revista bula
POR EM 14/03/2008 ÀS 03:55 PM

Surpresa na percepção de obras de arte

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(fragmento de Teoria Estética)

 
Quando algo surpreendente ou sugestivo de alguma coisa que não podemos decifrar de imediato se interpõe diante de nós, atinge nossos sentidos na forma de um choque, de intensidade mais ou menos variada.
 
Algo que ocorre sempre quando estamos diante de uma obra de arte visual, por exemplo, uma pintura, uma vez que não podemos apreendê-la na totalidade absoluta, mas que excita nossa atenção, desafiando-nos a abarcá-la, ao menos em parte, através de nossa consideração sensível.
 
Sempre há esforço envolvido nisso, por menor que seja. A percepção de uma obra de arte visual não é algo cândido, mas sim que envolve de modo pré-determinado um certo grau de reação ou choque, necessário para haver de fato experiência.
 
Muitas outras coisas fazem isso. Na verdade, esse é o funcionamento normal da visão que temos de uma imagem qualquer, cuja visão, aliás, sempre se dá através de um percurso complexo.
 
E para além da ocorrência que experimentamos sempre alguma reação na percepção, e que uma imagem qualquer só pode ser vista à custa de uma exploração não inocente do olho sobre a superfície, uma obra de arte é, além disso, feita com o intuito de ser percebida, contemplada, experienciada, interpretada, de alguma forma.
 
Há em toda obra de arte legítima uma ânsia de comunicar algo, por mais inefável que seja. E para que um trabalho artístico comunique uma idéia qualquer, de forma a vir a se tornar compreensível, é necessário haver, em alguma medida, elaboração naquilo que é apresentado. Para que possa nos chamar a atenção e captar o interesse, é necessário que haja surpresa na percepção, cuja experiência disso ao final “nos recompense”.
 
Arnhein chamou isso de “desafio perceptivo”: “onde as pessoas se defrontam com uma situação exterior de tal modo que as suas capacidades de aprender, interpretar, elucidar, aperfeiçoar-se são mobilizadas”. Ele lembrou a “importância do desafio perceptivo” para nossas vidas e da necessidade de vencê-lo.
 
O que é necessário, segundo Arnheim, falando da obra de arte visual, “é a experiência de que, entre as coisas visíveis, haja algumas que possam, afinal de contas, ser compreendidas”.
 
A surpresa pode se dar até mesmo a partir do reconhecimento de um sentimento semelhante ao que já foi experienciado em uma ambientação diferente da que lhe era familiar. Isso pode ocorrer porque um sentimento jamais é exatamente igual a outro e novas idéias são sempre geradas, de acordo com novas associações de idéias provocadas por experiências de obras particulares.
 
Sempre resta algo de novo a descobrir em uma obra. Os seus sentidos e a capacidade de provocar em nós novas hipóteses são praticamente inesgotáveis; apesar de que podemos chegar a algumas crenças sobre alguns de seus efeitos, sendo isso inclusive o que irá nos ajudar na compreensão de outros efeitos possíveis.
 
Por exemplo, a semelhança com algo que já havíamos experienciado no passado, nos retratos de grupo de Manet, despertou nosso interesse, foi o que nos causou surpresa primeiramente, na fotografia de Sarah Jones.
 
 
Edouard Manet Na estufa, 1879 e Sarah Jones A sala de estar, 1997
 
Isso fez com que nos demorássemos mais tempo na percepção da série que a fotógrafa britânica fez no final da década de 90, incluídas na coleção da Tate Galley, buscando entender o que estas nos “comunicavam”. Podemos dizer que Manet, os retratos de grupo do pintor em que os personagens são figurados em momentos de absorção mental e alheamento, em meio a cenas familiares, é parte do significado, do que é transmitido ou do que representam essas obras.
 
O artista geralmente trabalha no sentido de evitar a repetição, pela repetição pura e simples, mas ele pode, no entanto, acrescentar isso também à sua estratégia. A referência a obras do passado, recombinadas de modo interessante, de modo a continuar chamando a nossa atenção e ganharem assim uma outra “vida”, é uma tática bem sucedida na história da arte. O que é uma forma de fazer crescer a “idéia” dessas obras, reinterpretando-as em contextos diferentes.

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POR EM 11/03/2008 ÀS 02:34 PM

No último domingo do mês

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Levantamos um pouco mais cedo no último domingo de fevereiro, pois não podíamos perder o encontro do Grupo Dom Quixote. A manhã era chuvosa e fria, com um vento oblíquo a sacudir os ramos mais altos das sibipirunas. Nos olhamos sem dizer nada, mas podíamos adivinhar o pensamento um do outro.

Na saída, minha mulher perguntou:

-Você acha que vai aparecer alguém?

Não que seja um otimista de carteirinha, mas prefiro tentar. De fato, o dia não começava com cara de quem convida para uma reunião para discutir determinada leitura. Nosso encontro, todo último domingo de cada mês, atualmente acontece no Templo da Cidadania,
em Ribeirão Preto. E fomos os primeiros a chegar.

Quando estava abrindo a boca para dar resposta àquela pergunta da Roseli, eis que o portão se abre e aparece um guarda-chuva apontado contra nós. Bem, pensei, sozinhos não vamos ficar.

A idéia de formar um grupo de leitura de literatura, surgiu-nos durante uma visita que fizemos, em
2002, a nosso amigo Luiz Cruz, escritor de Franca. Fomos encontrá-lo reunido com um grupo de umas quinze pessoas, todos eles com papel na mão acompanhando a leitura de uma integrante do grupo. Ficamos sabendo que se reuniam periodicamente para ler e discutir textos (contos e crônicas) produzidos por eles mesmos.

No último domingo de janeiro de 2003, lá estávamos nós, com cerca de mais umas dez pessoas, discutindo a formação de um grupo que se dedicasse a ler textos literários. Essa primeira reunião, assim como todas do ano de 2003, foi feita no ateliê da Jair Yanni, poeta e artista plástica.

Depois de algumas adaptações no modelo herdado do grupo de Franca, escolhemos o primeiro livro a ser lido. Ah, sim, porque nessa primeira reunião ficou estabelecido que leríamos textos fundamentais da literatura universal alternadamente com livros de escritores brasileiros. E a primeira escolha recaiu sobre o Dom Quixote. Ninguém conseguiu terminar a leitura em um mês, por isso tivemos de fazer novas adaptações no formato que adotamos. Teríamos sempre uma leitura anual paralela às leituras mensais.

Desde então (janeiro de 2003) até hoje, o grupo se reúne todos os últimos domingos de cada mês por cerca de duas horas: das 9h às 11h. O respeito pelos compromissos familiares é um dos ingredientes que nos tem mantido em atividade por mais de cinco anos.

Foram por volta de sessenta autores que visitamos, com suas sessenta visões de mundo diferentes, vazadas em sessenta estilos diversos, tratando de sessenta dramas humanos. Dante, Thomas Hardy, Stendhal, Cervantes,
Dostoiévski, alguns dos estrangeiros; Machado, Alencar, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Carlos Herculano Lopes e tantos outros, autores da literatura brasileira.  

Em cada reunião, começa-se marcando o dia do próximo encontro, e se escolhe o livro a ser lido no mês seguinte.

Pois bem, e como ainda festejamos aniversários, damos e ganhamos muitos livros durante o ano.

Nem todos os integrantes iniciais continuam ainda hoje, mas um núcleo de aproximadamente dez pessoas é formado por membros fundadores. Procuramos nunca ultrapassar os 15 integrantes, porque cada um deles deve ter a oportunidade de expor suas impressões da leitura. E é dessas impressões que todos nós vamo-nos enriquecendo, pois sempre aparece um detalhe que passara despercebido, uma interpretação em que não se tinha pensado, a descoberta de uma jóia que havia ficado soterrada.

Depois do primeiro guarda-chuva, em questão de cinco minutos apareceram quase todos os membros atuais.

A discussão de dois sermões de Vieira foi muito rica, pois somos de profissões variadas, com opiniões políticas e religiosas diversas. O Sermão da Sexagésima e o Sermão do Bom Ladrão foram esmiuçados até às 11h da manhã. O Padre António Vieira deve ter-se virado na sepultura, com tudo que ouviu.

Para o último domingo de março, precisamos ler Reparação, de Ian McEwan. Preciso começar logo porque tem mais de 450 páginas.

Vamos nessa?!

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POR EM 11/03/2008 ÀS 01:42 PM

A arca

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De longe, avistei a aglomeração, e a curiosidade me arrastou para ela. Talvez algum mágico estivesse a encantar a pequena multidão. Podia tratar-se de comício, também. Avancei mais curioso, atento aos aplausos e modos daquela gente. Não, ninguém engabelava ninguém, e todos vestiam trapos sujos. Um cheiro de lixo mandou-me dar meia volta e volver. Porém meus olhos queriam inventar o mágico ou o político, e me grudaram às costas do último molambudo.

– Morreu galego? 

O bruto fez ouvidos de mercador. Refiz a pergunta, de trás para frente, a rir de mim mesmo. Você me respondeu? Nem ele. Como podia estar muito distraído, toquei-lhe o braço, com ira. Não se virou, mas desfiou um metro de porcarias. Só depois virou a cabeça para trás e me fitou demoradamente. Dei um passo para a esquerda e postei-me às costas de um que bodejava e erguia os braços. Que diabo! Um terceiro, cheio de rugas e cãs, não parava de rir. Mais outro olhou-me. De seus olhos vermelhos escorria muita água. Aquilo já me assustava e perturbava. Não, não me amedrontava. Ora, nenhum daqueles coitados parecia ofensivo. E menos eu compreendia onde me achava. Claro, diante de uma casa em formato de ar-ca, metido no meio de um magote de mazelentos. E no interior da tal arca? Saí a pedir licença a um e outro, a abrir alas, até al-cançar a porta. O porteiro sorriu-me e convidou-me a entrar. Que alívio! Pacatos e inteligentes frequentadores de exposições fuma-vam e parolavam, requintadas senhoras furoavam intrigas entre si, bisonhos críticos parodiavam-se, risonhos e educados todos, bem vestidos e corados, alvos e adornados.

Dirigi-me a um gorducho de cara e jeito de sabido e indaguei o significado daquela multidão lá fora. Ele não me soube dar resposta, encenou uma exposição de motivos sobre o que acontecia do lado onde se achava. Ouvi por três vezes a palavra tranquilidade. Como eu lhe virasse o rosto, indicou-me um respeitável senhor sentado a um birô. Parti no rumo do venerando homem e repeti a pergunta. Para quê? Ele se enfureceu. Porém, antes de me agredir, levantou-se, como se despertasse de um sonho bom, e se disse sentir-se obrigado a ir chamar a polícia. E pôs-se a andar de um lado para outro. “Ora, são os mazelentos de segunda, terceira e quarta categorias que desejavam ser expostos. Impossível! Não adianta esse protesto absurdo. A exposição é de mazelas de primeira ordem, conforme o senhor pode ver.” E apontou para as quatro paredes. Só então percebi as peças expostas. A arca havia sido construída especi-almente para a exposição. Relacionou os nomes das mazelas principais, representadas ali por figuras humanas. Agradeci as informações e juntei-me aos demais frequentadores. Remirei-os. Diante das peças expostas, trocavam opiniões. Uma lustrosa senhora, diante de um homem vestido de chagas, suspirava: “Maravilhoso! Maravilhoso! Maravilhoso!” Tentei ser polido e voltei-me para a exposição em si. Pernetas, manetas, coxos, cegos, leprosos, anões, gigantes, deformados compunham a galeria de mazelentos. Não seriam estátuas, manequins de gesso, plástico, bronze? Só então relacionei os protestos da multidão do lado de fora à explicação do diretor da Exposição. Sim, o chagado se retorcia. Logo, a amostra se constituía de seres vivos. Cheguei a deixar transparecer minha emoção. “Ah! estão vivos?” Um prestimoso senhor tratou de me ensinar que “logicamente, pois é a Primeira Exposição de Mazelas. De nada valeriam elas, se não fossem em seres humanos.” Procurei atenuar minha ignorância. Aqueles pedestais, as poses, a rigidez das figuras, tudo dava a impressão de estarmos diante de imagens, como as de museus, igrejas, jardins. O homem deixou-me a falar só, e eu terminei fugindo dos o-lhos do outro – o exposto.
 
Adiante, outro mazelento sorria para uma criança, que o admira-va. Ria e fazia trejeitos, caretas, mungangos. O rico menino encabulou-se e dirigiu-se ao pai: “Olhe, ele está rindo para mim.” Ao que o pai respondeu, asperamente: “É um mentecapto. Não se preocupe.” Noutro estande, um hermafrodita servia de motivo à briga de dois intelectuais a discutirem deuses e deusas. Para meu espanto, falavam ora em latim, ora em grego. E se maculavam disso e daquilo, entre risinhos e citações épicas, piscadelas e expressões vulgares: cachorro da moléstia, filho de uma égua, cabra da peste.
 
Eu, mal entendedor, tratei de pular fora daquilo, antes do dilúvio.

 

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POR EM 10/03/2008 ÀS 08:22 PM

Alguém melhor que Ele mesmo

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"A constituição do seu espírito condenara-o a todos os anseios. A do seu destino, abandoná-los todos". A aparente oposição entre destino e espírito em uma só pessoa é um truque ou recurso estilístico inerentes à personalidade pluriforme de Fernando Pessoa. Tal frase está entre os papéis guardados no baú do grande poeta lusitano — assinado por Bernardo Soares, um de seus semi-heterônimos, tem trechos em que o escrevente entra em litígio direto com Fernando Pessoa-Ele mesmo. Falarei disto mais adiante.
           
Antes, atenho-me a tecer considerações sobre este abandonar-se do destino que lhe coube (Bernardo Soares, ou Pessoa?) deveu-se ao desassossego de viver, que parece ter sido inerente aos dois. Isto Fernando Pessoa Ele mesmo já declarava, em sua estética da abdicação: "conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isto tora vitória é uma grosseria. Vence quem nunca consegue. Só é forte quem desanima sempre. O melhor e o mais púrpura é abdicar".

Estranhamente (mas não para Fernando Pessoa) estas reflexões vão na contra mão dos livros de auto ajuda, que tanto bebem, rebuscam e até mesmo manipulam e distorcem as palavras do poeta, a ponto de as tornarem lacrimosas ou simplesmente ridículas. Crime de lesa-autor de que também são vítimas freqüentes Carlos Drummond de Andrade e Mário Quintana, de quem se vê na internet, em PPS melodramáticos, risíveis e até mesmo caricatos - diante dos quais nossos aclamados bardos cometeriam suicídio - se é que não estão a imprecar e deblaterar, do lugar (penso que bom) para onde foram (?) suas almas ímpias, porém piedosas.

Palavras estas, inscritas no Livro do Desassossego, do semi-herterônimo Bernardo Soares, que se contrapõem às de Fernando Pessoa-Ele Mesmo, ao se pronunciar sobre o sentido (ou ausência de) do fazer que, se não resultou em dinheiro, garantiu-lhe glória póstuma. Pois Pessoa assim via o sentido de ser poeta, neste grande e estranho mundo, em que tudo é comprado e vendido, e tem valor assegurado, menos as palavras dos alquimistas do Verbo: "Cumpri, com meu dever, o meu destino ao mundo. Inutilmente? Não, porque o cumpri".

Aqui Fernando Pessoa-Ele mesmo entra em contradição com o que afirma Bernardo Soares. Se para este "só é forte quem desanima sempre", e o "melhor é  abdicar", tanto de espírito quanto do próprio destino, para o Outro (na verdade, seu inventor), "Tudo vale a pena/se a alma não é pequena". E o que importa não é angariar vitórias ou sofrer derrotas, mas cumprir o destino que nos trouxe ao mundo. Talvez as palavras de Joseph Campbel, um mitólogo nosso contemporâneo (um dos mais brilhantes, por sinal) contribua para fazer avançar em síntese a polêmica (aparente oposição) na obra múltipla, ambígua e universal do vate lusitano: "Qualquer mundo é um mundo vivo, e o que importa é trazê-lo (você) de volta à vida. E a forma de fazer isso é descobrir, no seu caso pessoal, onde está a sua vida, e viver".

"Ver, sentir, lembrar, esquecer". Em desolada solidão de só viver de mundos mortos, fazemos do existir uma paralisia ativa - uma canção sem vida, por nunca ser percebida. Ao reler O livro do desassossego, meu livro de cabeceira, onde vou buscar lucidez e sabedoria, deparei-me com outra contradição (se é que um poeta, sendo vasto como Ele, não tem direito a contradizer-se, uma vez que sua alma antiga contém multidões).

Em ver com desconfiança o rigor mortis em que se mascaram os reformados (em sua maioria, cadáveres ativistas) Fernando Pessoa pensava como Krishnamurt, filósofo e místico que ele deve ter conhecido, uma vez que Pessoa era teósofo, tendo traduzido quase todas as obras de Anie Besant, que presidiu a Sociedade Teósofica Internacional. Está no Livro do Desassossego: "Se há uma coisa que odeio, é um reformador. Um reformador é um homem que vê os males superficiais do mundo e se propõe a curá-los, agravando os fundamentais. O médico tenta adaptar o doente ao corpo são. Mas nós não sabemos o que é corpo são e o que doente em nossa vida social.  E, mais adiante, Pessoa, em estado de Bernardo Soares, verbera: " O Governo assenta em duas coisas: refrear e enganar. O mal desses termos lantejoulados é que nem refreiam nem enganam. Embebedam, quando muito, e isto é outra cousa".

Embora fosse Fernando Pessoa-Ele mesmo sabidamente um estudioso de ocultismo, o que está mais que revelado em sua poesia (vide apresentação de Nelly Novaes Coelho à edição de sua obra completa, pela Aguilar Editora). praticante de alta magia e fazedor de mapas astrológicos (para os outros e para si mesmo), utilizando o semi-heterônimo Bernardo Soares, o pluri-vate lusitano é taxativo em condenar o mau estilo dos mestres de sabedoria antiga que conhecia e amava.

Antes de transcrever o seu texto, comente-se: tão cioso era o poeta de seguir o que dizia o mapa astrológico que ele mesmo fazia para cada situação de sua vida, que chegou a desmarcar um encontro com a poetisa brasileira Cecília Meirelles, que ia conhecer, no hotel em que ela se achava hospedada. Ao descer, na hora combinada, Cecília, nossa excelsa e etérea poetisa, também versada em misticismo, encontrou um bilhete que lhe mandara Pessoa. Desculpava-se, não iria ao encontro, pois seu mapa astrológico lhe dizia não lhe dava bons prognósticos. Assim, por simples implicância dos astros, nossa diáfana e excelente poetisa viu-se privada de conhecer o bardo múltiplo incomum, capaz de ser muitos Nele mesmo.

Mas vamos ao protesto do poeta contra o mau estilo dos bruxos desencarnados: `O que sobretudo me impressiona, nesses mestres e sabedores do invisível é que, quando escrevem para nos sugerir ou contar seus mistérios, escrevem todos mal. Ofende-me o entendimento que um homem seja capaz de dominar o Diabo e não seja capaz de dominar a língua portuguesa. Por que há o comércio com os demônios de ser mais fácil que o comércio com a gramática? Quem, através de longos exercícios de atenção e de vontade, consegue, conforme diz, ter visões astrais, por que não pode, com menor dispêndio de uma e de outra, ter a visão da sintaxe? Que há no Dogma e no Ritual da Alta Magia que impida alguém de escrever —  já não digo com clareza, pois pode ser que a obscuridade seja da lei oculta-, mas ao menos com elegância e fluidez, pois no abstruso as pode haver? Por que há de desgastar-se toda energia da alma no estudo da linguagem dos deuses, e não há de sobrar um reles com que se estude a cor e o ritmo da linguagem dos homens?".

P.S. Como Pessoa era plural, muitos em um, podia dar-se à pachorra de entrar em debate até consigo mesmo. Direito assegurado a quem com plena consciência e direito, escreveu sobre si mesmo: "Existe em mim alguém melhor do que eu. 


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POR EM 10/03/2008 ÀS 08:04 PM

América Nuestra

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Uma barreira ao conhecimento da nova produção é a presença de medalhões como Mario Vargas Llosa. Eles seguem publicando e ocupam todos os espaços nos meios de comunicação do Brasil.  São efeitos persistentes do “boom literário” que, 40 anos atrás, lançou para o mundo um punhado de escritores da América Latina


 

Para conhecer literatura hispano-americana, o leitor brasileiro ainda depende de escolhas feitas pelas editoras de grandes centros globais. Um autor argentino, mexicano ou caribenho estará disponível no Brasil após a chancela de quem edita livros em Nova York, Londres, Paris e Madri. É a lógica da triangulação das trocas econômicas. Há as exceções de praxe, mas uma obra de um país vizinho precisa atravessar oceanos para depois chegar às prateleiras das livrarias brasileiras.

As grandes editoras espanholas Planeta e Alfaguarra se instalaram no mercado brasileiro há pouco tempo. Já ocorre, assim, o lançamento de um número considerável de livros de autores de língua espanhola, principalmente de romances. Existe pouco intercâmbio de poesia. Um aspecto altamente positivo é a ousadia de pequenas editoras brasileiras como Iluminuras, Argos, Amauta e UFMG, que vêm publicando ensaios e narrativas experimentais de escritores latino-americanos. 

Uma barreira ao conhecimento da nova produção é a presença de medalhões como Mario Vargas Llosa. Eles seguem publicando e ocupam todos os espaços nos meios de comunicação do Brasil. Predomina também um tipo de romance, cuja maior representante é Isabel Allende, que absorve traços do realismo mágico e acrescenta pitadas de amor romântico. São efeitos persistentes do “boom literário” que, 40 anos atrás, lançou para o mundo um punhado de escritores da América Latina.

Nos últimos anos, chegaram ao Brasil relançamentos dos medalhões latinos-americanos, todos já devidamente canonizados por estudos acadêmicos, boas vendagens e espaço na mídia. São os uruguaios Mario Benedetti, Juan Carlos Onetti e Felisberto Fernandez; os peruanos Vargas Llosa e José Maria Arguedas; o colombiano Gabriel Garcia Márquez; os mexicanos Juan Rulfo e Octavio Paz; e os cubanos Alejo Carpentier, Lezama Lima, e Guillermo Cabrera Infante.

Jorge Luis Borges é ainda a figura central da literatura hispano-american, graças à repercussão na Europa e Estados Unidos. Sua obra foi citada no livro mais famoso de Michel Foucault, “As palavras e as coisas, e influenciou autores dos grandes centros culturais do mundo. Muito acreditam que se trata de um escritor de temas universais, mas essa visão não se sustenta mais após os fundamentais estudos de Beatriz Sarlo, que apontou a relação de Borges com a literatura argentina.

Os livros de Borges estão sendo reeditados no Brasil pela Companhia das Letras e devem aumentar ainda mais o interesse pelo autor de “Ficções” e “O Aleph”. Junto a Borges, outra figura consagrada é Julio Cortazar, que teve repercussão excepcional no Brasil nos anos 1960 e 1970. Prova disso é o livro “O Escorpião Encalacrado”, de Davi Arrigucci, que analisa as principais obras de Cortazar como “O Jogo da Amarelinha” e traça um amplo painel da literatura latino-americana.

A Argentina forneceu no século XX uma quantidade impressionante de bons autores ao campo literário da América Latina. Alguns dos principais nomes recentes são Ricardo Piglia e Juan José Saer. Ambos reúnem em seus romances um trabalho de auto-questionamento constante das formas narrativas e um diálogo peculiar com a História de seu país. Não fazem, entretanto, ficções históricas na linha de seu compatriota e ótimo escritor Tomás Eloy Martinez.

Martinez realiza uma desconstrução dos mitos políticos da Argentina moderna, ao ficcionalizar as vidas do casal Juan Domingo e Eva Perón. A experiência histórica é um tema constante na literatura argentina – como atestam os trabalhos de Martin Kohan, Luis Gusmán e Rodolfo Fogwill. Os três já tiveram livros publicados no Brasil. Um caso à parte entre os argentinos é Cesar Aira, que possui uma obra incrivelmente numerosa e vinculada aos experimentalismos.

Junto a essa ficção argentina, começam a sair por aqui os ensaios de Daniel Link, Graciela Montaldo, Josefina Ludmer e Sylvia Molloy. Esses pensadores mantêm ligações estreitas com estudiosos brasileiros que fazem a revista "Margens/Margenes" – publicação conjunta da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de Buenos Aires. Entre os latino-americanos, os intelectuais argentinos são os aqueles que mais dialogam com os brasileiros. 

Os chilenos também possuem uma longa de história de diálogo com os autores brasileiros. Após o golpe militar de 1964, o Chile tornou-se um refúgio para intelectuais do Brasil. A importância da literatura chilena pode ser medida pelos dois prêmios Nobel do país, Pablo Neruda e Gabriela Mistral. No boom literário, tornou-se conhecido José Donoso. Seu romance mais conhecido, “Casa de Campo”, é uma extraordinária alegoria da sociedade chilena.

No entanto, os leitores brasileiros estão privados da grande obra produzida no Chile nas últimas décadas: as narrativas de Diamela Eltit. Livros como “Lumpérica” e “Mano de Obra” são difíceis de classificar por trafegar entre a ficção e o ensaio. O olhar dela volta-se para o lado obscuro de um país preso ao trauma de uma ditadura militar, a de Augusto Pinochet, e que sobrevive em tempos de culto ao mercado. Diamela coloca-se na outra extremidade de seu conterrâneo Alberto Fuguet.

Tempos atrás, Fuguet lançou o manifesto "McOndo" para ironizar a herança do realismo mágico da cidade fictícia de Macondo, criado por Gabriel Garcia Márquez no romance “Cem Anos de Solidão”. De acordo com essa perspectiva, os novos escritores da América Latina encontram-se diante de uma realidade global. No final das contas, Fuguet é melhor ficcionista (basta ler “Baixo Astral”, o divertido romance pop lançado no Brasil) do que pensador.

A Colômbia é outro país que tem novos bons escritores no mercado brasileiro. Fernando Vallejo apresenta no romance “A Virgem dos Sicários” uma das escritas mais provocadoras entre os latino-americanos contemporâneos. Também provocante é Efraim Medina Reyes, com o seu livro “Técnicas de Masturbação Entre Batman e Robin”, cujo título dá uma idéia do espírito anárquico do autor. Já Santiago Gamboa, em “Síndrome de Ulisses”, narra a vida dos imigrantes em Paris.

A imigração dos latinos para várias partes do mundo já rendeu uma literatura nova nos países centrais. No livro “Nosotros in USA”, a pesquisadora brasileira Sonia Torres analisa a escrita de chicanos (mexicanos-americanos), nuyoricans (porto-riquenos que vivem nos Estados Unidos) e cubanos exilados. São autores que escrevem em inglês e espanhol e mantêm um pé fincado nas suas culturas de origem (língua, literatura) e outro pé no novo país.

No ano passado, surgiu o fenômeno de um escritor latino-americano que viveu a experiência do desterro. Muito pouco conhecido onde nasceu, o chileno Roberto Bolaño virou a sensação no mercado editorial nos Estados Unidos depois de morto. Ele vem tendo uma recepção calorosa e leitores de alto gabarito também no Brasil. Sinal de que o campo literário brasileiro volta a se abrir para as narrativas dos vizinhos hispano-americanos – isso sem falar de um cinema recente de alto gabarito. 

 


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POR EM 10/03/2008 ÀS 08:04 PM

O Adeus de Fidel

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Cuba se transformou numa espécie de espelho distorcido onde cada um projeta uma visão que já traz de antemão. Amigos de esquerda viajam à ilha e voltam com relatos acerca de um povo muito orgulhoso do que fez. Mas também não dá para negar uma outra realidade: a da quase prostituição das relações pessoais com estrangeiros e a dura vida dos presos políticos



 

Idelber Avelar
O biscoito fino e a massa

Um certo professor de literatura cubana de uma universidade pública da Flórida preparava seu histórico de pesquisa e magistério para apresentar aos comitês avaliadores que decidiriam sobre seu tenure, a estabilidade no emprego que, nas universidades americanas, se conquista (ou não) depois de sete anos, em geral. O trabalho do cabra era completamente apolítico. Ele se filiava à semiótica, a chamada ciência geral dos signos, método de leitura bem formalista e asséptico para meu gosto mas que, como qualquer método, tem seus prós e seus contras. Popularíssimo professor, com excelentes avaliações, amplo leque de artigos nas revistas mais conceituadas, dois livros publicados (o requisito para o tenure costuma ser um livro), ele foi aprovado numa votação unânime do departamento. O dossiê seguiu para a esfera superior, a do college, e também ali ele foi aprovado por unanimidade. O presidente da universidade corroborou, como é de costume, a decisão dos especialistas. Só ficou pendente o carimbo do governo estadual, coisa absolutamente pró-forma nas universidades públicas americanas.

Até que um setor da comunidade cubana de Miami entrou em ação. Protestos e abaixo-assinados pediam que o governador cancelasse o tenure do sujeito com um curiosíssimo argumento: o fato de que ele não lecionava a “literatura do exílio” cubano em suas aulas era uma violação do direito de livre expressão da comunidade exilada. Isso mesmo: eu não ensinar sua sub-literatura nas minhas aulas é uma violação dos seus direitos. Um caso comum e corrente de avaliação acadêmica transformava-se numa estranha guerra política. Foi a primeira aula que tive sobre o que a comunidade exilada cubana entende por livre expressão. Seus métodos, que aqui nos EUA têm bastante em comum com os do lobby pró-Israel, colocam boas dúvidas sobre seu compromisso com a democracia, que tanto apregoam querer trazer de volta a Cuba. O tenure foi revertido e a carreira do profissional foi destruída.

O segundo caso é curioso e aconteceu comigo. Passeando pelo centro de Miami – cidade que visitei, para além de seu aeroporto, só duas vezes, o suficiente para nunca mais querer voltar --, me lembrei de que havia uma notícia argentina, já não me lembro se política ou esportiva, que eu queria conferir. Parei numa banca de jornal e vi o Página 12. Como sabe quem o lê, o Página 12 é um jornal que está, digamos, alguns centímetros à esquerda da Folha de São Paulo. Não é nem de longe um jornal “comunista”. Pedi o jornal ao cubano que estava na banca e lhe estendi uma nota de dez dólares. O sujeito imediatamente iniciou uma diatribe inesquecível: ¿qué quiere Usted con ese diario de comunistas? ¿qué va a hacer con un periódico de comunistas? Por qué leer esas cosas de comunistas? De cada três palavras, uma era “comunista”. O cabra perorava com a velocidade de um locutor de corrida de cavalos. Atônito, eu o olhava, sem acreditar que, em nome do capitalismo, ele se recusava a me vender um produto da sua própria banca de jornais! Era uma mistura de Fellini com o teatro do absurdo. Normalmente, eu evito esses confrontos, mas decidi que não sairia dali sem o jornal. Coloquei a nota de dez dólares no bolso, tirei o dinheiro trocado, peguei o jornal, enfiei o dinheiro na mão dele, esperei que ele terminasse e lhe disse uma frase da qual depois, em alguns momentos, me arrependi: não vou escutar palestra política de jornaleiro.

Conto os casos para ilustrar a imensa falta de credibilidade de boa parte dos que gritam por “democracia” em Cuba. O problema é que, do outro lado, na esquerda, a situação é bem problemática também. Eu tenho amigos que até muito recentemente diziam que essa história de presos políticos em Cuba é propaganda. Movida pela compreensível solidariedade a uma Revolução acuada e sabotada pelo país mais poderoso do mundo, pela indignação com as centenas de tentativas de assassinato a Fidel, a esquerda fez vista grossa a uma situação indefensável. Agindo assim, perdeu credibilidade também. Cuba se transformou numa espécie de espelho distorcido onde cada um projeta uma visão que já traz de antemão. Amigos de esquerda viajam à ilha e voltam com relatos acerca de um povo muito orgulhoso do que fez. Mas também não dá para negar uma outra realidade: a da quase prostituição das relações pessoais com estrangeiros e a dura vida dos presos políticos. Aí eu não posso deixar de lamentar que as pessoas dedicadas a defender a Revolução Cubana — causa mui legítima — simplesmente não mencionem o fato. Vira uma ladainha: os defensores mencionam educação e saúde; os detratores mencionam a falta de imprensa livre e os presos políticos. Ambos têm razão. Ambos vão perdendo a razão na medida em que se recusam a olhar a coisa de uma maneira mais trimensional.

O bloqueio americano tem o seu papel no quadro que vemos hoje? Sem dúvida. Mas também é fato que já em 1965, quando o bloqueio americano ainda não havia tido grande impacto, o Comitê Central já estava discutindo se autorizava ou não a publicação de uma obra prima como Paradiso, de Lezama Lima (um extraordinário escritor que jamais saiu da ilha, talvez o maior escritor cubano de todos os tempos). No final das contas, a obra foi publicada, mas o próprio fato de que a discussão tenha existido já indica que a vertente autoritária é bem antiga. Quando se revela ao mundo, em 1971, que a perseguição aos homossexuais é política estatal explícita, fica sacramentada uma relação minha bem ambígua com a Revolução. Não sei se vocês já repararam, mas este blog, que regularmente discute política internacional, jamais fez um post sobre Cuba.

Conta-se que nos anos 1960, ao Premiê Zhou Enlai foi dirigida a pergunta acerca do que ele achava da Revolução Francesa. A resposta foi lapidar, pura sabedoria chinesa: ainda é muito cedo para saber. Não há frase mais perfeita para definir o legado da Revolução Cubana. Sou defensor intransigente da soberania dos povos e inimigo declarado de qualquer intervenção estrangeira, em Cuba ou em qualquer lugar. Mas não vou maquiar o sofrimento alheio por preguiça de repensar a derrota de um sonho.

Idelber Avelar é professor do Department of Spanish and Portuguese — Tulane University.
 

 


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POR EM 10/03/2008 ÀS 09:36 AM

Anhangüera: herói ou vilão?

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Não dá para se fazer uma avaliação dos empreendimentos realizados por Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhangüera, sob a luz da conjuntura atual. Para avaliar esse ícone da História de Goiás, com o mínimo de justiça, é preciso, primeiramente, situá-lo no contexto do segundo quartel do século 18, no auge do período colonial.

Havia uma ordem mundial, cuja sustentação era o sistema colonial vigente. Havia um pacto que, simplificando, funcionava assim: A colônia (no caso Brasil, Goiás) entrava com a matéria prima, basicamente ouro e produtos agrícolas. Em troca a metrópole promovia a integração dentro de uma ordem econômica nacional e internacional e dava, sobretudo, proteção contra invasores estrangeiros.

Pelo Tratado de Tordesilhas de 1494, das terras descobertas na América do Sul, só era de Portugal o que ficasse a leste dessa linha, que ia do Rio de Janeiro à foz do Parnaíba, entre Piauí e Maranhão. Mas o tratado foi sendo derruído pela ação dos bandeirantes, que ignoravam a divisória e iam adentrando os sertões. Não fosse a ação desses homens intrépidos, o Brasil teria hoje mais ou menos um décimo de sua extensão territorial. Goiás mesmo seria resultante da colonização espanhola. Talvez a gente não fosse um estado-membro, mas estado um soberano, assim como Paraguai, Bolívia, Honduras, Nicarágua.

O historiador Afonso Taunay considera o Anhangüera como um dos mais brilhantes servidores da Coroa Portuguesa de todos os tempos. Foi destemido, realizador, operante e honesto (coisas que tanto nos carecem hoje em dia). Sua bandeira que descobriu as minas dos Goyazes foi extremamente arriscada, mas muito bem sucedida. Pelos feitos extraordinários, a Coroa o premiou com o pedágio dos rios, de São Paulo até Goiás, com faixas de terras às margens da estrada, além de tê-lo nomeado o primeiro superintendente das minas.

Na prática, Anhangüera foi o nosso primeiro governador, enfeixando nas mãos o executivo, o legislativo e o judiciário (não há que taxá-lo de ditador, pois só meio século mais tarde é que Montesquieu conceberia o sistema de separação de poderes). Apesar das dificuldades e de todo tipo de carências, implementou a mineração com eficácia, descobriu novas frentes de ouro e diamante, atendendo aos anseios da Coroa, como um administrador diligente.

Seu sucesso despertou ira invejosa em outros políticos. Nessa disputa de bens e poderes, Anhangüera foi covardemente prejudicado. Primeiramente lhe afanaram as passagens dos rios, que eram uma fonte considerável de renda. Depois lhe tomaram as terras. Na tentativa de recuperar seus bens, recorreu à justiça portuguesa. Seu sobrinho Bento Paes, advogado, morreu afogado em Lisboa, quando atuava no processo. Seu genro João Leite (que dá nome a um dos rios que serve Goiânia) foi assassinado por um integrante de sua comitiva, a caminho de Lisboa, para onde ia atuar no processo.
 
Anhangüera foi rebaixado a comandante das forças (que não existiam).  Em 1739, o novo governador, vendo a injustiça que sofria e a penúria por que passava, lhe concedeu uma arrouba de ouro como antecipação de seus direitos. E em sua homenagem chamou o distrito de Santana (fundado por Anhangüera) de Vila-Boa (Bueno do castelhano). E esta foi a primeira capital do Estado.

Mas Anhangüera parece ser mesmo um herói fatal. Dado a sofrer perseguições até séculos depois de sua morte. Não é de ver que agora há políticos, não sei se por ignorância ou má-fé, que lhe atribuem estupros de índias e outros crimes hediondos e querem derrubar sua estátua do centro da cidade?  

 


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POR EM 09/03/2008 ÀS 07:42 PM

Já pegou seu brinde?

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Você folheia apressadamente o jornal. Ia direto aos classificados procurar o anúncio de um melhor emprego. Queria alcançar rapidamente a seção de Esportes para saber a classificação de seu time no campeonato. Desejava ler as notinhas da coluna política. No virar das páginas, no entanto, o título te chama: já pegou seu brinde?

Você pára. Você percebe a foto da cronista. Uma expressão simpática. Dir-se-ia inofensiva e até generosa. Ela pergunta se você já pegou. O que pressupõe que você deveria ter pegado, que outros já pegaram, que está perdendo algo, que está ficando pra trás. Pegue logo. Nunca se deve recusar um brinde. De graça até injeção na testa, até entrar na fila pra tomar cascudo. Num mundo em que se vende tudo, qualquer cadinho de qualquer treco é lucro. E se você vacila e se você não pega, vem aquela sensação recorrente de que a gente está sempre perdendo uma festa para a qual o resto do mundo foi convidado.

Então, apanhe essas palavras que te dão. Antes o verbo do que nada. Você está dentro. Você continua lendo. Assim será aceito, incluído, pertencerá a um grupo, dos leitores instruídos, bem informados.
 
Engoliu a isca. Se fosse uma vendedora de assinatura de revistas, dessas que abordam pessoas distraídas nos aeroportos, a estas horas, você estaria no papo. Antes de receber o brinde, responderia a um questionário, seus gostos, preferências, cartões de crédito, endereço. De repente, meio tonto, sairia com uma revista debaixo do braço e com um contrato para receber em casa, pelo período de um ano, a revista Criação de Canários – logo você que tem horror à manutenção de pássaros em cativeiro, foi capturado.

Não sou vendedora de assinaturas de jornais ou revistas, nem pretendo te vender meu último livro, que sequer foi publicado, mas convém advertir que mesmo na leitura desenvolve-se uma espécie de comércio, velado ou desavergonhado. O escriba, egocêntrico assumido, oferece ao leitor título convidativo, bela embalagem, o mais atraente possível, combinação de palavras que pareçam imprescindíveis – você não poderia continuar seu dia sem isso – e em troca o leitor lhe dá algo de seu tempo, atenção e admiração.

O problema é que muitas vezes acaba-se comprando não só gato por lebre – o texto não é o que o título promete – e se adquirem idéias nem desejadas. Eis o que se dá quando topa com um jornalista ou escritor que, mostrando toda a sua erudição, não usa o texto senão para elogiar-se e mostrar-se em vitrine. É ele o próprio conteúdo. Admire-me e me ame é a única mensagem.

Quão freqüentemente, ao final de alguns textos e livros religiosos ou pseudo-filosóficos, que na aparência te oferecem dádivas de reflexão, há o convite para se comparecer a determinada igreja ou associação. Livros de auto-ajuda que não ajudam senão seus autores a engordar contas e egos, a vender palestras pelo país inteiro. Reportagens com dicas valiosas sobre os cuidados com a pele e logo ali abaixo o endereço de renomado dermatologista.

Eis por que se deve ter cuidado com leituras de qualquer espécie, por mais inofensivas que pareçam. Há sempre transação subjetiva desenvolvendo-se nos textos como na vida, história de intenção por trás da história que nos dão. Um brinde não. Blinde-se. 


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POR EM 09/03/2008 ÀS 07:41 PM

Sobre conhaques, filmes B e dores umbilicais

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Eu fiquei impressionado com a reação dos meninos do cinema goiano causada por um texto que publiquei no Jornal Opção. Parece que todo mundo ficou emburrado comigo. O mais hilário é que todos os comentários sobre o texto — nas listas de discussões e no orkut — são contraditórios. Começam fazendo meã culpa, se justificando, para em seguida me dar razão. Alguns concordam pelo que escrevi sobre a falta de qualidade dos filmes, outros pela falta de talento dos cineastas goianos, outros pelo jeito autista calcificado no umbigo dos gênios locais. Ou seja: se juntarmos tudo que foi escrito sobre o meu texto — vamos todos chegar à mesma conclusão: eu estava certo. 

Parece que a turma que faz cinema em Goiás sofre de narcisismo ressentido e tem dificuldades de compreensão. É preciso contar a piada três vezes. Não perceberam que meu texto não era analítico, mas sim de opinião. Logo, para dar opinião e fazer filmes, não é preciso ser cineasta. Aliás, não é preciso ser nada. Não é verdade Robney Bruno? Mas não quero discutir isso com você.

Só uma pergunta Robney? Se não me conhece (se diz que nunca leu uma linha escrita por mim) como pode afirmar que eu sou medíocre?

Mas não tem problema. É a sua opinião. Eu aceito e te perdôo. Não deve estar muito acostumado com divergências de idéias, deve estar mais acostumado com grunhidos.  Além do que: opinião por opinião eu fico com a minha: por sugestão de uma aluna do curso de áudiovisual da UEG eu vi um de seus filmes — posso te assegurar meu caro: está na hora de repensar sua carreira como cineasta e procurar um emprego.

A cada ano, nasce em Goiânia, uma dúzia gênios. O termômetro são os festivais. Os mesmos que imbecilizam as pessoas e matam as promessas. Quase todo o garoto de classe média de Goiânia já fez ou atuou em algum filme. O espírito é gregário e farrista. Embora o meio seja recheado de igrejinhas, conluios e substâncias mágicas.

Outra coisa que envergonha é essa coisa de cinema por decreto. (E olha eu me repetindo). Mas eu fico emputecido com isso. Se eu fosse cineasta eu não gostaria de ver meu filme passar na televisão na base da caneta. É como se a TBC, que já é uma bomba, tivesse a obrigação de emitir atestado de qualidade para o lixo que é obrigada a veicular.

Já tentaram fazer isso com a literatura goiana. Se dependesse da fantasmagórica Academia Goiana de Letras, todo o aluno da 4º série seria obrigado a ler autores goianos. Ou seja, aquela oportunidade de ler os clássicos da infância, as fábulas, vitais para a formação do leitor, seria substituída pelos clássicos vivos goianos. Diga-se: Bariani Hortêncio, José Mendonça Teles e companhia... As instituições culturais de Goiás lembram museus. Se fosse somada a idade de seus representantes chegaríamos facilmente a uns cinco mil anos. São espécies de múmias. Apossam das instituições culturais e só saem dali para o cemitério.

Ademais. Repito. E isso não é opinião, é informação. Se na literatura, temos Gilberto Mendonça Teles, nas artes plásticas, Siron Franco, na dança, a Quasar, no teatro, Marcos Fayad, no glorioso cinema goiano nos temos o Piolho. O Piolho é a grande personalidade viva do cinema goiano, já participou de quase uma centena de filmes. Deveria ser coroado como patrono do cinema em Goiás. Inclusive, fica a sugestão para Linda Monteiro: que tal uma homenagem ao Piolho no próximo Fica.  Poderia ser a comenda ABD. Se não der para ser no Fica, pelo excesso de gênios, que tal uma estátua na praça cívica, ao lado da estátua de cavalo que a senhora quer instalar para enfeitar a praça e dar provas de seu refinamento cultural ! Fica minha sugestão. 


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POR EM 07/03/2008 ÀS 05:02 PM

Panis et circenses

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Parece piada, mas não é. Chega a ser risível, embora digno de repúdio. A pobreza de espírito e a desastrosa criatividade de alguns políticos não têm limite e não respeitam a fronteira virtual entre a ética e a descompostura. Numa pequena cidade do interior do Brasil, um prefeito cismou de investir numa peculiar e descabida estratégia de marketing. Visando a apimentar o carnaval do lugarejo, o nobre gestor mandou distribuir milhares de cupons de “Vale-Cerveja” para a população. Não riam, leitores, pois há indícios (êita, palavra comezinha...) que a grana tenha sangrado dos cofres públicos. Num país de tantos escândalos e descalabros protagonizados pelos políticos, animais egoístas, eu ainda não tinha ouvido nada parecido. Habilidoso com as palavras, o prefeito justifica a bizarra iniciativa alegando que a intenção era criar atrativos para manter os moradores na cidade durante o feriadão e garantir um carnaval para lá de animado, lotado de gente, incrementando o turismo na região e beneficiando, conseqüentemente, o comércio local. Altruísta imaginava, inclusive, “prevenir acidentes e mortes nas estradas estaduais”, poupando as vidas dos seus conterrâneos, fossem eles seus eleitores ou não. Agora, distribuir cerveja de graça para a população, além de aviltar os princípios éticos e a saúde coletiva, não me parece, de jeito nenhum, uma ação social a ser copiada por ninguém, ainda mais, gestores públicos.

Senão, vejamos: remédio, produto primordial ao bem estar coletivo, vive faltando nas farmácias dos hospitais públicos e postos de saúde. Merenda escolar, combustível vital à gurizada, escasseia nas despensas das creches públicas. Se um cidadão procurar um posto de saúde para retirar preservativos masculinos (camisinhas), dificilmente, as encontrará, pois faltam freqüentemente. Entretanto, vira e mexe, o governo distribui camisinhas aos borbotões, durante os feriados prolongados, especialmente, o carnaval. Estão fazendo a mesma coisa com a tal “pílula do dia seguinte”. A propaganda no rádio e na TV é tão empolgante que soa como um salvo-conduto ao cidadão para a prática do sexo livre. Aí é sacanagem... Com cerveja de graça, camisinha de graça, cesta básica de graça (que muitos recebem, indevidamente, através de manobras  fraudulentas), fica faltando pouco para o paraíso (ou inferninho). Quem sabe, se o poder público lançasse também um “Vale-Viagra”, não fosse um sucesso. Alternativamente, o governo poderia utilizar matéria prima mais barata, como o “Vale-Amendoim Torrado”, ou o “Vale-Ovo-de-Codorna”, todos de eficácia atestada pelo povão. Poder-se-ia _ por que não? _ instituir o “Vale-Motel”, projeto libidinoso no qual seriam proporcionados minutos inesquecíveis de hospedagem e safadagem nos motéis Brasil afora (e adentro, também).

Desta forma, o assistencialismo seria completo, quase perfeito. É claro, se desse para incluir no pacote um “Vale-Cafezinho”... Humm!! Daí seria coisa de primeiro mundo. Cerveja, amendoim, camisinha, viagra, motel, cafezinho... Tudo de bom. Seria a consagração do hedonismo no país. O Brasil transformar-se-ia no melhor lugar do planeta para se viver, apesar das verminoses, das balas perdidas, do alto índice de mortalidade infantil, do incremento dos abortos clandestinos, do desmatamento insano e criminoso da floresta amazônica e do bigue-bróder (uma porcaria que nem invenção nossa foi).

Cuidado, senhores políticos. Não exagerem na dose. Não subestimem a ira popular. Um dia, o povo poderá insurgir e então... só bebendo muita cerveja pra esquecer o tamanho do estrago. 


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