revista bula
POR EM 06/03/2008 ÀS 10:28 PM

Excesso de peso

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As três notas curtas e uma longa, da Quinta: torpedo. Gonçalo segura o volante com a mão esquerda, liberando a direita para ver que porra de mensagem é esta agora: não esquecer a recepção logo mais às cinco. Joga o aparelho no banco do carona e bate com a mão es-palmada na testa: droga, droga, droga! Mais de uma hora pajeando o diretor da Região Sul no aeroporto.

É a terceira vez que manuseia o celular no trajeto curto até o escritório. O aniversário da filha, não se atrasar. A menina em crise, Gonçalo, qualquer hora escapa do controle. Desde quando esta náusea por ouvir a voz da mulher? Depois a secretária. O pessoal da Espanha, doutor Gonçalo, na sala da recepção olhando para o relógio. Muito sérios estes espanhóis, com suas pestanas bastas e as caras de toureiros. Não, medo não, mas eles disseram que embarcam ainda hoje, o senhor está entendendo, doutor Gonçalo? Ainda hoje, e não param de olhar para seus relógios suíços.
Não esquecer a recepção logo mais às cinco.

A tarde foge rápida e quente deixando as marcas de suas patas largas sobre a cidade. Gonçalo pega do porta-luvas a caixa de lenços de papel para limpar o suor da testa. E amanhã? Começava o dia estudando as propostas de revisão dos preços. Depois o discurso na Câmara do Comércio. À noite. Redigir quando, senão quando os ou-tros seres humanos dormem? E o restante do dia, na agenda da se-cretária, déspota pouco esclarecida na distribuição de seus minutos.

O farol fecha e os pneus guincham. Gonçalo bate com as duas mãos no volante. No final do mês: os objetivos estavam superdimensionados, não acham? Olha ao redor. A cidade parada à espera da vida. A vida parada à espera da morte. Não pode abrir o vidro, mas o calor entra por seus olhos. Seus olhos parados à espera do nada. 

Às cinco.

São três e quarenta e cinco. Há três espanhóis vestidos de toureiros sentados nas poltronas macias na sala da recepção. Pelo menos o ar condicionado. Antes das cinco. Uma nuvem, por um momento, esconde o sol e o semáforo aproveita para ficar verde.

Há quantos séculos paga o clube sem poder usufruir?

A avenida se move, primeiro lenta, então acelerando aos poucos. Há carros na frente e atrás. Na faixa da esquerda, como na direita, passam carros, ônibus e caminhões transportando seus rugidos à vista e seus passageiros suados, que sonham com um destino. Todos têm pressa de chegar.

Cancelar não, que a família. Principalmente o Júnior. Melhor do que ficar puxando fumo.  Hoje em dia.

A avenida corta o parque e Gonçalo enche-se de verde. Então respira fundo, examinando atento seus pulmões desabituados.  Ah, sim. Hoje em dia.

Não esquecer a recepção logo mais às cinco.

O celular chama-lhe a atenção. Alguém vai dizer alguma coisa so-bre seu rumo, seu caminho, sua vida. Gonçalo chega a soltar a mão direita, que volta a segurar rudemente o volante. Não, ainda não. Tenta manter-se consciente para anular os gestos reflexos. Olha-se no retrovisor. O telefone insiste. Está com ar de muito cansado. O telefone insiste. Estas manchas roxas por baixo dos olhos podem significar alguma coisa. Brusco, desaperta o nó da gravata e desabotoa o colarinho. Sente-se vivo e cheio das sombras do parque. Está deci-dido a não atender a porra do celular. Que toque o resto do dia, que berre o resto da vida, que desembeste a gritar histérico, não vai mais comandar sua vida com suas exigências ridículas.

No centro de um grande círculo gramado, a estátua de bronze não se move. Gonçalo diminui a velocidade e entra por uma rua marginal de pouco trânsito. Por fim ele pisa no breque com uma urgência des-conhecida porque o coração pulsa-lhe muito cabrito na caixa do peito. Como é que passando por este mesmo caminho quase todos os dias nunca tinha visto aquela índia de bronze, uiraçaba pendente do om-bro e arazóia presa na cintura? Ah, que vida!, ele suspira.

Fora do carro o calor é agressivo e forte, robusto, e Gonçalo de Azevedo Rodrigues saca o paletó com alívio. Duas meninas passando dão risadas por causa do gesto irresponsável do homem jogando um paletó sobre a grama.

De dentro de automóveis invejosos, os motoristas ainda não reparam muito em Gonçalo porque ele é, por enquanto, apenas um ho-mem sem camisa e pele muito alva. Quando começa a abrir a braguilha, um casal de velhos, vexados com o gesto livre de qualquer pudor, olha para outro lado, temendo que ele mije ali mesmo à vista de todos e à beira de uma avenida movimentada. O rosto de Gonçalo resplandece por causa da alegria concentrada que durante tantos a-nos vinha recalcando.

Algumas pessoas param em meia-lua observando a coragem daquele homem, até onde é que ela vai. Eles querem saber. E conver-sam entre si com muitas risadas de entremeio, pois não é cena de ver-se todo dia, um homem que traz a pele muito clara por baixo da roupa, dando pulos em volta de Iracema, só de cuecas.  

Quando a polícia chega com seus cassetetes à mostra, o povo abre espaço e deixa que o sargento junte a roupa do doutor. Ele, o doutor Gonçalo, já está de pé sobre o pedestal, no mesmo nível da índia. Ela ainda reluta, tanta gente assistindo, mas Gonçalo já a enlaça pela cintura para retirar-lhe a arazóia.

O povo aplaude. Os guardas exigem que o povo se disperse, mas exigem cheios de convicção de que é uma exigência inútil. Cada vez que empurram para fora do gramado uma ala, a outra torna a invadir o espaço mais próximo da cena. Ouvem-se brecadas e arrancadas barulhentas, as buzinas incendeiam o ar. Até pode um desastre, grita o sargento, os braços ocupados em proteger aquela roupa cara do doutor.

– Ninguém vai calar a boca desta merda de celular?!, berra o comandante.

Por fim, sob vaias, o sargento aproxima-se do monumento e grita para que o doutor desça daí. Mas Gonçalo acaba de empurrar para os pés sua cueca e olha com malícia para o policial. Nem às cinco nem nunca mais, ele canta, o braço direito erguido como um tenor no auge da euforia.

Desça já daí, ruge novamente o sargento, para alegria do povo, que se esmera em apupos e risadas. 

Então, para o pasmo de todos, Gonçalo e Iracema, abraçados e fe-lizes, pulam do pedestal e começam a dançar. Ninguém se move, ninguém comenta nada. As fisionomias começam a inventar uma inveja pura, uma saudade de viver, mas tão indefinida que chega a escurecer o céu.

Com passo leve, talvez uma valsa, Gonçalo e sua amante invadem a avenida parando totalmente o trânsito. Entre os carros atônitos, eles seguem valsando até perderem-se no horizonte. 


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POR EM 06/03/2008 ÀS 10:27 PM

Nossas universidades

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O grande intelectual Otto Maria Carpeaux, reforçou num artigo memorável (A idéia da Universidade e as idéias das classes médias) que a vida espiritual das nações depende das universidades: a França medieval é a Sorbonne, a renascentista, o Collège de France, e a moderna, a École Normale Supérieure. Já a Inglaterra conservadora é Oxford e Cambridge. A Alemanha luterana foi Wittenberg e Iena e a moderna Bonn e Berlim. E por aí vai.

Agora os (meus) exemplos tupiniquins da nossa “vida espiritual”.

Recentemente, na Universidade de Brasília (UnB) descobre-se que o reitor comprou artigos de luxo para seu “apartamento funcional” com o intuito de receber e agradar aquelas “Very Important People” e assim estabelecer convênios “fundamentais” para a própria Universidade. Em assembléia, os professores da UnB se reúnem para discutir o caso e por 157 votos contra 24 (a UnB tem 1400 docentes), rejeita-se a proposta de afastamento do reitor e critica-se a “mídia golpista”.

Cá entre nós, gente: isto não é típico de Brasília? O que o reitor fez é considerado legal (vamos apurar abusos, etc....) e então a culpa é da imprensa. Não é o próprio espírito maligno e sinistro de Brasília?

Na Universidade de São Paulo (USP) ano passado, alunos invadiram a reitoria alegando que havia uma ameaça contra a autonomia universitária. A reitoria ao invés de chamar a polícia, inicia um “diálogo” (claro, claro, são muito democráticos....). Greves pontuais se iniciam pelo campus e depois de ameaças à professores que queriam continuar trabalhando, há finalmente o consenso que a greve é inócua e tola. A maioria das aulas volta ao normal, mas os invasores se mantêm na reitoria com uma lista de reivindicações completamente absurda. De repente, percebe-se que a Universidade passa muito bem com ou sem os invasores e, acreditem, sem a própria reitoria.

Não é típico “sumpaulo”? a) um movimento estudantil sem pé nem cabeça (“o avesso, do avesso, do avesso, do avesso”); b) uma reitoria que “acha feio o que não é espelho”; c) e a vida continua assim mesmo “da força da grana [da FAPESP] que ergue e destrói coisas belas”.

Em 2006, o reitor da Universidade Estadual de Goiás (UEG) deixou o cargo para se candidatar à deputado federal. Como seus 50 mil votos não foram suficientes, ele tentou voltar à reitoria, mesmo numa situação completamente ilegal, já que nem concursado era. Com exceção de alguns professores e alunos, que literalmente passaram a dormir em protesto nas salas da reitoria, nenhuma autoridade política (nem o governador) se colocou explicitamente contra a atitude do político-reitor. No final, graças à teimosia destes alunos e professores, ele não voltou.

De novo, só entre a gente: isto tudo não é típico de um Estado que ainda guarda todos os ranços coronelistas, com pessoas ávidas para te dizer “você sabe com quem está falando?”.

Carpeaux em seu artigo, ainda afirmava “O fato central da nossa época é a violência generalizada a todos os setores da vida pública, a violência que pretende substituir o espírito no seu papel guiador das massas”. Profético, pois, incapazes de gerirem a “vida espiritual-intelectual” da nação, nossas universidades são guiadas por esta violência política, burocrática e “acadêmica de cartório”.

Pelo menos, ninguém pode acusá-las de não serem genuínas representantes regionais. 


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POR EM 04/03/2008 ÀS 11:20 PM

Publicidade e arte: tão perto, tão longe

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Se uma palavra pode definir o mundo publicitário, creio que é esnobismo. É que a publicidade é a cara do mundo, digo, do capitalismo, digo, o lado rico, endinheirado, do capitalismo. Talvez não pudesse ser de outro jeito, para quem, profissionalmente, precisa conhecer a alma do sistema, para vendê-la. São irmãos siameses, mercado e publicidade: só existe esta em função daquele. Acabou o mercado, acabou a publicidade – a que vende de tudo, é claro: inclusive a imagem de um homem, se preciso. A arte, não: existe desde sempre; existirá sempre. O Arquipélago Gulag sobreviveu a Stálin. Mc Donald`s, entretanto, não pisou a Rússia antes de Gorbatchov. Não antes, portanto, que houvesse mercado. 

Talvez pudéssemos dizer que a publicidade é a irmã pobre, da arte, embora ela é que tenha aparência aristocrática. A irmã que anseia pelos atributos da arte, mas que não pode ser arte. Não é sua condição existencial. Salvo raras exceções – Matisse, Jorge Guillén etc -, arte normalmente é revolta, antipatia, asco, nojo, repulsa – a publicidade, embora se vista de arte (pois está sempre no encalço da estética, fetichista) não pode nunca se dar o luxo de ser do contra. É o oposto: o espelho da ordem. Precisa iludir. Precisa maquiar, adornar, não despir. Quem fala a verdade sobre a nossa condição é Francis Bacon: as vísceras da espécie. A publicidade, não: se limita a ser o pacote, a superfície, a aparência: é Roberto Justus (não o homem, mas o arquétipo). Arte é arte; publicidade, artifício.

A arte é operação gratuita, e talvez por isso é revestida de uma aura superior. A publicidade, não: pragmática, tem preço. Só se manifesta se lhe pagam bem. Talvez por isso tenha sempre aquela cara. Aquém do além.

A intenção da arte não é vender, nunca. Encontra comprador sem procurar. Não corre atrás, orgulhosa. A publicidade, pelo contrário, só existe em função do mercado: vende tudo. Humilde e humilhada, se vê na obrigação de correr atrás, qual ambulante qualquer. A arte é única; a publicidade, vária. Só existe um Nu descendo a escada, mas podem existir quantos anúncios se desejar, de uma campanha. Publicidade é equipe; arte, solidão. Não adianta falar no grupo tal: arte é, por excelência, solidão. Procure o Vinicius de Morais pra saber.  E favor não confundir arte com indústria cultural, que é, por exemplo, o forte do mercado fonográfico e Romero Brito.

O capitalismo odeia solidão, embora a promova sistematicamente. A arte é, muitas vezes melancólica; já a publicidade é, necessariamente, gregária, sempre alegre e extrovertida. Suspeito que seja uma fórmula de sucesso, uma embalagem: ou o profissional age assim ou, no dizer do outro, está demitido! O capitalismo é tribal; a arte, Ralph Waldo Emerson – apóstolo do individualismo. Curiosamente, as grandes causas contam com a abnegação dos artistas. O individualismo destes flerta amiúde com a solidariedade e com o ser; o do publicitário pode não ser menos solidário, mas anseia primeiro, e antes de tudo, pelo ter. O publicitário é um homem, no mínimo, simpático ao consumo, e de alto padrão.

Enfim, não fosse porque se veste bem - muito bem -, a publicidade não iludiria ninguém. É útil e necessária, ao capitalismo. A arte – seu suplício de Tântalo - ao homem. 

 


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POR EM 04/03/2008 ÀS 07:02 PM

Trono Manchado de Sangue

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Distribuição: Continental Home Vídeo
R$ 44,90

por Flávio Paranhos

            
Semelhante a Kagemusha, Os Sete Samurais e Ran, em que cenas de batalhas nos enchem os olhos, mas diferente de Dodeskaden, Madadayo e Sonhos, em que o que nos enche os olhos é a sensibilidade (naturalista em Dodeskaden, poética em Madadayo e Sonhos), Trono Manchado de Sangue é um Kurosawa típico. Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro quando foi lançado, tem o figurinha-fácil-em-filme-de-Kurosawa, Toshiro Mifune, perfeito, como sempre. Como assisti (de novo) logo depois de ter visto Ran (mais uma vez), achei curioso o papel das personagens mulheres em ambos: são elas as traiçoeiras, as diabólicas, as responsáveis pelos homens se digladiarem e, portanto, pelo derramamento de (muito sangue) e conseqüente derrocada de seus respectivos e bobocas maridos. Em tempo: Ran é a versão de Kurosawa pro Rei Lear de Shakespeare (há inclusive uma cena hilária em Maridos e Esposas de Woody Allen, em que a namoradinha estúpida de um personagem reclama que Shakespeare não teria escrito nada em japonês).


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POR EM 04/03/2008 ÀS 04:41 PM

Desejos e confidências

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Queria dizer, não fosse minha timidez, que desejava muito trepar com ela, assim na bucha, na cara limpa, sem subterfúgios que impedissem uma ação direta de constitucionalidade dos desejos humanos. Trepar, não, que não conseguiria dizer essa palavra, mas algo assim mais ameno e besta, como transar, fazer amor. Aí ficou melhor para nossos escrúpulos. Ela também podia se desvestir de incômodos pruridos pudicos e manifestar o desejo que eu vi em seus olhos, sopitando pelos poros. Mas que nada, na hora H não saiu a frase tão ensaiada e desejada, meus comedimentos tomaram conta do que não era o que eu queria ser, fazer, dizer.

No fundo, eu sentia que ela queria me dar, seus olhos diziam isso. Mas ela também mudava sua conversa quando a coisa se encaminhava para o engate. Que nada, sabe o que ela disse? “Uns safados, esses homens casados, muitos deles já me cantaram para me tornar amante. Uns safados, sim, eles são. Só querem aproveitar do sexo e depois dão o pira.” Ora, quem queria dar nunca viria com uma conversa dessa, tirando o seu ou a sua da reta. Eu queria justamente era me tornar amante dela, sem compromisso, só ir na boa, sem alarde. Tudo o que os outros também quiseram e ela os descartou dizendo um ‘não’ do tamanho do mundo.

Talvez tivesse razão no sentido de que um desses botou um filho nela e a deixou atarantada pra cuidar desse menino, a bem dizer sozinha. Ela tentou a justiça, mas ele se escafedeu. O grande porém dela, e eu sabia disso, é que não conseguia ficar muito tempo sem homem, mas aquela resposta me deixou descabriado. Que conversa mais insossa! Nada que uma camisinha, uma cartela de pílula e uma tabelinha não resolvesse. Mas parece que nossos propósitos eram desencontrados. Eu a queria na bucha e quando desse. Ela me queria também, mas antes de tudo queria compromisso. Compromisso eu já tinha, alguns até, querer mais pra quê?

Eu não podia desse jeito, mas ela também sabia disso. Que fazer diante de tanta necessidade? Eu de ter mais uma mulher pra chamegar e ela de ter um homem que lhe daria a satisfação necessária aos prazeres da carne, dos instintos de fêmea. Afinal, o trem foi feito pra coisa, dizia um velho amigo poeta.

É certo que se ela topasse eu quereria reserva, ou seja, que ela desse só pra mim, embaixo do quieto, mas só pra euzinho. É que eu sou um cabra macho e não admito ser chifrado. Mas essa parte ela nem precisaria ficar sabendo, porque eu cuidaria de fazê-la só minha, dentre as minhas. É que hoje em dia essas mulheres viraram um despautério, querem namorar, querem fidelidade, querem os seus machos só pra si. Tá difícil e ficando cada vez mais.

Depois de compadre Zelito me confidenciar tudo isso, ele que tinha fama de garanhão inveterado, cheguei à conclusão de que é muito difícil ser safado hoje em dia. E ainda arrematou: “Por essas e outras, compadre, é que tem muita mulher passando precisão.”  


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POR EM 04/03/2008 ÀS 04:26 PM

Entre a escuridão a e a luminescência

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O vigor de uma democracia está umbilicalmente vinculado à sua capacidade de resistir e nocautear a corrupção. O costume de avançar sobre o patrimônio coletivo e o erário público vem de longa data, se confundindo, às vezes, com a própria trajetória da humanidade.

E apesar das medidas draconianas historicamente adotadas em defesa da coletividade, não obstante as enérgicas medidas para punir autoridades embaladas pela corrupção, este tipo de crime não arrefece, e recrudesce entre nós qual o pior tumor maligno. Geração após geração este mal vai se perpetuando nas diferentes culturas nacionais.

A aplicação da pena capital, das mais duras punições – invariavelmente acompanhadas de exposição e humilhação pública - não têm sequer amenizado a intensidade da grave hemorragia, que lança fora, para o latão de lixo, o melhor das forças, das energias de um povo.

Platão - discípulo de Sócrates e mestre de Aristóteles - já fazia referência à corrupção em uma de suas obras, “As Leis”, o mais longo e complexo diálogo do filósofo fundador da ‘Academia’. Ensinava aos seus discípulos os marcos da moral e da ética, recomendando a “desgraça” para todos os que aceitassem suborno e propina. 

Na antiga Atenas não havia espaço para tergiversação e, pelo menos na escrita a pena se mostrava severa: autoridade corrupta flagrada com a boca na botija tinha cassada a cidadania, sem mais possibilidade de participar e atuar nas instituições estatais. Seus direitos políticos eram de todo extirpados.

Não era exceção em Atenas a utilização da pena capital quando se tratava de punir o crime de corrupção. Como sempre existem os abençoados, os ungidos pela sorte, alguns condenados eram alcançados por penas mais leves como o exílio e o desterro. Demóstenes, por exemplo, que viveu no século III a.C. tornou-se uma liderança política importante e bastante popular. Grande orador ganhou farta projeção no seu tempo. Todavia, os predicados intelectuais - tão cultuados à época - não foram suficientes para mantê-lo distante da corrupção. Pois bem, por se deixar hipnotizar pelo que acreditava ser o doce canto da sereia, por suborno, foi obrigado a pagar uma multa de 50 talentos. Essa quantia hoje equivale a, nada mais, nada menos, que US$20 milhões.

Também no império bizantino não havia contemporização: as autoridades corruptas eram execradas publicamente e a punição mais comum consistia em cegá-las. E muitas eram ainda castradas. Não bastasse, em prosseguimento aos rituais de castigos, eram submetidas a sessões de açoite, tinham todo o patrimônio confiscado e, nessas condições, eram deportadas.

O primeiro código legal da República Romana, a Lei das Doze Tábuas, era claro, direto e inflexível: os juízes que aceitassem propina receberiam pena máxima, a pena capital, a punição com a morte.
       
Essa rápida incursão pela história demonstra o quão difícil e complexo é combater a corrupção. Enganam-se os que imaginam tarefa simples e trivial. Mas, sem dúvidas, penas rigorosas e a certeza da punição contribuem substancialmente para debelar o problema.
      
No Brasil, tornou-se vala comum – sobretudo quando as crises se acentuam – recorrer à elaboração de novas normas, novas leis, clamar aos quatro ventos por reformas e novo ordenamento jurídico. Muitos parlamentares chegam a se vangloriar por quebrarem recordes de apresentação de projetos de lei. Orgulhosos, divulgam esses números como sinal de produtividade. É como uma medalha honorífica, um heróico amuleto pendurado no pescoço.

É evidente que criar leis simplesmente não resolve problema algum. Nunca foi solução e jamais será. A questão central é saber como implementá-las, como torná-las efetivas e eficazes; como fazê-las emergir das páginas mortas e empoeiradas dos compêndios para o cotidiano, a vida concreta, o dia a dia das pessoas. E nesse contexto a pergunta que não quer calar, que não sai da ordem do dia: o judiciário brasileiro funciona? Entre as duas alternativas, escolha uma: é uma instituição que pune os culpados ou um poder omisso que corrobora com o perverso clima de impunidade que grassa entre nós?

Numa democracia de verdade, os três poderes devem ser fortes e independentes. Quando algum não funciona ou funciona mal, é a nação que padece e agoniza, é o país que se torna refém de políticos populistas que se embriagam no clientelismo e no fisiologismo, os irmãos siameses da corrupção. Sim, porque a corrupção se alimenta, sobretudo, da burocracia, do excesso de fluxos, trâmites e regulamentações que descortinam caminhos para o desvio do dinheiro público; porque a corrupção se nutre de servidores mal remunerados, sempre propensos a serem comprados pelo vil metal.  

No mundo desenvolvido já se consolidou um posicionamento para enfrentar este grave problema. Existe certa unanimidade quanto aos condicionantes capazes de estancar o câncer que corrói e deteriora todas as forças da pátria. 

A primeira é a vontade política, uma firme e inamovível decisão de enfrentar com altivez o problema, de arregimentar forças e energias para vencer este inimigo fatal.

Tão importante quanto a vontade política é o investimento na educação, a segunda condicionante. É uma tecla já gasta, por demais batida, mas de todo imprescindível. A educação é o instrumento capaz de dotar os cidadãos do poder de identificar seus problemas, processá-los com sabedoria e solucioná-los com eficiência e eficácia. Mas aqui não pode haver contemporização com a ‘boquinha’, o ‘levar vantagem em tudo’. Desde a creche nossas crianças devem ser mergulhadas em brincadeiras e conteúdos que remetam à ética, ao senso de honestidade enquanto valor. A educação é o mais seguro abrigo para nossos sonhos e esperanças.  

E finalmente, a terceira condicionante: a transparência. Os dados e informações sobre as ações, os projetos e os programas governamentais devem estar disponíveis de forma ampla, massiva e irrestrita. E agências independentes devem auditar os gastos públicos como um processo rotineiro, como parte indissociável dos fluxos operacionais.

Como se percebe, é tarefa das mais hercúleas. Combater a corrupção implica em modernizar instituições, golpear de morte a burocracia, qualificar pessoas e processos. Isto demanda recursos orçamentários e financeiros, e não de pouca monta. Ficar só no discurso, no proselitismo, no blá-blá-blá ajuda tão somente a angariar votos, mas nenhum auxílio, nenhuma contribuição trás para a solução do problema.

Houve um tempo em que os campos brasileiros - infestados por voraz praga -  estavam fragilizados e a agricultura nacional ameaçada. A nação então cerrou fileiras em torno de uma palavra de ordem: ‘O Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil’.     

Sabemos nos dias que correm o tipo de saúva que ameaça os sonhos, as esperanças e as oportunidades de todos os brasileiros. Não seria exagero, tomando o bordão por empréstimo, alertar: ‘O Brasil acaba com a corrupção ou a corrupção acaba com o Brasil’. O dilema é um só: optar entre a escuridão que aprisiona e a luminescência que liberta.  


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POR EM 04/03/2008 ÀS 04:24 PM

Canhestros cantares para Ezra Pound

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Ergue-se dos escombros o castelo dos escandalos. Ergue-se com todos os mortos, os duques, os barões, os vassalos, os anões. E as armas, os brasões, os galos da aurora, os cães, os vilões da história. Aprumam-se os galgos soberbos, e os cavalos de Tróia; abertas as portas e as coxas da fortaleza a uma nova temporada de caça à raposa, aos patos selvagens de Ibsen, aos pombos-correios traídos, de conúbios proibidos.

Reacendem-se os salões, as valsas, valquírias e vanessas da volúpia. As taças, os leques, os mexericos e as paixões da terra, da carne e de guerra. Combates de fronteiras, a morte por honra de espadas e pistolas, vulvas de alcovas por alvitre de alcoviteiras. No castelo de Kafka, ou na casa de Usher, Urfaust e Mefisto afiam os garfos sinistros e destrincham — tridentes do Diabo — os crepitantes faisões dourados. Corações ao alto! Je-sus! Je suis très content de ma vie!, dit Le Faisan, o Virago, l´enfant terrible sur la table do provençal antigo, e ali convidado. Porcelanas da china e coisas francesas ressurgem das “caixas da vida” para a mesa. Dinastia Ming, mandarins, samurais e mais linglings, além do mais os jingles do jazz, king´s camundongos e amendoings. Um anjo da guarda com uma asa quebrada; os lábios escrofulados.

Relâmpagos. Os espelhos de fogo: hirsutas taturanas, eriçadas nos sobrolhos da censura. Que fúria! Centopéias, centelhas ainda acesas nas pupilas do pater familias, o corno, o morto quando vivo no retrato. O corvo de Allan Poe sobre o busto de Palas, à porta de bronze da grande sala, onde se resguarda óleo sobre tela: aquela por quem os castelos se erguem e se desmantelam com suas muralhas e seus colares de pérolas: uma mulher madura, vestida de verde, veludo verde-musgo, e ali com as jóias de sua eterna infidelidade — fiel apenas a si mesma, por maior a lealdade, ainda flerta com os artistas que a visitam.

Um toque de Midas a tudo transmuta em besouros de ouro para usos e abusos da usura de absurdo castelo. Mais fácil um camelo passar pelo buraco do rico e aí comê-lo. O monstro de Minos — Minos, o corno —: o menino-touro, o bastardo que devora as donzelas por querelas de labirinto, ou só por querê-las, belas filhas de Creta, com o pólen dos mitos e a borboceleta de Pandora. Ó greta, gruta de onde e por onde todo homem chora!

Abandono e oblívio, agora. Onde o esplendor da relva de Woordsworth, as fanfarronices de Walt Whitman? Aurora! Aurora! Os berros de Nietzsche. O sono das crisálidas incubadas no livro das metamorfoses. Ó vídeo! Fezes na carcaça do trem-de-ferro. Ferrugem, fuligem nas estações de Vivaldi. O tempo imóvel na carretilha da cisterna. O balde baldio, no terreno rosicler. A pedra eterna. O rio. O spleen de Baudelaire.

Os capítulos romanos, artifícios do efêmero, se anulam com a marcha interrompida na caixa de estrondos. Pêndulo parado. Oh, gangorra dourada, o que se fez da vida? Por trás da porta do tempo, o fantasma de Albertine desaparecida folheia e vasculha os sete volumes de Proust, à procura de tudo, em busca do existido. Tire, Albertine, tire o vestido: o corpo é um deserto sempre redescoberto.

É finda a temporada de caça à raposa. Uma rosa é uma rosa, um cavalo é um cavalo. Deita-o sobre os próprios escombros a implosão do castelo. Cai o pano de fundo. Abrem-se as janelas e a jaula de Pound. If love be not in the house there is nothing. Se não há amor na casa, não há nada. 


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POR EM 04/03/2008 ÀS 03:56 PM

Ouvindo a própria voz

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Tudo foi muito estranho e engraçado, lembro-me bem, eu estava na rodoviária de Miracema do Norte, não posso precisar o ano, década de 70, quando vi pela primeira vez um gravador e ouvi a gravação que dele saia, fiquei encantado. Como seria possível aquilo?

Cheguei em casa deslumbrado com o novo conhecimento, com a nova tecnologia. Meses depois, meu Pai foi a Goiânia e nos presenteou com um belo gravador, último tipo, genuinamente japonês, uma maravilha. Passamos a gravar todos os sons que encontrávamos, que fazíamos acontecer, desde batidas em latas, até o som da descarga do banheiro, tudo com muito entusiasmo e graça.

Passamos a gravar as nossas conversas, as conversas dos vizinhos. Brincávamos de espiões, cantávamos e nos dizíamos cantores, artistas. Enquanto isso, uma montoeira de fitas K-7 ia se acumulando nas estantes da casa, compondo a nossa coleção. O certo é que éramos puro entusiasmo, a mesma que tínhamos pelos inúmeros livros da minha infância.

São agradáveis lembranças, mas, o mais agradável, o inusitado, o puro estranhamento, deu-se na fazenda Caridade, do meu avô materno, quando, à noite, nas reuniões que fazíamos, sob a luz dos candeeiros e lamparinas, no pátio da casa grande, o meu pai, Francisco Nolêto Perna; meus avós, vovô Antônio Nolêto e vovó Euzébia Nolêto; minha mãe, Adalgisa Nolêto; meus irmãos; meus amigos que levávamos; os vaqueiros; e os trabalhadores da fazenda estávamos conversando e, depois de muita conversa, após termos ouvido o pífaro de taboca do seo Tonhão, meu pai pediu silêncio. Todos silenciaram, e ele, meu pai, apertou o PLAY do gravador para ouvirmos as nossas falas, as conversas ali travadas, o som ancestral do seo Tonhão. Foi o êxtase total, uma cena indescritível, se considerarmos o rosto, o deslumbramento de cada um. Deus ali se manifestara, o mito, a cosmogonia, os espíritos ancestrais orquestravam aquele evento.

Talvez, se fosse hoje, nada de extraordinário aconteceria, ainda mais por se tratar de ouvir a própria voz, uma simples gravação não causaria tanto entusiasmo, numa época de instantaneidade, de tecnologias que capturam a voz, a imagem, os movimentos e, para muitos, a aura de cada um.
 
As lembranças da infância são para sempre, não se apagam, boas ou ruins, estarão sempre presentes, como podemos ver no filme O Caçador de Pipas (The Kite Runner), Direção de Marc Forster, baseado no romance do afegão Khaled Hosseini (2003), que conta a história de Amir (Khalid Abdalla), um garoto Pashtun rico de Wazir Akbar Khan, distrito de Cabul, que é atormentado pela culpa de ter traído seu amigo de infância, Hassan, filho do empregado do seu pai, Hazara Uma história comovente, de perdas encontros e desencontros.

Falo do filme, porque foi ele que me fez reviver este fato do gravador, uma história não de tristeza, mas de alegria, de boas lembranças, quando silenciávamos para ouvirmos a nossa voz, amparados pela luz das lamparinas, do candeeiros e, muitas vezes, da lua cheia que nos acompanhava. Uma lembrança gostosa de descoberta e aprendizado. 


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POR EM 02/03/2008 ÀS 05:43 PM

Cara de sucupira

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Entrei num desses sites que têm link com os principais jornais de todo o País. Meu propósito era ver as chamadas de capa de pelo menos dois jornais de cada capital e de um jornal das maiores cidades. Queria ver que assunto estaria presente em todos ou pelo menos na maioria de nossos diários. Obviamente que não entraram nessa categoria fatos de repercussão nacional ou internacional, como a visita do presidente Lula à Argentina, a ascensão de Barack Obama ou a renúncia de Fidel. A intenção era ver o assunto coincidente, mas por ocorrência local.

        
Eu me daria por satisfeito se encontrasse um assunto sendo abordado em pelo menos 50% dos jornais. Digamos: acidente de trânsito, transbordamento de rios, tráfego de mulheres, assassinato por encomenda, pedofilia etc.

        
Para minha surpresa, fui muito bem sucedido em minha empreitada. Longe de ficar num percentual de 50% de jornais, encontrei em 100% de todos que pesquisei um tema que se repetia. E o assunto não era outro senão a corrupção. A velha e nova e sempre renovada corrupção, que assola o País de cabo a rabo.

        
São vendas de guias fajutas a madeireiros por órgãos que têm a obrigação de inibir a atividade, fraude a licitações em prefeituras, formação de milícias para extorquir moradores de favelas, uso de cartão corporativo com gastos pessoais, cobrança por fora de taxas a feirantes, fiscais que achacam empresários, jogo de bingo com beneplácito das autoridades policiais, venda de sentença, merendeira de escola que cria  porcos com os víveres que conseguia subtrair. E por aí vai. O cardápio é variadíssimo.

        
A deduzir pelas chamadas, o Brasil continua sendo uma terra de forasteiros, onde cada qual pensa em retirar o seu e se mandar. É como se o País fosse um entregador de carne. Mas no meio do caminho é atacado por uma alcatéia de hienas e todo o carregamento se perde, com o risco até de perder a própria vida.

        
Outra imagem que me vem é aquela de O velho e o mar de Ernest Hemingway. Depois de uma temporada ruim, o velho pescador fisga um peixe maior do que todos que vira até então. Com muita luta e sofrimento, consegue cansá-lo.  Com ele sob domínio e amarrado à popa de seu barquinho, empreende o caminho de volta para a aldeia. Mas antes que começasse a curtir a vitória daquela pescaria, dão início os ataques dos predadores. Por mais que se esforçasse não conseguiu evitar que os tubarões dilacerassem sua presa fabulosa. Quase sem vida, o velho consegue ancorar na aldeia mas, do grande peixe, já aliviado em suas carnes, levava apenas o espinhaço. É o país que poderíamos ser, mas a corrupção deixa sem as carnes.

        
Das chamadas, uma das mais inusitadas que vi foi, por coincidência, de Goiás: Ibama registra despesas de R$ 23 mil em clínica de estética. Como eu não estava lendo as matérias, fiquei fazendo suposições. Como poderia o Ibama utilizar serviços de uma clínica de estética?

        
Será que o órgão, depois de cochilar estes anos todos e deixar que praticamente demolissem um dos ecossistemas mais importantes do mundo, que é o cerrado, revolveu tirar o atraso. Agora, pra compensar, estaria concedendo às espécies salvadas um tratamento VIP? Como por exemplo, submetendo as árvores de sucupira a banhos de óleo de peroba em sua casca ressecada? Levando as antas para fazer lifting, massagem nos caititus, hidratação de pêlo nas capivaras?

        
Ou será que o óleo de peroba é apenas para passar na cara de sucupira de uma sociedade que nem se revolta mais diante de tanta desfaçatez?             

 

 

 

 

 

 


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POR EM 02/03/2008 ÀS 01:36 PM

Açoites na educação

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Por incrível que pareça, mais da metade dos municípios brasileiros atuam ao largo das boas técnicas gerenciais e da eficácia administrativa, desperdiçando tempo, energia e, sobretudo, os recursos da sociedade. Pior, possibilitando ainda que o modus operandi em vigor seja sacralizado, generalizando as nefastas praticas do clientelismo, do fisiologismo, da gestão-caterva, aquela em que o profissionalismo é quase nada e a bisonhice e a malandragem quase tudo. Conseqüências mais imediatas? Desvios de toda ordem e as portas escancaradas para a corrupção. Por que digo isto? Dos 5.564 municípios brasileiros, tão somente 41% contam com um plano de educação. Pode? Não, não pode, evidentemente. Mas é o mais fiel retrato da cruel realidade brasileira, conforme relatório preliminar do Sicme, o Sistema de Informações dos Conselhos Municipais de Educação. 

Um outro grave aspecto que esta discussão faz emergir é o certo distanciamento que a sociedade vem mantendo sobre o tema. Uma eloqüente demonstração que a população de 59% dos municípios brasileiros desconhece alguns de seus mais destacados direitos. No processo de elaboração do Plano Municipal de Educação, uma etapa preliminar estabelece a obrigatoriedade da criação do Conselho Municipal de Educação, instância de deliberação colegiada integrada por membros do governo e da comunidade. É o Conselho quem hierarquiza os problemas e elege as prioridades educacionais, por isso é, sob qualquer aspecto, o mais poderoso instrumento de controle social disponível.

O Plano Nacional de Educação estabelece que cada um dos 5.564 municípios brasileiros deve ter o seu Plano Municipal de Educação. Mas 3.282 cidades optaram por ignorar a orientação do MEC, fazendo pouco caso da determinação constitucional. O interessante é que o Ministério suspende o repasse de verba para a merenda escolar - castigando diretamente nossas crianças – quando os prefeitos cometem alguma irregularidade como, por exemplo, atrasar a prestação de contas. Mas este mesmo Ministério não aplica punição alguma quando o Prefeito deixa de encaminhar à Câmara o projeto de lei criando o Plano Municipal de Educação.  

Uma grande conquista da Constituição de 1988 foi assegurar ampla autonomia política e administrativa para os municípios, autonomia jamais havida anteriormente, não na amplitude atualmente experimentada. Os municípios conseguiram resgatar sua importância política e institucional, e ocupam lugar privilegiado dentre os sujeitos de nosso ordenamento democrático; mas vê-se, principalmente na área da educação, que nossos prefeitos e edis não estão à altura da importância atribuída a eles pela Carta Magna. 

E o que faz o Plano Municipal de Educação? Exatamente organizar a atuação do governo local no setor, racionalizando e potencializando a aplicação dos recursos humanos, materiais e financeiros. Como define objetivos, diretrizes e rumos da educação municipal, deve ser discutido e votado na Câmara de Vereadores, que o transformará em lei.

O século XXI já não abriga quem lance dúvidas sobre a importância e necessidade do planejamento na vida das pessoas e das instituições. Sobretudo no aparelho de estado sua adoção é imperativa. Hoje, são inconcebíveis tergiversações sobre esta questão. Guiar-se por planos, programas e projetos que disponham, claramente, os objetivos, estratégias e metas a serem alcançados é obrigação legal e constitucional para tantos quantos atuem na administração do aparelho de Estado, mormente os gestores públicos.
 
E se o quadro envergonha e indigna, as coisas já estiveram bem piores. Em 2006, apenas 33% das municipalidades contavam como seu planejamento educacional.

Já convertido em lei, a comunidade pode acompanhar a implementação da norma, a execução do Plano, exercendo a fiscalização e o controle social sobre as ações do prefeito, do secretário municipal de educação, do diretor da escola e dos demais gestores que integram o sistema. Não existindo Plano e lei, tudo fica a mercê da boa vontade dos prefeitos, da improvisação, do tráfico de influência, prevalece a gestão-caterva.
 
Os brasileiros já têm, ao alcance da mão, diversos instrumentos de participação e controle social. O Conselho e o Plano municipais de educação são apenas alguns deles. Protestos e reclamações desvinculados da ação política viram fofoca e histerismo coletivo. A sociedade deve saber mais para exigir mais, mas num contesto de emprestar eficácia à sua manifestação. Os direitos já estão no papel. E não são poucos. Basta agora trazê-los para a realidade do dia a dia. Atividade só é possível com participação e organização. Não sendo assim, será a redenção da adminstração-caterva.
 


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