revista bula
POR EM 15/03/2008 ÀS 02:26 PM

Vida vazia

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Reencontrei um amigo que há tempos eu não via. Cabisbaixo, abatido, fisicamente deplorável, o sujeito, que é médico dos bons, daqueles à moda antiga, profissional que olha dentro dos olhos dos pacientes em busca de pistas, das chaves dos mistérios, que se preocupa mais com o doente do que com a doença, confessou andava desanimado e até depressivo por causa da condição atual da prática médica. Reclamou do excesso de trabalho, da má remuneração, da insegurança profissional, da desconfiança mútua entre médicos e pacientes. Para emendar, contou-me uma estória ocorrida com um seu colega de trabalho, também doutor, e que agora reproduzo, é claro, camuflando os nomes, azeitando o enredo, fermentando a verdade, inventando um bocadinho, aproveitando ao máximo a gostosura de um episódio real e deveras curioso. Em tempos de relação médico-paciente moribunda, o fato espelha bem esta condição. Foi mais ou menos assim que a coisa se deu...


Belinda, de linda mesmo, tinha de resto apenas o nome. Nos seus tempos de juventude e glória, foi muito cortejada e cobiçada pelos homens. Musa inspiradora de punhetas e noites mal dormidas. Escolheu para marido um burguês elegante, porém, tosco e de caráter menor, filho de um fazendeiro muito rico, criador de gado, ofício que hoje em dia muitos denominam empresário rural, que é para dar mais glamour, como se a roça não prescindisse disto. Não importa. O noivo nadava, ou melhor, cavalgava em dinheiro. Dizia-se, inclusive, à boca miúda, que o camarada limpava-se com cédulas de cinqüenta. Atraída pelo dote do mancebo, Belinda entregou-se ao mesmo de corpo e alma (muito mais corpo do que alma). Fisgou o ricaço e garantiu a aposentadoria aos vinte e poucos anos de idade. Até que tinha alguma afeição pelo moço, mas gostava muito mais do dinheiro e da mordomia que ele proporcionava. O rude garanhão desposou a donzela, pois a pressão familiar se avolumava. Ele não poderia romper os trinta anos sem contrair matrimônio. Naquela época, solteirões estavam fadados à maledicência da sociedade. Escravo das aparências, ele desposaria, sim, a fogosa virgem, mas não abandonaria as amantes, raparigas e até moçoilos modernos com mentes e meatos descolados, provenientes da capital e de outras metrópoles. Movido pela química desinibida da maconha, o rapaz encontrava nos iguais e nos opostos território propício para a vazão de taras e estripulias sexuais as mais bizarras.


Ao contrário das previsões paroquiais, o casamento não durou até que a morte os separasse. Advogados mal intencionados e bem remunerados cuidaram da tarefa com desprendimento e competência. O tempo, infalível a todo ser que respira, não se apiedou de Belinda. Aos quarenta anos, o seu tão cobiçado corpo havia deteriorado além da conta, às custas de três gravidezes, do sedentarismo e da gula. Sentindo-se feia e infeliz, ela buscou na ciência e no charlatanismo a cura para as suas dores e frustrações. Usou e abusou dos cremes, fórmulas milagrosas, agulhas, dietas de A a Z, garrafadas e simpatias antipáticas, porém, valiosíssimas para os desesperados.

Até que um dia, Belinda cismou de procurar um ginecologista para fazer uma desnecessária cirurgia vaginal, a fim de corrigir um inexistente defeito na sua pouco usada fenda genital, uma suposta rotura que a fazia se sentir “larga” na hora do vamos-ver, embora estivesse abstinente desde a separação do marido. Para se ver livre da insistência da paciente, o doutor acabou cedendo e, mesmo sem precisão, aplicou dois ou três nozinhos cirúrgicos em seu períneo, deixando o que já era muito bom melhor ainda. O ato cirúrgico foi o início de um calvário para o desavisado médico.

Logo após a cirurgia, ainda no período de convalescença imediata, a mulher foi tomada de um surto psicótico que criou um verdadeiro alvoroço dentro do hospital. Sabe-se lá como, a mulher fez entrar na enfermaria dezenas de revistas pornográficas, recortou algumas páginas e as pregou nas paredes, formando um mosaico libertino que ninguém aprovou. Como se não bastasse tamanha esquisitice, a pobre diaba ficava o tempo inteiro mirando a vulva com um espelho de mão, desaprovando o resultado final. Desacostumadas à insanidade, as enfermeiras da maternidade entraram em parafuso. O renomado ginecologista foi chamado às pressas para resolver a encrenca. Nem com a interferência de um psiquiatra, a coisa teve conserto. Para alívio de todos a paciente recebeu alta hospitalar e se mandou com uma revistaria toda embaixo dos braços e muita bravata pelos corredores mal iluminados.


Durante várias semanas, a mentecapta visitou a clínica do cirurgião para lhe dizer poucas e boas, insultos e verborragia impossíveis de serem citados nestas linhas. Prepotente, a mulher prometeu processar o médico, mandá-lo para a cadeia, destruir sua reputação por aquelas bandas, arrancar dele bastante dinheiro (de preferência, tudo), ainda que às custas de fórceps e chantagem. Apavorado, o doutor catou a família e sumiu da cidade. Com doido não se brinca. Melhor dar tempo ao tempo.


Mergulhada em loucura, a mulher desembestou num comportamento para lá de inconveniente, masturbando-se em locais públicos, vestindo-se de maneira claramente imprópria e vulgar, utilizando palavreado chulo, incomodando qualquer ser humano que por ela cruzasse, fosse ele adulto, criança, parente ou estranho. Sua derradeira aventura foi deitar-se com um catador de papéis e de tranqueiras que perambulava pela cidade. Fizeram do matagal de um lote baldio a cama mais perfeita para a conjunção carnal. Foi ali mesmo que o andarilho estreou a vagina seminova da criatura e a liquidou com mãos de unhas encardidas. Analfabeto, despreparado para crimes perfeitos, o sujeito foi rapidamente capturado pela polícia e jogado numa masmorra moderna chamada cadeia. Aliás, pelo que descreveu Dante Alighieri em sua Divina Comédia, os presídios brasileiros estão mais para sucursais do inferno. Difícil acreditar que um ser humano saia daquele purgatório recuperado de seus males e pronto para reingressar na sociedade. O povo, entretanto, não dá a mínima. Bandido tem mais é que sofrer...


Enfim, a extinção de Belinda deixou mais leve o cotidiano de todos naquele lugarejo, fazendo com que a vida retomasse o seu curso natural e hipócrita. A sua morte, portanto, foi de pouca ou nenhuma valia praquela gente. É assim mesmo que acontece nas tragédias, até que uma delas nos bate à porta sem pedir licença. Daí é chorar, implorar pela justiça dos homens e botar a culpa em Deus. Afinal, não foi Ele quem quis assim?!


 


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POR EM 15/03/2008 ÀS 02:26 PM

Paradoxos da Tropa de Elipse

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 Mãos na cabeça! Pro chão! Todo mundo pro chão! De bunda pro céu! E você aí, tá olhando o quê? Pá! — a mão no “pé-da-oreia” e o “elemento” catando cavaco — É a polícia, vagabundo!  

Mas o que é isso? Mistura de ação policial, simulada, com filme de bandido? Que nada. Foi só a chegada da Tropa de Elipse, no sentido greco-etimológico do termo, para “omissão”. Certo, mas omissão da parte de quem? Do comando geral da polícia? Do governo estadual? Do governo federal? Ou da própria sociedade? Omissão ou inoperância de todos, sim senhor.
 
Gramaticalmente, omissão de palavra que se subentende. Estamos entendidos? Pra quem sabe ler, um pingo é arma obsoleta. O bandido vem com tecnologia bélica e a polícia ainda vai de escopeta ferrugenta. Só falta ir de estilingue para o confronto desigual. E assim vai indo o sistema de segurança nacional.
 
Quem tem medo da polícia? “Não tenha medo da polícia, mas respeite as instituições policiais”. Palavras oriundas dos comandos policiais. Com isso, procura-se, no primeiro segmento da mensagem, tranqüilizar e conclamar a população a participar mais do processo de segurança pública na baleada e combalida República. Implicitamente, reitera para a opinião pública as reais funções das polícias, no sentido de combater o crime, garantir a ordem e a segurança mesma. No segundo segmento, observava — e adverte, subliminarmente — o respeito devido pelos cidadãos aos policiais, na forma de reconhecimento e colaboração. E quem está respeitando quem, a esta altura de capar o gato, ou do campeonato?
 
Pertinente é que se harmonizem ou se equilibrem o senso comum e o consenso geral — como se diz —, numa sociedade abalada pelo inchaço populacional das cidades, gerando bolsões de misérias sociais — em (des)níveis econômicos e cultural — e, conseqüentemente, fomentando a criminalidade, mãe da violência. A essa violência acrescenta-se aquela cometida pelos próprios policiais, via de regra pela arrogância, prepotência, exibicionismo — andam a ver filmes americanos e policialescos por demais —, abuso de autoridade. Atos inaceitáveis, pois ferem os direitos e asfixiam o clichê da liberdade aos cidadãos de bem, contribuindo para acentuar a tensão social e o clima de uma sociedade irrespirável.
 
Vai-se preso e é-se desacatado por um-nada, por conta do arbitrário recurso ou argumento do “desrespeito à autoridade”, sem se falar em outros expedientes igualmente condenáveis, senão piores. Daí deriva-se o primeiro medo da população diante do policial, num paradoxo absurdo. Não fosse o medo de cada um, sobretudo o medo de represálias, muitos cidadãos contariam o que sabem e o que sofrem aí pelas ruas de suas cidades, amiúde na calada da noite, de forma até sorrateira, com os faróis das viaturas apagados e as sirenes emudecidas, para não chamar a atenção das vizinhanças. De tal sorte, numas horas dessas é que o cidadão, indefeso, desamparado e desesperado, se pergunta se Deus também está dormindo.
 
Um segundo medo se origina nos desvios de conduta do policial que se bandeia e se corrompe, passando a desempenhar duplo papel, atuando também como bandido, absurdo dos absurdos, avesso do avesso e agravamento do insustentável caos social. Cumpre à sociedade colaborar, denunciando, sem medo — esse é o nó da questão, por razões óbvias, e até mesmo na denúncia sob anonimato —, para se resgatar a credibilidade das instituições policiais, na parte podre que as denigre perante a opinião pública.
 
Bom seria, para ambas as partes — polícia e sociedade —, a suprema observância aos direitos e deveres. Uma crescente participação social no processo de segurança pública tenderia a amainar o chavão de que a polícia é um mal necessário; o inverso seria que a polícia é um bem social, até porque, lamentavelmente, por conta de índoles individuais ou coletivas — muitas vezes por culpa das contradições sociais —, o homem não é um ser plenamente autogovernável, no sentido essencial e universal da palavra.
 
A mais dolorosa verdade, em tudo isso, é a impunidade de quem quer que seja no contexto da segurança pública, a par com o cômodo silêncio, a criminosa omissão ou conivência das autoridades que representam os poderes constituídos. Cega, a própria Justiça, às vezes, por suas próprias conveniências.
 
Mãos na cabeça! Pro chão! Todo bode expiatório tem a cara safada do cidadão, a vítima.
 


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POR EM 15/03/2008 ÀS 02:16 PM

Pessoas chocantes

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Pessoa chocante não é a que tem por mau costume chocar as outras pessoas. É a que persiste no vício enclausurante de não chocar a si mesma, dando á luz ou ao novo que tem o dever de fazer aflorar em si. Há criaturas (bípedes pensantes) cujas vidas entram em paralisia de pântano. Sua estagnação vem da recusa em chocar a vida nova, enclausurada na casca de ovo que são - e toda criatura o é, em um sentido simbólico.
           
 Recusar-se a romper as estruturas do medo de viver é manter-se em morte viva de normose ou mesmice. Não irromper da rigidez para o movimento, permanecer em antecipado rigor mortis, antes de passar pela leveza permeável e flexível das crianças, é uma forma de antecipar em nós os poderes da morte. Significa enclausurar-se em caverna escura, de onde nada sai, e onde nada penetra.
           
Não sair do ovo, temendo os perigos do mundo, é retroagir a ave futura em ovo goro - por medo ou pirraça mantendo a si mesmo como sub-ser cavernoso - milagre falhado, sem serventia para os outros, desprovido de futuro para o mundo - para que foi nascido —  e até para si mesmo demitido de sentido.
 
A vida enxota os que entulham os seus caminhos. Viver é colocar-se em marcha - não estancar o fluxo do eterno movimento de tudo o que vive. Pois, nesta vida, segundo Heráclito, tudo muda o tempo todo. Só a mudança não muda nunca. Vida é movimento. Quanto mais muda um ser humano, mais vitamina a si mesmo. Se for artista, ao conceber uma divina canção, abraça a si mesmo, na intenção universal de abraçar o mundo.
 
                                              
Vertigens de ventríloquos
 
           
Há por toda parte uma triunfante e vertiginosa exaltação do poder que nos dá o fato de ser bem informados. Poder para que? Há de se perguntar, uma vez que quanto mais informação rola pelos megabytes das mídias eletrônicas (para não falar das outras, mais lentas), mais desastres e absurdos são provocados por pessoas tidas como bem informadas.
           
Esquecem de informar os idólatras dos super-poderes da informação que acreditar não é saber. Cultura não é saber por ouvir dizer. Um saber não processado torna-se um caos desenxavido, sem alinhavo ou cerzido que lhe dê algum sentido. Tem o valor protéico de um veneno bem ou mal digerido. Informação só dá poder quando se processa o que se sabe - e quando se acredita porque se sabe.
           
Montanhas de informação não processadas vêm da vala rasa da cultura inútil, sem conexão com as leis que regem a vida. Não resultam em cultura, e menos ainda em sabedoria. Têm a duração de um punhado de algodão doce na chuva. Naqueles, néscios bem informados que as acumulam, restam acúmulos ridículos de vaidosura. E a doce ilusão de terem se beneficiado daquilo que não podem digerir. Pior é que passam por sábios, feito ventríloquos tagarelas, papagaios rastaqueras, e esgoelar-se em tagarelices, enquanto propagam à praça que são os novos reis da cocada preta. 

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POR EM 14/03/2008 ÀS 04:15 PM

Santos nomes em vão

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Como podem ser tão pouco criativos os que escolhem nomes para as lojas, as lanchonetes, os edifícios? Por que empregar o famigerado apóstrofo ‘s, contrabandeado do inglês, se há tantas formas mais poéticas nas papilas de nossa língua para indicar a que se destina a portinha espremida entre a loja de quase 2 e o consertador de sapatos?

Quando ando pelas ruas ou atravesso uma daquelas pequenas cidades do interior onde mal se entra e já se sai, olho, curiosa e ávida, para os letreiros, os muros, as faixas. Foi enfiando o nariz onde devia que descobri o cheiro de esmalte e laquê do Salão de Beleza Plena. Que cabeleireiro inspirado, que manicura sensível terá mandado pintar, com capricho, na faixa desmazelada que procura gritar a existência anônima de um salãozinho no centro da cidade, um título tão magnífico? Que mulher não ingressará num tal lugar gata borralheira e não sairá coroada com uma bela chapinha?!


Em que sensualidades estaria pensando o dono da lanchonete Benedita Gulosa em plena praça de deveres cívicos? De que tormentos terríveis deve padecer a alma do relojoeiro, que ao desentortar ponteiros impiedosos, olha o título estarrecedor e definitivo de seu estabelecimento? Relojoaria Eterna?! Ora – dirão as mulheres frívolas e ciosas de seu futuro – diamantes são eternos, não relógios!

Lembro-me da indignação de meu professor de francês, mon père João que também ensinava latim, quando viu, no bairro de sua paróquia, o anúncio do motel La Viande. E o humor negro de quem deu ao açougue de Londrina o título de A Vaca Viúva? Ou àquele outro, que chamou sua casa de carnes de O Boi Casado. E que trocadilho bendito e irônico da Madeireira Tora Toralina na cidade de Goiás! Sem dizer do sarcasmo da Borracharia Prego Amigo. Certamente amigo do borracheiro onça.


Os criativos denominadores parecem ser sempre um pouco sacrílegos. Abençoe a “buate São Benedito”, deve ter blasfemado, entre goles de pinga, o empresário da noite de Indiara. Condenada ao fogo do inferno já deve estar a alma do mineiro que criou o Bar Deputamadre no mais belo dos horizontes. Aliás, como os mineiros gostam de usar o santo nome de Deus em vão e como os goianos sabem ser rudemente realistas. Terá uma vida amarga o dono do Bar “Giló” – assim mesmo com “g” no Setor Aeroporto? Será um vencedor o ilustre senhor que administra o distinto boteco “Dirrubado” em Campinas? Certamente nosso amigo possui um humor peculiar ou sonha em morar nos Estados Unidos, para carinhosamente apelidar seu ganha-pão de Caldos WC. Ou terá apenas iniciais infelizes?

Mas esses seres iluminados, que souberam tão bem escolher, é que nos fazem ainda ter esperança na utopia de um mundo mais franco nos seus nomes, mais original e poético. Um mundo em que não haja Igreja MA (do Ministério Águia) ou João’s Bar. Ruas e breves cidades amáveis com um empório de especiarias que se chame Almofariz...

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POR EM 14/03/2008 ÀS 04:12 PM

Uma platéia salafra?

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O teatro na forma como o conhecemos no ocidente, originou-se das grandes marchas carnavalescas em homenagem ao deus grego Dionísio. 

Nessas ocasiões o povo acorria em massa e participava intensamente, rompendo com os padrões vigentes: num passe de mágica, eis que o despossuido estava investido do poder e da riqueza; o feio e rejeitado transformava-se em belo e querido; o fraco em rei e a devassa em vestal.
 
As ruas e os largos espaços públicos foram os templos primeiros dessa milenar arte popular.
 
Com o correr do tempo, novas necessidades delimitaram outros compromissos e o arranjo sucessivamente repactuado desafogava novas demandas.
 
A ruptura com as antigas origens ia conformando espaços mais restritos, até que o palco à italiana aprisionou o teatro entre quatro paredes.
 
A pujança e o vigor do renascimento medieval deram origem à Commedia dell’art que, novamente reintroduziu no panorama teatral o caráter libertário do teatro: a improvisação, as ruas e praças públicas como espaços prioritários, a alegria intensa, a magia, a fantasia,...
 
Em raros momentos da história atores e platéia conseguiram estabelecer uma relação bem resolvida.
 
Um ou outro, quando não os dois, quase sempre se mostram insatisfeitos, com as expectativas sempre por atender. E não me refiro simplesmente à satisfação emocional, a tornada visível com a vaia e o aplauso. E sim aquela mais profunda, que tem a ver com a essência da relação que se espera de um e outro: postura diante das grandes questões existenciais e políticas, visão de vida, compromissos sociais.
 
Este descompasso levou ao que, no teatro contemporâneo, os artistas e encenadores passaram a denominar descompromisso, alienação ou apatia da platéia.
 
E para qualificar a participação e fazer com que a platéia rompa com a passividade, os atores passaram a recorrer a modelos e artifícios inovadores, alternativos, que escapem das práticas convencionais.
 
Antonin Artaud quando criou o Teatro Jarry, fez questão de estrear com um espetáculo de Max Robur, Gigogne. Na apresentação, o protagonista dirigia-se à platéia nos seguintes termos:
 
“Meus senhores, minhas senhoras, vocês não passam de uns salafrários!”
 
E Artaud se decepcionou com a reação do público, pois a companhia se preparou para uma resposta instantânea, peremptória, em certo grau, violenta.
 
Nos dias que correm é comum provocar o espectador para que ele abandone o estado de apatia, obliteração e indiferença ante os fatos que o espetáculo desvela.
 
Na realidade, os que lidam com o teatro jamais se conformaram com uma platéia cujo papel se limite a tão efêmera participação.
 
No dadaísmo, movimento cultural que se originou em Zurique nos idos da 1ª guerra mundial, Tristan Tzara e Hugo Ball, dentre outros, preocuparam-se em sistematizar a idéia de uma “comunhão coletiva que abale a diferença entre poesia e teatro”, uma linguagem que agite e faça vibrar em lugar de apenas significar.
 
Enfurecido com as concepções reducionistas quando o texto dramático comprime ao invés de expandir o teatro, encarcerando-o inexoravelmente na literatura, Edward Gordon Graig protestava:
 
“... a arte do teatro nasceu do gesto, do movimento, da dança(...) o dançarino foi o pai do dramaturgo”. E rispidamente criticava os que escreviam para o teatro sem entender sua real dimensão: “nossos autores dramáticos são escritores de palavras”.
 
No que conseguiu a cumplicidade de Artaud que condenava o teatro ocidental exatamente por viver aprisionado à ditadura despótica da palavra.
 
Estava evidente a diferença entre os escritores que simplesmente escreviam para teatro e os verdadeiros dramaturgos. E Áppia trata de esclarecer o descompasso:
 
“(...) quem diz dramaturgo diz também encenador. Seria um sacrilégio especializar as duas funções. Podemos então estabelecer que se o autor não acumula ambas, não será capaz nem de uma, nem de outra coisa, pois é na penetração recíproca que deve nascer a arte viva.”
 
O processo de Dada exigia uma reação diferente da platéia, uma reação viva, vigorosa, imprescindível ao processo, sem a qual a manifestação cultural não atingiria seu objetivo.
 
Hoje já não se apresenta estranha a idéia de que é necessário mexer com o espectador, incomodá-lo, faze-lo vibrar, pressentir, reagir aos fatos que se desenrolam diante dele, abjurando a indiferença.
 
No Dadaísmo a procura era pela comunhão coletiva, uma sinergia que reduzisse a pó a diferença entre texto e teatro, palco e platéia.
 
A busca por uma maior interação entre platéia e palco levou a uma profusão de caminhos, propostas, concepções, escolas, movimentos...
 
Artaud, por exemplo, perseguiu um espetáculo multifacetário, circular, capaz de pulverizar os dois mundos fechados onde se escondem palco e platéia, “um espetáculo que espalhe suas irradiações visuais e sonoras sobre a massa de espectadores”.  
 
Mas foi Adolphe Appia um dos primeiros a insurgir, exigindo a supressão dos espaços entre artistas e platéia.
 
Appia chegou a desejar o desaparecimento do público, conclamando os espectadores a tornarem-se atores, apregoando uma arte dramática com ou sem espectadores.
 
Num diálogo de Mama de Tirésias, estreado em 1917, Guillaume Apollinaire define esta concepção cênica e este teatro que se buscava:
 
“Aqui tentamos infundir um espírito novo ao teatro
Uma alegria, uma volúpia, uma virtude
Para substituir esse pessimismo velho de mais de um século
O que é bem antigo para uma coisa tão aborrecida
A peça foi feita para um teatro antigo
Pois não nos teriam construído um teatro novo
Um teatro redondo com dois palcos
Um no centro, o outro formando como que um anel
Em redor dos espectadores e que permitirá
A grande apresentação de nossa arte moderna
Casando frequentemente, sem ligação aparente, como na vida
Os sons, os gestos, as cores, os gritos, os ruídos
A música, a dança, a acrobacia, a poesia, a pintura,
Os coros, as ações e os cenários múltiplos
Vocês encontrarão aqui ações
Que se juntam ao drama principal e o ornamentam
As mudanças de tom, do patético ao burlesco
E o uso racional das inverossimilhanças
E de atores, coletivos ou não
Que não são forçosamente extraídos da humanidade
Mas de todo o universo
Pois o teatro não deve ser uma arte enganosa”.
 
Nesta desesperada busca pelo teatro pretendido, livre de peais e entraves, os caminhos trilhados não foram poucos, muitos levando a contextos contrários aos desejados.
 
Enquanto Artaud se envereda pelo teatro metafísico e mágico, Piscator, Reinhardt, Stanislavski, Meyerhold e Brecht desenvolvem o teatro político.
 
Stanislavski registrou em suas recordações como Graig montou Hamlet em Moscou:
 
“ Graig não queria entreatos e cortinas. Os telões devem ser uma continuidade arquitetônica da platéia (...). A platéia e o palco não se distinguem um do outro e encontramo-nos transportados para um outro mundo”.
 
Appia chegou a desejar o desaparecimento do público, conclamando os espectadores a tornarem-se atores, desejando uma arte dramática com ou sem espectadores.
 
Uma nova relação entre platéia e artistas é uma busca que remete às origens do teatro. Nada tem de novo. E jamais chegará a termo. Sempre estará por fazer, por construir. E é importante que seja assim. Mais um dos mistérios a garantir a perpetuação desta milenar manifestação artística.

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POR EM 14/03/2008 ÀS 04:10 PM

A Vaca e o Jacaré

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Eleição enrascada foi aquela. Menino do céu, que coisa! A briga principal entre a Vaca e o Jacaré. O Jacaré era o 15, número do partido, que comandava a prefeitura, e a Vaca, o 25, do adversário, desafiante, cada qual com seus partidos agregados. Imagine uma eleição dura, ferrenha, descompensada, aquela atendia a todos esses requisitos e outros mais indizíveis. O prefeito, Jacaré ferrenho, amarelecia o município e arrotava arrogância sem pudor nem piedade. Os da Vaca se juntaram com um candidato previamente escolhido e, segundo as pesquisas, era o que poderia fazer alguma cosquinha no adversário.

O prefeito do Jacaré botava quente e fervendo nos contrários, com um gosto de gás que sopitava na jagunçada, coisa nunca vista naquelas bandas, arrotando que pudessem vir quente que ele era o dono do tacho e da fornalha, por isso a água estava fervendo. Um medo lascado e velado tomava conta dos adversários, até brotar tinindo num movimento estrondoso que buliu de vez com a estrutura do Jacaré. Mesmo assim, ninguém do lado da Vaca ao menos sonhava em ganhar a eleição, porque a máquina da prefeitura estava toda na campanha e ameaçando fazer e acontecer.

Para se ter idéia do salseiro que era a política daquela cidadezinha, numa determinada festa do padroeiro, num povoado do município, o filho do prefeito e seus capangas arrumaram um escarcéu do cão que culminou na morte de três irmãos e um primo do lado adversário, por causa de coisinha à toa. Acontece que um pouco do feitiço virou contra o próprio feiticeiro e na perlenga do tiroteio um dos capangas, involuntariamente, acertou um tirambaço no filho do prefeito, que também foi para o beleléu.

A história desse furdunço e outras do naipe voltaram na campanha, com todos os matizes e rancores. Num é de ver que a eleição chegando, o clima esquentando, as brigas aumentando, esculachos e esculhambações usando Vaca e Jacaré e ambos os lados arrotando vitória pra fora e desconfiança e medo pra dentro ilustravam a fantasmagoria do processo, até com famílias se engalfinhando, cuspindo fogo uns nos outros.

Dez dias antes do pleito, o candidato da Vaca, desafiante do prefeito, sofre um atentado a bala, em plena madrugada, dentro de casa. Motoqueiros adversários, segundo as versões menos adversas, encheram de bala a casa do tal e uma delas, inclemente, pipocou no ombro do dito. Precisava estardalhaço maior? Veja o que se deu pra ganhar um voto, gente! Aí é que tá. Ambos os lados sustentaram versões e versões sobre o ocorrido. Os do prefeito dizendo que o atentado fora simulado, e os adversários, do lado do candidato baleado, jogando a culpa no desespero dos situacionistas, argumentando que queriam matar o candidato desafiante, com o medo de perderem a prefeitura.

Até hoje não se sabe ao certo que lado teve razão na argumentação e eu também, só de pirraça, porque nenhum dos dois era meu candidato, não vou dizer quem ganhou a eleição.

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POR EM 14/03/2008 ÀS 04:09 PM

A ferida na memória

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O trauma é um dos temas recorrentes e centrais das artes contemporâneas. O que se coloca é a dificuldade de apreender uma experiência terrível, como foi a do campo de concentração nazista da Segundo Guerra Mundial. Trata-se de transformar em palavras ou imagens o tormento de uma situação que se aproxima do irrepresentável. No Brasil, a vida de quem lutou contra a ditadura militar de 1964 entra na categoria da memória que é difícil de ser recuperada e incapaz de ser esquecida, sobretudo as torturas sofridas pelos militantes de esquerda.

A experiência traumática ronda “Ação Entre Amigos” (1998), de Beto Brant. Possivelmente, é o filme que melhor aprofunda as questões levantadas a partir da guerra suja entre militares e guerrilheiros de esquerda nos anos 1960 e 1970. A história se passa no presente, com quatro amigos que lutaram contra a ditadura e vão para uma pescaria de fim de semana. A surpresa será contada pelo organizador do passeio: o grupo vai na verdade ao encontro do antigo torturador, aquele sujeito que atormenta as memórias deles. A trama se desenrola na discussão do que fazer com o algoz do passado.

O filme de Brant coloca uma questão discutida anos trás por Jacques Derrida a respeito do “perdão”. Segundo o filósofo francês, as violências que atingem as sociedades encontram distintas soluções. Os nazistas foram julgados sumariamente pelo Tribunal de Nuremberg. No outro extremo, o Chile e o Brasil optaram pela anistia irrestrita aos crimes cometidos durante os períodos ditatoriais. Os dois casos geraram ressentimentos e deixaram feridas abertas. Uma solução, para Derrida, seria a adoção do tribunal como aquele criado pela África do Sul no pós-apartheid.

Os sul-africanos fizeram um tribunal sem julgamento legal. Os brancos, porém, deveriam realizar um acerto de contas com os negros e reconhecer publicamente a responsabilidade por crimes cometidos em nome do regime oficial de discriminação. No filme “Ação entre amigos”, os personagens estão no Brasil e decidem resolver por conta própria o que está preso na memória. Eles mesmos criam o seu próprio tribunal, onde também eles serão punidos. Surge uma tensão dramática que resultou num dos melhores filmes da retomada do cinema brasileiro nos anos 1990.

Outra obra a tratar desse esquecimento impossível da ditadura é “Benjamin” (2004), de Monique Gardenberg, baseado no romance homônimo de Chico Buarque. A memória vira uma alucinação do personagem Benjamin já velho nos dias atuais. Ele vive o tormento de encontrar uma mulher fisicamente muita parecida a sua namorada que foi morta pelo regime militar. É uma narrativa que reúne a nostalgia dos anos dourados da juventude, o pesadelo da perseguição política e um presente sem vida e orientado pela imagem da publicidade.


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POR EM 14/03/2008 ÀS 04:06 PM

Morte aos espanhóis boçais!

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Em 1994-95, quando eu era bolsista do CNPq em Boston, lembro-me de ter tido uma pequena discussão com um dono de churrascaria, que era português, na cidade de Sommerville, nos arredores de Boston (por motivos óbvios evitarei dizer “na grande Boston”). Naquela época a cidade (mais um bairro de Boston do que propriamente uma cidade, algo assim como Aparecida de Goiânia) era um nicho de imigração portuguesa, o que, conseqüentemente, a credenciou a se tornar, gradativamente, também brasileira. Já ouvi dizer até que, atualmente, há mais imigrantes brasileiros ali do que portugueses.
           
Nossa pequena discussão dizia respeito a um outro fenômeno, então relativamente novo, da migração de brasileiros a Portugal e como estavam sendo mal recebidos por lá. De minha parte, eu dizia que era um contra-senso, um mau-caratismo de Portugal recusar e/ou maltratar brasileiros, não só por sermos ex-colônia, mas, principalmente, porque as correntes migratórias de lá pra cá continuaram ainda por muito tempo depois da independência, entrando pelo século XX (eu, por exemplo, sou bisneto de portugueses, meus bisavós vieram ao Brasil no início do século XX).
           
O dono da churrascaria me desarmou com o óbvio argumento (que só a raiva não deixa enxergar) do tamanho de cada país. Portugal é um cuzinho. Por essa escala, então, poderíamos dizer que o Brasil é, geográfica e historicamente falando, uma xoxota arrombada, com o perdão do meu francês. Ok, vamos conceder. Não dá pra comparar. Se a gente decidisse invadir a praia de Portugal pra valer ia ser um Deus nos acuda. Não justifica, porém, a animosidade, o preconceito, os maus tratos.
           
É mais ou menos assim que estou enxergando o que está acontecendo na Espanha. (Aliás, esse assunto tem rendido bons filmes sul-americanos, particularmente argentinos). Eles não têm opção. Têm de fechar as portas. Senão a gente arromba mesmo. Além do mais, sinceramente, o que temos mandado pra lá? Putas. Estamos exportando putas, veja só! E saídas em grande parte daqui mesmo, Goiás. Puta que pariu, se me perdoam o péssimo francês novamente.
           
 Por outro lado, assim como no caso de Portugal nada justificava os maus-tratos, também agora nesse caso. No meio da putada tem gente (muita!) bem-intencionada (não que a putada seja má, “bem-intencionada” aqui tem o sentido de “não pretende migrar”). Estudantes, profissionais, turistas, todos planejando gastar seu rico dinheirinho na península, caramba! Merecem respeito. Merecem melhores chances de provarem que não estão lá para se tornarem “lixeiros”, como os boçais da Imigração Espanhola no aeroporto chamaram os brasileiros. São do tipo que transformam um banquinho de poder em trono. Portanto, morte (lenta e dolorosa) aos espanhóis boçais (só aos boçais)!!


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POR EM 14/03/2008 ÀS 04:00 PM

Ascensão e queda

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O que leva um indivíduo a expor o filho ao vexatório papel de se transformar na bola da vez na imprensa nacional, ainda mais se pensarmos que este filho tem apenas oito anos, e que tal atitude poderá marcá-lo negativamente para o resto da vida? Dizem as más línguas que tudo foi arquitetado pelo pai, que é candidato a vereador e queria um tempo na mídia. Não sei se devo acreditar nisso. Seria patético admiti-lo, mas vindo do “ser humano”, tudo é possível. 

É difícil julgar, e acho que não devemos fazê-lo, mas o caso tornou-se público e merece as nossas considerações. De que lado estamos? Ou será que não devemos tomar partido e proceder de uma perspectiva de quem vê e se indigna, mas se cala? Não sei, sinceramente, não sei. Talvez para compreendermos um pouco mais como tudo isso funciona, precisemos compreender a lógica do mercado, do capital.
 
Por Deus, eu já sofri muito sendo professor universitário, principalmente quando indivíduos ali chegam cheios de sonhos, de promessas e de ilusão. Caem de pára-quedas e ali permanecem, como o quadro, a carteira, o giz, para lembrar o contundente ensaio do professor Nilton Mario Fiório, “Ser ou estar, eis a questão?”, em que reflete sobre o aluno histórico e o aluno geográfico.
 
Como no ensaio, pude conviver com tantos indivíduos que não sabiam por que estavam ali, não liam, mal escreviam e, ainda por cima, se davam ao luxo de querer boas notas. Triste, muito triste. Tristíssimo! Principalmente se pensarmos que eles conseguiram legalmente ingressar na universidade – via “vestibular” – e ali se descobriram incapazes, despreparados, enganados,  mas aí já era tarde, tarde da noite, uma noite sem perspectiva de amanhecimento.
 
O caso da criança, transformada em gênio no primeiro momento pela imprensa, para depois ser motivo de chacota, de execração pública, como é costume por estas plagas, nos leva a uma retrospectiva e nos faz lembrar o caso Avestruz Máster tão disputada pela mídia, por políticos e empresários, até descobrirem a farsa, o rombo, os arranhões na imagem de quem dela esteve próxima.
 
Com a criança não foi diferente, apesar de o pai querê-lo como um gênio e lutar para isso, em nenhum momento pensou na exposição do filho, muito pelo contrário, fez questão de apresentá-lo a todos, mas tudo começou a desmoronar, quando a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e o Conselho Estadual da Educação se mostraram preocupados e cobraram providências, para que, posteriormente, o MEC prometesse fazer uma devassa nos métodos utilizados pelas universidades particulares  - nos seus propalados “vestibulares agendados”. Paralelo a isso, o jornal Diário da Manhã publicou um texto escrito pelo futuro “acadêmico” de Direito, o que demonstrou algumas deficiências gramaticais do garoto, natural para sua idade, porém relevantes para um universitário e, ao mesmo tempo, revelou a aberração de algumas faculdades e/ou universidade para cooptar alunos, não se importando se eles usam fraldas ou não.
 
Antes tarde do que nunca, diz o ditado. Eu também penso assim. Mesmo tarde este caso vem reforçar aquilo que vínhamos dizendo ao longo desses últimos anos, a irresponsabilidade de alguns empresários que tratam a educação como um produto qualquer, movido pela ganância, pela possibilidade do lucro fácil, quando não encontram algo mais rentável para investirem os seus milhões. Educação é coisa séria, feita de erros e acertos e envolve uma parcela grandiosa de humildade de quem ensina e de quem aprende, e sensatez de quem nela investe.  

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POR EM 14/03/2008 ÀS 03:56 PM

Promessas do Marcelo

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Marcelo Leite é provavelmente o mais importante jornalista científico do país, mantendo um blog bem escrito e antenado (http://cienciaemdia.zip.net/). É uma das referências nacionais no quesito divulgação científica, a atividade que se preocupa com a popularização dos procedimentos e resultados da ciência.
 
Mas o velho ditado “em casa de ferreiro, espeto de pau” serve para M. Leite que transformou sua tese de doutorado em Ciências Sociais, no livro Promessas do Genoma (Editora UNESP, 243p., 2006).
 
Não que falte ao livro, uma boa compilação de informações sobre toda aquela falação do projeto genoma humano (PGH) que tomou conta da mídia mundial no início deste século. Mas o livro peca por excesso de academicismo, nos levando a impressão que Marcelo, abriu o arquivo de sua tese, “salvou como” livro e mandou para o editor (e olha que nem li a tese....).
 
Aliás, nenhum problema que alguém das “Ciências Moles” pegue sua tese e a transforme num livro enfadonho que provavelmente ninguém lerá e nem o tempo o tirará da lata de lixo da história, pois isto tá cheio pelo brasilzão afora...Porém, é de se esperar que um dos pilares da nossa divulgação científica, tenha um texto mais claro, menos pedante, menos cheio de academicismos como por exemplo: “(...) [tecnociência é] à primeira vista, libertadora de forças materiais a serviço dos homens, mas também arquiteta de barreiras para o desenvolvimento das sociedades humanas. Prometeu e Fausto, reunidos numa única máscara de Jano” (p.150). Eu heim?!?!?
 
Apesar disto, o leitor interessado no tema, tem no primeiro capítulo, que é de longe o melhor, uma abordagem indispensável. Nele, Leite disserta sobre os dois números da Science e da Nature de fevereiro de 2001, que trataram exclusivamente do genoma humano e reproduziram uma enxurrada de analogias sobre o DNA: “os genes orquestram a construção do miraculoso mecanismo de nossos corpos”; “o genoma é o hardware molecular que dá suporte ao processo da vida”; “...num certo sentido, nós somos tanto coletiva quanto individualmente definidos no quadro do genoma” e por aí afora.
 
Estas analogias foram divulgadas e ampliadas depois pelos jornalistas, que, então, levaram a fama de “ignorantes em ciência”, “exagerados” e, por fim, “deterministas”. Leite é o policial forense do assunto, mostrando a verdadeira paternidade destas analogias (os próprios cientistas), incluindo, em mais detalhes, as afirmações tolas e altamente pretensiosas de James Watson, o decifrador da dupla hélice (junto com Francis Crick), sobre o PGH.
 
É pessoal, eu sei que Watson ganhou um Nobel, e, para alguns ele tem direito de se auto-vangloriar, mas quando escreve “...que sejamos seres humanos e não chimpanzés não se deve, em sentido algum à nossa educação, mas sim à nossa natureza, isto é, nossos genes...”, vou logo lembrando do que disse Huxley ao bispo Wilbeforce em ocasião memorável: “...prefiro ser aparentado do chimpanzé do que de uma pessoa que faça tal afirmação....”.
 
Acho que não exagero ao dizer que para Watson, cabe como uma luva o dito de Ortega y Gasset: “La peculiarísima brutalidad y la agresiva estupidez con que se comporta un hombre, cuando sabe mucho de una cosa y ignora de raíz todas las demás”. Watson mereceria um capítulo exclusivo em “Promessas...”, que para um livro de divulgação da ciência, tem os capítulos muito longos (50 páginas), e então por vezes, fazem o leitor perder o fôlego.
 
Leite fala ainda, sobre os sistemas de desenvolvimento e a epigenética, mostrando que o processamento do ser humano é dependente de muita coisa além do que está escrito no DNA. Na verdade, o título “Promessas do Genoma”, é um puxão de orelha ao PGH, que até agora, pelo tanto de recursos que nos sugou, não mostrou à que veio, pois não descobriu cura para nada, esclareceu pouco e afinal, nem trouxe avanço na atividade científica em si, já que ciência não é apenas um conjunto de resultados.
Por fim, e então sobre a parte que não gostei, depois de mostrar que o determinismo genético é balela (DNA não é destino), o autor enfatiza demasiadamente, a tese do determinismo tecnológico e sua influência em nossos valores sociais e culturais. Não é tudo isto....
 
Marcelo Leite é um intelectual honesto. Fico me perguntando se hoje ele não está obcecado por sua crença quase incondicional no assunto científico do momento, o aquecimento global, da mesma forma que muitos jornalistas e cientistas estavam a respeito do genoma uns dez anos atrás. Num futuro não muito distante, acredito que ele escreverá um livro intitulado “Promessas do IPCC”. Até lá, tenho certeza, estará curado do sociologismo que depõe contra a divulgação científica.

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