revista bula
POR EM 10/12/2008 ÀS 10:16 AM

Um banho de descarrego

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Dinamitar pontes do passado — elas que nos trouxeram até aqui — é fácil. Difícil é construir outras. Que novas pontes os dinamitadores estão construindo? Olhem-se, cada um para si mesmo — olhem para o nada —, e respondam, individual e coletivamente: o que estão a construir, senão a pedreira da própria desconstrução 

A propósito de umas discussões — algumas meio que primárias — via comentários da Bula, isto de se dizer que Freud e Marx estão ultrapassados, seja dito que Freud e Marx, assim como os gregos e tantos outros, foram e ainda são pontes da história e do conhecimento ou bagagem intelectual que hoje exibimos, por vezes até nos pavoneando, e outras em que nos arvoramos com a notória arrogância do saber.  Dinamitar pontes do passado — elas que nos trouxeram até aqui — é fácil. Difícil é construir outras. Que novas pontes os dinamitadores estão construindo? Olhem-se, cada um para si mesmo — olhem para o nada —, e respondam, individual e coletivamente: o que estão a construir, senão a “pedreira” da própria “desconstrução”? Se é que me entendem as ásperas aspas da pedreira.

Há que retornar, sempre, às fontes do tempo — à memória do ser, aos livros do passado —, onde se encontram, ainda sólidas, mas esquecidas, algumas valiosas lições. Páginas ainda vivas, verdades que ainda correm nas veias do livro da vida, ou da história, como queiram. Não foi por menos que, ao esboroar-se dos muros e estátuas do comuno-socialismo totalitário que grassava aí pelo mundo, comentei que era hora de reler Marx, para checar os pontos vulneráveis das pontes, as rachaduras da contradição e a insustentabilidade da asfixiante atmosfera entre aquela ideologia mal-conduzida e os direitos humanos, e daí a queda anunciada, pois que vinha se anunciando, dia-a-dia se avizinhando, para desabar, como um velho abutre, sobre os telhados do mundo, e abater os ânimos daqueles que se deixaram levar pela utopia da terra prometida.

Dez anos antes, por conta da incoerência entre a teoria e a prática ideológica da época, eu vinha vaticinando que a queda era iminente, e alguns canhotos, “de esquerda”, por pouco não me linchavam em rodas de bar. Sim, eles também bebem, os chamados “intelectuais”, a “inteligentsia”, e pra quem não sabe, tem muito pau-d´água de esquerda. E quase me linchavam, a mim, que sempre vim pela margem esquerda da vida, sem que a vida de todo me iludisse. Com a queda, um advogado em Goiânia chegou até mim com ar desolado e uma pergunta: “Que catástrofe, Valdivino! Passamos a vida inteira acreditando nisso — referia-se ao socialismo —, e acabou tudo. O que vamos fazer agora?”. Eu não tinha a resposta, como ainda não tenho. E, todavia, reitere-se, ainda é preciso reler Marx, e nem me perguntem se Freud explica os vivos, quando os sinos já não dobram para os mortos.

Ah, poeta John Donne, parece que a morte de um homem já não nos diminui. A vida de hoje — a vida dos outros — não tem valor nenhum. Os valores inerentes ao ser humano não têm mais importância. Quem tem ouças, que me ouça: o homem vive de insignificâncias, assim como as galinhas, bicando miúças no terreiro. E eu aqui a resgatar velhos vocábulos do tempo de Machado de Assis e Eça de Queiroz. “Ouças” para dizer ouvidos; “miúças” para dizer miudezas. Entre essas e outras, apraz-me resgatar palavras antigas como penduricalhos em meus escritos. Informe-se o leitor ao que escrevo. Enriqueça o seu vocabulário. O dicionário não morde.

Que vultos são estes na penumbra do horizonte? Formas difusas. Os homens são sombras, as sombras são assombrações. Silhuetas invertidas nas retinas da incerteza. Um brinquedo de dedos e mãos nas paredes duma noturna caverna, à luz de um archote agonizante. No fundo, o homem ainda continua naquela caverna primitiva, descrita por Platão. Se dela alguns saíram em certo dia, andam ainda às cegas, ofuscados pelo sol do conhecimento e da razão. O futuro se configura sombrio. Dá-lhes, Derrida! Desconstruir é “fragmentar para demonstrar que o que está sendo afirmado é, na verdade, inerentemente falso”. Não olhem para mim!

Falsas as verdades do homem, pelas quais ele se trai. Ele que sequer aprendeu a construir-se em sentido amplo, que dirá desconstruir-se, rever-se, repensar-se e soerguer-se para a sua própria absolvição. Até aqui, não há nada que o redima de toda a sua criminalidade, de sua hedionda vida pregressa. Se Deus afundou o Titanic quando desafiado pelo homem — “Nem Deus afunda o Titanic”, disseram, em afoita bravata —, tomem por Deus o gigantesco bloco de gelo e a fúria do mar. Pois também Deus, ao que parece, e assim como se diz do Diabo, tem mil disfarces ou formas de se manifestar. E não será Deus, agora, a tardia tábua de salvação do homem, até porque nunca foi, como é visto e provado está. Basta olhar para a barbárie, a carnificina, o mundo sangrento em que vivemos. É visto que muitos dos homens que “governam” o mundo só pensam com as tripas, só têm excremento na cabeça.

Não, não vá por aí. Não é bem por aí o reino dos céus, aqui falando por metáforas. E não é de joelhos que se chega lá — e “lá” é um lugar metafórico —, mas de pé, altivo, digno, como o Deus da Sabedoria certamente espera, se uma vez mais aqui me dou a entender. Há que clarear-se um novo caminho para a humanidade, descortinar-se um outro horizonte. Nietzsche alardeou a morte de Deus — “Deus está morto, e fomos nós que o matamos” —, e Deus matou Nietzsche com a loucura. Morreu Nietzsche “delirando”, admitindo seu “erro”, meio que se “reconciliando” (?) com Deus. Está escrito. Após o quê — e eu já disse isso —, Deus tirou férias e não sabe quando volta. Estamos por nossa conta e risco, ao deus-dará. Salve-se quem puder. Ah, sou mesmo um homem de pouca fé — porca fé —, a diferença que há entre mim e o bule de pôr café, como diziam os avós — os avós dos outros, que os meus, todos os quatro, eram mortos quando nasci. A falta que nos fazem os avós.

Meu temor, meu sincero temor, e meu pesar — minha profunda tristeza e meu irreversível desencanto —, são pelos inocentes, são pelas crianças, pelo mundo que estamos entregando a elas, e por elas que estamos entregando à sanha sádica do mundo, aos cães assassinos, molossos dentuços com cara de gente. Onde foi que a humanidade adquiriu essa cara de pitbull? O mundo é um canil. E ainda tem gente sorrindo de orelha a orelha, achando que está tudo uma maravilha. Contemplo meus netos — como contemplo as crianças do mundo —, meninos e meninas ainda, e sou acometido por um estado de choro surdo, que me sobe, aos engulhos, até os olhos. E não me prejulguem. Não vai aqui um melodrama barato, antes o meu desencanto com o que somos e sou eu. Estultos adultos, sem indulto ou salvação.

A humanidade não me ilude. Não mais. Já comprei gato por lebre, já comi tapeação, já engoli desaforos, apanhei muito e pouco revidei. Hoje revido com palavras, esse meu jeito de bater, mau jeito de articular-me. Pelo que tenho observado ao longo da vida, a humanidade perdeu mesmo a qualidade. O grande mal é que os maus são maioria, escrevi no livro “A trompa de Falópio”, premiado em Belo Horizonte. Asteróide, Asteróide, abre as asas sobre nós. “Muitos serão os pretendidos, poucos os escolhidos”, aprendi isso no espiritismo — do qual um dia me afastei —, como aprendi, paradoxalmente, que “todos são iguais perante o Pai” e que “Deus não tem nenhum filho a perder”. Donde se conclui que não se conclui nada.

Já com anotações prévias e já em vias de redigir este texto misto de realidade e ficção — uma e outra se fundem no mundo em que vivemos —, passo por uma banca de jornais e avisto a revista “Discutindo Filosofia”, coincidentemente com Karl Marx na capa e, abaixo de seu nome, a legenda: “As contribuições filosóficas do pai do comunismo” — nunca fiz auto de fé, nunca me professei comunista convicto, antes anarco-pensador e franco-atirador verbal que sou desde menino. Em matéria assinada na referida revista, o professor de história Guerreiro Parmezam mostra porque Marx é sempre atual. “Marx, em sua apurada análise dos movimentos do capital e o vício capitalista em valorizar o próprio valor, o que gera uma profunda contradição à própria lógica do ciclo produtivo, teve a possibilidade de concluir que os fenômenos das crises econômicas eram inerentes ao próprio sistema.”

Hoje, de acordo com o professor, quando os economistas, em pânico, vociferam a questão das “bolhas” no setor financeiro e a fatalidade de suas explosões como geradoras das grandes crises, deixam claro que Marx “ainda não está ultrapassado”. O pensador alemão escreveu que o capital, em momentos de expansão, sofre um verdadeiro “estufamento”. Olha aí o olho da bolha. Como lembra o mestre Guerreiro, “foi assim no último quartel do século retrasado, foi assim no craque da Bolsa em 1929, foi assim no mercado asiático durante a década de 1990 e é assim agora.”

Quitéria, prima de minha esposa, costuma dizer: “Comigo é na manteiga”, o que é bem diferente de “viajar na maionese”. O ministro Guido Mantega — segundo se publica —, com base em tese do economista britânico John Mainard Keynes (1883-1946) — uma fonte de décadas atrás, observe-se —, orienta o presidente Lula para estimular o consumo dos brasileiros, buscando aí uma forma de acudir o mercado e atenuar efeitos da crise financeira que ora avassala o mundo todo. Muita gente aí, atolada no lodo.

Nos lastros e lustros e soluços da História, homens como Marx e Freud, além dos gregos e quejandos, são os “astros”, não da astrologia, essa coisa de horóscopo, mas da astronomia, das luzes estroboscópicas perscrutando os horizontes e o infinito. E são os rastros, os sinais, os marcos do homem em sua caminhada, mesmo daqueles que, “tresmalhados” do caminho da realidade nua e crua, escabrosa, turbulenta e tormentosa, enveredam-se pelo “desvio” e tomam o caminho de Santiago — ou de Bela Vista de Goiás, pra chupar jabuticaba —, o que não deixa de ser uma via de fuga a mais, em busca de iluminação e paz interior. Longe do selvagem burburinho das metrópoles e do mundo. Apartados dos ratos, digo: do resto dos homens.

Quando digo “selvagem”, entenda-se que, animais por animais, também o homem é animal, com a diferença de que os “animais selvagens” — os predadores no esquema natural das coisas — a que nos temos referido, são puros em sua animalidade, porquanto sem a maldade consciente do homem. O animal selvagem, movidos pelo instinto da natureza bruta, é puro como não é o ser humano, esse monstro horripilante que nos habita, oriundo do “coração das trevas” — O horror! O horror!, como se lê no romance de Joseph Conrad. Único animal que pensa, como se afirma, será o homem um aborto da razão? “É no cérebro e somente no cérebro que se cometem todos os pecados do mundo”. Irretorquível frase — a não ser que se troque “pecados” por “crimes” —, de cuja autoria não me lembro. Diga aí, Nilto Maciel, você que uma vez citou-a em texto seu aqui na Bula.

De resto, uma opção, uma escolha — o caminho de Santiago ou de Bela Vista —, um direito de ir e vir de cada um, e assim a fé, a crença, a crendice, a superstição, tanto quanto a idiotice e a estultice encastoadas, cravejadas, que não se desencrava de cada um. Todo caminho escolhido é “um risco no bordado” do rebanho, podendo que seja uma comichão curticante na região do cóccix de cada qual, por conta do “bordado da urtiga”, celenterado vegetal que pinica como nunca o pó de mico. Imagine-se o que se conta: o sujeito sai do pagode, na roça, e busca a moita do desaperto, onde, já aliviado, leva a mão no escuro, arranca a folha de urtiga e com ela se limpa. Segundo se conta, haja lordo para tanta petição de miséria! “Lordo”, uma velha designação para ânus. Mas, voltando ao caminho, o lobo do homem está em toda parte. Há sempre um cão pelos caminhos, em figura de gente. Olha o padre pedófilo aí, gente!  Cuidado com o cachorro.

O bendito, o bíblico livre-arbítrio a servir de cunha quando o limite mental do homem se trava sem resposta para a questão da não-interferência de Deus na barbárie humana. Ou será que ele interfere por meio das catástrofes naturais, com a fúria dos elementos? E por que não, então, diretamente sobre os campos de guerra? Tem que ser sobre as populações indefesas, punindo e matando até crianças, que são inocentes? Ah, Senhor Deus, sois tão grande, que sois demais pra minha pobre cabeça. Chega a doer-me o juízo. Pergunta-se: “Por que Deus, onipotente, onisciente e onibondoso, permite tantas desgraças no mundo? Por que não interfere e acaba com elas?” A resposta já vem pronta: “Ah, mas Deus deu ao homem o livre-arbítrio.” O maldito livre-arbítrio, quando dirigido para o mal. Sem querer generalizar, a pedofilia é o livre-arbítrio do clero?

Tem aquela piadinha do penetra que entra de sola em roda de piada e pega a todos desprevenidos, valendo-se do costume de conjugar-se o verbo “viram” ao invés de “ouviram”: “Aí, vocês já viram a do padre? Não? Então suspendam a batina e vejam.” Rá-rá-rá, como diria ou riria o Zé Simão. A rever-se, por essas e outras de padres e pastores, praticadas por aí — por exemplo, extorquir dinheiro por meio de hipnose coletiva e evangélica instigação do paroxismo religioso, às raias do fanatismo, enceguecido e obstinado em nome de Deus —, a rever-se, eu dizia, a questão da liberdade de crença, na forma execrável de suas práticas. Tudo que é demais, vai indo, passa. Passa da conta, passa dos limites, sob as barbas coniventes e convenientes das autoridades, da lei e da justiça. Quem mais precisa de um banho ou sessão de descarrego, são os próprios charlatães. E de que autoridades estamos falando? De que lei? De que justiça?

“O risco do bordado” é romance de Autran Dourado. “O bordado da urtiga” é título do premiado livro de Gilson Cavalcante, na capital do Tocantins. Palmas pro Gilson. Já uma vez, num trocadilho em jornal ou revista, escrevi “Palmas pro Tocantins”. Fui convocado, em cima da hora, pra mesário ou secretário de mesa no plebiscito pró-criação do Estado do Tocantins, realizado no norte de Goiás, por ocasião do governo goiano Henrique Santillo. Estou ou devo estar nos registros, nos anais da história. Entrei para a História, não de forma trágica como a de Getúlio Vargas, que cometeu suicídio, ou foi suicidado, e deixou (?) um bilhete: “Saio da vida para entrar para a história”.

É dito que só há dois caminhos: o caminho do vício, da perdição, e o caminho da virtude. Mas então não existe o caminho do meio?, há de perguntar aquele que persevera no caminho da perversão ou da própria perdição. O meu caminho é o risco da palavra. A palavra é um risco que se corre, uma aventura que se arrisca, está escrito no premiado livro “Tessitura do ser”, de minha lavra.

Como se, com esse lucrativo negócio de caminho — “eu sou o caminho, a verdade e a vida” —, possível fosse fugir da negra realidade, inerente a todos, e que a todos cumpre enfrentar e modificar, aqui e agora — sim, porque todos ajudaram a construí-la. De uma forma ou de outra, todos têm a sua parcela de culpa. Viver é um desafio, tanto maior quanto mais a vida se ponha no olho do furacão, e muitos são postos no olho da rua. Viver sem fugas à guisa de frágeis refúgios. E sem essas desgraçadas “viagens” ao fundo do poço. Essas viagensviadagens — dá vontade de dizer assim, e não me venham com a pecha de preconceito. Falta de compreensão? Não. É raiva mesmo. Raiva por compreender a humana estupidez, ainda mais de gente adulta, que não é mais garota ou adolescente para embarcar nessas e noutras.

Baladas, pagodes, festas “raves”, um termo cujo significado a maioria dos adeptos nem sabe explicar. Que onda! Com site: www.thewave.com.br e e-mail: www.therave@aemagemeu.com. Nesta “wave” e nesta “rave”, nessa onda toda, é que o mundo se afunda. Muito, mas muito diferente daqueles embalos de sábado à noite com John Travolta, nas telas do cinema, anos 70. Embalos certamente “caretas” para hoje. Sabe-se que uma “rave” extrapola os limites da galera. Muito som — vinil, DJs e quinze mil volts de potência, durante horas e horas, madrugada afora —, álcool, drogas, sexo e morte. “Rave”, o que quer que isso signifique, ao pé da letra. “Haven” a gente sabe que é corvo, o pássaro negro do mau agouro, para os supersticiosos. O coletivo de corvos em inglês não é “murder”, a mesma palavra para “assassinato”? A sombra do corvo ronda a juventude. Que ela se cuide, se é que sabe se cuidar, como tanto alardeia aos pais.

O verdadeiro “barato” é viver sem subterfúgios de trânsfugas, como esses rapazes de franjas na testa, filhinhos de papais, e essas frangas de saias e cheias de rugas por conta das drogas. Esse encolhimento viscoso, de caramujo; essa gosma adentro de sua concha. Tem gente assim que dá dó — e dá mesmo raiva, essa insistência na estupidez —, como tem o que dá nojo, o político corrupto, tão mais nojento que um menino catarrento. Mais que oratório e oração — que horas são?, são horas, meu irmão —, a vida é oratória — palavra e ação —, trajetória e história. E onde o orador da palavra nova? Onde a verdadeira palavra da salvação? Aqueles que procuram, buscam os caminhos com os óculos escuros da fé para enfrentar a brutal realidade, os demônios do cotidiano — para eles, os demônios são sempre os outros —, mas não enfrentam a si mesmos, não admitem, não querem admitir, e não encaram os próprios demônios.

Parábola para a Bula, ou parada para literatura: Vai o sujeito caminhando pela estrada, e, na quebrada da curva do bambuzal, se depara com uma suçuarana, calmamente sentada no chão vermelho, como se ali estivesse à espera, como se o aguardasse, como se o destino fosse. Assustado e súbito, ele estaca no meio da estrada, olhando pra onça, e a onça olhando pra ele. Não lhe ocorre, a ele, nenhuma outra iniciativa, senão correr, mas correr já não pode, com as pernas a tremer e ele prestes a se borrar. Uma situação típica: se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come. O eterno impasse de alguns segundos. Até que a onça, felina e feminina, com uma lânguida lambida de beiços, se manifesta: “Eu vou te comer”. E como isso aqui é uma estória da história, o pobre homem, incauto nas curvas e no andar da carruagem do mundo, é literalmente comido, arrastado pro mato e vorazmente devorado pela história, senhora de todas as vidas. E acabou-se a história — o propalado fim da história. Só lhe sobram, do homem devorado, os ossos e as precatas dos pés rachados, pra contar-se o acontecido.

Moral da história, se há alguma moral por aqui: a ir-se pra onde vai indo o homem, o que lhe resta, senão reler as obras de Marx e de Freud, em regime de penitência ou purgatório? Se Freud não explica, Marx se trumbica, vice-versa a mesma coisa, que não é a coisa mesma, então não é coisa nenhuma. A opção “b” é missão impossível, um verdadeiro castigo: ler e decorar, de cabo a rabo, a lista telefônica. Talvez com um cérebro eletrônico. Castigo infernal seria contar nos dedos quantos caracteres contém a Bíblia.

Conquanto “ultrapassados”, como dizem por aí — e não só aqui na Bula —, e ultrapassados em aspectos, diga-se de passagem, Freud e Marx ainda estão na pauta do nosso dia-a-dia, como o sórdido e contudo sagrado prato de feijão com arroz em nossa mesa, e tanto mais pertinentes quanto menos polivalente o santo padre-nosso, até porque a história com Deus e sem Deus é uma roleta sangrenta, um jogo de dados chumbados e viciados, onde o valete é o sinistro crupiê. Um pocker em leque de cartas marcadas, um jogo de espadas, um tinir de floretes obviamente afiados, onde o esgrimista-mor é o crápula do rei nu, despido de sua capa. E ali o pior de seus oponentes: o Curinga, que do rei só quer o poder para também reinar, mandar e dominar. Como de praxe o piche no caminho negro dos homens. Petróleo, gasolina, ouro, diamantes, dinheiro, drogas, testosterona e muita adrenalina bélica, guerras, massacres, assassinatos, genocídios. Ecce homo. Sim, eis o homem. E onde anda, José Jacinto Veiga, o deus dos didangos?

A história é uma conspiração de perfídias, onde algumas damas e rainhas, que se habilitam e se prestam a instrumentos da história espúria, escondem lâminas, pequenos punhais nos perfumados seios e sob suas saias, na liga de sedosas meias, e frascos ou cápsulas de veneno nos entremeios carnais, com os miasmas de seus encantos. Por outro lado — bonita e bendita figura —, o símbolo da liberdade é uma mulher marchando à frente da revolução. O símbolo da justiça é uma mulher vendada, com a balança do equilíbrio e a espada com os rigores da lei. Eia pois advogada nossa, amiúde uma ceguinha esperta, advogando em causa própria. A justiça tem casa própria, e, vezes muitas, por decisões impróprias, deixa muitos ao relento da injustiça.

As idéias mesmas giram, vão e voltam, e os fatos se repetem com o redemoinho dos ventos. Todo tempo é tempo — a qualquer hora — para o olho do furacão. Os ventos do norte movem moinhos, sim, ao contrário do que cantavam, décadas atrás, aqueles jovens secos e molhados do Brasil — o “sangue latino” nas veias musicais, a branca e seminua magreza de Ney Matogrosso, com os seus requebros e suas penas coloridas. Os ventos do Norte movem moinhos e redemoinhos. Berra o boi na calçada de Wall Street — e por ali os adoradores do bezerro de ouro —, estremece a Bolsa de New York City, late o Cão ao reverso de Deus na nota de um dólar: “In God We Trust” — Em Deus Confiamos —, onde God, ao inverso, é Dog, o Cão. Será o guardião do portões do Fort Knox, base militar norte-americana, onde se amealha boa parte do ouro do mundo? Ocorre-me Cérbero, o cão tricéfalo da mitologia grega, guardião do portão do inferno e também guardião dos mortos. E os mortos-vivos, os que venderam a alma por dinheiro, quem os guarda?

Os pregoeiros da Bolsa agora roem as unhas, os investidores se descabelam. Nos chiqueiros do mundo, a porca torce o rabo. E tudo por causa do dinheiro, o maior dos problemas criados pelo homem. Se o dinheiro constrói maravilhas, também destrói o homem e suas maravilhas. As Torres Gêmeas, por exemplo. Destruídas pelo dinheiro do terrorismo, ou pelo terrorismo do dinheiro, se aqui me acompanham a extensão dos termos, e porque tudo no mundo é dinheiro, dinheiro, dinheiro, combustível para o poder político e a política do poder. Estão me entendendo o jogo?

O mundo é mesmo um circo. O homem, na lama de sua miserável condição humana, é risível, tragicômico e patético, amiúde ridículo. Tenho dito. E antes que me tomem por palmatória do mundo, aqui me tenho circunscrito. No lamaçal da história. Uma parte inseparável dela. Sórdidos. Somos todos sórdidos.


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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:27 PM

Que fazer de Affonso Romano de Sant´Anna?

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No ano passado, reli, com boa dose de prazer, toda a poesia de Affonso Romano de Sant´Anna, e estou relendo Os Cantos , de Ezra Pound, suficientemente para dizer que, entre uma obra e outra, eu levaria para uma ilha a “excessiva, discursiva, cansativa, confusa, obscura e banal” obra de Ezra Pound

A propósito de Ezra Pound, Eliot escreveu: “Um grande escritor pode ter, numa época, uma influência perniciosa ou simplesmente debilitadora. E essa influência pode ser afetivamente atacada, apontando-se aquelas faltas que não devem ser copiadas e aquelas virtudes que reproduzidas se tornam anacrônicas.”

Escorado nessa premissa, o poeta e professor Affonso Romano de Sant´Anna, no livro de ensaios Que fazer de Ezra Pound  (Imago, 2003), de sua autoria, se nos chega como quem chuta o balde de merda ou o pau da barraca — ou redoma — em que se encontra ninguém menos do que Ezra Poud, o que seria razão “suficiente” para chutá-la — a barraca — e, assim, fazer um saldozinho médio nas esferas da crítica literária, ou nas rodinhas de escribas tomando um cafezinho nalgum bar de esquina metropolitana. De tal sorte, que o nosso Affonso, já de início, manda ver:

“Agora que saiu a tradução de Os Cantos de Ezra Pound (ed. Nova Fronteira, Rio, 1986) torna-se necessário um juízo de valor sobre essa obra, que não apenas os elogios ao volumoso esforço de José Lino Grunewald para pôr em língua portuguesa o que tradicionalmente se considera a obra-prima daquele poeta norte-americano nascido em Idaho em 1885 e que aos treze anos afirmou: Serei poeta. O maior de todos.”

Ao ler isso aí, assalta-me a impressão de que o mestre Affonso, por alguma secreta razãozinha, incrustada no fundo de seu ser, intenta minimizar o “volumoso esforço” de Grunewald, como se a dizer que tal tarefa não se justifica em face do valor da obra poundiana, ou que o tradutor se ocupou de coisa de pouco valor, senão de todo imprestável ou, pelo menos, em sua maior parte, como deixa claro o ensaísta. O tom das expressões “que não apenas os elogios” e “o necessário juízo de valor” meio que acentua a minha impressão, ganhando foro de suspeição ou desconfiança no que estou a ler. Mas isso, certamente, não passa de má-impressão minha, buscando o que não existe justamente onde nada existe; enfim, caçando chifre em cabeça de égua.

“De suas oitocentas e tantas páginas, talvez uma meia dúzia pudesse ser lida com maior interesse. Mas, convenhamos, é um salto muito pequeno em relação à pretensão do autor”. Palavras de Affonso. E aqui, se me permitem a digressão, e sem qualquer intento ofensivo de minha parte, antes por conta de uma associação entre a grafia e uma lembrança do tempo da infância, o nome Affonso, com esses dois efes num sopro de fole, transporta-me de volta à hilária onomatopéia de um peido de burro, consoante as vogais e as consoantes propriamente ditas, e como então se dizia, assim: Afffooooooonnnso! Flatulenta sonoridade. Coisa de meninos, inventando moda, fazendo graça para as pessoas ao redor, ou apenas para si mesmos, uns com os outros, lá entre si. Mas prossigamos com o affonsino ensaio em questão:

“O próprio editor achava esses cantos obscuros e tediosos”, ressalta o poeta- professor Affonso. E vá-se ver, por nossa conta, se o tedioso não era o próprio editor de Pound.

“Pound queria usar a técnica do fragmento — continua Affonso —, fazendo uma montagem de textos alheios e seus. Mas a intenção técnica não basta. A leitura é cansativa, confusa e não produz o efeito desejado.”

Leitura cansativa, mestre? Prazerosa, até mesmo pela confusão — o caos, mestre, o fragmentário caos! E — só para embaralhar as cartas de um jogo —, como assim, que Pound desejava um efeito? De que efeito se está falando? Desde quando um poeta se deixa levar pelo desejo e não pela força da criação? Está bem que criar seja um ato de desejo, então Pound queria o efeito do desejo e o desejo do efeito. Bah!, o que digo eu? O que sei, a fundo, em meio a tanto qüiproquó? Cocoricó! O galo cantou. Dê cá meu cajado, é visto que só estou brincando, e já me vou mijar. Ou melhor, só estou provocando o tédio, exercitando idéias e brincando com o respeitável mestre, quem sabe para com ele aprender algo mais; mas sem polêmica, please, que me vou cansado por demais.

“Embora existam belos trechos como o Canto 45, trecho do Canto 13, o curto Canto 120 e pouco mais” — sublinha mestre Affonso, garimpando pepitas de ouro na bateia de Pound. E me pergunto se o crítico se auto-avalia enquanto poeta, de cuja lavra poética — obra completa — bons poemas se mostram e nem tudo é bom. Mesmo o seu mais badalado poema — Que país é esse?—, a meu ver, é melhor na primeira parte, depois perde um pouco a força de impulso, ou de empuxo, conquanto manter-se o fundo político e a crítica social numa asfixiante atmosfera de época — a ditadura militar. Vá la: Affonso Romano de Sant´Anna é um bom poeta mediano.

“A obra sobrenada em frases de poesia nenhuma e de prosa banal. Querendo ser uma epopéia, os textos são uma rala e confusa crônica. Os versos, em geral, não seduzem pelo ritmo, não seduzem pela melopéia, não seduzem pela logopéia ou fanopéia.” — prossegue o mestre, tabulando a zero a poesia de Ezra Pound. Pobre Alphonsus!, diria o poeta Alphonsus de Guimaraens, o Solitário de Mariana (MG), no seu famoso poema A Catedral. “Excessiva, discursiva”, a obra de Pound todavia se sustenta — aí está ela —, inclusive, por conta de seus excessos, mesmo porque não se pode retirá-la de seu lugar. Pode-se afirmar que daqui a mais algum tempo Os Cantos será uma obra relegada ao limbo? Assim, coisas como o nazismo e o extermínio dos judeus também estarão lá, no limbo da memória e da consciência humana? Pouco provável. Nem todas as obras ficam, mas algumas ficam pelo que são, e Os Cantos aí se encaixa, malgrado os resmungos ao seu redor.

“No fim da vida, tendo conhecido a prisão e o hospício, Pound declarou não apenas que ele “estragou” sua obra, mas explicou: “Minhas intenções eram boas, mas enganei-me na maneira de alcançá-las. Fui um estúpido. O conhecimento me chegou tarde demais...Muito tarde me chegou a certeza de nada saber.” Tal declaração, de repente, dá uma dimensão maior ao seu autor. A aceitação de seu “fracasso”, se não transforma sua vida & obra em “êxito”, pelo menos vale como ensinamento para que seus equívocos estéticos e ideológicos (fascistas) não se repitam. Cultuar esses equívocos, em vez de reconhecê-los como o próprio poeta, é perseverar no “erro” e estar, como discípulo, uma vez mais abaixo das lições do próprio mestre.”

Eis aí. Eu não disse que só estava provocando e que aprenderia algo mais com o mestre Affonso? Menos mal que esse “fracasso” aí venha entre aspas, evidenciando que a coisa não é bem assim, ou que o diabo — Pound — não é tão feio quanto se pinta, esteticamente falando. Fracasso? Os Cantos? Olha só o sorrisinho de mofa irônica do anarco diabinho que me acompanha, até porque “tal declaração” de Pound, sobre suas intenções e equívocos, pode ter sido uma forma de corte oblíquo na língua de seus críticos. Vá se saber, a fundo. Os artistas da palavra são dados a subterfúgios, artimanhosos, metafóricos, reticênticos. Pound disse, também, que o que ele tentou e não conseguiu fazer, um brasileiro fez. Referia-se a Gerardo Mello Mourão, com o longo poema Os peãs, cuja primeira parte, num livro de 400 páginas, intitula-se O País dos Mourões.

Ezra Pound

Literalmente, assim falou Pound: “Em toda a minha obra, o que tentei escrever foi a epopéia da América. Creio que não consegui. Quem conseguiu foi o poeta de O País dos Mourões.” Isso aí soa-me um pouco como uma certa modéstia poundiana — senão que seja, com efeito, sinceridade por demais —, sem desmerecer aqui a citada obra de Mourão, que, a meu ver, é de uma rara beleza ao longo de toda a poesia brasileira, e quando tornei público, há alguns anos, que ainda estava à espera — como ainda estou — do verdadeiramente grande poeta brasileiro, é possível que estivesse tomando a obra de Mourão como um ponto de referência ou de partida, num sentido épico. A propósito, por que as editoras brasileiras não dão novas e apuradas edições a esta monumental obra poética do Gerardo? Particularmente, emparelho em minha estante, para infinitas releituras, Os Cantos e Os peãs, que me parece influenciado por nada menos que Os Cantos. Ou não?

Posso me arriscar e comparar dizendo que Os Cantos, deliberadamente, está para a epopéia da desordem, do desconexo, do fragmentário, do labiríntico e do caótico — crendo eu que era exatamente essa a intenção de Pound —, assim como Os Peãs está para inventário e reordenação do cosmo de uma árvore genealógica, os Mourões, com uma certa ênfase testicular e boa dose de testosterona para os machos da casa? Penso que a diferença é que Mourão tratou da ordem interna, familiar, doméstica, enquanto Pound se lançou, até com funestas conseqüências para si próprio, ao largo de uma América essencialmente caótica — a par com as conturbações do mundo —, que ele intentou colocar numa esdrúxula e poética epopéia. Deixa estar, mestre Affonso: Os Cantos, como tal, por bem ou por mal, é a coroa de glória de Ezra Pound, e ninguém conseguirá tirar isso dele.

Há quem veja reflexos dos ensinamentos de Pound no rigor poético de João Cabral de Melo Neto. Está dito que “o texto literário tem uma data de publicação, mas não morre, nunca se torna ultrapassado” (Celina Bruniera,  UOL Educação). Leio isso e penso nos cantos de Ezra Pound. Sem dúvida que o fascismo de Pound é um caso à parte, a ser esmiuçado em profundidade, e quem se habilita? Ezra Pound é reconhecido por muita gente abalizada, sendo apontado como poeta, ensaísta de grande erudição e um dos expoentes do movimento modernista da poesia do início do século XX. Isso deveria bastar, não fosse agora o instigante ensaio do professor Affonso Romano de Sant´Anna, cuja leitura indiquei ao poeta Carlos Willian e ele também estranhou o tom — “arrogante” — do autor. Vai ver, Carlos Willian, estamos equivocados e pagando mico, muito “abaixo das lições do mestre”. Acha que devemos comprar um desconfiômetro?

Em que pese a pertinência dos argumentos do mestre Affonso, penso que Os Cantos é um prumo pênsil na poesia moderna, um monumento de consagração do desconexo, (uni)verso desconjuntado de seu eixo, e, contudo, móvel. Eppur si muove, como diria Galileu. Uma obra para fruição da desordem do caos “ordenado” por Pound. A obra e o homem. Ezra Pound é o nome, e o nome é o cara. Imperfeito, Os Cantos? Longe de mim, para justificar Pound e seus “pecados” poéticos, lançar mão do refrão pelo qual errar é humano; por certo que o certo é não persistir no erro — persistir é burrice —, como é certo, sim, atentar-se para as “faltas que não devem ser copiadas e aquelas virtudes que reproduzidas se tornam anacrônicas”, como afirma Eliot e o professor Affonso utiliza em seu ensaio. Mas, olha só, que coisa curiosa, a título de reflexão: Deus, o Verbo, criou o homem, e se arrependeu, depois, de havê-lo criado (está escrito). Contudo, não reparou a sua obra, nem a destruiu, como seria de se esperar. O criador não conjugou o verbo no modo mais-que-perfeito. E assim os homens são os cantos defeituosos de Deus. E Deus preservou o homem, este que, hoje, por si mesmo se destrói. Pobre homem! Pobre Alphonsus! “Ó Bartleby, ó humanidade!” (Herman Melville). Já publiquei, em livro, que perfeito é o pássaro, voando em círculos.

Também ensaísta, Ezra Pound publicou Arte da Poesia (edições Cultrix, no Brasil), e vale a pena ler de novo alguma coisa do que ele ensina, como, por exemplo, isto: “Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. Não imagine que uma pessoa inteligente se deixará iludir se você tentar esquivar-se aos obstáculos da indescritivelmente difícil arte da boa prosa subdividindo sua composição em linhas mais ou menos longas.”

Sintomático, isso aí, poderia dizer mestre Affonso, olhando de esguelha para Os Cantos. Certo é que essas recomendações de Pound são pertinentes no Brasil — para ficarmos só em casa —, onde muita gente equivocada ou ignorante — pretensos ou pseudopoetas, e até professores universitários —, escreve longos e indigestos textos em prosa, inclusive ensaios, divide-os em forma de versos e publica em livro como sendo poesia. Fala, Goiás!

O que fazer de Affonso Romano de Sant´Anna?  Poeta critica poeta, mas então não se deve também começar por criticar a própria obra?  No ano passado, reli, com boa dose de prazer, toda a poesia de Affonso, aproveitando as edições de bolso da L&PM, e estou relendo Os Cantos — tenho duas edições diferentes, da mesma editora —, suficientemente para dizer que, entre uma obra e outra, eu levaria para uma ilha a “excessiva, discursiva, cansativa, confusa, obscura e banal” obra de Ezra Pound. A ir-se por aí, só falta dizer que Os Cantos é uma obra aleijada. Talvez seja por isso mesmo, por tudo que ela é e sempre será, inclusive pelo que ela possa levar-nos a refletir por conta dos equívocos ideológicos de Pound — seu lado fascista —, que o fizeram cair em desgraça, contaminando a sua poesia; talvez seja por tudo isso que a obra Os Cantos tem uma data de publicação, mas não morre, nunca se torna ultrapassada, antes se coloca como um perene objeto de estudos mais aprofundados. Da mesma forma, o poema Que país é este, de Affonso Romano, pelo que representa em termos de época — com a sua data de publicação — e pelo que o poema implica de histórico e verdadeiro, sobretudo para os que estiveram por lá, in illo tempore — nos anos de chumbo —, e atestam o que o poema diz. Ainda assim, entre os poemas reunidos de Affonso Romano de Sant´Anna e Os Cantos de Ezra Pound, fico com estes e vou cantar em outra freguesia.


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POR EM 17/11/2008 ÀS 05:37 PM

Lição de casa com auto-retrato

publicado em


 

Sou
um brigão
brincalhão,
por isso mesmo
 "perigoso".
Não tolero
adversário
melindroso,
que não agüenta
uma indireta
verbal.
Imagine
se lhe acerto
uma direta
fatal.
Ele se
desconjunta
no chão,
com a sua cara
de chorão.
 
Eu,
cá com os meus
brinquedos,
se me quebro,
cato meus cacos,
passo iodo,
remendo-me
com esparadrapo;
me recomponho
e me ponho
de novo  no palco  
da contendas.
 
Eu
Sou
Eu
Ego sum
qui sum,
 e não sou
nenhum
Deus.
São meus
os esfolados
joelhos
dos caídos
e levantados,
que sempre me levanto
com o sol
que se põe.
 
Olha
nos meus
olhos:
as minhas
meninas
dos olhos
brincam
com o menino
ainda
em mim
(tanto assim, que não morri).
 
A vida
foi que me fez
assim,
o que sou
de mim.
 
Aprenda-se
comigo,
que me aprendo
com a vida,
e não me
arrependo
de mim,
senão quando
fujo-me,
cão sabujo,
e me escondo
nos escombros
da briga
em que
 eu mesmo
me bati.
 
Contudo,
enfrento-me.
Contundo-me
no confronto
 comigo
mesmo.
Me expurgo
 e descubro
o vezo
inimigo
que me quebra:
o ego.
 
Valdevinos,
perdulário,
estróina,
doidivanas,
vagabundo,
como  se lê
no dicionário.
 
Um retrato
em preto
e branco
do meu
esqueleto.
Colorido,
tenho de meu
o espírito
extrovertido.
Sou amado,
odiado,
conforme seja
o bom sentido
ou verde inveja
do mau-olhado,
olho gordo
e virago,
de olho
nos meus
troféus.
 
Inimigos
meus
ficam aí
no ora-veja,
chovendo
no molhado
e se roendo
por dentro.
Eu bebo,
comigo  
e meus amigos,
a sinceridade
da boa cerveja
na mesa
da amizade.
 
À beira
do perigo,
no abismo
do ego,
persigo-me
como quem
persegue
a égua
 do inimigo.
 
A melhor
briga,
a briga
que me
obriga
 pra valer,  
é só comigo.
A saber,
ao fim,
o que há
 de pior
e de melhor
em mim.
 
Quero
o melhor
pra mim,
a parte inteira
de mim,
depurada
do que há
de ruim,
e assim
me repartir

com a vida.
 


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POR EM 12/11/2008 ÀS 12:02 PM

Raso mergulho no mar profundo

publicado em

Um mar profundo, em cujas águas nem todos logram ir a fundo - complexa treliça de algas submersas -, Fernando Pessoa não se põe facilmente ao alcance de todos. Há que ter olhos de lince, de longo alcance ou abrangência; há que olhar/ler com a pinça da percepção; há que captar as cintilâncias de tanta beleza. Beleza de luz. Um tesouro nas profundezas, que se revela multiforme, encanta, seduz, suscitando outros e outros mergulhos. Não é por menos que muitos poetas, deslumbrados com o que reluz em profundidade, se vejam presas deste fascínio, subjacente nos versos que trazem à luz das influências.

Os exemplos, não carece muito esforço para se buscá-los, bastando as minudências que pontilham não só a poesia dos "principiantes", mas também a dos poetas de renome, como Cecília Meireles, que escreveu "Motivo", ao que parece, bebendo no poema XLVII de "O Guardador de Rebanhos", onde Pessoa usa o heterônimo Alberto Caeiro. A poeta escande o verso "não sou alegre nem sou triste", enquanto Caeiro já nos dera "não estou alegre nem triste".

Neide Arcanjo, no livro "Escavações", usou "no que me falha ou cinde", à semelhança de Pessoa: "o que me falha ou cinde". Carlos Osório (vivia em Brasília), em seu "Rebanho de Ventos", lembra o poeta português, notadamente a temática cristã de Alberto Caeiro - vide "O Guardador de Rebanhos". E assim em poetas mais recentes. E vamos por aí afora, "ontem, como hoje, como amanhã, como depois", como intitula-se um conto de Bernardo Elis. Com isso queremos dizer que os poetas não se livram das boas influências - nem das más, se delas não têm consciência -, essa "angústia fingidora", digamos assim, pois nem todos se angustiam deveras, nos moldes propostos por Harold Bloom. Já o próprio Fernando Pessoa dizia que o poeta é um fingidor. E poetas há, até, que adoram "influências", no sentido "espongiário" (chupão), como os denomino.

Poetas há que bebem da fonte e, a seu modo, são "continuadores", e não meros "repetidores", e muito menos "diluidores", para utilizar-se aqui a classificação de Ezra Pound. Além deste ponto, os que nada acrescentam são os medíocres e patéticos, incluídos os que não criam e se metem a críticos. Estes os mais ridículos, movidos por suas frustrações à falta de talento, e pela inveja, pelo despeito, se lhes sobeja pobreza de espírito. Bem poderiam um pouco mais conhecerem-se a si mesmos, começando pela leitura da obra clássica O Homem Medíocre, de José Ingenieros. Um banho de luz e de "descarrego" dos maus fluidos. Fora disso, só mesmo uma sessão espírita, de doutrinamento dos maus espíritos, ou uma dança de chapéus pretos num pacto com Mefisto, no redemoinho da encruzilhada e no meio da madrugada. Mas, para isso, hay que tener saquito.

Ler e reler Pessoa, tanto quanto mais, é mais e melhor conhecer e aproximar-se de Fernando em "Pessoa", e de suas pessoas, tantas quantas na soma de seus heterônimos. O homem homônimo de si mesmo na multidão de anônimos. E aí a solidão de Fernando Pessoa. Da pessoa de Fernando. E aí os mergulhos nas profundezas e sutilezas das palavras. Neste poeta, o desenraizamento dos lugares-comuns, condicionados na mentalidade humana, leva-nos a participar do questionamento desmi(s)tificador que propicia uma visão filosófica em relação á objetividade e à subjetividade das coisas.

"Falar em alma das pedras, das flores, dos rios / É falar de si própri o e dos seus falsos pensamentos. // Porque o único sentido oculto das coisas / É elas não terem sentido oculto nenhum. // As coisas não têm significação: têm existência. / As coisas são o único sentido oculto das coisas."

Isso é Pessoa. Momentos como esses, ricos e transformadores do mundo aos nossos olhos, revelando o que o mundo realmente é e nem todo mundo percebe ou quer saber (o mal de muitos é não querer); momentos assim abundam em Fernando Pessoa, e requerem do leitor a pausa da reflexão para o entendimento, se a tanto chegar. Um mar profundo, nem sempre acessível aos rasos mergulhos tão próprios do espírito contemporâneo.

No que me diz respeito - a mim, particularmente -, e do que pouco sei, o que sei, a fundo? "Só sei que nada sei" senão o que sei sobre Sócrates, que recomendou ao homem conhecer-se a si mesmo. Só sei que me procuro, bem aqui, que é onde realmente me encontro, nos sargaços de minhas serpentinas, sinuosas aliterações. Neste raso mergulho em mar profundo. 


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POR EM 10/11/2008 ÀS 04:08 PM

Que fazer de Affonso Romano de Sant´Anna?

publicado em

No ano passado, reli, com boa dose de prazer, toda a poesia de Affonso Romano de Sant´Anna, e estou relendo Os Cantos , de Ezra Pound, suficientemente para dizer que, entre uma obra e outra, eu levaria para uma ilha a “excessiva, discursiva, cansativa, confusa, obscura e banal” obra de Ezra Pound

A propósito de Ezra Pound, Eliot escreveu: “Um grande escritor pode ter, numa época, uma influência perniciosa ou simplesmente debilitadora. E essa influência pode ser afetivamente atacada, apontando-se aquelas faltas que não devem ser copiadas e aquelas virtudes que reproduzidas se tornam anacrônicas.”

Escorado nessa premissa, o poeta e professor Affonso Romano de Sant´Anna, no livro de ensaios Que fazer de Ezra Pound  (Imago, 2003), de sua autoria, se nos chega como quem chuta o balde de merda ou o pau da barraca — ou redoma — em que se encontra ninguém menos do que Ezra Poud, o que seria razão “suficiente” para chutá-la — a barraca — e, assim, fazer um saldozinho médio nas esferas da crítica literária, ou nas rodinhas de escribas tomando um cafezinho nalgum bar de esquina metropolitana. De tal sorte, que o nosso Affonso, já de início, manda ver:

“Agora que saiu a tradução de Os Cantos de Ezra Pound (ed. Nova Fronteira, Rio, 1986) torna-se necessário um juízo de valor sobre essa obra, que não apenas os elogios ao volumoso esforço de José Lino Grunewald para pôr em língua portuguesa o que tradicionalmente se considera a obra-prima daquele poeta norte-americano nascido em Idaho em 1885 e que aos treze anos afirmou: Serei poeta. O maior de todos.”

Ao ler isso aí, assalta-me a impressão de que o mestre Affonso, por alguma secreta razãozinha, incrustada no fundo de seu ser, intenta minimizar o “volumoso esforço” de Grunewald, como se a dizer que tal tarefa não se justifica em face do valor da obra poundiana, ou que o tradutor se ocupou de coisa de pouco valor, senão de todo imprestável ou, pelo menos, em sua maior parte, como deixa claro o ensaísta. O tom das expressões “que não apenas os elogios” e “o necessário juízo de valor” meio que acentua a minha impressão, ganhando foro de suspeição ou desconfiança no que estou a ler. Mas isso, certamente, não passa de má-impressão minha, buscando o que não existe justamente onde nada existe; enfim, caçando chifre em cabeça de égua.

“De suas oitocentas e tantas páginas, talvez uma meia dúzia pudesse ser lida com maior interesse. Mas, convenhamos, é um salto muito pequeno em relação à pretensão do autor”. Palavras de Affonso. E aqui, se me permitem a digressão, e sem qualquer intento ofensivo de minha parte, antes por conta de uma associação entre a grafia e uma lembrança do tempo da infância, o nome Affonso, com esses dois efes num sopro de fole, transporta-me de volta à hilária onomatopéia de um peido de burro, consoante as vogais e as consoantes propriamente ditas, e como então se dizia, assim: Afffooooooonnnso! Flatulenta sonoridade. Coisa de meninos, inventando moda, fazendo graça para as pessoas ao redor, ou apenas para si mesmos, uns com os outros, lá entre si. Mas prossigamos com o affonsino ensaio em questão:

“O próprio editor achava esses cantos obscuros e tediosos”, ressalta o poeta- professor Affonso. E vá-se ver, por nossa conta, se o tedioso não era o próprio editor de Pound.

“Pound queria usar a técnica do fragmento — continua Affonso —, fazendo uma montagem de textos alheios e seus. Mas a intenção técnica não basta. A leitura é cansativa, confusa e não produz o efeito desejado.”

Leitura cansativa, mestre? Prazerosa, até mesmo pela confusão — o caos, mestre, o fragmentário caos! E — só para embaralhar as cartas de um jogo —, como assim, que Pound desejava um efeito? De que efeito se está falando? Desde quando um poeta se deixa levar pelo desejo e não pela força da criação? Está bem que criar seja um ato de desejo, então Pound queria o efeito do desejo e o desejo do efeito. Bah!, o que digo eu? O que sei, a fundo, em meio a tanto qüiproquó? Cocoricó! O galo cantou. Dê cá meu cajado, é visto que só estou brincando, e já me vou mijar. Ou melhor, só estou provocando o tédio, exercitando idéias e brincando com o respeitável mestre, quem sabe para com ele aprender algo mais; mas sem polêmica, please, que me vou cansado por demais.

“Embora existam belos trechos como o Canto 45, trecho do Canto 13, o curto Canto 120 e pouco mais” — sublinha mestre Affonso, garimpando pepitas de ouro na bateia de Pound. E me pergunto se o crítico se auto-avalia enquanto poeta, de cuja lavra poética — obra completa — bons poemas se mostram e nem tudo é bom. Mesmo o seu mais badalado poema — Que país é esse?—, a meu ver, é melhor na primeira parte, depois perde um pouco a força de impulso, ou de empuxo, conquanto manter-se o fundo político e a crítica social numa asfixiante atmosfera de época — a ditadura militar. Vá la: Affonso Romano de Sant´Anna é um bom poeta mediano.

“A obra sobrenada em frases de poesia nenhuma e de prosa banal. Querendo ser uma epopéia, os textos são uma rala e confusa crônica. Os versos, em geral, não seduzem pelo ritmo, não seduzem pela melopéia, não seduzem pela logopéia ou fanopéia.” — prossegue o mestre, tabulando a zero a poesia de Ezra Pound. Pobre Alphonsus!, diria o poeta Alphonsus de Guimaraens, o Solitário de Mariana (MG), no seu famoso poema A Catedral. “Excessiva, discursiva”, a obra de Pound todavia se sustenta — aí está ela —, inclusive, por conta de seus excessos, mesmo porque não se pode retirá-la de seu lugar. Pode-se afirmar que daqui a mais algum tempo Os Cantos será uma obra relegada ao limbo? Assim, coisas como o nazismo e o extermínio dos judeus também estarão lá, no limbo da memória e da consciência humana? Pouco provável. Nem todas as obras ficam, mas algumas ficam pelo que são, e Os Cantos aí se encaixa, malgrado os resmungos ao seu redor.

“No fim da vida, tendo conhecido a prisão e o hospício, Pound declarou não apenas que ele “estragou” sua obra, mas explicou: “Minhas intenções eram boas, mas enganei-me na maneira de alcançá-las. Fui um estúpido. O conhecimento me chegou tarde demais...Muito tarde me chegou a certeza de nada saber.” Tal declaração, de repente, dá uma dimensão maior ao seu autor. A aceitação de seu “fracasso”, se não transforma sua vida & obra em “êxito”, pelo menos vale como ensinamento para que seus equívocos estéticos e ideológicos (fascistas) não se repitam. Cultuar esses equívocos, em vez de reconhecê-los como o próprio poeta, é perseverar no “erro” e estar, como discípulo, uma vez mais abaixo das lições do próprio mestre.”

Eis aí. Eu não disse que só estava provocando e que aprenderia algo mais com o mestre Affonso? Menos mal que esse “fracasso” aí venha entre aspas, evidenciando que a coisa não é bem assim, ou que o diabo — Pound — não é tão feio quanto se pinta, esteticamente falando. Fracasso? Os Cantos? Olha só o sorrisinho de mofa irônica do anarco diabinho que me acompanha, até porque “tal declaração” de Pound, sobre suas intenções e equívocos, pode ter sido uma forma de corte oblíquo na língua de seus críticos. Vá se saber, a fundo. Os artistas da palavra são dados a subterfúgios, artimanhosos, metafóricos, reticênticos. Pound disse, também, que o que ele tentou e não conseguiu fazer, um brasileiro fez. Referia-se a Gerardo Mello Mourão, com o longo poema Os peãs, cuja primeira parte, num livro de 400 páginas, intitula-se O País dos Mourões. 

Ezra Pound

Literalmente, assim falou Pound: “Em toda a minha obra, o que tentei escrever foi a epopéia da América. Creio que não consegui. Quem conseguiu foi o poeta de O País dos Mourões.” Isso aí soa-me um pouco como uma certa modéstia poundiana — senão que seja, com efeito, sinceridade por demais —, sem desmerecer aqui a citada obra de Mourão, que, a meu ver, é de uma rara beleza ao longo de toda a poesia brasileira, e quando tornei público, há alguns anos, que ainda estava à espera — como ainda estou — do verdadeiramente grande poeta brasileiro, é possível que estivesse tomando a obra de Mourão como um ponto de referência ou de partida, num sentido épico. A propósito, por que as editoras brasileiras não dão novas e apuradas edições a esta monumental obra poética do Gerardo? Particularmente, emparelho em minha estante, para infinitas releituras, Os Cantos e Os peãs, que me parece influenciado por nada menos que Os Cantos. Ou não?

Posso me arriscar e comparar dizendo que Os Cantos, deliberadamente, está para a epopéia da desordem, do desconexo, do fragmentário, do labiríntico e do caótico — crendo eu que era exatamente essa a intenção de Pound —, assim como Os Peãs está para inventário e reordenação do cosmo de uma árvore genealógica, os Mourões, com uma certa ênfase testicular e boa dose de testosterona para os machos da casa? Penso que a diferença é que Mourão tratou da ordem interna, familiar, doméstica, enquanto Pound se lançou, até com funestas conseqüências para si próprio, ao largo de uma América essencialmente caótica — a par com as conturbações do mundo —, que ele intentou colocar numa esdrúxula e poética epopéia. Deixa estar, mestre Affonso: Os Cantos, como tal, por bem ou por mal, é a coroa de glória de Ezra Pound, e ninguém conseguirá tirar isso dele.

Há quem veja reflexos dos ensinamentos de Pound no rigor poético de João Cabral de Melo Neto. Está dito que “o texto literário tem uma data de publicação, mas não morre, nunca se torna ultrapassado” (Celina Bruniera,  UOL Educação). Leio isso e penso nos cantos de Ezra Pound. Sem dúvida que o fascismo de Pound é um caso à parte, a ser esmiuçado em profundidade, e quem se habilita? Ezra Pound é reconhecido por muita gente abalizada, sendo apontado como poeta, ensaísta de grande erudição e um dos expoentes do movimento modernista da poesia do início do século XX. Isso deveria bastar, não fosse agora o instigante ensaio do professor Affonso Romano de Sant´Anna, cuja leitura indiquei ao poeta Carlos Willian e ele também estranhou o tom — “arrogante” — do autor. Vai ver, Carlos Willian, estamos equivocados e pagando mico, muito “abaixo das lições do mestre”. Acha que devemos comprar um desconfiômetro?

Em que pese a pertinência dos argumentos do mestre Affonso, penso que Os Cantos é um prumo pênsil na poesia moderna, um monumento de consagração do desconexo, (uni)verso desconjuntado de seu eixo, e, contudo, móvel. Eppur si muove, como diria Galileu. Uma obra para fruição da desordem do caos “ordenado” por Pound. A obra e o homem. Ezra Pound é o nome, e o nome é o cara. Imperfeito, Os Cantos? Longe de mim, para justificar Pound e seus “pecados” poéticos, lançar mão do refrão pelo qual errar é humano; por certo que o certo é não persistir no erro — persistir é burrice —, como é certo, sim, atentar-se para as “faltas que não devem ser copiadas e aquelas virtudes que reproduzidas se tornam anacrônicas”, como afirma Eliot e o professor Affonso utiliza em seu ensaio. Mas, olha só, que coisa curiosa, a título de reflexão: Deus, o Verbo, criou o homem, e se arrependeu, depois, de havê-lo criado (está escrito). Contudo, não reparou a sua obra, nem a destruiu, como seria de se esperar. O criador não conjugou o verbo no modo mais-que-perfeito. E assim os homens são os cantos defeituosos de Deus. E Deus preservou o homem, este que, hoje, por si mesmo se destrói. Pobre homem! Pobre Alphonsus! “Ó Bartleby, ó humanidade!” (Herman Melville). Já publiquei, em livro, que perfeito é o pássaro, voando em círculos.

Também ensaísta, Ezra Pound publicou Arte da Poesia (edições Cultrix, no Brasil), e vale a pena ler de novo alguma coisa do que ele ensina, como, por exemplo, isto: “Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. Não imagine que uma pessoa inteligente se deixará iludir se você tentar esquivar-se aos obstáculos da indescritivelmente difícil arte da boa prosa subdividindo sua composição em linhas mais ou menos longas.”

Sintomático, isso aí, poderia dizer mestre Affonso, olhando de esguelha para Os Cantos. Certo é que essas recomendações de Pound são pertinentes no Brasil — para ficarmos só em casa —, onde muita gente equivocada ou ignorante — pretensos ou pseudopoetas, e até professores universitários —, escreve longos e indigestos textos em prosa, inclusive ensaios, divide-os em forma de versos e publica em livro como sendo poesia. Fala, Goiás!

O que fazer de Affonso Romano de Sant´Anna?  Poeta critica poeta, mas então não se deve também começar por criticar a própria obra?  No ano passado, reli, com boa dose de prazer, toda a poesia de Affonso, aproveitando as edições de bolso da L&PM, e estou relendo Os Cantos — tenho duas edições diferentes, da mesma editora —, suficientemente para dizer que, entre uma obra e outra, eu levaria para uma ilha a “excessiva, discursiva, cansativa, confusa, obscura e banal” obra de Ezra Pound. A ir-se por aí, só falta dizer que Os Cantos é uma obra aleijada. Talvez seja por isso mesmo, por tudo que ela é e sempre será, inclusive pelo que ela possa levar-nos a refletir por conta dos equívocos ideológicos de Pound — seu lado fascista —, que o fizeram cair em desgraça, contaminando a sua poesia; talvez seja por tudo isso que a obra Os Cantos tem uma data de publicação, mas não morre, nunca se torna ultrapassada, antes se coloca como um perene objeto de estudos mais aprofundados. Da mesma forma, o poema Que país é este, de Affonso Romano, pelo que representa em termos de época — com a sua data de publicação — e pelo que o poema implica de histórico e verdadeiro, sobretudo para os que estiveram por lá, in illo tempore — nos anos de chumbo —, e atestam o que o poema diz. Ainda assim, entre os poemas reunidos de Affonso Romano de Sant´Anna e Os Cantos de Ezra Pound, fico com estes e vou cantar em outra freguesia. 


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POR EM 03/11/2008 ÀS 10:04 PM

Tagore Biram manda lembrança

publicado em

Podem até questionar, em aspectos, a obra poética de Tagore, principalmente acadêmicos obesos e sebosos de presunção, e acadêmicas besuntadas com o cosmético da confraria, mas não podem tirar-lhe os méritos conquistados


 
O poema "Prólogo", de Tagore Biram, publicado — certamente por Carlos Willian, em atendimento à sugestão de Lauro Marques — aqui nos comentários da Bula (edição 204), encontra-se, em russo e português, no livro “O anjo desafinado”, de autoria dele, Tagore. O livro foi o primeiro a ser premiado, em 1987, pela Bolsa de Publicações Cora Coralina, então criada pelo governo de Goiás. Referido poema foi por mim publicado aqui mesmo, na Bula, em 2007, como parte do artigo “Sobre Tagore Biram”, redigido alusivamente aos nove anos de sua morte, ocorrida em 13 junho de 1998, na cidade de Tirúa, no Chile, país onde ele residia desde 1996. O poeta morreu aos 40 anos de idade. Consta que em Tirúa um centro cultural leva seu nome, homenagem de amigos que por lá cultivava.
 
Sabe-se que Tagore deixou no Chile vários amigos, que os tinha também em Goiás, os que o conheciam mais a fundo, assim como tinha os inimigos, muitos dos quais, de público, ele mandava tomar no curió ou então à puta que pariu. Com Tagore não tinha meios-termos. Tirado do sério, quando se sentia ofendido ou humilhado, dava o troco na hora, e proferia seu revide com palavras nuas e cruas, mesmo na presença de distintas e emperucadas madames.  
 
Com o tempo, o poeta amadureceu e refinou um pouco seus modos, tornou-se verbalmente mais comedido, mais sociável no trato com as pessoas, inclusive com os garçons dos botecos — por vezes era meio ríspido com eles, e se melhorou neste aspecto, creio que um pouco foi por instância minha, que sempre o repreendia, lembrando que também fui garçom e sei bem o que é esse negócio de se dizer que o freguês sempre tem razão. Parece que ter deixado Goiânia o beneficiou neste sentido da amabilidade. Mudança de ares. Foi viver em Campo Grande (Mato Grosso do Sul), antes de se mudar para o Chile, primeiramente retornando a Goiânia e aqui permanecendo por alguns dias, para verificar que o clima lhe era adverso: ele não conseguiu emprego em jornais, como pretendia, não encontrou espaço nem oxigênio, então decidiu partir.
 
Certa noite, coisa de uns dois dias antes de sua partida, ele apareceu em minha casa e vinha com as suas pastas de poemas debaixo do braço; disse que tinha discutido com seus familiares, mas não dava detalhes, e que ia embora para o Chile. Era noite, ele estava abalado, meio que em estado de choro. Queria que fôssemos beber, e eu bem que teria ido, solidariamente, mas estava mal dos brônquios, tossindo forte e dolorosamente; estava depressivo e sem o mínimo ânimo; disse isso a ele, que se mostrou contrafeito e fez menção de ir embora. Indaguei se ele iria para o hotel, onde costumava pernoitar, no centro de Goiânia —, ele meio que deu a entender que sim, se despediu e se foi. Olhando-o se afastar pela rua, dentro da noite, mortifiquei-me ao sentir o quanto, naquela hora, ele precisava de um amigo. Fiquei doente de alma, por isso.
 
Daí a mais um dia, o poeta me telefonou para se despedir de vez, dizendo que estava de saída e que me escreveria do Chile, como realmente fez, algumas vezes. Não mais o vi, senão morto. Nas cartas, falava de sua vida por lá e me remetia livros seus, publicados em espanhol pelo seu amigo e editor Sergio Ramón Funtealba, com o qual, após a morte de Tagore, eu vinha trocando correspondência, e a quem, por último, enviei de presente quatro livros meus, além de uma longa carta, creio que cerca de quatro laudas, sobre os mesmos, e também falando de Tagore. Como não me veio resposta desta vez, e já se vão alguns anos, me pergunto o que terá havido, se foi extravio de correio ou se o extraviado fui eu, tagarelando — pedante? —, sobre o meu caráter poético e minhas obras imperfeitas. Mais como justificativa do que pedanteria, me parecendo que os poetas, às vezes, se sentem constrangidos por serem poetas no desgraçado mundo de hoje.
 
 O poema “Prólogo” foi declamado por Tagore Biram em Moscou, em 1985, quando lá esteve participando do Festival Internacional da Juventude, promovido por Gorbachev. Declamou-o durante reunião noturna de poetas de várias partes do mundo, ao que se sabe, num teatro grã-fino da cidade — não temos o nome do teatro. O certo é que a empolgada declamação foi simultaneamente traduzida para mais de 50 línguas. De acordo com testemunha ocular goiana, o poeta foi ovacionado de pé, aos brados de “Bravo! Bravo!”, e ninguém menos do que o poeta Ievtuchenco lá estava, na platéia, aplaudindo efusivamente. E o poema foi publicado, no original e em russo, na primeira página do Jornal do Escritor Soviético, do qual Tagore me trouxe um exemplar.
 
Sem dúvida, aquele recital foi uma noite de glória para ele. Imagine-se, com isso, a cara roxa da inveja goiana. Sem falar nas belas soviéticas que, ainda segundo o testemunho, Tagore arranjou e, mesmo sem conhecer o idioma, namorou no Parque Lênin, aos pés da estátua do próprio. Vale lembrar que, em Goiânia, não só por seus modos rebeldes, mas também pelo seu “dom” de conquistador nato, com a lábia poética da facilidade, era dado a  paquerar as namoradas dos outros, enquanto degustava a cerveja paga por eles (risos). Por essas e outras, alguns o tomavam por “persona non grata”.
 
Podem até questionar, em aspectos, a obra poética de Tagore, principalmente acadêmicos obesos e sebosos de presunção, e acadêmicas besuntadas com o cosmético da confraria, mas não podem tirar-lhe os méritos conquistados, ele que chegou onde nenhum outro poeta goiano já esteve, nem mesmos os acadêmicos que o criticavam. E nem lhes conto o que rolou de inveja quando Tagore foi a Moscou; a bile invejosa era visível nas faces de outros poetas, inclusive escritores da “velha guarda”, que se querem eternos mandões da literatura local. Hoje em dia, com Tagore morto, tendem a aparecer certos amigos nunca dantes declarados, daí fico aqui, de longe, só observando, e até consigo rir por dentro. Agora, em Goiás, quando se menciona o nome de Tagore, capta-se algum fingimento no ar, e já não falta oportunistas que, vislumbrando uma oportunidade de aparecer à sombra do falecido, deitam perdigotos sobre as boas qualidades do poeta. Gente fingida.
 
Tagore Biram não morreu nem foi esquecido pelos amigos. Quando foi a Moscou, acompanhei-o até o aeroporto; ele estava apreensivo, não sei se por medo de avião ou pela iminência de partir em direção ao desconhecido, num país distante. Ele gostava de cantar uma música sobre o medo de avião, do Belchior. “Foi com medo de avião que peguei pela primeira vez na sua mão”, diz a música. Num dado momento, ali no aeroporto, Tagore me disse que se ele morresse, seria eu a cuidar da memória de seu nome. Desde sua morte aventei o preparo de um livro sobre ele — ainda que modesto, com histórico, seleta de poemas e alguns testemunhos —, e venho reunindo material neste sentido, num projeto sempre protelado em virtude de uma série de coisas e minha vida nada fácil, mas que poderá aprumar-se, o projeto, a qualquer momento. Mesmo porque não é de se esperar que outros façam isso em Goiás, a não ser nós mesmos, que fomos amigos de Tagore Biram e de Pio Vargas, outro poeta que vai sendo relegado ao silêncio, até por culpa dos pretensos e omissos críticos literários que temos por aqui, cujos estudos críticos giram somente em torno de seus pares e, assim, em torno de si mesmos. Se bem que os órgãos culturais, estaduais e municipais — vai aqui a sugestão —, poderiam cuidar da edição dos poemas reunidos de Pio e Tagore, que foram, cada um a seu modo, dois expoentes da poesia produzida em Goiás. Por que não?
 
 
Pio,  que dizia ser poeta nas "horas vargas"
 
Fui amigo de ambos, prefaciei livros de ambos, e devo dizer que eles eram antagônicos entre si, raras as vezes em que nos reuníamos em mesa de bar para logo não saírem às turras, num confronto verbal ideológico ou estético; e me lembro bem que era Pio que sempre começava, provocando Tagore com algum comentário crítico. Tagore não era muito aberto a críticas. Eu mesmo publiquei, em jornal, comentário sobre seu livro “Flauta Noturna” e algo que eu disse, de passagem, o deixou ressentido, como se não esperasse de mim a observação crítica; contudo não deixou de ser meu amigo. Quanto a ele e Pio Vargas, em nenhuma vez testemunhei-lhes briga de verdade à mesa; eu intermediava e logo eles se acalmavam e se recompunham, embora alguém tenha publicado que, justamente “por razões estético-políticas”, Pio teria influído na demissão de Tagore como funcionário da Secretaria Estadual de Cultura, ainda no governo Santillo. Não muito aberto também quanto a seus assuntos pessoais, e que eu me lembre, Tagore nada me confidenciou sobre isso, então nem posso apor aqui a minha digital.
 
Já propus ao amigo escritor Edival Lourenço — e ele parece que se interessou — que tentemos publicar um livro geminado, ele enfocando o poeta Pio Vargas, que era da região de Iporá (GO) — a mesma de Edival, onde os dois se conheciam antes de virem para Goiânia —, e eu cuidando da parte sobre Tagore Biram, que lhe fui, sim, pelo menos por aqui, o amigo mais próximo e, possivelmente, o mais compreensível, que mais o aceitava como pessoa. Não quer dizer que não havia outros que o estimassem, como alguns “camaradas”, militantes de esquerda, e outros nem tanto. E não será pelo antagonismo dos dois que se deixará de reuni-los num livro geminado, como propus ao Edival.
 
Agora o poeta Brasigóis Felício, que também convivia com Tagore — que um dia nos homenageou publicando a crônica intitulada “O Braz & o Góis” —, me informa sobre o poeta chileno Carlos Henrickson, que vive em Santiago e, se bem entendi, está coletando textos com vistas a uma publicação na revista virtual “Lanzallamas”, em homenagem ao Tagore — um pequeno dossiê da obra do poeta goiano, publicada no Chile. Henrickson, assim como Sergio Parra e outros, foi amigo de Tagore quando este viveu em Tomé e Concepción, tendo tomado parte na edição de quase todos os seus livros publicados naquele país. A propósito, foi em Tomé que Tagore conquistou destacado prêmio literário, patrocinado pela prefeitura local, no valor de 50 mil pesos, que, segundo o felizardo me disse por carta, se não era muito, era suficiente para gastar durante toda a primavera chilena.
 
Na última página de seu primeiro livro publicado no Chile, sob o título “Enderezador de Vientos” (Editora da Universidad de Ciências Biológicas – Universidad de Concepción, 1996), Tagore enviou seu recado a quem interessar pudesse em Goiás: “Utilidad pública: Estoy desaparecido. Quien supiera de mi paradero, favor dejarme em paz.”
 
Nem por isso deixará de sempre ser lembrado. Nem por isso, também, deixar de republicar-lhe as obras, malgrado a mal-disfarçada indiferença de seus detratores e a desatenção ou exclusão por parte dos órgãos e entidades da cultura, muitas vezes privilegiando as elites sociopolíticas e culturais, via de tratamento diferenciado. Homenagens por aqui, somente para literatos-figurões, vivos ou mortos, onde a qualidade literária menos importa, desde que sejam personalidades oriundas de famílias tradicionais, ou que sejam “do meio”, como é praxe dizer, e que dêem ibope na mídia ou saldo médio político. O resto sobra por aí a sonhar que um dia os humildes e humilhados serão vingados. Homenagem, reconhecimento em vida, aos excluídos? Nem pensar! Nem mortos!
 
Do Chile, quando lhe enviei meu livro “A dança do intelecto”, Tagore escreveu-me dizendo que estava no bar a beber vinho, lendo a obra e rindo sozinho, com os fregueses querendo saber do que estava vindo. Disse-me ter adorado os versos de um poema em que, segundo ele, e se bem me lembro, eu ironizava e remetia à pqp a empáfia de certos acadêmicos. O poema era “The dance of the intellect among words” (vide Ezra Pound), e os versos eram estes: “Oui, oui, o trem já passou por aqui — object-trouvé, déjà-vu —, c´est la vie que nem sempre é toujurs, e vamos todos plantar chuchu.” Comungávamos, Tagore e eu, o espírito anarco no sentido verbal e brincalhão do termo, emitindo a nossa ironia e o nosso sarcasmo em direção aos bem-arrumadinhos e bem-comportados no sacrossanto seio da sociedade e da “cultura” entre aspas.
 
O dia 6 de janeiro foi a data de nascimento de Tagore Biram, que era natural de Olhos D´Água, antigo distrito de Anicuns e hoje município de Americano do Brasil — seu registro de nascimento o dava como natural de Anicuns. O próximo 13 de junho será o décimo ano de sua morte, sendo que a imprensa goiana se apressou a publicar que ele morreu sufocado pelo próprio vômito, quando seu editor no Chile me escreveu, e publiquei isso no Jornal Opção, que na verdade ele não morrera dessa forma, mas sim por lhe ter estourado uma úlcera que ele desconhecia ter.
 
Já Pio Vargas, cuja memória também merece as devidas atenções, nasceu em 7 de setembro — detestava essa data — e morreu em 8 de março (Dia Internacional da Mulher) de 1991, aos 26 anos de idade, por overdose de cocaína. Pelo menos, seu nome foi dado à Biblioteca Pública Estadual Pio Vargas, unidade da Agência Goiana de Cultura (Agepel), em Goiânia, tendo ele ocupado o cargo de diretor do Instituto Goiano do Livro (IGL), outra unidade desta mesma Agência.
 
Duas vidas, dois poetas, duas mortes trágicas. Escritores, poetas e instituições culturais estamos a dever-lhes a homenagem póstuma e o preito permanente em memória de seus nomes e difusão de suas obras. Enquanto isso, em Gotham City, a dupla dinâmica Batman e Robin troca figurinhas e deixa tudo correr por conta dos vilões da história literária em Goiás.

 


Três poemas de Tagore Biram


Prólogo

Chegou a hora de incendiar as palavras
e atiçar fogo na noite escura.
Ah, erga-se o facho das estrelas
nesta noite de puro abril:
eu quero a luz derramada
sobre a chaga do meu peito
e a sangria de minhas mãos à mostra.
E não me venham dizer que não é tempo
de falar de flores e que
passou-se o tempo de falar de amores.
Eu, do meu lado, não me cansei ainda
de amar com o meu amor desesperado
(Mesmo não havendo intervalo
no calendário de minhas dores).

Mesmo que me digam: “Não é tempo de falar de amores”,
eu viro as costas e não me importo
e abro as portas dos meus tumores.

Tudo que habita na retina do meu olhar
são os passos largos do barco fundo
no mar imenso do procurar.

Esta noite, sob o manto das estrelas,
erguerei o incêndio das palavras!
Venham todos assistir o grande espetáculo.
Não vês, na vidraça dos meus olhos,
uma colméia de abelhas? Uma centelha
desesperada, debulhando raios de luz?

Eis o prenúncio de um grande acontecimento.
(Não haverá gozo nem sofrimento,
mas a explosão da lucidez de um louco).

Venham todos! Vou incendiar o mundo
com um só dos meus olhares.
(Eu mesmo sou uma aldeia
e o meu coração pode matar a sede
de todos os mares).

Ah, eu peço pelo amor de Deus ou do demônio:
Abram as comportas do mundo.
Façam silêncio por um segundo:
aqui existe um homem incendiado
de amor e um coração que vai saltar
pela janela do peito! 


ÚLTIMO ATO
 

Com um tiro no crânio

o gigante Maiakovski

disse adeus à estupidez.

Com uma navalha

acariciando o pulso,

Iessenin, angelical,

despediu-se do tédio,

escreveu com sangue seu último suspiro.

Há também os que tomam cianureto,

e ainda, mais comumente,

os que saltam dos edifícios.

Quanto a mim, será mais terrível.

Comigo será diferente.

Farei meu ato-de-fé,

dançarei um ballet invisível

e cantarei a invenção da cigarra.

Ah, seguirei cantando e cantando.
 

Não. Não tenha pena da minha voz,

nem é preciso me dar a mão.

Apenas seguirei cantando

(e ninguém pode impedir que eu cante)

até que você se espante

com a última sílaba do meu coração.
 

A NAVALHA DOS ANOS 

A noite chegou lambendo

                            minha juventude

com sua língua tristíssima

E como se fosse

                   uma navalha,

a noite me sangrou

por mais de vinte vezes

                   Com sua

longa calda de solidão.

         Esta noite

                   mais de vinte

                   séculos

Ficaram por terra

como o golpe inevitável

                   da navalha

noturna e tristíssima

dos meus anos

 


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POR EM 27/10/2008 ÀS 12:02 PM

Estética Anartista

publicado em


Abaixo a roupa de baixo, com babadinhos cor-de-rosa, da melosa poesiazinha de armazém zen! Abaixo os versiprosinhas de homenzinhos sozinhos, roedores de unhas no zumzum dos shoppings, caçando morfemas e semantemas — chifres em cabeça de égua — pra escrever poemas sem língua, que não dizem nada a ninguém!

E vê se toma jeito, sujeito. Se toca com autocrítica. Sem essa de tudo quanto é crítica receber, às pressas, a pecha de preconceito.

Quebra a porrete os ossos da linguagem. Subverte a grafia, desarticula a pronúncia, monta outro esqueleto com os ossos do dia. Pô!&Cia.

Cria a vertigem. Carnavaliza o código de (im)posturas. Inaugura a loja de (in)conveniências. Torções semânticas, fraturas na estrutura sintática, dissolução dos signos, dissonâncias polifônicas.

Poesia é poliedro de sentidos. Abaixo o poema que só mela o drama, melô de futilidades circunstanciais, da emoção artificial, do enjoativo lirismo-naftalina, ou naftalirismo. E fora com os artifícios da mesmice no edifício do poema acadêmico-anêmico, minimalista onanista, feto putrefato de proveta, arroto, vomitório de provectos poetas de laboratório.

Indigesta poesia, esta que não (se) pensa e não se presta ao ludismo a olho nu do leitor voyeur. Nonsense, o chiste, a paródia e outros rebites do intelecto e do imo-senso. Aqui um eco de Joyce, ali um quê de Mallarmé, um ki de kiwi, um Kid QI e outros cotiliquês (vá se saber) pra enfiar no seu — bolso de veludo-cotelê.

Quem te viu, quem te lê. Cummings around again. Um isto de Pound cai bem. Quem não futrica não trisca a isca elétrica da estética. Finca o obelisco da tua anarquia, e manda o censor tomar, todo santo dia, suco no oco do kiwi, e soprar ou sapear em outra freguesia. Os críticos medíocres nada criam, mas cricrilam, cricrilam, cricrilam, ca(n)gando grilos.

Poeta maldito que se presta não derrapa na pista, não bambeia a tarraxa, acelera e queima a borracha. Poeta maldito não dá ponto sem nó, não dá o pé feito mulata, não dá nó em gravata e nó não dá em gota d´água, nem morde cabeça de prego que não seja o incômodo signo do desassossego.

Iconoclasta, força e ofício da contundência, poeta de praxe bate nos rins, dá murro em ponta de faca, dá soco na boca do estômago, deixa hematomas verbais no queixo das consciências escrotas.

Se teu poema não é novo, se é dèjá vu, o que se há de fazer que não seja replay? Se o poema é tardo, torna-o petardo. Inventa o signo, inverta a língua, cometa a subversão do código. Bem pode que o bode não passe de experimento, mas o experimento é febril e faz a diferença. Uma rosa não é uma rosa.

Quem não ousa se esclerosa.

Levanta mais cedo, pega o pano e as barbatanas do guarda-chuva, cria asas e vira morcego. Está com medo? Não exite. Salte! Coragem! E atenta-te ao que digo: vertigo. Poesia é vertigem. O resto é viadagem. Boletim de ocorrência da vadiagem.

Há controvérsia. Aconselha-se a não construir em casa um desses petardos, uma asneira dessas. Se construir, mantenha a bomba caseira longe do alcance das crianças.


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POR EM 20/10/2008 ÀS 04:01 PM

A briga com a égua negra e esquiva da forma

publicado em


Não se faz só por fazer, não se monta só por montar, mas para ser o que há de ser e não se sabe o que será, a não ser que não seja, senão que a coisa já feita, a saber-se a coisa certa. O que é, o que é? Que será, que será? Entenda-se. Não se confunda “coisa já feita” com coisa-feita de macumba.

O fruto ao palato do leitor. O caroço e sua jaça ao olho de lince do mestre, o senhor, que o trespasse com a pinça da devassa. O mestre peca por devasso e por conta de seus excessos. A seu próprio talante, o poeta se submeta, como de fato e com efeito se submete, contanto que para tanto se habilite.

Pobres rimas pobres! Poesia tensa, estressada, exacerbada, extravagante, essa que pensa e se extravasa. ”Exageradamente metafórica e lamurienta”, resmunga ali a crítica ressequida e acadêmica, dessas que a tudo dissecam com a lâmina fria do intelecto. Disseca a emoção como quem disseca um inseto. Vade retro!

Por certo que o sentido do poema é o fundo do sentimento, e este se conforma com a forma que vem de dentro. Toda forma é forma própria e se conforma ao seu poeta. Isso precisa ser visto e levado em conta, a saber se a forma assim o confirma. Se a égua rima o verso da água de cima com a água de baixo, vice-versa a mesma coisa e a régua mesma com as asas das coisas em cada casa. Se água que se bebe ou terra que se come e morre à míngua de boa aguada, se a vontade com a fome. Ordinariamente, mas nada ou nem tudo necessariamente nessa ordem.

O que se faz vem de dentro. Cá fora, no entanto, outra forma se impõe a outros contornos, e são outros quinhentos, um outro inferno.

A forma exterior se forja em seus fornos e no malho de sua bigorna. A forma em sua fôrma se enforma, se molda e se afirma. A forma é a têmpera e o suporte, a força do poema em que se bebe poesia.

Siderurgia e suor. Beber dessa água salgada. Domar a égua da forma. Domá-la pela brida, tê-la sob domínio, é o mínimo que se espera. O máximo é o que seria poesia. E o que será da poesia? Vai lamber a ferrugem da metalinguagem? Vai perder-se de si mesma? Sumir-se aos poucos nos vocálicos cubículos do minimalismo? Esfinge que se atira no abismo?

Vontade, força, empenho, diligência. A forma se conforma aos moldes de sua própria norma e ciência.

A égua esquiva escorrega na pedra lisa de sua água. Não se lhe dê trégua às rédeas. O poeta intenta cavalgá-la e subjugá-la daqui até a próxima primavera. Mas isso é uma outra história.


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POR EM 13/10/2008 ÀS 07:52 PM

Ironias da guerra

publicado em


1.
Tomou, então, Jesus
os dois peixinhos
e distribuiu-os
a tantos quantos queriam.


Querido pai, querida mãe.
Tudo bem por aqui.
A guerra está uma beleza!
Esta tecnologia bélica é mesmo surpreendente.
Dá gosto ver os estragos que faz.
E tome goma de mascar com cocaína,
e baseados pra pitar, que ninguém é de ferro.
Quanto a mim, não se preocupem, estou legal.
Uma explosão me arrancou as pernas e os testículos.
Vão me mandar de volta pra casa,
acham que já dei uma boa contribuição em prol do nosso país.
Disseram que sou um patriota supimpa.
Só lamento minha cabeça
ter sido arrancada do corpo, numa explosão.
Serei despachado num saco de dormir.
Ah, não vejo a hora de rever vocês,
embora o estilhaços do petardo tenham me deixado cego.
Ainda bem que na hora eu estava sem o meu Ray-Ban,
senão teria perdido os óculos também.
E só não vou assinar esta carta porque perdi
um dos braços na batalha,
e o outro sofreu gangrena e teve de ser amputado
aqui na enfermaria do front.
Agora não vou mais pensar nestas coisas,
pois nem sei aonde foram parar meus miolos.
Mas, puta que pariu, estou muito feliz
com o que sobrou de mim!
2.
Quando todos se saciaram,
disse Jesus a seus discípulos:
Recolhei os pedaços que sobraram,
para que nada se perca.
Guardai-os para os cães
que virão depois de vós.

Sex Symbols

Bem que se quis um kiss
nos mamilos de Cássia,
mas, quem TViu, olhos que só lamberam
alvas mamas sem os caroços do câncer.
Sônia só braga e não braguilha,
Cláudia foge da raia no vídeo
com os seus molejos anelídeos,
de sorte que na bruneca não lombardi.
De sex symbols, o que se tem,
além do que se come com o olhar?
A ilusão do olhar,
o vazio da ilusão
e a solidão do telespectador.
Os seios, porém, sei-os,
que os mamei de mamãe,
e sei os de jasmim,
que os mamei também.

Retórica da guerrilha

Uma transa em academia de malhação
Hay que endurecerse
pero sin perder la ternura jamás.
Che Guevara.
E há que emagrecer-se,
não perder a cintura, jamais.
Chega a vara!

A peste


Pretensos, pseudos, poetastros,
o parto das oficinas de versos.
Feito espermatos afoitos, fervilham,
no afã da fecundação.
Não rimam sequer ervilha com virilha
de mulher de Sevilha,
e se acham por cima quando rimam
mamão com mão.
Que maravilha!
Aptos nem seriam à distinção,
em verso livre ou branco,
de um caco de fato e seu cacófato,
uma mão e um mamão.
Destarte, ó Morte, mate-os.
Apenas um, por certo que o tal de bissexto,
fecundará o óvulo da poesia.
Ou, quando muito – glorioso dia –,
os sêxtuplos de um mesmo útero.
O resto perder-se-á pelo árduo caminho,
senão que morrerá na praia de tanto nadar:
fraquinhos demais, os bardos, para tanto mar.

Corno Cow(ntry)

Os panacas corneados às pencas,
levando chifres de rosquinha,
de tal sorte que, se lhes cai um,
vem a consorte numa rapidinha
e tchum,
atarraxa outro,
com os cumprimentos do vizinho.
Corno-cow, ou country,
boi corno o dono do boi,
e o cowboy de asfalto.


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POR EM 06/10/2008 ÀS 06:46 PM

Surfistas de Skate

publicado em


Prossegue a série da Folia Anartista.
Blocos desconexos entre a cabeça e o rabo do peixe.
E outros poemas de ocasião, como de praxe.


Surfistas de skate

O livro adotado é chato. Um saco. Um osso jurássico. Um pterodáctilo. Hábito de leitura? Delete. O barato é uma aventura com a musa da Internet. A bundinha redondinha de Lara Croft. Tomb Rider com chiclete. Se pluga. Pega uma onda de prancha e navega de skate.

Ó criatura, se isso aí não é um papo de pulgas! Daí vem o vestibae te pega. Tu levas pau em literatura.

Charges de Charles Chaplin Dj de Janis Joplin

O professor de literatura, que figura! Um ser insone e descabelado. Um homem fino, feito folha de papel vista de lado. O nariz de estile, num perfil de sulfite. Magro, enfronhado em seus panos amarrotados. Um terno de linho desbotado e puído, de cor indefinida, meio cor de moranga, meio furta-cor, meio pardo, meio-tom de burro fugido. Lâmina de alumínio que se amarrota de um prato de self service: o rosto do mestre. Em brochura ou capa dura, o cardápio. Moinhos de vento, a marmita do marmota. Um homem amarrotado, de fato. Um tipo com a roupa de seu estereótipo. Sobrecarregado de livros. Os bolsos do paletó abarrotados de pocket books. Shakespeare! Saúde, professor.

O dia em que o boneco Chuck deu um teco no rinoceronte de ionesco

Um poliglota, o Hipólito. O hipopótamo. Cheio de línguas. Latim. Grego. Um esnobe. Uma íngua. Um chato de galocha. Etílicos, inchados, os olhos-bulbos. Um sábio com a boca cheia de vocábulos. Por mares nunca dantes. Hipólito Sanchez, a pança. Ordenança de Quixote, citando Oscar Wilde: Toda arte é absolutamente inútil. Dose pra elefante. Dá-lhe agulha hipodérmica nos glúteos. Daí deu a louca no Chuck, o mais foliento do grupo. Não estuda. Rodou na matéria sobre o teatro do absurdo. Fora de prisma, foi um zero à esquerda no comentário sobre surrealismo. Levou zero como refresco no texto sobre a peça de Ionesco. Dançou com o rinoceronte. Daí deu um teco na nuca do Hipólito. Nonada. Tiro que se ouvi foi de escopeta, não. Foi saco de pipoca.

Enigma no planeta dos teletubes

Estranho mundo novo. Aonde foi o povo? Estranha paisagem. Coelhos e meninos felpudos
habitam o mundo silencioso do tubo de imagens. O mundo tele-entubado, de bebês clonados. Que meninos são esses, fofos, feito casulos de estufa? Roxo, vermelho, verde, amarelo, são cores de que bandeira? Boa coisa não me cheiram essas criaturinhas macias, com essa alegria meio que artifício de dentifrício e fantasia. De novo! Aonde foi o povo? Onde estão as pessoas? Estão ocultas na toca do coelho? Ou tudo não passa de paranóia de Alice no país das maravilhas, com a pulga atrás da orelha?

Caravelas d'além-mar

Santa Maria, Pinta e Nina. Caravelas do descobrimento. Colombo se perdeu das Índias e encontrou o penico da América. Meleca!, impreca o cidadão careca. Senta, Maria, pinta as meninas do teu olhar, e deixa o pau comer. Caveiras e caras velhas ao vento d´além-mar. Esquadra de Cabral avista o Monte Pascoal e logo empina o pau da bandeira na Terra de Santa Cruz. O boga nativo se desprega na piroga. As indiazinhas se rasgam sangrentas. Urucum no corpo, o sangue do estupro. De ufanos quinhentos anos, navegamos e celebramos o matrimônio. Somos o que herdamos. Enfim, sós(ias) da Colônia.

Um rango no Mc Donalds

Detona um sanduba no McDonalds e se dá ares de status. Mostarda, catchup e maionese à vontade — tudo a que tem direito, o sujeito —, como de praxe num x-tudo snob. E lá se vai o sit-pass. Simbora a pé pra perifa, de volta ao muquifo dos mosquitos. Mas o que é isso? O moço leva no rosto um pedaço de folha de alface. Leva de lembrança? Houvesse mais grana, comeria uma vaca, o cardápio, o guardanapo e a mina com o nome do McDonalds no bolso do uniforme. O homem e sua fome de logomarcas.


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