revista bula
POR EM 26/09/2012 ÀS 09:04 PM

Não aprendemos afinal onde fica Samarcanda

publicado em

Houve uma mulher em minha vida. Bem, houve mulheres na vida de todos os homens: nenhuma novidade aqui, nada de novo sob o sol. Mas quantos de nós reconhecemos todas as implicações desse fato? Quem, na correria da vida moderna — esse eterno clichê do qual sempre reclamamos —, pensa no que ganhou ou perdeu ao fim de uma história de amor? Pode ser até pior: quantos de nós percebemos a possibilidade de um amor quando ela surge, como as pequenas epifanias do Caio Fernando Abreu, e não a rechaçamos?

Quando eu a conheci, já era amigo de seus pais, mas não tinha ideia de sua existência. Ela morava em outro país e eles nunca mencionaram o fato de que tinham uma filha. Um dia, no nosso costumeiro encontro de sábados, cheguei ao bar de sempre e lá estava ela com os pais e os amigos comuns. E eu estava acompanhado de uma namorada quase noiva.

O que senti? Reconstruímos sempre o que passou com as sensações do presente. Mas eu, desde aquele dia, pensei muitas vezes no que ocorreu e é sempre a mesma imagem que me vem à lembrança: fiquei tomado por sua presença. Lembro-me do vestido que ela usava, o tamanho do cabelo, os gestos, o exato lugar em que se sentou. Mas não me lembro de nenhuma, absolutamente nenhuma conversa que tenha ocorrido naquela mesa: não sei o que disse a ela ou aos amigos, não sei o que ela conversou. Parece ter existido só a completude da sua existência até então desconhecida para mim e a partir dali mudando o curso de um dia — uma vida — que começara como outro qualquer.


leia mais...
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2017 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br
wilder morais
renovatio