revista bula
POR EM 19/07/2012 ÀS 10:37 PM

Eva Perón

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Tradução inédita de um conto de Juan Carlos Onetti, publicado no terceiro volume de suas obras completas

Juan Carlos Onetti

De modo que ali estávamos amontoados e re­lativamente imóve­is, olhando através das ja­­nelas as dissimulações, revelações, leves intoxicações de olhos inimigos, conversando com astúcia, com simulada ênfase, tateando entre as frases vagas e nosso vazio adequado por onde ia a deslizar o toque do telefone negro, trazido até o centro da mesa redonda que cercávamos, respeitando e amaldiçoando como um deus.

Falsamente lentos, mecânicos, analisando falatórios, deduções, pressentimentos, mais numerosos à medida que iam crescendo as noites, quase nos entorpecendo na sala enquanto chegava do vizinho de baixo o ruído de dilúvio das máquinas de escrever e, mais tarde, quando o único morto era a esperança da morte adiada e esquiva. A agitação da imprensa anunciava outra edição de “O Liberal” sem nota de luto, nem fotografia da Senhora, nem o editorial já escrito por mim, que falava de truncamento, inescrutáveis desígnios, caridade cristã e perene exemplo luminoso. O editorial havia sido feito, semanas atrás, quando começou uma manhã cínica, alcoólica e insone; eu incomodado pelo casaco e as luvas, colocados sob os enormes retratos severos, protetores, de meu pai e meu avô. Muitos mais, e também de passos desconhecidos, nas horas noturnas, abandonadas à superstição de que a história se escreve à noite e às três da manhã morrem todos os doentes. Assim, naqueles dias, a imprensa começava a funcionar às quatro, às três, para deixar uma hora de espaço, de chance, à notícia que não queria chegar. 


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POR EM 05/07/2012 ÀS 10:21 PM

Duas traduções inéditas de Manuel Bandeira

publicado em

“Chambre vide” (Quarto vazio) e “Bonheur lyrique” (Feli­ci­da­de Lírica) foram escritos em francês por Manuel Ban­dei­ra e publicados no livro “Li­ber­tinagem”, em 1930, sem haver uma correspondente versão em português, como é o caso de outros poemas que o autor fez nos dois idiomas: “Nuit morte” (Noite morta), “Fleurs Famées” (Flores murchas) e “Évocation de Recife” (Evocação ao Recife).

QUARTO VAZIO

Petrópolis, 1925


Gatinho branco e cinzento

Fica ainda no quarto

A noite está fria lá fora

E o silêncio pesa

Eu tenho medo da noite

Gatinho irmão do silêncio

Fica ainda

Fica comigo

Gatinho branco e cinzento


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POR EM 14/06/2012 ÀS 05:46 PM

Três poemas de Juan Carlos Onetti

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"A peculiaridade e a importância da obra do uruguaio Juan Carlos Onetti só foram tardiamente reconhecidas. Seus personagens complexos, sob o signo do inconformismo e do desencanto, transitam pelo espaço mítico da fictícia cidade de Santa Maria. Com uma visão de mundo tão lúcida quanto corrosiva, Onetti, dizia encontrar seus temas em 'sonhos diurnos', por meio de um 'impulso onírico'. O reconhecimento do significado de sua obra de fato só veio após 1960. Mesmo assim, sua diferença em relação aos escritores do 'boom' era patente. Em Onetti nunca houve qualquer preocupação com cor local e a influência de Faulkner, Céline e Borges deixava-o distante da magia e da fabulação."

Neste post, apresentamos uma faceta pouco conhecida do romancista e contista uruguaio — o Juan Carlos Onetti poeta. Os três poemas publicados, são seus únicos poemas conhecidos. A tradução é da escritora Nina Rizzi.


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