social, escada fácil e fútil para a ascensão de retumbantes mediocridades!
 


Basta publicar um opúsculo contendo versinhos de sentimentalismo barato para ganhar o pomposo nome de poeta ou poetisa! Com alegre leviandade, fazendo uso escancarado do tráfico de influências, logo estarão batendo à porta das academias de letras - que abundam nas capitais e províncias, proliferando como praga. Afinal, já dizia aquele bardo das virgens poucas, que já foram loucas: "A história da literatura é a história das amizades!" Sendo ele próprio o insuspeito exemplo do que afirma.  


Bafejados por fortuna, e/ou prestígio social ou político, que saibam escrever uma frase afirmativa simples, têm acesso garantido. Serem chamados de "acadêmicos" é glória de que se ufanam, vanidade que enche o peito de falsa importância. A praga da mediocridade ululante, a retumbar com estrondo, como um caminhão basculante, sem nenhum conteúdo, manifesta-se também como chusma de piolhos da subliteratura, a pedir prefácios, encômios & espaços; mal põem as manguinhas de fora, já querem ser tratados como gênios. Pior é que ainda se dão à pachorra ou ao direito de serem arrogantes.
 


Como hordas, solertes e rapaces, multiplicam-se como praga as legiões de mediocridades, anônimas ou triunfantes, a pulular nos salões, a despejar suas sandices subsidiadas por leis de incentivo que deveriam dar-se ao trabalho de selecionar, pelo critério da qualidade, as abobrinhas que patrocinam. O quadro se torna dantesco quando as mediocridades ululantes triunfam, tendo em vista as facilidades que o tempo oferece às falsetas, e ainda por cima se revelam solertes e rapazes canalhas, capazes de empulhar e enganar a muitos, durante muito tempo. A esta tipo infernal de mediocridade triunfante aplica-se o brocardo: "Há pessoas que não têm nenhuma importância, mas têm amigos nas redações". 
 


Como nunca ficou tão fácil publicar, publica-se em cascatas, produzindo-se o barulho de trombadas de basculantes. E sabe-se, pela experiência: quanto mais vazio um caminhão basculante, mais barulhento. Em face do acanalhamento tendendo a tornar-se geral e irrestrito, a invadir todas as áreas e segmentos da população, mormente entre os políticos, não é de se estranhar que o neocinismo oportunista e pernicioso ganhe, a cada dia, mais e mais adeptos, também no setor cultural e artístico. Tão descaradas e ousadas são as nulidades, que emplacam obrinhas risíveis, de tão patéticas, como leitura obrigatória em vestibulares - outras, como autoridades da cultura, fazem dos concursos literários ação entre amigos, com prêmios sendo amavelmente trocados entre si.  Daí que Clarice Lispector, Lúcio Cardoso (e outros, da sua dignidade e estirpe) tiveram sorte, em terem saído mais cedo deste mundo em que triunfa o absurdo. Se àqueles tempos, em que ainda haviam legítimos talentos, eram tristes, é de se imaginar o desespero em que viveriam hoje!


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POR EM 27/02/2008 ÀS 09:13 PM

O aniversário de Branca de Neve

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No final da tarde, Sandra e Morais davam ordens aos garçons e os últimos retoques no salão de festas, arrumavam os docinhos, os enfeites. Não paravam de falar aos filhos para que se comportassem. Nada de briguinhas, confusões. Queriam uma festa sem defeitos. Luzia, fantasiada de Branca de Neve, ia e vinha pelo salão, sorriso em todo o rosto. Olhava os ornamentos das mesas e paredes. Vistoriava o pequeno palco. Bruno se acercava das guloseimas, pronto a dar o bote. Saulo brigava com o irmão. Não metesse a mão em nada. Morais completava a admoestação. Nenhum deles devia se antecipar ao início da festa, servindo-se antes da chegada dos convidados. Impacientavam-se todos. As crianças corriam, os pais fumavam e se irritavam. E nada de convivas. “Será o trânsito?” Inquieto, Morais chamou um garçom. Sandra se exaltou. O marido não devia beber antes da chegada dos amigos. “Cerveja ou uísque?” A senhora acendeu mais um cigarro e se pôs a andar pelo salão, a revistar adornos e manjares. Um rapaz se apresentou, carregando uma filmadora. Morais pôs-se a dar-lhe instruções. Os meninos ora corriam, ora se abeiravam das mesinhas repletas de gulodices. O sol se punha atrás dos prédios.


A chegada de Xênia, Osvaldo e filhos causou exaltação nos anfitriões. Alegria geral, abraços, risos. Iniciaram-se as filmagens. A menina Ana correu ao encontro de Luzia e entregou-lhe um presente. As demais crianças se fizeram arredias. Sentaram-se os quatro adultos. Morais sorvia goles de cerveja. Cheio de euforia, gritou pelo garçom: trouxesse copos para o casal amigo. Sandra reclamou: queria também um copo. Luzia abriu o embrulho, com pressa, sob as vistas dos irmãos e visitantes. Bateram palmas, deram vivas. A aniversariante arrastou a amiguinha pelo braço: iria mostrar-lhe todo o salão. Branca de Neve e os Sete Anões, desenhados e pintados em folhas de cartolina e isopor, anunciavam fantasias. O palco, a cortina, o pano de fundo. “Vai haver uma peça, sabia?”


Sandra anunciou a chegada de Elizabete, Jonas e a pequena Vanessa. E levantou-se para recebê-los. A menina correu na direção de Luzia, presente à mão. Mais abraços, beijos, parabéns. Morais gargalhava, enquanto Jonas se esforçava para mostrar a musculatura do braço. Sandra falava alto. Os garçons serviam bebidas e salgadinhos.


Adão surgiu de mansinho, a esbanjar fumaça pelas narinas. Os anfitriões se disseram surpreendidos. Não o esperavam para tão cedo. O convidado conduzia um objeto embrulhado em papel colorido. Perguntou pela aniversariante. Gritaram-lhe o nome. Luzia sorriu e correu. Apresentavam Adão aos casais convidados quando se anunciaram Onira, Getúlio e duas meninas. Elizabete cruzou as pernas. Onira ajeitou os óculos, enquanto acariciava a filha: “Continua dando aulas?” Morais fumava, Sandra ria e gargalhava: “Continue filmando, rapaz.” Elizabete gritou por Vanessa. As meninas recém-chegadas se dirigiram a Luzia. Queriam entregar uma lembrança, apenas uma lembrancinha. Getúlio passava mão na testa, e parecia rir ou chorar. Osvaldo olhou para o relógio de pulso. Adão dava risada a gosto. Luzia controlava o sistema de som. As crianças iam e vinham pelo salão, olhos nas iguarias. Umas dançavam, outras conversavam. Sandra chamou a aniversariante. Hora de dar início à encenação. Rebuliço no salão. Mais convidados chegavam, carregados de mimos e sorrisos. “Vamos iniciar o teatro. Apaguem as luzes e silêncio.” Bateram palmas. A anfitriã dava ordens ao cinegrafista: não deixasse escapar uma só ação da peça. No palco, acendem-se algumas luzes. Dois personagens se mostram em vestes reais. Mimam uma boneca: a filha há tempos esperada. O rei (Morais) se dirige à rainha (Sandra): A filha teria por nome Branca de Neve. A platéia bate palmas. Xênia ajeitava o cabelo, olhos fitos no palco. O narrador anuncia a morte da rainha. O rei se põe a chorar. Sandra retira-se do tablado e corre à mesa, a rir. Movimento inverso realiza Xênia. O narrador anuncia: O rei terá nova esposa. Um padre passa a celebrar o casamento real. Getúlio mete mão no bolso. A meninada permanecia silenciosa. A nova rainha se mira frente ao espelho mágico: “Existe alguém mais linda do que eu?” A garotada grita “existe, existe.” Jonas alisava o queixo. Sandra fumava. Luzia entra em cena: “Sou Branca de Neve.” A rainha se observa diante do espelho e pergunta quem é a mais bela do reino. Uma voz vinda dos fundos grita: “Há uma menina muito mais bela do que Vossa Majestade”. Morais se retira do palco e chama um garçom: “Mais cerveja, que o rei está morto”. Risos e gargalhadas. Luzia pede silêncio, irritada. Sobe ao estrado Jonas. A rainha se dirige a ele e ordena: “Leve a menina ao bosque, mate-a, arranque o coração e o traga a mim”. Onira cochichava para Sandra. O caçador arrasta a princesa pelo braço. A menina grita e cai. Riem na platéia. Sandra brada: “Cuidado com minha filha.” Luzia se ajoelha e pede clemência: “Não me mate, por favor.” Jonas, o caçador, ergue a mão, olha para a menina e também se ajoelha: “Perdão, princesa. Vou enganar a rainha. Ela quer o seu coração, como prova de que a matei. Vou, pois, matar um cervo e arrancar-lhe o coração. Fuja para bem longe daqui”. Luzia corre para o fundo do palco e Jonas sai pela lateral. Reaparece no salão, a rir e ajeitar a camisa. Batem palmas. Onira olha de viés. Xênia se ergue e se retira. Branca de Neve reaparece no palco; ao fundo o desenho de uma casinha. Deita-se numa caminha e adormece. Jonas esfrega as mãos e levanta os ombros. Entram no palco sete anões, representados por meninos e meninas. Onira cutuca um pé de Sandra. A princesa desperta. Os anões se põem a conversar com Branca de Neve. Sandra quebra um copo. Alvoroço no salão. Morais fumava e batia pé no chão. Reaparecem a rainha e o espelho: “Quem é a mais bonita do reino?” Uma voz rouca ecoa no salão: “A mais bela de todas é Branca de Neve.” A rainha se desgrenha. Risos, vaias. Getúlio ajeita o cabelo com mão. Uma bruxa (Sandra), disfarçada de velhinha, carrega maçãs numa cestinha e bate à porta da casinha dos anões. Jonas enche a boca de empadas. A bruxa oferece uma maçã à princesa. Gritos, conselhos: “Não aceita a maçã; é envenenada.” Luzia sorri, olha para a platéia: “Eu tenho que aceitar e comer. Faz parte da história.” Dá uma mordida na maçã e cai. Os anões gritam, choram. Os convidados batem palmas. Xênia olhava para as coxas de Getúlio. Entra em cena o príncipe, representado por Saulo. Elizabete aproxima-se de uma das mesas, rebolando-se. A princesa ressuscita. Luzia se ergue e abraça o irmão. O narrador fala do casamento da princesa. E encerra, em voz pausada: “E viveram felizes para sempre.” Mais palmas, assobios, aplausos. Xênia pinta-se diante de espelhinho, calada. As luzes se acendem. Palmas, gritinhos, ovações, agitação na platéia. As crianças se dispersam, correm. Sandra olhava para a barriga de Jonas. A aniversariante pergunta se está na hora dos parabéns. Sua mãe levanta-se, retira-se da mesa e grita: “Vamos cantar os parabéns.” A criançada se agita e corre em direção à mesa maior. Luzia se posta junto ao bolo. Todos cantam “Parabéns pra você”. O grande bolo com sete velinhas é cercado de adultos e crianças. Aparecem fotógrafos de todos os lados. Luzia sopra e apaga as velas do bolo. O primeiro pedaço entrega à mãe ou ao pai? Abraços, beijos, gritos, cantos. Inicia-se a distribuição do bolo em pratinhos. Osvaldo não pára de falar: “Bebida é fundamental, tudo é droga.” Getúlio ajeita a cabeleira e anuncia, baixinho, para Osvaldo: “Sonho que sou escravo.” “Escravo da mulher? Só se for da melhor.” “Com mulher de farda nem o Diabo pode.” Onira deixa a mesa, irritada. Sandra sai atrás dela. “Ele tem outra.” Getúlio olha para elas e se volta para Osvaldo: “Casamento não foi feito para mim.” Adão ajeita os óculos e discorre sobre sexo imaginário. Xênia alisava a face: “Amizade com mulher, até certo ponto.” Onira olhava para o busto de Xênia: “Sabia do nascimento do bebê de Oxesiscrana?” Adão ajeitou os óculos, cigarro nos dedos, e separou-se do grupo. Osvaldo chupou o copo: “Todo governante é ditador.” “Todo ditador é governante.” “Não, toda mulher quer governar homem.” Morais olhava para Jonas: “Clube de futebol virou negócio.” “Tudo é negócio mesmo.” “Como é aquela frase? Tempo é dinheiro.” “Time is money.” Adão acendeu um cigarro: “Droga significa volta à inocência.” “Usar droga para não ser adulto?” “Ele quer dizer o seguinte: drogado parece criança.” “Não é bem isso.” Elizabete piscou para Sandra: “Homem tem de ser fogoso.” “Muito fogo para se queimar.” “Não vá me queimar com esse cigarro.” Sandra fumava e olhava para os quadris de Elizabete: “Homem só pensa em sexo na hora, pouco antes, muito antes, mas só por um minuto.” Sandra, Elizabete, Xênia e Onira se dão as mãos e se põem a dançar. “Na Idade Média o casamento...” “A idade média para o casamento deve ser aos vinte anos.” “Cadê os sete anões?” “Mais cerveja aqui, garçom.” “ E a aniversariante já fugiu com o príncipe?” “Quem quer bolo?” “O príncipe se escafedeu, se safou.” “Morais, ainda tem uísque?” Jonas mordeu orelha de Elizabete: “Adoro orelhas.” Ela se esquivou: “Adoro minhas crianças e odeio cigarro, bebida, conversa fiada.” Um casal com filhos se despedia dos anfitriões e da aniversariante. Derrama-se cerveja numa mesa. Crianças pulavam, corriam, se esgoelavam. Onira chamou o marido. Adão tentava conversar com Getúlio: Sabia o significado dos anões? “Uma louca!” Sabia? “São os sete pecados capitais?” Mais convidados se retiravam. “Por que já vão?” Espoucavam balões. “Mais cerveja?” Sandra se pôs a cantar como os anões. Palmas, assobios. Um dos anões chorava, aos berros. Outros se iam, atrás dos pais. Os anfitriões agradeciam os presentes e as presenças dos convidados. Os garçons cambaleavam. O cinegrafista ria. Pedaços de bolo e salgadinhos espalhados no chão. Cerveja e refrigerante derramados. Gritavam, vociferavam, gargalhavam, dançavam, corriam, caíam, choravam, reclamavam.


Súbito as luzes se apagaram. “É o fim do mundo.” “Passam anos e vêm anos e é essa mesma coisa.” “É o caos, meu amigo.” “Mãe, cadê você?” O vulto de uma bruxa passeava pelo salão. Uma voz sibilava: “A morte vem vindo.” Havia medo nos olhos das crianças e angústia em cada adulto. Meia-noite.

 


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POR EM 27/02/2008 ÀS 09:08 PM

A educação na era Lula-FHC

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Tem-se falado muito sobre a qualidade da educação, no Brasil, ultimamente. Parece que, organizados “os fundamentos da economia”, chegou finalmente a hora do país pensar em educação, sem o que não haverá crescimento sustentável. Esta-se descobrindo finalmente que o fator humano é de fundamental importância, embora continuemos pensando a cultura não como uma aquisição ampla e necessária da humanidade, mas restrita às questões técnicas e pragmáticas. A educação como imperativo econômico. Já ouvi economista respeitado dizer na tv que, ao invés de aprender “questiúnculas de gramática”, o trabalhador deve ter é formação profissional. A sociedade do conhecimento, no Brasil, se limita ainda a preparar mão-de-obra, não a produzir ou estimular cérebros competentes. Com efeito, se por essa ordem virtual cérebro (leia-se produção de ciência e tecnologia) vem em terceiro lugar, e mão-de-obra como simples operação de máquinas em segundo – o que vem em primeiro? Educação fundamental. O básico. Não temos nem isso, com suficiência.

Nos últimos quatorze anos, o Brasil foi governado por uma geração identificada com a democracia e com os anseios populares, a geração que se deixou liderar por FHC e por Lula, símbolos de resistência e de progresso social, sob um regime de opressão. É curioso, portanto, que ambos não tenham feito pela educação o que o país inteiro esperou que fizessem. Eu esperei e tenho certeza que muitos dos leitores desse artigo esperaram.

Digo “mesmo” porque temos aqui uma enorme contradição, daquelas que nos fazem desacreditar nos homens e nos projetos políticos. Não importa se um deles passará à história como, provavelmente, um dos dois ou no máximo três melhores presidentes que o país já teve, a despeito das incoerências de seu governo.

Isso ocorre porque educação, no Brasil, nunca foi - e não é - prioridade de governo; não é, ao pé da letra, Projeto de Nação. Contentam-se nossos agentes políticos, sediados em Brasília, com reformas pontuais e com os gastos de sempre, prescindindo da única coisa que fará realmente diferença ao país: uma revolução nesse setor. Getúlio Vargas priorizou a industrialização, Juscelino a construção de Brasília, os militares a infra-estrutura nacional, o próprio FHC o combate à inflação – porque não pode haver um que bata na mesa e diga que a prioridade é a educação!? Não há o menor indício de que isto esteja ocorrendo ou em vias de acontecer, no Brasil: não se nega eventuais melhoras, mas, decididamente, não acontece uma transformação visível, patente e inquestionável. Isso não. Os dados apresentados todos os dias na imprensa dizem exatamente o contrário, com o benefício de nossa percepção: que a coisa continua de mal a pior, mesmo sob os mandatos de FHC e Lula.

Segundo dados recentes, amplamente divulgados pela mídia, a educação fundamental é um dos gargalos ao desenvolvimento do Brasil. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação, em vigor desde 1996, diz em seu artigo 32 que essa etapa intermediária da formação escolar objetiva “à formação básica do cidadão”, mediante, ente outras coisas, “o domínio pleno da leitura, da escrita e do cálculo”. Quem dá aula em escola pública, para alunos da quinta à oitava séries, sabe muito bem que “domínio pleno” está muitíssimo distante da realidade. O estudante em questão mal sabe ler e escrever – diria mesmo que tem aversão aos dois processos, sem os quais, ao lado do cálculo, não há possibilidade de mão-de-obra especializada, muito menos de ciência e tecnologia. Sem contar o contraste diante do elenco de valores familiares e sociais requeridos por essa lei, já que impera quase sempre o caos e a violência nas escolas. Faltam-lhes estruturas adequadas, além dos péssimos salários pagos a profissionais que deviam ter, no mínimo, o status de médico: o professor.

FHC e Lula por causa de suas afinidades políticas de origem e muito mais por causa de suas biografias. O fato de um ter nascido filho de general e outro de retirante é uma vicissitude, não chega a ser um abismo. De realidades diametralmente opostas – um virou acadêmico e o outro não passou da quinta série –, não apenas convergiram sua liderança em favor de um país mais justo como, também, viram definidas suas relações com a educação: um por falta, o outro por, digamos assim, “excesso”. Um conquistou vários títulos de doutor honoris causa pelo mundo afora, o outro apenas o estigma de “analfabeto”, até entre os analfabetos de verdade (o que é coerente). A junção daquele ideal de justiça com esse contraste de formação representa, com efeito, uma grande ironia, para o Brasil contemporâneo. Nosso país nutriu boas expectativas seja com o primeiro presidente intelectual de sua história, seja com o primeiro que quase não freqüentou a sala de aula. O favor de um adveio justamente da oportunidade que lhe deu a educação, o encanto do outro do fato de ter sido excluído dela, pelas contingências da vida. Entenda-se: um nos compreenderia porque era mais esclarecido, o outro porque era igual a nós - um prático sem firulas, que teria legitimidade para reclamar um direito universal.

Lula conheceu a exclusão social na prática, FHC na teoria. Justiça seja feita, poucos estudiosos traçaram um diagnóstico tão preciso de nossa realidade social como este scholar, e, até certa idade, ninguém encarnou tão bem o excluído quanto aquele, retirante. FHC e Lula, com efeito, porque conheciam o Brasil melhor do que ninguém, e se um foi operário, o outro foi professor: ambos tiveram a experiência e a expectativa do trabalhador comum – aquele que faz greves e reclama por melhores salários. Lula e FHC, se quisermos mais motivos, porque ambos lutaram contra a Ditadura, e se por essa razão um acabou no exílio, o outro conheceu a cadeia. Um foi marxista (conceitualmente, um dos melhores que tivemos), e o outro, se não chegou a tanto, fundou um partido que é, estaturiamente, socialista. Acreditem, é a pura verdade!

FHC e Lula, obviamente, seriam os líderes nacionais mais sensíveis à educação, até porque viveram entre estudantes e professores: vivenciaram esse mundo como “mestre” e como “companheiro”. Mais que Sarney, mais que Collor, que Itamar ou que qualquer outro presidente em nossa história republicana inteira. Eram particularmente íntimos desse universo. Não apenas instigaram, sobretudo conquistaram a simpatia de estudantes e professores: eram os naturais porta-vozes dessa gente, candidatos a finalmente resolver o maior impasse da nação, a fazer uma revolução sem armas: a revolução da educação. Tinham apoio e representavam a esperança. Candidataram-se e chegaram ao poder. De deputado e senador foram elevados sucessivamente a presidentes da República. Teria chegado a hora.

Mas deu errado. Deu errado: logo descobrimos que a educação de um era tamanha que seu principado se confundiu com o da elite charmosa e esclerosada, e que a carência do outro era tão marcante que teve orgulho de se bastar ao seu conhecimento prático das coisas, sem poder incentivar o amor aos livros e à escrita. Um parece simplesmente ter desprezado os sem-educação, o outro - ressentido? -, os educados. Provaram-se extremos demais. Não eram, infelizmente, os candidatos a cumprir esse papel revolucionário. Faltou-lhes equilíbrio.

Hoje podemos dizer, sem nenhum receio, que, se em doze anos à frente do governo, FHC e Lula não deram o passo imenso da educação no Brasil (investiram o bastante para manter o ritmo ordinário da história), não será nos próximos dois anos que isso se fará. Aí teremos interado dezesseis anos e fechado um ciclo. Um ciclo, também, de desencanto. Se esses dois homens, com as credenciais e os votos de apoio que tiveram, acharam desnecessário uma revolução na educação – quem, em seu lugar, achará que é necessário?  


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POR EM 27/02/2008 ÀS 09:06 PM

A importância das pequenas coisas

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O debate cultural foi atingido nos últimos anos por uma avalanche de cânones literários, clássicos, gênios e heróis. Os exemplos mais populares são as idéias de um Harold Bloom e a elevação dos museus como centros da cultura contemporânea. Fora dos grandes, segunda essa visão, não existe vida. Há apenas vulgarização e ideologia na arte moderna, conforme martela o autor de “O cânone ocidental”, que vê o centro do mundo em Shakespeare. Com a repetição exaustiva na mídia, essa interpretação tornou-se um dos mais sólidos lugares-comuns.

A reação em favor dos clássicos ofusca outras possibilidades de entender os movimentos culturais de hoje. Nos anos 1980, o historiador norte-americano Robert Darnton iniciou um trabalho de analisar a subliteratura do Iluminismo francês. Fez isso ao lado das leituras dos enciclopedistas. Mais recentemente, o italiano Franco Moretti vem elaborando mapas e gráficos com a vasta produção literária do século XIX. Ele descobriu, por exemplo, que o popular romance histórico é ambientado em regiões de fronteira e de contato com o “outro”.

Conhecer a vastidão das ditas obras menores permite entender como se constrói o imaginário e as formas de representação de uma época. A arte é um campo aberto e fértil para essa tarefa. Atualmente, um grupo de pesquisa da Universidade de Brasília (UnB) está mapeando a produção literária e cinematográfica desde os anos 1970 no Brasil. O objetivo é saber quem escreveu, filmou, onde vivem os autores, qual o gênero, cor e profissão dos personagens. Trata-se de um trabalho gigantesco que vasculha desde as grandes produções até o mais singelo.  

Nas próximas semanas, a TV Globo exibirá mais um desses trabalhos pequenos e ricos para discussão. A minissérie “Queridos amigos”, de Maria Adelaide do Amaral, recria a pós-ditadura militar e focaliza um período de 20 dias em dezembro de 1989. Baseado no livro da autora, “Aos meus amigos” (1992), a narrativa trata da situação de antigos militantes de esquerda na época da redemocratização. Desde 1989, uma série de filmes brasileiros e a minissérie de TV “Anos rebeldes” remexeram as memórias dos chamados “anos de chumbo”. 

Beatriz Sarlo diz que a ficção sobre a ditadura na Argentina ajuda a colocar as coisas no seu devido lugar no imaginário. Mostra quem torturou quem, os responsáveis por acobertou crimes, o papel do futebol para a manutenção do poder dos militares. Os relatos memoriais, diz Sarlo, serviram até de provas processos de reparação para os prisioneiros políticos. Em tempos de neoliberalismo, por sinal, tornou-se de bom tom dizer que as ditaduras da América Latina não passaram de um incidente ou um processo necessário para extirpar a doença do comunismo.

Nos filmes brasileiros recentes, é possível ver o isolamento da guerrilha (“Lamarca” e “Cabra cega”); os fetiches da identidade nacional (“O ano em que meus pais saíram de férias”); a fratura social à brasileira (“Quase dois irmãos”); a destruição do sujeito (“Batismo de sangue”); a relação documento/memória (“O que é isso, companheiro?” e “Conspiração do silêncio”); o esquecimento impossível (“Ação entre amigos” e “Benjamin”); e a construção de heróis (“Zuzu Angel”). Cria-se assim um amplo painel de como o Brasil do século XXI enxerga o passado recente.

 


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POR EM 27/02/2008 ÀS 08:58 AM

Deformidades

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Goiânia, vira e mexe, sempre tem se destacado como notícia nacional. No passado, foi o Césio; há pouco, a febre amarela, que levou a população ao desespero, todos em busca da vacina, inclusive eu, que, um mês após receber a dose, contraí dengue, passei maus bocados, pelo menos estava tranqüilo com relação à febre amarela, caso contrário, teria enlouquecido, porquanto alguns sintomas são muito parecidos.

Passado o surto da febre, um caso inusitado aconteceu:  um casal que se dizia “fugindo das FARC” chamou a atenção da mídia nacional, o casal relatou que havia percorrido - a pé - milhares de quilômetros, da Colômbia ao Brasil, passando pela Venezuela, pela Amazônia, até chegar a Goiânia, depois de ter perdido um filho para aquela organização terrorista. Mais tarde, veio-se a descobrir, após a morte da esposa (que morrera de malária) a verdade: o casal fugia não das FARC, mas da pobreza do seu país. Procuravam melhores condições de vida. Mas como mentira tem pernas curtas, o rapaz será deportado, ficando apenas a imagem de um casal sonhador, abrigado no Hospital de Doenças Tropicais, guarnecido pela força policial goiana.

Mas as más notícias não param por aí, principalmente quando envolve o erário, como aconteceu recentemente, o desvio de mais de 900 mil reais dos cofres do Ibama, supostamente desviados por uma funcionária que cuidava das finanças - segundo declarações do Procurador da República em Goiás - e que teria gastado boa parte desse montante numa clínica de estética. Tudo muito bem maquiado, bem urdido, um atentado à flora e à fauna brasileiras. E haja beleza! Quase um milhão de reais, dividido entre filhos e outras laranjas, laranjas da terra, que agora, depois de despencarem do talo, amargarão por longos anos.

Agressão à fauna, à flora, desvio de conduta, tudo tem marcado o nosso País e, claro nossa grande Goiânia, como a trágica história de uma senhora, de 48 anos, que teve o útero retirado, após ser confundida com uma outra paciente. Segundo relato da própria vítima, ela fora internada para fazer uma reconstituição do períneo, mas começou a achar tudo muito estranho:  “Eu senti que algo estava repuxando, perguntei ao médico o que ele estava fazendo e ele respondeu: estou retirando o seu útero.” O mais grave de tudo isso, a mulher que teve o útero retirado fazia tratamento para engravidar, estava na  fila de espera do Hospital das Clínicas, para se submeter a inseminação artificial. Trágico, não?

Mas as notícias não param, às vezes trágicas, como o caso da retirada do útero da senhora acima; às vezes hilária, como a história do padre de uma paróquia em Goiânia que proibiu às mulheres, principalmente nas cerimônias matrimoniais, de comparecerem à igreja trajando vestidos decotados, costas nuas, para evitar, segundo o pároco, um mal estar entre os fieis. Pois, segundo ele, as beldades não se vestem decentemente, não usam sutiã, deixando os seios eriçados, à mostra. O padre deve ter lá suas razões, talvez seja preferível proibir a se autoflagelar, principalmente quando se tem uma visão tão apurada.  Às mulheres, uma saída: mudar de igreja ou de vestido.
 


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POR EM 26/02/2008 ÀS 02:39 PM

Avenças e desavenças

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Derna deu quininim me embatuco pra tomar tento e ciência com as avenças do mundo, as que estiolam e as que adjutoram. Tomo tino, mas ainda morro besta. Certa feita, um xibungo tampa de binga quis me embromar com sugestas diversas, foi quando atinei suas leréias e casquei fora, passando a divulgar  as mermas do que era o eito de sacanagens com que os pestiados a toda hora nos atentam. Foi preciso garguelar o bicho, o feladamãe e fidumacadela prenha, estrupício de gente e mandar tomar termo.

Era o tempo bom retado em que inda vadiava de calça curta gritando pros outros “quem tem rabo, avoa, quem não tem, caçoa”; ou quando alguém pedia uma coisa que você estava comendo e não queria dar: ‘dá dói, pedir incoe, murro no oi dói”; ou ainda quando gritava para mariposa: “cai, cai, tanajura, na panela de gordura”; ao feladaputa que te xingava, lascava: “xibumgo é ribibiu, comi sua mãe, seu pai viu”. Depois, debulhava um rosário contra os pecados do mundo, para agradar o céu.

As bondades também me acompanharam de bebéu, ainda refestelando nos peitos de mainha, coisa que aprendi e, quando posso e deixam, pratico com afinco, pra ficar fortinho, simpático e alegrinho.  Tive ciência de que pobre é quem gosta de ajudar o semelhante, que cachaça é suvela do cão, que fuxico chalera o que não deve, que godela é vício de fulero, que quem num sabe cuma é pergunta ontá.

Homem exemplado, Lindauro vivia e dava bons conselhos, era pissuidor de bons grados e pongava nos ensinamentos do bem. Mas a modo que vivia açulerado e era malino, acabou enterrado de novo, morreu de supetão, num houve Tretrec que desse jeito. Acontece muito de gente boa num tardar. Renato também era outra alma bondosa, que deu sapituca no pelego e bateu o pacau, foi pontá Deus. Sem tino pra enfrentar água, ia me afogando e ele pulou com roupa e tudo e me salvou. Senão não estaria aqui hoje com essas indagas.

Menino de lá pispiava a mocidade na bronha e no puteiro, sob o serviço da rameira mais experiente do brega, tirando definitivo qualquer possibilidade de boiolagem. Causa disso, prosperavam as doenças nos pissuídos. As desavenças da política surrupiavam o sossego, levando uns a despicarem nos outros da mesma laia, quando não da mesma família.  Uns imbromavam, outros despicavam, alguns iam com traquinagem e sempre dava em furdunço, destempero ou rebuliço.

A vida e suas bestagens, uns com mais, outros com menos, uns bestejados outros ladinos, gente feito sibesta e imbirrenta. E assim vai-se vivendo, uns fazendo e outros desfazendo, uns com a fivela outros com a manivela, lancetando a pustema, saindo dos cafundós e indo pro caixa prego, arreliando e xumbregando, gumitando o que não come, rindo de sastifeito e traquinando nos xamegos, promode de caçar rumo e a gente ainda sai na bistunta, trupicando nos ermos.
 


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