Um banho de descarrego
Dinamitar pontes do passado — elas que nos trouxeram até aqui — é fácil. Difícil é construir outras. Que novas pontes os dinamitadores estão construindo? Olhem-se, cada um para si mesmo — olhem para o nada —, e respondam, individual e coletivamente: o que estão a construir, senão a pedreira da própria desconstrução
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A propósito de umas discussões — algumas meio que primárias — via comentários da Bula, isto de se dizer que Freud e Marx estão ultrapassados, seja dito que Freud e Marx, assim como os gregos e tantos outros, foram e ainda são pontes da história e do conhecimento ou bagagem intelectual que hoje exibimos, por vezes até nos pavoneando, e outras em que nos arvoramos com a notória arrogância do saber. Dinamitar pontes do passado — elas que nos trouxeram até aqui — é fácil. Difícil é construir outras. Que novas pontes os dinamitadores estão construindo? Olhem-se, cada um para si mesmo — olhem para o nada —, e respondam, individual e coletivamente: o que estão a construir, senão a “pedreira” da própria “desconstrução”? Se é que me entendem as ásperas aspas da pedreira.
Há que retornar, sempre, às fontes do tempo — à memória do ser, aos livros do passado —, onde se encontram, ainda sólidas, mas esquecidas, algumas valiosas lições. Páginas ainda vivas, verdades que ainda correm nas veias do livro da vida, ou da história, como queiram. Não foi por menos que, ao esboroar-se dos muros e estátuas do comuno-socialismo totalitário que grassava aí pelo mundo, comentei que era hora de reler Marx, para checar os pontos vulneráveis das pontes, as rachaduras da contradição e a insustentabilidade da asfixiante atmosfera entre aquela ideologia mal-conduzida e os direitos humanos, e daí a queda anunciada, pois que vinha se anunciando, dia-a-dia se avizinhando, para desabar, como um velho abutre, sobre os telhados do mundo, e abater os ânimos daqueles que se deixaram levar pela utopia da terra prometida.
Dez anos antes, por conta da incoerência entre a teoria e a prática ideológica da época, eu vinha vaticinando que a queda era iminente, e alguns canhotos, “de esquerda”, por pouco não me linchavam em rodas de bar. Sim, eles também bebem, os chamados “intelectuais”, a “inteligentsia”, e pra quem não sabe, tem muito pau-d´água de esquerda. E quase me linchavam, a mim, que sempre vim pela margem esquerda da vida, sem que a vida de todo me iludisse. Com a queda, um advogado em Goiânia chegou até mim com ar desolado e uma pergunta: “Que catástrofe, Valdivino! Passamos a vida inteira acreditando nisso — referia-se ao socialismo —, e acabou tudo. O que vamos fazer agora?”. Eu não tinha a resposta, como ainda não tenho. E, todavia, reitere-se, ainda é preciso reler Marx, e nem me perguntem se Freud explica os vivos, quando os sinos já não dobram para os mortos.
Ah, poeta John Donne, parece que a morte de um homem já não nos diminui. A vida de hoje — a vida dos outros — não tem valor nenhum. Os valores inerentes ao ser humano não têm mais importância. Quem tem ouças, que me ouça: o homem vive de insignificâncias, assim como as galinhas, bicando miúças no terreiro. E eu aqui a resgatar velhos vocábulos do tempo de Machado de Assis e Eça de Queiroz. “Ouças” para dizer ouvidos; “miúças” para dizer miudezas. Entre essas e outras, apraz-me resgatar palavras antigas como penduricalhos em meus escritos. Informe-se o leitor ao que escrevo. Enriqueça o seu vocabulário. O dicionário não morde.
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Que vultos são estes na penumbra do horizonte? Formas difusas. Os homens são sombras, as sombras são assombrações. Silhuetas invertidas nas retinas da incerteza. Um brinquedo de dedos e mãos nas paredes duma noturna caverna, à luz de um archote agonizante. No fundo, o homem ainda continua naquela caverna primitiva, descrita por Platão. Se dela alguns saíram em certo dia, andam ainda às cegas, ofuscados pelo sol do conhecimento e da razão. O futuro se configura sombrio. Dá-lhes, Derrida! Desconstruir é “fragmentar para demonstrar que o que está sendo afirmado é, na verdade, inerentemente falso”. Não olhem para mim!
Falsas as verdades do homem, pelas quais ele se trai. Ele que sequer aprendeu a construir-se em sentido amplo, que dirá desconstruir-se, rever-se, repensar-se e soerguer-se para a sua própria absolvição. Até aqui, não há nada que o redima de toda a sua criminalidade, de sua hedionda vida pregressa. Se Deus afundou o Titanic quando desafiado pelo homem — “Nem Deus afunda o Titanic”, disseram, em afoita bravata —, tomem por Deus o gigantesco bloco de gelo e a fúria do mar. Pois também Deus, ao que parece, e assim como se diz do Diabo, tem mil disfarces ou formas de se manifestar. E não será Deus, agora, a tardia tábua de salvação do homem, até porque nunca foi, como é visto e provado está. Basta olhar para a barbárie, a carnificina, o mundo sangrento em que vivemos. É visto que muitos dos homens que “governam” o mundo só pensam com as tripas, só têm excremento na cabeça.
Não, não vá por aí. Não é bem por aí o reino dos céus, aqui falando por metáforas. E não é de joelhos que se chega lá — e “lá” é um lugar metafórico —, mas de pé, altivo, digno, como o Deus da Sabedoria certamente espera, se uma vez mais aqui me dou a entender. Há que clarear-se um novo caminho para a humanidade, descortinar-se um outro horizonte. Nietzsche alardeou a morte de Deus — “Deus está morto, e fomos nós que o matamos” —, e Deus matou Nietzsche com a loucura. Morreu Nietzsche “delirando”, admitindo seu “erro”, meio que se “reconciliando” (?) com Deus. Está escrito. Após o quê — e eu já disse isso —, Deus tirou férias e não sabe quando volta. Estamos por nossa conta e risco, ao deus-dará. Salve-se quem puder. Ah, sou mesmo um homem de pouca fé — porca fé —, a diferença que há entre mim e o bule de pôr café, como diziam os avós — os avós dos outros, que os meus, todos os quatro, eram mortos quando nasci. A falta que nos fazem os avós.
Meu temor, meu sincero temor, e meu pesar — minha profunda tristeza e meu irreversível desencanto —, são pelos inocentes, são pelas crianças, pelo mundo que estamos entregando a elas, e por elas que estamos entregando à sanha sádica do mundo, aos cães assassinos, molossos dentuços com cara de gente. Onde foi que a humanidade adquiriu essa cara de pitbull? O mundo é um canil. E ainda tem gente sorrindo de orelha a orelha, achando que está tudo uma maravilha. Contemplo meus netos — como contemplo as crianças do mundo —, meninos e meninas ainda, e sou acometido por um estado de choro surdo, que me sobe, aos engulhos, até os olhos. E não me prejulguem. Não vai aqui um melodrama barato, antes o meu desencanto com o que somos e sou eu. Estultos adultos, sem indulto ou salvação.
A humanidade não me ilude. Não mais. Já comprei gato por lebre, já comi tapeação, já engoli desaforos, apanhei muito e pouco revidei. Hoje revido com palavras, esse meu jeito de bater, mau jeito de articular-me. Pelo que tenho observado ao longo da vida, a humanidade perdeu mesmo a qualidade. O grande mal é que os maus são maioria, escrevi no livro “A trompa de Falópio”, premiado em Belo Horizonte. Asteróide, Asteróide, abre as asas sobre nós. “Muitos serão os pretendidos, poucos os escolhidos”, aprendi isso no espiritismo — do qual um dia me afastei —, como aprendi, paradoxalmente, que “todos são iguais perante o Pai” e que “Deus não tem nenhum filho a perder”. Donde se conclui que não se conclui nada.
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Já com anotações prévias e já em vias de redigir este texto misto de realidade e ficção — uma e outra se fundem no mundo em que vivemos —, passo por uma banca de jornais e avisto a revista “Discutindo Filosofia”, coincidentemente com Karl Marx na capa e, abaixo de seu nome, a legenda: “As contribuições filosóficas do pai do comunismo” — nunca fiz auto de fé, nunca me professei comunista convicto, antes anarco-pensador e franco-atirador verbal que sou desde menino. Em matéria assinada na referida revista, o professor de história Guerreiro Parmezam mostra porque Marx é sempre atual. “Marx, em sua apurada análise dos movimentos do capital e o vício capitalista em valorizar o próprio valor, o que gera uma profunda contradição à própria lógica do ciclo produtivo, teve a possibilidade de concluir que os fenômenos das crises econômicas eram inerentes ao próprio sistema.”
Hoje, de acordo com o professor, quando os economistas, em pânico, vociferam a questão das “bolhas” no setor financeiro e a fatalidade de suas explosões como geradoras das grandes crises, deixam claro que Marx “ainda não está ultrapassado”. O pensador alemão escreveu que o capital, em momentos de expansão, sofre um verdadeiro “estufamento”. Olha aí o olho da bolha. Como lembra o mestre Guerreiro, “foi assim no último quartel do século retrasado, foi assim no craque da Bolsa em 1929, foi assim no mercado asiático durante a década de 1990 e é assim agora.”
Quitéria, prima de minha esposa, costuma dizer: “Comigo é na manteiga”, o que é bem diferente de “viajar na maionese”. O ministro Guido Mantega — segundo se publica —, com base em tese do economista britânico John Mainard Keynes (1883-1946) — uma fonte de décadas atrás, observe-se —, orienta o presidente Lula para estimular o consumo dos brasileiros, buscando aí uma forma de acudir o mercado e atenuar efeitos da crise financeira que ora avassala o mundo todo. Muita gente aí, atolada no lodo.
Nos lastros e lustros e soluços da História, homens como Marx e Freud, além dos gregos e quejandos, são os “astros”, não da astrologia, essa coisa de horóscopo, mas da astronomia, das luzes estroboscópicas perscrutando os horizontes e o infinito. E são os rastros, os sinais, os marcos do homem em sua caminhada, mesmo daqueles que, “tresmalhados” do caminho da realidade nua e crua, escabrosa, turbulenta e tormentosa, enveredam-se pelo “desvio” e tomam o caminho de Santiago — ou de Bela Vista de Goiás, pra chupar jabuticaba —, o que não deixa de ser uma via de fuga a mais, em busca de iluminação e paz interior. Longe do selvagem burburinho das metrópoles e do mundo. Apartados dos ratos, digo: do resto dos homens.
Quando digo “selvagem”, entenda-se que, animais por animais, também o homem é animal, com a diferença de que os “animais selvagens” — os predadores no esquema natural das coisas — a que nos temos referido, são puros em sua animalidade, porquanto sem a maldade consciente do homem. O animal selvagem, movidos pelo instinto da natureza bruta, é puro como não é o ser humano, esse monstro horripilante que nos habita, oriundo do “coração das trevas” — O horror! O horror!, como se lê no romance de Joseph Conrad. Único animal que pensa, como se afirma, será o homem um aborto da razão? “É no cérebro e somente no cérebro que se cometem todos os pecados do mundo”. Irretorquível frase — a não ser que se troque “pecados” por “crimes” —, de cuja autoria não me lembro. Diga aí, Nilto Maciel, você que uma vez citou-a em texto seu aqui na Bula.
De resto, uma opção, uma escolha — o caminho de Santiago ou de Bela Vista —, um direito de ir e vir de cada um, e assim a fé, a crença, a crendice, a superstição, tanto quanto a idiotice e a estultice encastoadas, cravejadas, que não se desencrava de cada um. Todo caminho escolhido é “um risco no bordado” do rebanho, podendo que seja uma comichão curticante na região do cóccix de cada qual, por conta do “bordado da urtiga”, celenterado vegetal que pinica como nunca o pó de mico. Imagine-se o que se conta: o sujeito sai do pagode, na roça, e busca a moita do desaperto, onde, já aliviado, leva a mão no escuro, arranca a folha de urtiga e com ela se limpa. Segundo se conta, haja lordo para tanta petição de miséria! “Lordo”, uma velha designação para ânus. Mas, voltando ao caminho, o lobo do homem está em toda parte. Há sempre um cão pelos caminhos, em figura de gente. Olha o padre pedófilo aí, gente! Cuidado com o cachorro.
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O bendito, o bíblico livre-arbítrio a servir de cunha quando o limite mental do homem se trava sem resposta para a questão da não-interferência de Deus na barbárie humana. Ou será que ele interfere por meio das catástrofes naturais, com a fúria dos elementos? E por que não, então, diretamente sobre os campos de guerra? Tem que ser sobre as populações indefesas, punindo e matando até crianças, que são inocentes? Ah, Senhor Deus, sois tão grande, que sois demais pra minha pobre cabeça. Chega a doer-me o juízo. Pergunta-se: “Por que Deus, onipotente, onisciente e onibondoso, permite tantas desgraças no mundo? Por que não interfere e acaba com elas?” A resposta já vem pronta: “Ah, mas Deus deu ao homem o livre-arbítrio.” O maldito livre-arbítrio, quando dirigido para o mal. Sem querer generalizar, a pedofilia é o livre-arbítrio do clero?
Tem aquela piadinha do penetra que entra de sola em roda de piada e pega a todos desprevenidos, valendo-se do costume de conjugar-se o verbo “viram” ao invés de “ouviram”: “Aí, vocês já viram a do padre? Não? Então suspendam a batina e vejam.” Rá-rá-rá, como diria ou riria o Zé Simão. A rever-se, por essas e outras de padres e pastores, praticadas por aí — por exemplo, extorquir dinheiro por meio de hipnose coletiva e evangélica instigação do paroxismo religioso, às raias do fanatismo, enceguecido e obstinado em nome de Deus —, a rever-se, eu dizia, a questão da liberdade de crença, na forma execrável de suas práticas. Tudo que é demais, vai indo, passa. Passa da conta, passa dos limites, sob as barbas coniventes e convenientes das autoridades, da lei e da justiça. Quem mais precisa de um banho ou sessão de descarrego, são os próprios charlatães. E de que autoridades estamos falando? De que lei? De que justiça?
“O risco do bordado” é romance de Autran Dourado. “O bordado da urtiga” é título do premiado livro de Gilson Cavalcante, na capital do Tocantins. Palmas pro Gilson. Já uma vez, num trocadilho em jornal ou revista, escrevi “Palmas pro Tocantins”. Fui convocado, em cima da hora, pra mesário ou secretário de mesa no plebiscito pró-criação do Estado do Tocantins, realizado no norte de Goiás, por ocasião do governo goiano Henrique Santillo. Estou ou devo estar nos registros, nos anais da história. Entrei para a História, não de forma trágica como a de Getúlio Vargas, que cometeu suicídio, ou foi suicidado, e deixou (?) um bilhete: “Saio da vida para entrar para a história”.
É dito que só há dois caminhos: o caminho do vício, da perdição, e o caminho da virtude. Mas então não existe o caminho do meio?, há de perguntar aquele que persevera no caminho da perversão ou da própria perdição. O meu caminho é o risco da palavra. A palavra é um risco que se corre, uma aventura que se arrisca, está escrito no premiado livro “Tessitura do ser”, de minha lavra.
Como se, com esse lucrativo negócio de caminho — “eu sou o caminho, a verdade e a vida” —, possível fosse fugir da negra realidade, inerente a todos, e que a todos cumpre enfrentar e modificar, aqui e agora — sim, porque todos ajudaram a construí-la. De uma forma ou de outra, todos têm a sua parcela de culpa. Viver é um desafio, tanto maior quanto mais a vida se ponha no olho do furacão, e muitos são postos no olho da rua. Viver sem fugas à guisa de frágeis refúgios. E sem essas desgraçadas “viagens” ao fundo do poço. Essas viagensviadagens — dá vontade de dizer assim, e não me venham com a pecha de preconceito. Falta de compreensão? Não. É raiva mesmo. Raiva por compreender a humana estupidez, ainda mais de gente adulta, que não é mais garota ou adolescente para embarcar nessas e noutras.
Baladas, pagodes, festas “raves”, um termo cujo significado a maioria dos adeptos nem sabe explicar. Que onda! Com site: www.thewave.com.br e e-mail: www.therave@aemagemeu.com. Nesta “wave” e nesta “rave”, nessa onda toda, é que o mundo se afunda. Muito, mas muito diferente daqueles embalos de sábado à noite com John Travolta, nas telas do cinema, anos 70. Embalos certamente “caretas” para hoje. Sabe-se que uma “rave” extrapola os limites da galera. Muito som — vinil, DJs e quinze mil volts de potência, durante horas e horas, madrugada afora —, álcool, drogas, sexo e morte. “Rave”, o que quer que isso signifique, ao pé da letra. “Haven” a gente sabe que é corvo, o pássaro negro do mau agouro, para os supersticiosos. O coletivo de corvos em inglês não é “murder”, a mesma palavra para “assassinato”? A sombra do corvo ronda a juventude. Que ela se cuide, se é que sabe se cuidar, como tanto alardeia aos pais.
O verdadeiro “barato” é viver sem subterfúgios de trânsfugas, como esses rapazes de franjas na testa, filhinhos de papais, e essas frangas de saias e cheias de rugas por conta das drogas. Esse encolhimento viscoso, de caramujo; essa gosma adentro de sua concha. Tem gente assim que dá dó — e dá mesmo raiva, essa insistência na estupidez —, como tem o que dá nojo, o político corrupto, tão mais nojento que um menino catarrento. Mais que oratório e oração — que horas são?, são horas, meu irmão —, a vida é oratória — palavra e ação —, trajetória e história. E onde o orador da palavra nova? Onde a verdadeira palavra da salvação? Aqueles que procuram, buscam os caminhos com os óculos escuros da fé para enfrentar a brutal realidade, os demônios do cotidiano — para eles, os demônios são sempre os outros —, mas não enfrentam a si mesmos, não admitem, não querem admitir, e não encaram os próprios demônios.
Parábola para a Bula, ou parada para literatura: Vai o sujeito caminhando pela estrada, e, na quebrada da curva do bambuzal, se depara com uma suçuarana, calmamente sentada no chão vermelho, como se ali estivesse à espera, como se o aguardasse, como se o destino fosse. Assustado e súbito, ele estaca no meio da estrada, olhando pra onça, e a onça olhando pra ele. Não lhe ocorre, a ele, nenhuma outra iniciativa, senão correr, mas correr já não pode, com as pernas a tremer e ele prestes a se borrar. Uma situação típica: se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come. O eterno impasse de alguns segundos. Até que a onça, felina e feminina, com uma lânguida lambida de beiços, se manifesta: “Eu vou te comer”. E como isso aqui é uma estória da história, o pobre homem, incauto nas curvas e no andar da carruagem do mundo, é literalmente comido, arrastado pro mato e vorazmente devorado pela história, senhora de todas as vidas. E acabou-se a história — o propalado fim da história. Só lhe sobram, do homem devorado, os ossos e as precatas dos pés rachados, pra contar-se o acontecido.
Moral da história, se há alguma moral por aqui: a ir-se pra onde vai indo o homem, o que lhe resta, senão reler as obras de Marx e de Freud, em regime de penitência ou purgatório? Se Freud não explica, Marx se trumbica, vice-versa a mesma coisa, que não é a coisa mesma, então não é coisa nenhuma. A opção “b” é missão impossível, um verdadeiro castigo: ler e decorar, de cabo a rabo, a lista telefônica. Talvez com um cérebro eletrônico. Castigo infernal seria contar nos dedos quantos caracteres contém a Bíblia.
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Conquanto “ultrapassados”, como dizem por aí — e não só aqui na Bula —, e ultrapassados em aspectos, diga-se de passagem, Freud e Marx ainda estão na pauta do nosso dia-a-dia, como o sórdido e contudo sagrado prato de feijão com arroz em nossa mesa, e tanto mais pertinentes quanto menos polivalente o santo padre-nosso, até porque a história com Deus e sem Deus é uma roleta sangrenta, um jogo de dados chumbados e viciados, onde o valete é o sinistro crupiê. Um pocker em leque de cartas marcadas, um jogo de espadas, um tinir de floretes obviamente afiados, onde o esgrimista-mor é o crápula do rei nu, despido de sua capa. E ali o pior de seus oponentes: o Curinga, que do rei só quer o poder para também reinar, mandar e dominar. Como de praxe o piche no caminho negro dos homens. Petróleo, gasolina, ouro, diamantes, dinheiro, drogas, testosterona e muita adrenalina bélica, guerras, massacres, assassinatos, genocídios. Ecce homo. Sim, eis o homem. E onde anda, José Jacinto Veiga, o deus dos didangos?
A história é uma conspiração de perfídias, onde algumas damas e rainhas, que se habilitam e se prestam a instrumentos da história espúria, escondem lâminas, pequenos punhais nos perfumados seios e sob suas saias, na liga de sedosas meias, e frascos ou cápsulas de veneno nos entremeios carnais, com os miasmas de seus encantos. Por outro lado — bonita e bendita figura —, o símbolo da liberdade é uma mulher marchando à frente da revolução. O símbolo da justiça é uma mulher vendada, com a balança do equilíbrio e a espada com os rigores da lei. Eia pois advogada nossa, amiúde uma ceguinha esperta, advogando em causa própria. A justiça tem casa própria, e, vezes muitas, por decisões impróprias, deixa muitos ao relento da injustiça.
As idéias mesmas giram, vão e voltam, e os fatos se repetem com o redemoinho dos ventos. Todo tempo é tempo — a qualquer hora — para o olho do furacão. Os ventos do norte movem moinhos, sim, ao contrário do que cantavam, décadas atrás, aqueles jovens secos e molhados do Brasil — o “sangue latino” nas veias musicais, a branca e seminua magreza de Ney Matogrosso, com os seus requebros e suas penas coloridas. Os ventos do Norte movem moinhos e redemoinhos. Berra o boi na calçada de Wall Street — e por ali os adoradores do bezerro de ouro —, estremece a Bolsa de New York City, late o Cão ao reverso de Deus na nota de um dólar: “In God We Trust” — Em Deus Confiamos —, onde God, ao inverso, é Dog, o Cão. Será o guardião do portões do Fort Knox, base militar norte-americana, onde se amealha boa parte do ouro do mundo? Ocorre-me Cérbero, o cão tricéfalo da mitologia grega, guardião do portão do inferno e também guardião dos mortos. E os mortos-vivos, os que venderam a alma por dinheiro, quem os guarda?
Os pregoeiros da Bolsa agora roem as unhas, os investidores se descabelam. Nos chiqueiros do mundo, a porca torce o rabo. E tudo por causa do dinheiro, o maior dos problemas criados pelo homem. Se o dinheiro constrói maravilhas, também destrói o homem e suas maravilhas. As Torres Gêmeas, por exemplo. Destruídas pelo dinheiro do terrorismo, ou pelo terrorismo do dinheiro, se aqui me acompanham a extensão dos termos, e porque tudo no mundo é dinheiro, dinheiro, dinheiro, combustível para o poder político e a política do poder. Estão me entendendo o jogo?
O mundo é mesmo um circo. O homem, na lama de sua miserável condição humana, é risível, tragicômico e patético, amiúde ridículo. Tenho dito. E antes que me tomem por palmatória do mundo, aqui me tenho circunscrito. No lamaçal da história. Uma parte inseparável dela. Sórdidos. Somos todos sórdidos.
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