revista bula
POR EM 26/01/2013 ÀS 12:52 PM

Como saltar de um prédio sem ferir a multidão lá embaixo

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O pobre Coitado (Sim. Isso mesmo. Seu nome era Coitado.) tomara a decisão mais radical da sua vida: suicídio. Lá estava ele (eu me lembro como se fosse hoje) com aquela cara aparlemada, sentado no beiral do terraço do Edifício Fácil. Vestido sempre com as mesmas roupas desbotadas, parecia uma personagem de desenho animado. Não somente o pano velho do vestuário, mas, a vida, para ele, já tinha perdido todas as matizes.

A gota d’água: flagrou a esposa ouvindo sinos com um terceiro dentro do ofurô do barracão (por “ofurô” leia-se “tanque de alvenaria com três metros cúbicos de água fria”). O pegador não era outro senão um seu primo-compadre, o feirante Nabucodonosor, mais conhecido no bairro como o Rei Nabo, por ser muito bem dotado em matéria de hortifrutigranjeiros.

Com tantos adultérios proliferando por aí a todo instante, o episódio do affair dentro do tanque poderia parecer banal e démodé à maioria dos seres humanos sexuados, ao ponto de conduzir um sujeito à melindrosa decisão de se autodestruir. Acontece que a decepção com a companheira foi apenas mais um grão de areia na gigantesca duna de justos motivos que Coitado carregava sobre os ombros. Analfabeto desde que nascera (ai!), Coitado morava mal à beça num casebre de invasão às margens do Córrego Caganeiras. Saía pela cidade puxando a carrocinha baú feito um cavalo, a catar papelão, plástico, latinhas de alumínio e toda espécie de lixo urbano que pudesse render alguns trocados na usina de reciclagem.


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POR EM 21/01/2013 ÀS 11:42 AM

Seríamos leões para os safáris de Deus?

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Há pessoas que têm a comodidade de tomar pé de fatos relevantes, de adquirir certas sabedorias, por meio de revelações. Há revelações para todos os tipos e gostos. Há revelações suaves e melífluas e revelações toscas e rudes. Eu inclusive sou daqueles acometidos por revelações eventuais. Penso que as minhas são do gênero rude pós-apocalíptico. Em estado de sonolência tumultuada foi-me dado conhecer, por exemplo, o lado mais sombrio e desamoroso de Deus em relação às pobres almas, quando desprovidas de seus corpos e saem por aí em busca do amparo divino.

Nas revelações que tive, me foi dado saber que o passatempo preferencial de Deus é o videogame. Seu joguinho predileto é sinistro, e real do ponto de vista celeste, afetando diretamente o destino das almas. É verdade que em minhas revelações não tive o privilégio de ver a face de Deus. Vi apenas a sua nuca, porque ele estava de costas, em seu console, operando o joystick freneticamente, de olho fixo na tela. Mas sei que era Deus. Nas revelações não é necessário reunir provas para se ter certeza. Se tiver provas já não é revelação, mas descobrimento.

Eu soube que quando morremos e nossas almas chegam ao céu, demandando por salvação e sossego eterno, elas são abrigadas em baias flutuantes, com cercas e coberturas de metal gasoso, da mesma substância de que são feitos os pudins das auras dos santos. De vez em quando elas são obrigadas a se moverem das acomodações para o pátio e do pátio para larguezas celestiais, para se livrarem da leseira e do entorpecimento dos músculos etéreos. De vez em quando elas tomam banho de luz sagrada para se livrarem dos fungos, dos piolhos, das pulgas, dos percevejos e dos carrapatos transcendentes.


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POR EM 18/01/2013 ÀS 08:03 PM

Internet: aproximando quem está longe, distanciando quem está perto

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Antes que alguém me incomode com as suas críticas comezinhas, adianto que a pérola que dá título a esta crônica não é da minha autoria (os fominhas da internet já a conhecem muito bem). Por sinal, eu a li num e-mail enviado por um amigo próximo que, ironicamente, se encontra deveras longe: o sujeito é pesquisador e caminha pelo trajeto de Santiago de Compostela, municiado com o peculiar espírito da pesquisa e da descrença na raça humana, imbuído em descobrir um ou mais sentidos que tornem o viver mais palatável. Ele já teve muito dinheiro, muita solidão, muito desamor e um câncer de sinuca de bico (aparentemente, sem saída). Que eu saiba, até o momento, moeu dois pares de tênis pelos caminhos tortuosos e pedregosos das suas dúvidas existenciais.


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POR EM 18/01/2013 ÀS 07:39 PM

Fá-bula pós-moderna: “Tatuagens Fabulosas”

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Saibam quantos lerem esta fáBULA ou dela notícias tiverem por qualquer meio nacional ou estrangeiro, eletrônico, virtual, táctil, oral, mecânico, sensitivo, caritativo ou eleitoreiro que em tempos pós-modernos há objetos,  geringonças, módulos, dispositivos, códigos de barra, tarjas, chips,  lentes, imagens e tatuagens que enxergam, espionam, filmam, gravam, mapeiam e se comunicam sem limitações de meridiano, fuso horário, idioma, emoções ou decência; e que o diálogo a seguir é de máxima boa-fé e corresponde à conversa de duas tatuagens glúteas, aqui nomeadas Libélula e Dragão, sendo as ditas cujas alocadas em usuários distintos conforme se verá:

Libélula — Finalmente o casal aí dormiu de bruços. Estava sufocada nessa cama de motel. Prazer, sou Libélula!  E você é um Dragão! Mas por que foi tatuado no glúteo desse marmanjo? Só vi dragões em espáduas, braços, ombros e peitoral dos clientes dessa periguete aí que me usa, a Rosineide...


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POR EM 14/01/2013 ÀS 11:56 AM

Ouvidos de ouvir

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Há quem ouça a verdade ser dita pelas bocas das cacimbas, pelos ventos nas folhas de relva, pelos voos claudicantes dos pássaros e até pela borra de café em espirais no fundo da caneca.

Há quem ouça a verdade ser dita pelos lances de dados, pelos jogos de búzios, pelas pedras das runas e até pela disposição caótica dos detritos no estômago dos animais sacrificados.

Há quem ouça a verdade ser dita pelo rumor das salsas ardentes, pelos cortes das cartas do tarô, pelos imaginários signos do zodíaco e até mesmo pelos megafones famigerados de pregadores de intenções maliciosas.

Há quem ouça a verdade ser dita pela repetição incansável das ladainhas, pelos suores dos pais de santo, pelas pombas giras nos terreiros e até mesmo pelas imagens de culto em seus gestuais de gesso.

Há quem ouça a verdade ser dita pelos políticos nos palanques de comícios, pelos enxames de abelha nas tardes de setembro, pelos cupins de asas em revoadas antes da chuva e até pelo desabrochar das flores dos abricós de macaco.


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POR EM 11/01/2013 ÀS 07:07 PM

Enquanto a morte não vem, a gente se ocupa com ela

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Desde os 37 anos de idade, Omarzinho espera a morte a qualquer momento. Hoje, aos 79 — mais vivo que a minha lembrança de La Belle de Jour — ele aguarda, de uma hora para outra, o golpe fatal da senhora da foice. “Sinto que já estou com um pé na cova e outro na casca de banana”, ele dramatiza, com o mesmo par de olhos lacrimosos de outros tempos, ao repetir o presságio antigo.

Enquanto aguarda sentado pela chegada da morte, as catracas cerebrais de Omarzinho maquinam: todos aqueles anos que excederam ao seu trigésimo sétimo aniversário caíram-lhe como lambuja. Ou seja, ele já se considera um sobrevivente na prorrogação do jogo da vida, à mercê de um apito final do divino, do último sopro há tempos aguardado. Aguardou tão bem que se esqueceu de curtir a vida em plenitude. “Você sabe, eu sempre quis viajar pro exterior, conhecer Palma de Mallorca e tudo o mais”, ele lamenta, sem sequer ter conhecido Pasargada, quem dirá, a Espanha.

Gozando de saúde de ferro (inclusive, com as juntas do corpo bem enferrujadas), enquanto espera o passamento que há décadas lhe parece tão iminente, o aposentado Omarzinho já enterrou a esposa, dois dos sete filhos e um neto, criança afogada, por acaso, por puro azar, dentro dum balde d’água durante uma faxina caseira. “Morte de criança é um horror. Velho, não. Velho já está prontinho pra morrer. Eu estou pronto desde os 37, a idade em que o papai desencarnou”, ele filosofa, desencarnando os dentes com um palito, enquanto mata mais uma dose da caninha.


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POR EM 11/01/2013 ÀS 05:42 PM

Quatorze

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Todas as mulheres deveriam ter quatorze anos.
Nelson Rodrigues

Fotografia: RevolvverComo era mesmo o nome dela? Lembrava da saia do colegial, dobrada na cintura para parecer mais curta, até a madre superiora aparecer do nada, “Desce a saia, arruma as meias”. Quantos anos ela teria? Quatorze. Os cabelos quase lisos desciam até os ombros, quando não estavam presos num rabo de cavalo com elásticos que ela conseguia no almoxarifado. O servente oferecia canetas, apontadores, cadernos pautados, elásticos, qualquer coisa que ela pedisse. Devia ser por causa da saia dobrada ou dos olhos castanhos amendoados. Os cílios. Em lugar do sutiã, usava uma camiseta sem mangas e, encoberta pela camisa da escola, uma medalhinha num cordão de ouro. Como era mesmo o seu nome? Ela carregava os livros e cadernos junto ao peito, antes de começar a usar fichários. Sua letra era apressada, abreviava as palavras ditadas pelo professor de ciências, mordia a ponta do lápis, fazia círculos na última página do caderno, espirais, estrelas. Eu me sentava atrás dela, ainda usava bermudas e meu rosto era coberto por um óculos de grau e meia dúzia de espinhas. Garotos assim apenas admiram e se apaixonam. E eu olhava pra ela na fila da cantina e depois quando jogava pingue pongue, a raquete e o sanduíche que ela comia pelas beiradas, virando o pão em sentido circular, hábito que, por ela, acabei adquirindo por toda à vida. Não era boa aluna, mas não acumulava notas vermelhas. 


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POR EM 08/01/2013 ÀS 02:07 PM

Eça de Queiroz, moralista ou devasso?

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Não foram poucos os críticos e leitores me­nos desatentos que viram em Eça de Quei­roz (1845-1900) um misógino de mão cheia. Motivos não faltam ao longo de sua obra e mesmo em sua correspondência com amigos, especialmente com Ramalho Orti­gão (1836-1915). De fato, em muitos de seus romances e contos, são frequentes palavras pouco lisonjeiras que dirige ao sexo feminino. Sem contar que a suas heroínas quase sempre reserva um final trágico, talvez como forma de punição a quem não soubera superar ou controlar os furores do sexo.


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POR EM 05/01/2013 ÀS 08:07 PM

Nomes só (2)

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Samira

Ela chora muito, mal consegue falar, emocionada com a própria bondade. Funga e invoca “Jesus, nosso mestre”, para depois puxar um “Pai Nosso”, constrangendo a todos, os que seguem e os que não seguem sua religião. Adriana não reza, mas fica ali imóvel, covarde e respeitosa, de mãos dadas, enquanto a cabeça dela não para. Nalgum ponto dessa vida ela sabe que vai ter que parar de pensar e simplesmente embarcar na onda alheia.

Rita

Ela gemeu, a boca encostada na dele, os olhos abertos, fechados, abertos.

Dafne

Ela não tem idade para nada disso, entende? Para nada disso. Nem para e-mail no meio da tarde, nem para telefonemas ofegantes durante a madrugada. E antes que você comece com aquele discursinho que emprega frases edificantes como “ser jovem no coração”, vou logo avisando que ela acha que não tem mais idade para nada disso, então, fim de papo. E-mails gentis, frases espirituosas, descrições engraçadas sobre um cotidiano nem tanto — Deus, ela não precisa mesmo de nada disso. Ela tem cicatrizes.


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POR EM 04/01/2013 ÀS 06:55 PM

Não há nada mais amargo neste mundo do que um homem que não acredita em nada

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“Só creio naquilo que possa ser atingido pelo meu cuspe”, 
personagem de Carlos Heitor Cony em “O Ventre” (1955)

Eu não acredito em trevo de quatro folhas. Eu não acredito em pés de coelho e mãos de vaca. Eu não acredito na redenção das falhas humanas. Eu não acredito que los hermanos quiquem la pelota em la cancha mejor do que nosotros. Eu não acredito que Maradona tenha colocado a mão na bola naquele gol contra os ingleses (argentinos juram que foi Deus). Eu não acredito que a mão inglesa nos leve a Roma, muito menos a um lugar melhor do que este aqui.

Eu não acredito que o cuspe de Carlos Heitor Cony tenha me atingido. Eu não acredito que caibam milhões de microrganismos numa só gota de saliva. Eu não acredito mais neste relacionamento: adeus. Eu não acredito que consiga dizer “eu amo todos vocês” num leito de morte. Eu não acredito que os laticínios coloquem soda cáustica no leite. Eu não acredito em jogos de azar, nem de sorte. Eu não acredito que uma cigana seja capaz de ler a mão de um velho sovina. Eu não acredito que exista um ponto G na vagina. Eu não acredito que engravidei aquela prima. Eu não acredito em ufologia, em parapsicologia, em fenomenologia, e em fair-play numa orgia. Eu não acredito na benção matrimonial de padres que nunca se casaram. Eu não acredito que a dança do acasalamento funcione entre os humanos. Eu não acredito que, a esta altura da carreira celibatária, o Padre John suavize o seu sotaque ianque ao esbravejar na homilia. Eu não acredito o Presidente Obama realmente transforme Guantámano num parque Disney.


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