revista bula
POR EM 07/11/2012 ÀS 09:37 PM

Exercícios para devorar um carvalho

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Para não continuar morrendo de inveja das conferências fictícias de T. S. Eliot no livro de perfeição incontestável de Gonçalo M. Tavares, isolo uma frase do romance “As Vidas de Dubin”, do norte-americano Bernard Ma­lamud, para uma análise também fictícia, pois tudo que gira na esfera do teórico é imaterial. “Às vezes sentia-se como uma formiga pronta para devorar um carvalho.”

Bernard Malamud é mestre na inserção de silogismos poéticos de extrema sabedoria em suas narrativas. No entanto, nem tudo que é sábio carrega praticidade no mo­mento de aplicação nos atos de enfrentamento da realidade. A poesia e a sabedoria não existem para serem postas em execução na práxis. A poesia e a sabedoria existem para enlevar, engrandecer, deixar evidente que em algum mo­mento o indivíduo pode agir heroica e belamente.

Em minha análise, não vou ter em mente o personagem romanesco a que ela se refere, mas o homem enquanto ser presente na realidade, materializado, que atua, constrói e destrói, pois, o ato de devorar exige materialidade tanto do devorador quanto do elemento a ser consumido — exige presença e resistência corporal um frente ao outro. As águas devoram as margens. O mar devora o barco. O convidado devorou a galinha caipira. A mó tritura o grão. Avalio que é no mínimo estranho dizer — devorou o romance em três dias. Devorar é comer, é destroçar com ligeireza. E para comer um livro não são necessários três dias. Pode-se muito bem comê-lo em dez minutos; admitamos, então, que um livro possa ser devorado em meia-hora para não perder a elegância das boas maneiras à mesa e também para não prejudicar a digestão.


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