revista bula
POR EM 22/03/2008 ÀS 10:56 AM

A miragem

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Acabara de chover. Um menino caminhava dentro da enxurrada, água pelas canelas, chinelos nas mãos, e muita alegria no rosto. Sorrisos infantis jamais mentem: ele se divertia. Dentro do carro, preso num costumeiro congestionamento, dei trégua à angústia e ao cansaço e cheguei mesmo a pensar que a vida tinha jeito. Fechei os olhos: “...são as águas de março fechando o verão, é a promessa de vida no teu coração...”. Olha lá o menino, como ele brinca alheio aos dilemas. Pensei que bom seria voltar a ser criança, jamais ter crescido e descoberto que o mundo, no fundo, no fundo, é mau que nem as bruxas dos contos de fadas.
 
O moleque prosseguiu sua jornada rua abaixo, chutando água, brincando consigo mesmo (ou seria com seres imaginários?!) e com a minha inveja de não ser mais menino. Ele não sabia dos segredos dos bueiros, da força medonha dos redemoinhos, das ameaças hidráulicas dos temporais. Então, tropeçou, caiu, desapareceu da paisagem urbana. Sugado pela garganta da galeria pluvial?! Incrédulo, eu xinguei.
 
A gente reclama se o dia está quente. Reclama se o dia está frio. Reclama por causa da estiagem, da garganta seca e da baixa umidade relativa do ar. Reclama quando chove, mesmo se for chuva fraquinha, daquelas de molhar bobo. Reclama e quer tirar satisfação com Deus quando cai um temporal, revirando tudo, atrapalhando o trânsito, molhando bobina e apagando o motor do carro. Enfim, o ser humano é criatura insaciável. Insatisfeito por natureza, mesmo que ostente saúde plena, ou todo o conforto e mordomia que o dinheiro possa comprar.
 
Quando chove mais forte sobre as grandes cidades brasileiras, os transtornos são inevitáveis e algumas catástrofes se repetem. Quem disse que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar? Cai, sim. Então, a água encharca as encostas dos morros onde brotam barracos invasores, solapa e derruba um bocado deles. O povo afoga na lama. A televisão mostra tudo aos resignados expectadores debruçados no conforto das salas quentinhas e seguras. Tragédias anunciadas. São as mesmas notícias do ano passado, só que vítimas diferentes. O povo se comove e chora. Pessoas de alma boa organizam a coleta de donativos para aplacar a fome, o sofrimento e a penúria dos desabrigados. As igrejas fazem campanhas, novenas, bingos, ações entre amigos, jejum e outros sacrifícios da carne. Mas chega o estio e ninguém se move. Ninguém arreda pé. Eita, povo teimoso!
 
Os córregos sopitam de tanta água e lixo, arrastando uns casebres, inundando outros tantos, apavorando aquela gente pobre que mora nos piores lugares do mundo. Barranco de rio só é bom para se pescar. Para morar, não presta. Todo mundo sabe disso, mas ninguém se importa. Chega a enchente, que nem o ano passado. Aí a culpa é da prefeitura ou de Deus. A chuvarada termina, mas o povo continua despejando lixo dentro dos ribeirões, como se eles fossem tapetes onde se esconder porcarias. Sacos, carniças, garrafas, pneus, trastes em geral que já não servem para mais nada, senão para entupir os canais. A natureza, sempre que maltratada, dá o troco. Eita, povo deseducado!
 
Há poucos dias, sob esplêndida publicidade, a prefeitura local retirou dezenas de famílias que moravam em barracas de lona preta, margeando a ferrovia que corta a cidade, local com altíssimo risco de acidentes e tragédias. Os sem-teto foram assentados em casinhas simples e decentes, erguidas pelo poder público em local seguro. Poucos dias depois, já havia miseráveis novatos se aglomerando no local, cavoucando, erguendo acampamento. Eita, povo insistente!
 
Saltei do carro, incrédulo com a cena que acabara de presenciar. Corri sob a chuva fina, serpenteando no trânsito parado. E eu, que imaginava nem mais ter coração, sentia o danado quase vazando pela goela. Vasculhei a esquina. Nem sinal do menino. Sumira na correnteza forte. Desapareceu, instantaneamente, que nem a tênue fé que ainda há pouco faiscava no meu peito.

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POR EM 20/03/2008 ÀS 09:41 AM

Putas da minha vida

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Nunca me deixei impressionar pelo fato de que a zona boêmia, tanto ou mais que o engenho de açúcar, (em seu moer e coar como canas colônias de vidas escravas) é uma máquina de viciar e gastar gente. Por muito tempo andei querendo encontrar quem eu sou nos labirintos da perdição. É comum ver-se, nos puteiros, mulheres velhas, decrépitas, com uma pele só rugas, de pouco mais de quarenta anos. Obrigadas, pelas cafetinas, a beber a noite inteira, enquanto copulam até vinte vezes por dia, com a sucessão de maus tratos, as surras que recebem do cafetão e dos meganhas, as brigas, a insegurança, o medo e a permanente violência, e pelo fato de estarem sujeitas a contrair todos tipos de doenças venéreas, com poucos anos de "profissão", viram mulambos humanos. 

Não por outro motivo que os coronéis d´antanho, assim como os oligarcas contemporãneos dão preferência às mocinhas, recém-chegadas no ofício. É que cedo perderão o viço da pele, o brilho dos olhos, o brilho da vida, que em tais criaturas se esvai com velocidade espantosa. Nos bordéis de antigamente, (que hoje os há mais sofisticados e, com o aumento da concorrência, hoje é difícil saber quem está no ofício só por gostar do meretrício, ou quem nele mergulhou de cabeça, pra valer), em poucos anos a mocinha dadeira virava velha rameira, tão sôfrega e selvagemente lhe era sugados o viço e a seiva da juventude.
 
Conheci uma prostituta tão velha e decrépita que parecia a chaga viva da humana ruína, exposta ao escárnio do público. Tinha um corpo e um rosto destruídos, apesar de seus pouco mais de quarenta anos. Era impossível determinar, com a ponta de uma agulha, um lugar de seu rosto onde não houvessem rugas. Era, em verdade, um inventário de rugas, como rios do desespero, em seu rosto destroçado.
 
Maracujá de gaveta perdia para ela. A velha noviça, feia, de uma fealdade inescondível e absoluta, era a prova, em carne viva, de que não existe chinelo sem dono, e nem sandália que seja impedida de ir a salão de festa, pois arranjava fregueses, entre os iniciantes, os tímidos, os paupérrimos e os que eram, como ela, extraordinariamente horrendos e despojados de todo e qualquer atrativo físico. Atendia pelo codinome de Dolores, e foi com muita dor que, acometida de câncer, veio a falecer no puteiro, depois de pungentes e doloridos anos de sofrimento (não tinha ninguém de seu, que pudesse tirá-la da "casa da sordidez").  

Morreu ali, à míngua medicina (que eu nada a ajudaria), mas não lhe faltou o amor e o companheirismo das outras "mulheres de vida alegre". Apodreceu, ao pé do leito mortuário de seu imenso desamparo. Só, e abandonada, como uma fruta que, cansada de madurar para nada, apodreceu, encroou, e virou fóssil vegetal. Morreu como viveu - sem ter um cã a quem pudesse acarinhar ou de quem algum afago recebesse. Viveu e padeceu no cemitério de gritos do câncer, e no viver foi como uma fruta a apodrecer, sem que ninguém sequer a contemplasse, na árvore ou na fruteira, com olhos de família, ou desejo de amante. 
 
Foram anos seguidos de lenta e dolorosa agonia. Dolores morria devagar, embora fosse desejo e (não lhe faltou a solidariedade das companheiras), que não a atiraram "no olho da rua", como chegou a ser sugerido, nem por piedade de eutanásia apressaram seu desenlace. sua despedida das solidões da carne foi lenta e dolorosa. Pedia, aos gritos, que a morte lhe chegasse como uma graça e dádiva terminal de quem viveu sem saber, ao menos em breves instantes, o que é ser amado e feliz, em sua existência vivida sob o signo de tânatos, ainda que por vocação de ofício tenha entregado seus dias aos gritos e sussurros do sexo pago.
 
A morte instalara suas teias sobre as vísceras de Dolores, mas Dolores não se decidia a morrer de fato e de direito. Morria em vida - e, lentamente, como uma fruta que amadurece, e a mão de Deus ou dos homens não tem a piedade de estender, para colher seu gesto inaugural de ternura - seu terminal desejo de entrega à juventude da vida, começou a desidratar e a reverdecer, como sucede às pessoas ficam encroadas, como frutas mal amadas, depois que de suas vidas e almas se extraiu todo suco e toda essência que nelas pudessem ter existido um dia.
 
De seu corpo, que apodrecia em vida, exposto à curiosidade pública, como se fosse de uma espécie muito rara, exalava um fedor adocicado, como o que exalam as fartas mangas abandonadas, que viram lama ao pé das fruteiras. Seus gemidos se misturavam com os gritos e sussurros das putas que gozavam (ou fingiam gozar), pois é sabido que as profissionais do amor só gozam e só aceitam ser beijadas na boca pelos "queridos" - e assim a vida se mostrava trágica e desesperada como é: quem ali entrasse para transar o sexo pago, ou quem apenas se entregava ao convívio seresteiro com a boêmia, e ficasse na sala, a ouvir e a cantarolas músicas de Nelson Gonçalves e Carlos Gardel, ouvindo gemidos vindos do quarto, não podia identificar se eram gemidos da dor de morrer em vida, ou se eram produzidos pela máquina de esfolar e fazer gozar pessoas mortalmente vivas, e tristes e solitárias. 
 
Toda vez que ouço, nas vozes embriagadas, e violões enluarados, "A volta do boêmio", na voz de Nelson Gonçalves, dardejam nos meus ouvidos, como sinos da agonia, os gemidos de Dolores, a prostituta mais velha, mais feia, e a mais sofrida já existida ou por existir, nas "casas de luz vermelha" da Campininha das Flores: "Boemia/ aqui me tens de regresso/ e suplicando te peço/ a minha nova inscrição/. Voltei/ pra rever os amigos que um dia/ eu deixei a chorar de alegria/ me acompanha o meu violão...". Então entendo porque as putas e os boêmios voltam sempre, a procurar, sedentos, os sítios do perigo e da perdição . Agora entendo as putas e os criminosos, que mesmo depois de haverem escapado ao perigo e à indignidade dos crimes que fizeram, quando a adrenalina retoma os níveis normais, escravos de forças magnéticas e poderosas, sempre voltam ao local do crime.
 
Um poderoso magnetismo, ou quem sabe o fascínio pela queda, e a sede de mergulhar na vertigem, fez que retornassem ao puteiro mulheres que encontraram companheiros, filhos, e o pacato e burguês "lar doce lar", que abandonaram, em dia de luciférica lucidez, reencontrando a perdição de que jamais se libertaram. E só quando amei tive olhos e ouvidos capazes de ouvir e entender estrelas. E só quando, na solidão do outro, de meu abissal desamparo me libertei, pude entender o que dizia o boêmio, quando cantava sua alegria vital, por haver de novo encontrado o caminho da perdição: "Fiz de tudo o que eu podia/ e de tudo o que eu fazia/ não me arrependo/ e te juro que faria/ tudo de novo/".
  
Dolores, seus gemidos e ais, e suas dores demais. Havia a pedra da solidão, em seu caminho. E a pedra de Sísifo, que ela carregou até o último gemido- suspiro, foi a de ter sido estrangeira para os outros, e para si mesma, em seu quarto, na casa em que morria, em seu pais, e no triste planeta terráqueo. Dolores nunca mais esqueceria do acontecimento da dor, na vida de suas retinas tão fatigadas. "O que é pior? Uma puta que vive de se entregar, ou uma puta que nunca se entrega?".
                                                
 
P.S. De putas, deputados e outras lambanças
 
               
Fêmeas fatais têm sido o abismo de celebridades políticas. Quanto mais estonteantes as beldades, mais perigos trazem em potencial. O rigor do método doidivano tem encontrado a perdição cartesiana em combates de coxas e lascívias de bocas - inconfessáveis ao público externo que paga a conta do banquete em que mulheres para 400 talheres são convocadas aos doze trabalhos de Eros.  
           
De um modo geral, sempre foi assim: a começar por Afrodite , passando por Cleópatra, guerreiros deram seus reinos (ou seus cavalos) por uma noite com suas belas putas. Poetas nefelibatas entram em delírios de loucura pura. Bill Clinton fuma o charuto cubano da luxúria americana com uma estagiária (Mônica amorosa e dadivosa) e quase perde o comando da pátria de Tio Sam.
           
No Brasil, um Itamar deslumbrado empunha o cetro público de sua lascívia senil, ao ver os pelos púbicos da vedete, na festa da carne em que todos os pudores se perdem. Outros farão filhos por fora - que vão estudar no estrangeiro, para não arranjarem pampeiro no chão brasileiro. Na presidência do congresso dos agachados o varão Renan Galheiros (fazendeiro do ar, de gado simbólico, para mutretas de lesa-fisco) moverá céus e terra para não faltarem abundantes alimentos à amante nutriz. Não dispensará os serviços de um gerente de empreiteira, para não faltar mamadeira à infante que pôs no mundo fora do seio da sagrada família.
           
Enquanto caem as estrelas dos pais da pátria, tidos e havidos como sendo acima de qualquer suspeita, resplandece o brilho das dadivosas, que desfilam triunfalmente por todas as mídias. Escrevem livros, lançam-se na vida pública (como esta já não fosse a sua) - dão consultorias sobre combates de coxas, e tornam-se, da noite para o dia, celebridades milionárias, a quem se trata com venerando respeito. As mais proletárias da mais antiga das profissões limitam-se a lançar griffes espúrias, em alusão irônica à perseguição petista à Daslu. Sem contar que Goiás comparece como líder no ranking dos Estados exportadores de putas. Daí reproduzir a pergunta feitas linhas acima, no conto-verdade inserido em meu livro Memorial do medo: o que é pior, a puta que se entrega, ou a puta que não se entrega nunca?
           
Se considerarmos que muitas santas mães de família são prostitutas de seus maridos, uma pergunta se alevanta: uma santa mulher pode ser uma puta putana, ao costurar para dentro? Outra insiste em falar: por que o ser mulher de vida alegre e airada há de ser uma desfeita, se dá aos homens o amor faltante em seu mundo? Por isto há de se preferir a vida alegre de alguém que assuma o respiro da vida, do que a solidão compadecida de si, da senhora "acima de qualquer suspeita", que sai com o senador, por um punhado de dólares, e uma gorda pensão alimentícia - a outra e a mesma que, no altar de sua hipocrisia, reza as trezentos e cinqüenta Ave-Marias de suas sublimes vilanias.  

 

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POR EM 19/03/2008 ÀS 07:57 PM

Amor ao perigo e morte

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Escrito no século 2 antes de Cristo, o Livro Eclesiástico, que compõe o Velho Testamento, é um conjunto de advertências aos judeus sobre os perigos da adesão aos novos costumes mundanos, por influência da cultura grega. Uma das mensagens mais conhecidas desse livro é: quem ama o perigo, nele perecerá (Eclo 3,27).
 
Se trouxermos esta frase para o contexto atual, poderíamos imediatamente identificar semelhanças da situação do mundo de hoje com a de Jerusalém daquela época. Hoje o mundo, pelo menos em grande parte, vive sob forte influência cultural norte-americana. Sendo a sociedade de consumo a ponta de lança dessa cultura.
 
Tento aqui uma pequena diferenciação: sociedade de consumo e sociedade que consome. Sociedade que consome é aquela que usa parcimoniosamente os bens materiais para manter o seu metabolismo em equilíbrio, que consome para viver. Já sociedade de consumo é aquela que vive para consumir, até explodir-se pelo acúmulo da própria “gordura”. Na sociedade de consumo, consumir é um fim em si mesmo. Na sociedade que consome, o consumo é um meio de manutenção, equilíbrio e busca de um fim. Sob influência americana, o consumo está se tornando a razão de tudo. E, sendo a razão de tudo, o consumo acaba por esvaziar o sentido verdadeiro da vida. O ser humano se torna objeto, mercadoria descartável, coisa de vitrine. Metabolismo do capital.
 
Dentro desta sociedade de consumo em que vivemos, qual objeto mais amamos? Sem dúvida o automóvel é o ícone desse sistema. Amamos o automóvel acima de todas as coisas. O automóvel nos dá status, nos serve de vitrine, complementa a nossa parte mais sensível que é o ego (o bolso só é sensível porque é propriedade do ego). E eventualmente nos conduz de um lugar para outro.
 
Nosso amor ao carro chegou a tal ponto que para nós é mais importante andar num carro vistoso do que morar numa casa confortável. É preferível ter um carro do ano a uma família equilibrada. É mais legal ter um carrão luzidio que um coração saudável. Tal é o amor que devotamos ao automóvel.
 
Mas o automóvel é um perigo (como de resto a sociedade de consumo). E como diz a sentença do antigo sábio, que parece mais atual do que nunca, quem ama o perigo, nele perecerá. No tempo daquele sábio, o perigo era para Jerusalém. Hoje quem está em risco é o planeta.
 
Há exatos 100 anos que o automóvel entrou no cenário de nossas ilusões, com o Ford T. Segundo recentes pesquisas, a emissão de CO2 no século do automóvel foi superior ao que foi lançado na atmosfera em milhões de anos. O CO2 é exatamente o gás que acelera o processo de esquentamento do planeta. Se o fato fosse só esquentar uns grauzinhos a mais a gente até tolerava numa boa. Mas as conseqüências desse aumento de calor é um desastre sem tamanho. Mudam-se os regimes das chuvas, o ciclo de vida dos vegetais, espécies essenciais na cadeia da vida desaparecem, sobem as águas dos oceanos. Aparecem tufões indômitos, chuvas ácidas, zonas desérticas, provocando grandes levas de desabrigados. Microorganismos antes benignos ou inertes se tornam letais. Um horror.
 
Mas tudo bem. O prazer de continuar consumindo carros compensa o sacrifício. Principalmente agora que há uma tendência de substituir gradativamente o petróleo combustível pelo etanol, que é menos poluente. Podemos continuar desfilando em nossos carrões e aliviando o efeito estufa.
 
Tudo bem uma pinóia! Os primeiros sinais perversos do uso do etanol já estão dando as caras. Começa com o avanço da agricultura sobre o restante das áreas verdes, como a Amazônia, por exemplo. Com o desvio de alimentos para a produção de combustível, o preço da comida ao redor do mundo está subindo numa escalada sem precedentes desde a Segunda Guerra. Em breve, contingentes enormes que hoje estão se alimentando com regularidade vão começar a passar fome, porque as terras que antes produziam alimento humano estarão voltadas exclusivamente para a produção de alimento veicular.
 
Enquanto isso, milhões de novos carros entulham as ruas do mundo diariamente. Nas grandes cidades o carro já está perdendo viabilidade como meio de transporte. Em São Paulo, por exemplo, já têm ocorrido congestionamentos-monstro de quase 200 quilômetros. Mas um carro no engarrafamento queima mais combustível do que desenvolvendo velocidade. A produção de etanol não será suficiente para atender ao crescimento da demanda. Sobretudo quando as sociedades reclamarem maior oferta de alimentos, a indústria do petróleo terá nova onda de crescimento, para suprir a falta de combustível renovável. Porque a gente ama o carro. E matéria prima não há de faltar. O derretimento dos gelos polares, provocado exatamente pela emissão de CO2 do carro, permitiu a descoberta de jazidas-gigante no pólo Ártico.
 
Quando voltarmos com gosto de gás (sem trocadilho) para o uso do petróleo, a curva do aquecimento global vai subir a olhos vistos. Aí sim, estaremos tomando banho de sol na praia em véspera de tsunâmi.
 
Quem ama o perigo, nele perecerá: a advertência de um certo Jesus ben Eleazar (que não é o Messias), continua reverberando na sociedade de consumo. Mas quem está ligando pra isso, se daqui a pouco vou desfilar minha figura impoluta na passarela das ruas e avenidas num carrão último tipo!
 
E assim vamos nós, tocando a vida em frente, rumo ao grande desastre. O homo sapiens, na verdade, não seria, digamos, o homo estupiens? 

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POR EM 19/03/2008 ÀS 07:56 PM

Aperta o cinto, a vida vai balançar

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“Onde está a resistência agora?”
 
“No desejo que silenciou; no branco do papel; na tela do computador; aonde você não chegou ?”
 
“Sempre ligado em aparências; não se deu conta que o poder toma tantas formas quanto necessita pra se reproduzir.”
 
“Morrer é ser excluído da vida. É preciso encontrar logo um lugar de onde falar. Qual função você quer desempenhar?”
 
“Não se trata de livre escolha. Aonde pode estar o sujeito de uma oração dentro de um mundo de pensamentos que devoram pensamentos, idéias que anulam idéias, dissonâncias, reverberações, ecos?”
 
“Eu sou um outro.”
 
“O apagamento do autor não exclui a intenção, o desejo. A própria idéia de sujeito se funda no direito jurídico da propriedade, no hábeas corpus, no direito de ir e vir. O estilo é a identidade. O jeito de falar. De se vestir. O corte de cabelo.”
 
“A escolha do perfume em vez de um perfume.”
 
“A biografia e a crítica literária determinam o valor do autor. De onde ele fala. Quem reconhece esse lugar de onde ele fala como um lugar que contem em si prestígio.”
 
“Que outras vozes estão associadas as suas? Quem são seus pares, suas fontes, suas referencias ?”
 
“Bricolagem”
 
“O autor é apenas uma testemunha.”
 
“Ser sujeito é estar no lugar do vazio”
 
“A descoberta do leitor”
 
“O leitor é o verdadeiro criador da obra ao criar possíveis interpretações para ela.”
 
"O que o leitor não lê pode ainda assim estar lá.”
 
“Uma obra tem valor quanto maior for a sua abertura. Quanto mais vozes ela puder ampliar, ressoar, evocar.”
 
“O significado não deveria ser explicito.”
 
“Nunca vivemos um tempo de tanta alienação.”
 
“Força alienada. Força banida. Força capital.”
 
“Você acha que sabe o que quer. Você pensa uma coisa e faz outra. Você acha que se conhece. Você não sabe o que faz.”
 
“Faz exatamente o que alguém quer que você faça achando que está fazendo o que você quer.”
 
“As palavras são vírus. Os pensamentos são vírus. Basta um comentário fora de lugar para te derrubar.”
 
"Há pessoas e pessoas. Pessoas que tem couraças tão estruturadas que se acham indestrutíveis. Passarão a vida como pedras no limbo.”
 
“É melhor correr o risco da loucura do que viver na segurança da servidão.”
 
“A liberdade flutua.”
 
“A liberdade é uma identidade flutuante.”
 
“A liberdade insiste em me sustentar.”
 
“Em vez de resistência porque não insistência.”
 
“Cuidado com a insistência. Ela pode virar compulsão.”
 
“Compulsão é a nossa cara.”
 
“Compulsão é a doença da contemporaneidade.”
 
“Nem toda repetição é compulsão.”
 
“A repetição tira a venda dos olhos.”
 
“A paciência de repetir velhas formas enquanto novas se fazem.”
 
“A repetição é um exercício.”
 
“O que seria dos atletas, dos músicos, dos acrobatas, sem os exercícios da repetição.”
 
“A repetição é a mãe da técnica. A repetição fortalece os músculos do atleta. A voz do cantor.”
 
“Não há improvisação sem repetição.”
 
“A improvisação quebra a norma e aponta novos caminhos.”
 
“Quem não improvisa se repete.”
 
“Um bom improvisador convive com os erros”
 
“Erros são acidentes de percurso que abrem os caminhos para que o artista não se repita.”
 
“O ato falho é sagrado”
 
“O acidente é um achado”
 
“Na matemática o discurso é fechado.”
 
“Dois mais dois jamais será cinco.”
 
“A matemática é arbitrária.”
 
“A mundo de hoje é matemática. Tecnologia binária.”
 
“Por isso os economistas gozam e os filósofos e poetas são foracluidos."
 
“A palavra foracluido é um paradoxo irresistível.”
 
“Mas não sejamos radicais, senão estaremos na mesma ordem dos discursos fechados. A física quântica é matemática porém interessante.”
 
“Tudo o que a filosofia ocidental produz de pensamento interessante já foi pensado antes pelos orientais.”
 
“O que se chama de intuição tem mais importância que conhecimento racional científico.”
 
“A consciência é uma experiência que se alcança no estado de repouso e na meditação.”
 
“O testemunho do ser, o terminal do leitor, tudo flui para esse espaço vazio aonde a projeção do desejo se dá.”
 
“O que é o desejo? Uma força que parece ser somente sua mas não é?”
 
Nesse momento se dá uma pequena pausa. O computador pifa só voltando a funcionar uma semana depois.
 
Continuando...
 
“Toda questão se dá no campo do poder.Não importa quem fala, nem o que é dito mas de onde, de que lugar e com que autoridade fala o sujeito.”
 
“Essa autoridade não é dada por quem fala e sim pelo conjunto de vozes que resguardam seus lugares dentro da cadeia produtiva do saber.”
 
“Guardiãs do conhecimento duramente conquistado através dos rituais e procedimentos legitimados pelas instituições oficiais.”
 
“O que está acontecendo com as milhares de vozes anônimas que estão surgindo a cada dia na Internet?”.
 
“A legitimidade desses novos produtores do saber não está passando pela mediação nem pela validação dos detentores institucionais do saber. Logo o que está sendo produzido não é moldado pelas regras, os mitos, as tradições e hierarquias oficiais”.
 
“Esse saberes não estão aí para perpetuar nem preservar esses valores.”
 
“Que valores?”
 
“Tradição. Família.Propriedade. Autoria.”
 
“Antes falavam de cinema aqueles que ascendiam à posição de críticos de cinema. Falavam de psicanálise aqueles que dominavam os jargões e conceitos da metalinguagem psicanalista. Para falar de alguma coisa era preciso ser autorizado legitimamente por alguém, pela sociedade. Agora não.”
 
“Isso é ruim ou bom ?”
 
“De certa maneira esse saber institucional exclui todos aqueles que não são suas crias.”
 
“E aí a pergunta que não quer calar. É possível produzir um pensamento interessante sobre cinema, música, artes plásticas, psicanálise, sem estar num lugar reconhecidamente como autoridade?”
 
“O leitor parece responder que sim.”
 
“O que interessa ao leitor não é o lugar de quem fala mais o que está sendo dito. O leitor quer ser incluído no discurso. Ele quer encontrar um espaço dentro da obra aonde ele possa refazer a sua trajetória.”
 
“Um espelho perfeito não cria espaço para mais nada.”
 
“É preciso então que a obra seja aberta a associações, a possibilidades de recriação por parte do leitor.”
 
“A possibilidade de recriação do real através da linguagem passa muito mais por uma democratização das falas, das trocas individuais e coletivas descentralizadas do que necessariamente pelos discursos estruturados dentro do poder oficial.”
 
“Talvez um diálogo entre os dois?”
 
“Até porque a tendência do poder é a exclusão. Para que alguns estejam dentro, tenham autoridade e esse prestígio como falantes, é preciso que outros estejam fora e sejam aqueles que serão falados, que terão seu discurso alienado.Aqueles que não terão um lugar e por isso serão excluídos da vida produtiva ou se tornarão, como acontece, na maioria dos casos, objetos da servidão voluntária, objetos do gozo dos outros.”
 
“A briga promete ser grande. Entre aqueles que já tem um lugar de autoria assegurado e aqueles que querem ser reconhecidos. É interessante porque isso colocará lado a lado quem tem poder com quem não tem. Caberá ao leitor, ao consumidor de conteúdo legitimar as melhores cabeças.”
 
“A ascensão e queda de certos mitos sustentados por impérios autorais/verbais é evidente.”
 
“Para muitos essa idéia é uma utopia.”
 
"Mas esses que falam estão também querendo colocar açúcar no próprio café.”
 
“Não sabemos quem está por trás desses conteúdos produzidos na web. Podem ser grupos de ativistas que não tem nada melhor para fazer. Não devemos confiar porque não sabemos quem está recomendando aquilo.”
 
“Eles são anônimos, podem estar tentando moldar nosso gosto de acordo com interesses particulares.”
 
“São jovens raivosos e radicais que não têm valores significativos para a nossa cultura. Jornalistas fracassados, gente que não conseguiu ser da mídia e por isso é ressentida.”
 
“Há muita picaretagem,”
 
“Os utópicos falam em democratização da mídia e do conteúdo, mas a conseqüência é uma nova oligarquia.”
 
“Tem muita gente ficando rica.”
 
“Quem tem ações do Google, YouTube, MySpace está ganhando uma fortuna.”
 
“Cuidado para não entrar de gaiato no navio.”
 
“Não há atalhos. Você tem que trilhar os caminhos. Passar pelo ritual de iniciante.”
 
“Mas pode brincar de vez em quando.”
 
“Brincadeira séria.”
 
“É o que todo artista faz.”
 
“Acho que é o que eu estou fazendo.”
 
“É aonde se dá a minha insistência agora.”
 
"É aonde se dá a minha existência agora."
 
"E a sua, onde está a sua insistência agora? Aonde foi que você chegou? Aonde é que você existe?"

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POR EM 19/03/2008 ÀS 11:51 AM

Frente a frente

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A ruptura não tinha sido percebida de imediato. Apesar de instalada entre eles, bem durante, Anselmo e Joana continuavam acreditando poder salvar alguma coisa do que fora seu amor, razão daquele casamento. Por dez anos, desde o nascimento do primogênito até a chegada da caçula, estiveram sempre empenhados na aprendizagem de alguma espécie de dor. A lenta aprendizagem que só é possível graças ao hábito de sofrer como se não houvesse outra saída. Foi aos poucos a descoberta do rancor que os unia. Devagar. 

Houve fraldas e óleos e conta-gotas, nesses dez anos. Dor de ouvido, diarréia, coqueluche e sarampo.  
 
O nascimento de Aninha marcou o último ato conjunto do casal. Já dormiam, então, em camas separadas. Fruto derradeiro.
 
– Nosso dever já está cumprido – repetiu Joana como um desabafo que pudesse sal-var suas vidas.
 
Na rua, além do jardim, o trânsito se aproximava da noite nos postes e nos faróis dos automóveis. Na lenta passagem do ônibus, difícil e sofrida por causa da ladeira, perderam o ritmo de sua respiração, como se estivessem de pulmões parados. Por isso, conferiram-se com olhos tímidos, quase extraviados, sem, contudo, se encontrarem. Joana, quando o ônibus desapareceu com seu fragor, ambos anoitecidos, recomeçou a respirar como sabia, que era de forma lenta e profunda, uma respiração que a defendia dos achaques e das manias do marido. Portanto, Joana respirava em sua própria defesa. Diferente de Anselmo, que tinha uma respiração curta e rápida e respirava para atacar.  
Dever cumprido.
 
Os quatro filhos cresceram em caldo azedo, onde todos os dias. E seu crescimento era o próprio ácido que se despejava no caldo. A vida estragava-se lenta sem atender aos apelos das idades sucessivas que se passavam irreversíveis. Foi assim que chegaram as rugas e os cabelos brancos e esmaeceram todos os cheiros e perderam o brilho todas as cores. Foi assim que o corpo começou a responder com dificuldade aos prazeres que a memória continuava teimando em manter vivos.
 
As estações se passavam, mas havia os filhos para criar, e criar os filhos era deixá-los formar suas próprias famílias. Dever de pais. Aninha, principalmente, parecia não ter pressa. Era a caçula, e o silêncio dos dois não conseguia perturbá-la. Acostumada ao caldo em que se criara, dele parecia não ter vontade de sair.
 
A varanda não era mais que um lugar, o lugar onde estavam. Os vasos de antúrios já não existiam àquela hora porque as sombras se apoderavam de tudo. Joana recolheu as mãos e cruzou os dedos no regaço. Além dos vestígios do trânsito ? ruídos e luzes ? ela não via nem ouvia mais nada. Então suspirou com o corpo todo para sentir que atingira totalmente a velhice. Seu peito murcho estremeceu, mas apenas uma vibração bem leve, porque já lhe faltava o vigor para os grandes gestos. Anselmo estava com o rosto mar-cado por vincos. Sua testa, suas faces, as crateras de seus olhos, lugar algum que não trouxesse as marcas impuras de uma vida sendo aos poucos desperdiçada em favor dos filhos: aquela idéia do dever. Sua respiração, com a lenta chegada da noite, começava a serenar como chaga em busca de cicatriz. De fato ele não estava agitado como era seu costume. Vontade nenhuma de dizer fosse o que fosse naquela primeira noite só deles, sem encargos, sem filhos por que responder. Estendeu os braços ainda cabeludos sobre a mesa, uma espécie de dominação territorial, mas então não os moveu mais, como se estivessem ali aguardando, um ao lado do outro, quase paralelos. 
 
Anselmo levantou-se como um vulto escuro e ficou parado, talvez esperando alguma pergunta, uma observação qualquer, que o ajudasse a decidir. Não foi muito o tempo que esperou, pois fazia trinta e tantos anos que já conhecia o resultado. Com a chave na mão deu o primeiro passo.
 
 Bem, está na hora de fazer minhas malas.

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POR EM 18/03/2008 ÀS 01:25 PM

O homem sem qualidades

publicado em

por Marcelo Backes

Em agosto de 1913, momento em que a ação do romance principia, Ulrich - o homem sem qualidades - tem 32 anos. Ele faz três grandes tentativas de se tornar um homem importante. A primeira delas é na condição de oficial, a segunda no papel de engenheiro (vide a carreira do próprio Musil) e a terceira como matemático, exatamente as três profissões dominantes - e mais características - do século 20. Os três ofícios são essencialmente masculinos e revelam o semblante de uma época regida pelo militarismo, pela técnica e pelo cálculo que, juntos, acabariam desmascarando o imenso potencial autodestrutivo da humanidade. Depois das três grandes tentativas, Ulrich reconhece que o possível significa, para ele, muito mais do que o real, sempre estereotipado, medíocre e esquemático.

Ulrich - cujo sobrenome é omitido "em consideração a seu pai" -, chegou a se chamar Aquiles, mais tarde Anders (o diferente), e mesmo o título do romance de Musil mudou várias vezes antes da publicação, passando de O espião a O salvador (Der Erlöser) e As gêmeas, títulos que assim como aquele que acabou se impondo dizem muito sobre o romance. O relato acerca da busca "desencantada" de Ulrich lembra a velha busca - ainda sagrada - do Santo Graal. Ulrich quer compreender o "motivo e o mecanismo secreto" de uma realidade que desmorona e para isso se retira à passividade de uma postura apenas contemplativa, que marca também a postura do autor e a postura do romance.

Ulrich se sente um homem sem qualidades porque o mundo contemporâneo inverteu os princípios do humanismo e colocou a matéria no centro da realidade moderna. Na verdade, Ulrich via em si todas as qualidades e capacidades privilegiadas por sua época - exceto a de ganhar dinheiro, da qual também não necessitava -, mas foi obrigado a constatar que a possibilidade de aplicá-las já havia lhe escapado às mãos. "Surgiu um mundo de qualidades sem homem, de vivências sem aquele que as vive" e, assim, o personagem se vê confrontado com as contradições centrais do universo contemporâneo: a luta entre causalidade e analogia, entre crença na ciência e pessimismo cultural, entre lógica e sentimento, em suma. No fim, o que resta é a impossibilidade de perpetuar a reconciliação entre eu e mundo, de consumar a "entrada no paraíso", a ataraxia de Schopenhauer, a placidez ausente de vontade e busca da vita contemplativa.

Todos os personagens de O homem sem qualidades apenas são importantes na medida em que se relacionam com Ulrich, na medida em que são, inclusive, superfícies nas quais ele mesmo se espelha. Todos eles não deixam de configurar, de certo modo, possibilidades e aptidões do próprio Ulrich. Mesmo o assassino de prostitutas Moosbrugger, o símbolo central do descalabro em que se encontra o mundo, é um espelho no qual Ulrich se vê refletido, já que os delírios do homicida não deixam de ser variações extremas das experiências de Ulrich em relação àquela que chama de "outra condição" (anderer Zustand), de sua busca incansável da liberdade do disparate e da vivência original, paradisíaca. Na segunda parte do romance, aliás, Ulrich passa a vivenciar cada vez mais situações de enlevo quase sobrenatural, em que já não logra mais distinguir os limites espaciais e temporais do mundo que o envolve. Mais tarde Ulrich inclusive tenta a "outra condição" junto com Agathe, sua irmã, a "duplicação assombreada de si mesmo na natureza oposta". O amor mítico-incestuoso entre os dois constitui uma das mais belas e dolorosas histórias de amor da literatura universal.


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POR EM 18/03/2008 ÀS 10:44 AM

The dance of the intellect among words

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Gertrude, Gertrude, não me ponhas em bocas matildes, pois uma rosa é uma rosa, outra coisa uma glosa, logopéia para Ezra Loomis Pound, pífias epifanias para Jesse James Joyce. A rose is a rose já é feijão com arroz, ou vinícia rosa com cirrose, e mais vale um pombo de chumbo voando rumo a Plutão, do que a glória de doze césares com osteoporose na mão.
 
Nada de novo no frontispício das obras, além dos fátuos frangos de vanguarda e um telhado de urubus po(u)sando de pombo. Tudo redondo feito losango. O ovo é o óbvio, cozido ou cru. A rosa é a roça do povo, a pedra, a vida, no caminho de Drummond. Oui, oui, o trem já passou por aqui — object-trouvé, dèjá vu —, c´est la vie que nem sempre é toujurs, e vamos todos plantar chuchu.
 
Contudo, um punhado de dedos dados ao lance é olho de lince na pinça da percepção: trespassa a mesmice — insossas conversas difusas — e mostra com quantas volutas se dança a valsa na rosca do parafuso. Mais que asas à imaginação, dê-se imaginação às asas — quase a mesma coisa, salvo a pendular sutileza.
 
Há uma festa nos refolhos da rosa, na íris inquieta do prisma, no caleidoscópio das coisas — voilà!, la même chose. A dança da rosa na rosca vertiginosa — as formas da dissonância, in essentia — tergiversa e faz a diferença.
 
Em face do que se me oferece, passo dois dedos de prosa da província e suas diversas espécies de carrapatos, algumas carcaças de tatus-ninja, uma rima fácil e um verso-fóssil: troco pelo salto-mortal duma pipoca, e um pouco de sal no algodão-doce.
 
Oh, não me tomem por insolente, antes pela inquietude impertinente, ou pertinência da arte. Por cacos de bricabraque, a louça de quem brinca, Mandrake, e amiúde se corta. O corte, que importa, se a morte é a vida que nos brinca? E como figurar-se, de resto, num velório de moscas, quando se trata de uma festa que se começa onde acaba e se acaba onde começa? Riverrun, Dublin, firinfinfinnegan.
 
Se sabonete vale quanto pesa, e vale uma grosa doze dúzias, pese-me o que valha a grisalha glosa — o gozo do ferro-gusa —, e me guarde o velho anjo da vanguarda, ou valha-me zombeteira gralha. Bumerangue não me jogue grogue no ringue, com a groselha de uma droga. Não me beba o sangue nenhum sargento-buldogue, a soldo de um dogma, nem me afogue no mangue uma gangue de dobermanns, e não me comam as sobras os açougues da vida.
 
Minha vida é um brinquedo, meu nome é Jó Zezinho. Brinco na dança do intelecto, brinca o homem com o poeta, e o menino se completa. Depois, vira passarinho. 
 
 
Prefiguração de sombras
 
Coisas de Mefisto, o mago, o bruxo de feltro negro, aba que se quebra sobre uns olhos de fogo azulego, pupilas pontiagulhas. Manto de azeviche que se abre e cobre os ombros de Fausto; la tête avec le chapeau et le fleur de Mefisto. Sombras-salamandras no texto sinistro, rastros que se alastram em fios de sutache. Livro dos pactuados, os iniciados da noite, os namorados da morte. Vende-se um caixão usado. Longa vida aos suicidas, que só dormem acordados.

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POR EM 18/03/2008 ÀS 09:57 AM

O calendário de Júnio McAbana

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Nas andanças que fazia dentro da cachola, Júnio McAbana matutou um novo calendário, que fizesse frente aos existentes e privilegiasse as minorias, os exóticos e outros seres estrambóticos. Cismou com a mesmice desse calendário gregoriano, que para ele a única coisa interessante que trazia era o 29 de fevereiro, isso mesmo de quatro em quatro anos. Para começar, a semana seria de dez dias, sendo cinco dedicados ao trabalho e cinco ao lazer. Assim sendo, o fim de semana seria de cinco dias.

Segundo esse novo calendário, o ano seria de dez meses, cada mês com 40 dias e o primeiro ano começaria a ser contado a partir de 15 de março de 2010. No horóscopo, um mês seria dedicado a um bicho e o outro a um pé de pau ou à sua fruta. O primeiro seria o mês do Calango; o segundo, o mês da Cagaita; o terceiro, do Carrapato; o quarto, mês do Carrapicho; o quinto, mês do Piolho; o sexto; da Mama-cadela; o sétimo, mês da Sanguessuga; o oitavo, do Puçá; o nono, da Barata; e o décimo, mês do Araticum.

No calendário de Júnio McAbana, no 24 do mês Um seria comemorado o Dia do Viado, um feriado nacional, onde se realizariam as paradas gays, pela manhã, e à noite seriam rezadas missas e realizados cultos protestantes. O carnaval seria do dia 35 ao dia 40 do mês Dois. Dia 20 do mês seguinte seria comemorado o Dia da Esbórnia; dez dias depois seria o Dia do Feladaputa, com um desfile cívico de todos os árbitros e bandeirinhas de futebol e todos os demais fdps do ramo e dos outros ramos.

No Natal, dia 25 do mês Dez, seria comemorado, na verdade, o Dia de São Herodes. Em dez do mês Sete seria o Dia dos Ladrões, cinco dias depois o Dia dos Maconheiros, Cachaceiros e Drogados. No mês seguinte, no quinto dia útil da segunda dezena, seria comemorado o Dia da Corrupção, um feriado nacional da mais pudica devoção, com palanques e desfiles de todos os gêneros. O mês Nove seria dedicado todo ele aos cornos, prostitutas, tarados e pistoleiras, com a realização de um grande festival de cerveja, danças típicas, muito axé, samba, maracatu e o escambau.

O mês Três teria uma data dedicada ao Dia de São Cão, onde o ponto máximo era o megashow televisivo do conjunto “Capetas em Delírio”, o mais popular e que parava o País no horário nobre das 8 horas da noite. Outro dia também muito interessante desse mês seria o Dia de São Nunca. A festa aconteceria de tarde.

O feriado mais importante, no entanto, no Calendário de McAbana, não seria o Dia de São Cèsare Apóstolo, nem o de Santo Anhanguera Bandeirante von Rusember’Gue e muito menos o Dia de Santa Periquita do Bigode Loiro, mas, sim, o Dia dos Escalafobéticos Ululantes do Vigésimo Dia. Nesse dia, feriadíssimo de festa, tudo estaria ou seria invertido: a esquerda passava a ser direita, o certo viraria errado, o inferno seria o céu, as mulheres virariam homens ...

 


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POR EM 18/03/2008 ÀS 09:25 AM

O sujo, o mal lavado e quem paga

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O que é o terrorismo? Faço a pergunta porque, segundo a mídia, as FARC são um grupo terrorista. Não sei se se pode acreditar em tudo o que a mídia vende. Terrorismo é um conceito político. Mas, entre um terror e outro, fica a pergunta: que impressão as famílias dos civis mortos no Iraque têm do exército “de libertação” norte-americano? Aposto que não é o da opinião pública norte-americana. Com efeito, o que vale: o conceito político ou a impressão das vítimas? Tomemos o partido das vítimas. O sofrimento humano não distingüe entre o “assassinato” perfeitamente legal (suspeito que não seja o caso da guerra contra o Iraque, uma vez que passaram por cima da ONU) e o assassinato promovido por grupos rebeldes. Quem morre morre do mesmo jeito, assim ou assado, e quem sofre idem. Não há diferença. Os mortos e feridos da Colômbia – que tanto “horrorizam” a mídia – equivalem, a meu ver, aos mortos e feridos do Iraque (mais de 30 mil civis inocentes, até agora!), entretanto, temos a ligeira impressão de que as coberturas jornalísticas em relação à guerra no Oriente Médio são mais condescendentes com o terrorista: os Estados Unidos da América.

Estou dizendo exatamente isto: que a ação norte-americana é também um ato terrorista. Saddam era um criminoso – não nos esqueçamos jamais de Tikrit – e, obviamente, detestamos os tiranos. Pena que os EUA não estavam ligando para Saddam, que aliás não era o único ditador sanguinário oriental, ou em todo o mundo. O problema de Saddam era ser inimigo dos EUA, por uma infelicidade conjuntural. Aí entrou em cena a mais destrutiva arma de guerra que existe: a mentira. Era estratégico angariar o apoio da opinião pública internacional e justificar a invasão. Vamos dizer que Saddam tem armas de destruição em massa. Quem vai desmentir os Estados Unidos no “mundo livre”? Ninguém, é claro, exceto um inspetor da ONU, Hans Blitz – mas a ONU não importa, muito menos um burocrata seu, metido a besta. O que queremos mesmo (imaginemos o que foi dito no Salão Oval e nos escritórios do Pentágono...) o que queremos mesmo é o petróleo, e que se dane o resto. De quebra, damos uma resposta à população norte-americana sobre o 11 de setembro: vamos lá e quebramos o pau, no melhor estile “big stick!”. Terrorismo.
 
Mudando de hemisfério e de lado – não se diga que somos parciais, portanto -, eu também acho que o que as FARC fazem com seus reféns na América Latina é terrorismo. É inexplicavelmente paradoxal que um movimento que se baseia numa ideologia que propõe um mundo justo – o marxismo – cometa tantas injustiças, tantas atrocidades como as que temos visto. Não parece razoável; é mesmo uma contradição em termos. A única diferença entre as FARC e os EUA é o leitmotiv: aquela age por ideologia num mundo sem ideologia, já aquele, pior ainda - mais primitivo -, age por puro instinto de sobrevivência. Noutras palavras, age simplesmente por interesse, por egoísmo. O fantasma de Schopenhauer, tão vivo quanto o de Darwin.
 
Se não convencem os EUA, tampouco as FARC. Não acho que é uma questão de dizer que um lado está certo e o outro errado. Os dois estão errados, na minha opinião. Eu jamais seria adepto das FARC, e na verdade passo a ter repulsa, embora reconheça que o movimento existe em permanente estado de guerra – o que justificaria seus atos de crueldade. A guerra, como sabemos, tem suas próprias leis. Durante sua existência cessam algumas prerrogativas da Declaração Universal dos Direitos do Homem, posto que cabem punições inimagináveis aos inimigos, como a tortura e a pena de morte. Estranho é que a União Soviética, então comunista (corria o ano de 1949), subscreveu esses direitos “enfatizando a libertação do medo e da penúria”, segundo Carl J. Friedrich (cf. Uma introdução à teoria política). O problema, de uma maneira ou de outra, não é simplesmente mais de discordância com as FARC ou com o gigante do norte – é de discordância final com a guerra, esse flagelo que assola não só a América Latina mas o mundo inteiro. Não importa quem faz a guerra: à direita ou à esquerda seu saldo é sempre a morte, a aniquilação da humanidade, que é quem paga o preço. A guerra é sempre um ato de terror, mesmo quando se manifesta em resposta a regimes inaceitáveis como o nazismo.

Preocupante é concluir que a tradição oposta, a de homens como H. D. Thoureau, Gandhi e Luther King soa risível aos nossos ouvidos. Estamos mesmo muito longe da razão.

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POR EM 18/03/2008 ÀS 09:13 AM

Versões convenientes

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No começo deste mês de março em “Noviorque” (by Paulo Francis) ocorreu a Conferência Internacional do Clima de 2008, que aprovou a Declaração de Manhattan. O leitor que acompanha assuntos sobre o aquecimento global, mas não é um voraz internauta, deve estar se perguntando como esta notícia lhe passou despercebido, já que a mídia em geral quase não deu nenhum destaque para esta reunião com cerca de 500 autoridades (13 países) e 29 instituições, incluindo as mais famosas (Harvard, Pauster de Paris, etc...).
 
Bom, é que a Declaração de Manhattan diz que além de não haver consenso entre os especialistas sobre o aquecimento global, afirma que “não há nenhuma prova convincente de que as emissões de CO2 das atividades industriais, passadas e presentes, sejam a causa das variações climáticas catastróficas”.
 
Ainda, a Declaração aponta que os novos regulamentos que restringirão as emissões de CO2 retardarão também o desenvolvimento das nações, sem impacto significativo nas variações climáticas, mas com reduções consideráveis na prosperidade futura e na capacidade das cidades de se adaptarem as mudanças, aumentando, e não diminuindo, a vida humana na Terra.
 
Outra notícia recente, mas também pouco divulgada, é que os últimos dados do NOAA (Serviço Americano de Informação Ambiental) mostram que o gelo que havia derretido entre janeiro e outubro de 2007, no pólo norte já está de volta e na Antártica a camada de gelo está 1/3 acima dos níveis considerados normais. Al Gore aproveitou imagens deste ciclo natural de derretimento/congelamento para ganhar o Oscar de melhor documentário em 2007.
 
Aliás, Al Gore e os cientistas do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) receberam o Nobel da Paz em 2007, pois a Academia Sueca repetiu o que fez em 1985, quando a médica Helen Caldicott e a instituição “Médicos pela prevenção da guerra nuclear” foram laureadas com o mesmo prêmio, pelo grande ativismo no movimento anti-nuclear mundial. E desde então, a humanidade estagnou sua produção elétrica por usinas nucleares em 6%, pois tem pavor deste tipo de geração de energia.
 
O fato é que todo este medo não se justifica. Relatório de 2001 do Instituto Paul Scherrer na Suíça, compara o número de mortos de cada uma das principais fontes geradoras de energia elétrica, padronizados por terawatts/ano (1 terawatt é 1 bilhão de watts): o carvão matou 6.400 pessoas, o gás natural 1.200, a hidroeletricidade, 4.000 e a “terrível” energia nuclear, 31 (incluindo Chernobil)!
 
Vinte e sete anos após o prêmio de D.Helen e seus médicos, alguns importantes ambientalistas encaram a energia nuclear como a única solução rápida, para diminuição dos atuais níveis de emissão de gás carbônico. Porém, quem é que vai encarar ter uma usina nuclear no perto de casa, depois de todo medo que nos embotaram? Muita gente ainda acha conveniente que mantenhamos este temor.
 
Como as outras alternativas energéticas (biocombustíveis, solar, eólica) não substituirão, no curto prazo, o carvão e o petróleo que emitem muito CO2, a Declaração de Manhattan realisticamente diz que será necessário diminuir a prosperidade futura, o consumo, o bem estar, etc... e então, dentro de 27 anos (2034) o medo do CO2 já estará tão entremeado em nossas mentes, que não importa se ele será ou não o verdadeiro culpado, pois é conveniente, que as versões sejam sempre mais importantes que os fatos. 

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