revista bula
POR EM 27/10/2008 ÀS 11:56 AM

Sobre o inconsciente

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Cornélio Basso fez uma pausa. Agarrou o copo e o levou aos lábios. Na platéia houve inquietação. Alguém tossiu. Da primeira fila de cadeiras pareceu sair um homem agachado, ou pequeno. Uma criança, talvez. Pôs-se de quatro, de costas para o orador, no início do corredor atapetado. Cornélio voltou a falar. Os desejos recalcados não deixam de ter uma existência no inconsciente. No entanto, a platéia se mostrava inquieta. Ouviram-se sussurros. O homem agachado pôs-se a andar pelo carpete vermelho, rumo à saída. Subiu o primeiro degrau, caminhou, subiu o segundo. No inconsciente os desejos inconciliáveis podem coexistir. Na primeira fila uma cabeça olhou para trás. O fugitivo já ia quase ao meio do corredor, a passos lentos e cadenciados. Os desejos inconscientes não são modificados nem pela realidade exterior nem no decorrer do tempo.

À saída, uma hora depois do início destes acontecimentos, Terêncio Floro perguntou a Helvídio Lucano se vira um vulto deixar a sala. Não, não vira nada, a não ser Cornélio. Vira e ouvira. Pois fora ali para ver e ouvir Cornélio Basso. Por acaso esse vulto tinha alguma importância? Terêncio desculpou-se.

Pensou tratar-se do vulto de Torquato Gélio. Porém Torquato jamais faria aquilo. Nunca se retiraria de uma conferência. Ainda mais se o conferencista fosse Cornélio Basso. A não ser que tivesse sentido algum mal-estar.

Lélio Silvano chegou à calçada, olhou para os grupinhos formados aqui e ali, e optou por Terêncio e Helvídio. Deram-se palmadinhas nas costas. Cornélio estivera magnífico. Sim, o inconsciente só obedece ao princípio do prazer. Ele disse isso? Não lembro de ter ouvido isso. Provavelmente falou isso no exato momento em que acontecia aquilo. Lélio sorriu, ensaiou uma risada, conteve-se.

Referia-se Terêncio ao cachorro? Helvídio olhou, espantado, para Lélio e, em seguida, para o chão.

Cachorro? Que cachorro? Ora, não entendia como haviam deixado um animal entrar no anfiteatro.

Desleixo total dos diretores. Descuido gravíssimo. E se se tratasse de um cão raivoso? Terêncio tomou a palavra: Esse animal não era um homem? Lélio sorriu. Estando na primeira fila, podia esclarecer o fato. O cão dormia recostado ao estrado. Ao ouvir a voz de Cornélio, acordou. Helvídio não gostou da frase. Se o cão dormia, não podia ouvir a voz de Cornélio. Seja como for — continuou Lélio — , olhou para a platéia, teve medo e meteu o rabo entre as pernas.

Terêncio levou as mãos aos olhos: estou ficando cego.

Muito sério, Lélio imitou o cão. Saiu pé ante pé pelo corredor e mansamente desapareceu.

Lívio e Júlia retiravam-se, saídos de outro grupinho. Passaram por Terêncio, Helvídio e Lélio, deram boa-noite e pararam. Lívio se voltou para os três amigos. Vocês viram o vexame desta noite?

Lamentável, horrível, inexplicável. Como trazer uma criança para a palestra de Cornélio Basso?!

Nervosa, Júlia arrastou Lívio para o grupo. De quem será filho esse pobre menino? Helvídio parecia horrorizado, embora sorrisse. Afinal, o vulto visto por todos mudava de figura a cada momento.

Aproximou-se deles um rapaz. Disse chamar-se Torquato Basso. Lívida, Júlia recuou. O moço gargalhou. Se quisessem, chamassem-no Cornélio Gélio. Ou Terêncio Lucano. Ou Lélio Floro. Ou Helvídio Silvano. Afinal, o inconsciente só obedece ao princípio da dor. Os desejos inconscientes são modificados a cada momento e de acordo com a realidade exterior.

Pôs-se a gritar o estranho. Aterrorizados, os espectadores saíram em disparada pela rua.

Um cão pôs-se a latir diante do anfiteatro.

 


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POR EM 13/10/2008 ÀS 06:54 PM

Da noite para o dia

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Como a vida da gente muda da noite para o dia! Ainda ontem tudo ao meu redor parecia sem vida, tudo monotonamente normal, quando me assaltou novamente a idéia de remexer papéis velhos, um dos meus passatempos prediletos. Assim consigo também trazer de volta o passado. Às vezes é uma foto, outras uma carta, outras ainda uma poesia que rabisquei na adolescência. Mas desta vez não foi nada disso. Encontrei uma novela. Datilografada, ilustrada, com capa e tudo. Como um livro impresso. No fundo de uma gaveta, enrolada noutras folhas de papel. Retirei o invólucro e fui me lembrando da história daquela história. Era uma novela amorosa escrita por César e ilustrada por mim.

Datilografamos, fizemos uma bonita capa, grampeamos as folhas. Nesse tempo vivíamos de sonhar. Éramos estudantes do mesmo colégio, colegas de grêmio literário, de leituras, discussões acaloradas. Líamos Dumas, Camilo, Herculano, Alencar.

César sonhava com a glória literária. Ser membro da Academia, escritor de fama, ganhador do Nobel. Já meu sonho se contentava com as migalhas da simples publicação. Eu não tinha vocação literária, embora rabiscasse versos vez por outra. Aprazia-me mesmo era desenhar. Daí a capa do futuro livro de César e algumas ilustrações ao texto.

Iríamos trabalhar juntos sempre: ele como escritor de novelas, eu como ilustrador de seus livros. E nunca ele aceitaria outro ilustrador, nem eu ilustraria livro de outro escritor. Pacto de sangue, de morte, de amizade eterna.

Planejamos publicar a primeira novela. Cinqüenta mil exemplares na primeira edição. Ele havia sonhado com cem mil, até que o convenci a ser mais modesto. Iríamos ficar famosos da noite para o dia: ele como escritor, eu como ilustrador. Lidos e vistos em todo o Brasil. E depois em todo o mundo.

Inclusive na China. Falaríamos com Mao Tse-tung. A juventude chinesa precisava de ler textos mais do coração e não só o livrinho vermelho.

Enviamos cópias para algumas editoras. As respostas vieram desalentadoras: “livro pouco comercial”, dizia uma; “muitas obras no prelo nos impedem de dar publicação à sua novela”, esclarecia outra; “não estamos no momento publicando novelas”, explicava uma terceira; “livro não aprovado pelo nosso Conselho de Leitores”, resumia uma quarta. E outras do mesmo teor.

Algumas editoras nem sequer deram resposta. Fizemos então novos planos maravilhosos. Não iríamos precisar das editoras. Pouparíamos. Deixaríamos de fumar, beber, merendar, ir ao cinema, etc. César iria trabalhar e depositaria a maior parte do ordenado na caderneta. Meu pai não me deixava trabalhar, mas, em compensação, eu exigiria mesada mais gorda. Dela tiraria apenas o suficiente para os gastos mais necessários e depositaria o restante na poupança. Quando já tivéssemos alguns milhões, mandaríamos publicar a novela numa gráfica qualquer. Venderíamos os livros nas escolas, nos cinemas, nas ruas, lojas, repartições públicas, nos bares. Viajaríamos pelo interior. Com o dinheiro da venda mandaríamos publicar o segundo livro. Mas quando teríamos os milhões suficientes para pagar a primeira impressão? A esta pergunta perdemos o entusiasmo.

Concluídos os estudos secundários, César deixou de estudar e arranjou emprego. Não para juntar dinheiro, mas para sobreviver. Seu pai mergulhava cada vez mais na pobreza. E não falamos mais na novela. Nossas relações pouco a pouco iam perdendo o calor, nossos encontros se distanciando no tempo. E, quando nos víamos por acaso, apenas nos cumprimentávamos.

Esqueci logo os desenhos, as ilustrações, os sonhos. E fui estudar Direito.

Um ano depois meu pai morreu. Estranhamente assassinado. Crime horrível – latrocínio. Morto e roubado. Encontraram seu corpo numa valeta a poucos quilômetros do centro da cidade. Um tiro no crânio. E o carro estacionado à margem da estrada. Nenhum vestígio do assassino.

Meu pai nunca teve inimigos, dava-se bem com todo mundo e quase toda a cidade o conhecia. Nós, os filhos, estudávamos nos melhores colégios. Minha mãe o adorava. A polícia ficou tonta. Não sabia a quem atribuir o crime. Nenhum indício, nenhum suspeito.

No dia de sua morte havia sacado uma grande soma em dinheiro ao banco, como sempre fazia. E seus negócios ele mesmo os resolvia. Deixava o carro estacionado nas proximidades do banco, levava uma pasta, um revólver e só. Não queria guarda-costas.

A polícia concluiu finalmente que o assassino só podia ser um assaltante comum. Foram então presos todos os ladrões e suspeitos de terem cometido crimes contra o patrimônio. A nenhum deles, porém, foi possível imputar o latrocínio.

Folheei a novela e por um bom tempo me deixei a cismar. Pensei no meu passado, em César, e quase não consegui dormir. E decidi que hoje procuraria saber onde vivia César. Queria recordar com ele todos os nossos sonhos, todos os nossos sofrimentos, ele por ter tido suas ilusões tão duramente mortas, eu por ter perdido meu pai de maneira tão bárbara e misteriosa. Como pudemos nos esquecer tão depressa, apesar daquela amizade quase apaixonada que nutríamos um pelo outro? Como somos fracos, débeis, inconstantes!

Onde, porém, eu poderia encontrá-lo? Detrás de um balcão de loja? Na cozinha de um restaurante? Ou teria conseguido realizar seus sonhos literários, pelo menos os mais modestos? Ou teria ido embora para bem longe? Talvez até estivesse morto.

Não, não adiantava fazer suposições. Mais fácil procurar seu nome na lista telefônica. Se não estivesse tão mal, certamente teria um telefone. Tentei lembrar-me de seu nome completo. Lamentei mais uma vez a fragilidade do coração humano. Como pude esquecer tão facilmente o nome de meu melhor amigo? Ainda bem que a novela se encontrava comigo, e, com toda certeza, nela estaria o nome inteiro, um sobrenome pelo menos. Corri os olhos e li: César Augusto dos Reis, no alto da capa.

Hoje disquei o número e atendeu uma voz grossa e autoritária. “Quero falar com o novelista César Augusto dos Reis”. A voz do outro lado se mostrou aborrecida: “Não existe nenhum novelista aqui. Quer deixar de brincadeiras, meu senhor.” Apresentei-me. Ele se fez de esquecido ou de fato não se lembrava mais de mim. Depois se disse surpreso: “Não sabia que você ainda era gente”. Conversamos mais. Quis saber de minha vida. “Sou advogado. E você?” Falou em barzinho, dificuldades, “aturando esses bêbados dia e noite”. Pedi o endereço.

O barzinho chama-se “Restaurant Carnivorous”, serve pratos da cozinha internacional, recebe a fina-flor da sociedade e é irmão de outros dois e de um prédio de doze andares.

César mandou dizer por um moleque de recados que não podia receber ninguém. Em um minuto deveria sair para compromisso inadiável. Não dei ouvidos ao recado e entrei no escritório. E só saí de lá uma hora depois.

Falamos da morte de meu pai, de comércio, de literatura e artes plásticas, do passado, de nossos sonhos, mil coisas, tudo de forma desordenada, como se quiséssemos falar todas as palavras ao mesmo tempo. Contou-me sua história: antes de adquirir o primeiro barzinho, trabalhou como garçom, copeiro e cozinheiro. O barzinho rendia alguma coisa, até se transformar num bar de verdade. O bar virou restaurante. “Tudo porque sou muito controlado e trabalhador. Não ando esbanjando dinheiro”.

Surpreendi-me diante de tanta riqueza e fui para casa desconfiado não sei de quê. E todo o passado voltou à tona, aos borbotões, feito vômito. Relembrei todas as nossas conversas, todos os sonhos, todos os projetos, a novela, tudo. E me interroguei com mil perguntas: por que César não publicou o livro, não virou o escritor que desejava ser, se tem tanto dinheiro? E se havia dito numa de nossas últimas conversas que nada o impediria de se transformar num grande homem, famoso, reconhecido por todos! Como um barzinho podia ter se transformado num restaurante daqueles em tão pouco tempo?

Não durou muito aquele vômito e voltei ao restaurante. Da porta gritei: “César, você matou o meu pai”. Ele quis explodir, gritar, correr, agredir. Apontei-lhe o revólver e ele se rendeu.


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POR EM 06/10/2008 ÀS 07:34 PM

Vou ser herói Maria

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Transtornado, o homem recusava abrir a porta do elevador. Se do lado de fora estivesse um tigre à sua espreita? Vários tigres? Um horror! E tremia todo. Não conseguia nem sequer se manter em pé. Melhor sentar-se. E esperar, esperar, esperar. Passaria toda a noite, e quantas noites fosse preciso passar, dentro do elevador. Não, morreria de inanição e tédio. E se o tigre, os tigres abrissem a porta? De manhã os vizinhos, sua mulher só encontrariam alguns ossos. Nunca saberiam como e por que sumira tão misteriosamente. A ossada poderia ser de outro. Talvez de um cachorro grande. Nunca de um homem, dele. Não havia canibais na cidade. Nenhuma notícia deles.

Sossegou, buscou uma brecha na porta, olhos e ouvidos de caçador. Nenhum sinal de tigre. O bicho não chegara àquelas alturas. Com certeza continuava na rua.

Abriu um pouquinho a porta. Puxou-a para si. Melhor não confiar em nada. Felino é bicho traiçoeiro. Empurrou de novo a porta. E, de um pulo, lançou-se contra a porta do apartamento. Socorro, Maria, socorro! Do outro lado gritaram espere, espere. Até abrirem a porta o tigre o devoraria. Bateu com força as mãos na porta. Deu outro pulo e caiu no meio da sala. Bêbado, sem-vergonha, desgraçado. Fechassem a porta logo. O tigre podia entrar.

Não, não havia bebido nada? E o que era aquilo então? Ficara maluco de vez? Maluco é a mãe. Mais um minuto, e nunca mais o teriam visto. Comido, co-mi-do por um tigre, Dona Maria. Ela se pôs a rir.

Riso de deboche. Depois gargalhou. As crianças também riram. O pai delirava? Ergueu-se do chão, ainda aflito. Prestassem atenção, muita atenção. Havia um tigre na rua. Debaixo do prédio. A mulher riu de novo. Não risse. Se não acreditasse e quisesse virar comida de tigre, abrisse a porta e descesse. As crianças já não riam e correram para a mãe.

Na televisão o locutor falava de crises, abacaxis e pepinos. Alta do trigo. O homem correu a apertar o botão do aparelho. Nada de barulho. O tigre poderia se irritar. De onde surgiu esse tigre, homem? Sei lá. Deve ter vindo da África. Não, pai, ele fugiu do circo. Deu na televisão. Mentira, gritou o outro filho. O tigre estava doente e teve alta. Então é mais perigoso ainda. Tigre ferido é uma fera.

Maria deu um gritinho, as crianças se puseram a chorar. O homem criou coragem — foi trancar a porta já trancada. Arrastou os sofás para a porta. Onde estava o revólver? Não tinham revólver nenhum. Só os de brinquedo. Então buscassem as facas, todas as facas. Se o tigre se atrevesse a entrar, ele o esfolaria. Vou ser herói, Maria.E apagou as luzes.

 


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POR EM 22/09/2008 ÀS 06:17 PM

O primeiro homem

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Quando Leão morreu, até papai, que tinha um coração de pedra, chorou. Inconformada, amaldiçoei todos os carros do mundo. Logo, porém, me conformei, porque a morte do bichinho me foi favorável: voltei a ser a menininha da casa. Todo o recente passado ressurgiu mais caloroso ainda, na forma de mimos, chocolates, passeios ao zoológico.

Apesar disso, eu vivia suplicando a papai que arranjasse outro cãozinho. Ele se afobava, dizia um não áspero, dava desgosto ver um animal de estimação, criado quase como filho, ser atropelado por esses malucos. Eu cuido bem dele, tranco o portão, não o deixo sair para o meio da rua, eu insistia.

No meu aniversário seguinte, minha grande alegria: um cachorrinho de presente, com fitinha e tudo, comprado por não sei quanto. Taí o moleque, disse papai, cheio de sorrisos e abraços. Vinha com bafo de bebida, olhos brilhantes, mãos pesadas, outro, a boca entupida de sins.

Em verdade, o velho era louco por cães e já não resistia ver a casa vazia, sem um latido. Durante toda a festa me abraçou e beijou mais duas ou três vezes e o novo hóspede só faltou não largar mais. Como se fosse pai pela primeira vez.

É esse o nome dele? perguntei, irritada, a certa altura dos carinhos. Moloque é mais bonito, apressou-se mamãe a propor, ignorante do que dizia, eu soube depois. Batizei-o ali mesmo, com guaraná. E não o larguei mais, toda dedicada a banhá-lo, mimá-lo, beijá-lo, como o fazia com as bonecas já esquecidas a um canto. Ele me olhava bem no fundo dos olhos e parecia querer dizer alguma carícia, botava a linguazinha para fora, cheirava-me toda, mordia-me, carinhoso.

Passava da hora habitual de dormir, quando fui para meu quarto, sonolenta e cansada, e lá foi ele a me seguir. Mamãe, porém, não permitiu que dormisse sequer ao lado da cama, quanto mais junto a mim. Onde já se viu isso, menina? Ou você não estudou higiene? E fez um sermão daqueles, como se não estivesse sido dele a iniciativa.

Perdi o sono por instantes, zangada com a injustiça de mamãe, e fiquei a ouvir o coitadinho ganir. Parecia um choro de dor. Penalizada, imaginei que o deixariam dormir no sofá da sala, pelo menos. Papai não iria obrigá-lo a passar a noite ao relento. E quando todos estivessem sonhando, ele voltaria para junto de mim e teria minha cama onde pudesse repousar da viagem, do batismo e da festa. Para tanto, deixei a porta do quarto entreaberta.

Ainda não dormia, as imagens conscientes misturando-se às do sonho em formação, quando ouvi uma leve pancada na porta. Não me mexi nem abri os olhos. Preferi acreditar que aquilo fizesse parte do que eu engendrava no cérebro: Moleque saltava para a cama, cheirava-me o rosto, puxava os lençóis, metia-se entre meus braços, à cata de calor...

Com pouco, senti um corpinho macio roçar-me os pés, cheirá-los, lambê-los. Arrepiei-me toda, sensível com sou ao mais delicado toque. Tentava abrir os olhos, mover-me, mas não conseguia, entorpecida. Não que passasse por minha cabeça tratar-se de uma pessoa humana. Não, eu tinha certeza de que ali estava o Moleque. Sobretudo porque entre eu e ele não havia nada. O danado conseguira meter-se não só debaixo do lençol, mas ia varando, pouco a pouco, a roupinha frouxa que eu vestia. Alcançou-me as pernas, a seguir, e eu mais me arrepiei. E foi escalando meu corpo, à procura de carnes mais macias, de um travesseiro onde pudesse dormir sem se torturar. E chegou às coxas e lá se concentrou por não sei quanto tempo.

Garanto que ainda não dormia, mas forças não tinha para reagir, retirá-lo dali, colocá-lo ao meu lado ou até deitá-lo fora da cama. Mesmo quando seus dentinhos me desceram as calcinhas.

Foi uma operação tão perfeita, carinhosa, doce que não pensei em outra coisa senão em sua inocência. Ora, ele, de certo, achava que eu me sentiria melhor nua. Ou o tecido lhe era áspero, desagradável, quem sabe?

Eu ainda não tinha pêlos na vulva e aquela língua morna lambendo-me a pele fez-me estremecer.

Em verdade, eu gostava de passar a mão sobre essa parte do corpo quando me deitava para dormir. Uma sensação tão boa que eu logo pegava no sono. Também durante o asseio eu costumava fazer isso, mas pensava em pecado, ficava triste e terminava arrependida.

Mas o pior aconteceu na casa do vizinho. Eu ia sempre lá brincar com uma coleguinha que tinha um irmão. Brincávamos os três, de tudo, boneca, esconde-esconde, manja, carrinho. E ele andava sempre me chamando para os quartos escuros, tirava minha calcinha, alisava minha pequena boceta, encostava a piroca e dizia que era meu marido. Mas nunca enfiou nada, só fazia pegar, cheirar, coisa sem importância.

Voltando àquela noite, depois das primeiras lambidas, abri, instintivamente, as pernas, doida para que aquela língua penetrasse em mim. Digo doida, mas não agia conscientemente. Para mim estava sonhando. Seria uma espécie de limpeza, já que durante toda a festa eu havia bebido muito guaraná, urinado várias vezes e não me lavara, apesar das constantes advertências de mamãe.

Mas, estranhamente, ele parou de me lamber e deitou-se sobre minha barriga. Encostou a cabecinha perto de meus peitos, estirou as mãos, como se me abraçasse, e a piroca, dura, forçava a entrada de minha já inflamada bocetinha. Vai e vem, senti dor e prazer misturados, não sei se gritei, se gemi, se chorei. A coisa entrava com força, dilacerando, rasgando, queimando minhas entranhas. E eu morria de gozo, de um prazer nunca sentido.

De manhã, sangue nas pernas, na cama, nos lençóis, uma dor enorme no pé da barriga e nada de Moleque.

Se você não quiser acreditar em minha história, pior para mim, mas juro que você é o primeiro homem.


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POR EM 15/09/2008 ÀS 05:29 PM

Ilusões de gato e rato

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No meio da tarde, um gato deu por concluído o banho e a espulgação. Julgava-se limpo e livre de pulgas. E se pôs a espreguiçar, abrir a boca e fechar os olhinhos verdes. Sentia muito sono.

Estirou-se debaixo de uma cadeira e se entregou à leveza do nada. Havia bebido leite, água? Que iguaria almoçara? A gata vizinha gostava de amar no telhado ou no quintal? E os ratos, aqueles larápios noturnos?

Num piscar de olhos, já dormia, já sonhava. Esquisito sonho. Era um ratinho cinzento e esperto. Vasculhava a cozinha à cata de um naco de queijo que lhe quebrasse o longo jejum. Andava por armários, prateleiras, latas, caixas. Súbito descobria o queijo de seus sonhos. Redondo, branco, enorme.

Nem queria acreditar naquilo. Talvez sonhasse. Ou se tratasse de armadilha. Os homens não perdiam o hábito da crueldade e da perfídia. Refinadas feras!

Aproximou-se do queijo, um olho na porta, outro na vida. Cheirou, a boca se encheu de água, encostou o focinho na casca. Deu mais uma volta pelo ambiente, olhos e ouvidos abertos. Não, ninguém para estragar sua festa.

E deu a primeira lambiscada.

Até fechou os olhos para melhor sentir a delícia que invadia sua boca, seu corpo inteiro.

De repente um calafrio percorreu-lhe a espinha. Virou-se, e eis diante de si um enorme e belo gato.

Tudo então se tornou feio para ele. Vida de rato — desgraça pura. Escondido nos buracos, perseguido dia e noite. Um inferno!

Corria, e o felino no seu rasto. Metia-se atrás dos móveis e a pata asquerosa o cutucava.

Amedrontado, vendo a morte a um palmo de seu focinho, o ratinho decidiu arriscar, buscar o derradeiro abrigo – estreita greta na parede. E correu. O felino deu um salto, escorregou, miou.

Coração aos pulos, o pobre rato conseguiu alcançar a fenda salvadora. Não, não seria aquele seu último dia. Muitos queijos roeria ainda. Muitas emoções sentiria ainda.

Nervoso, enfiou a cabeça no buraco, forçou a passagem. Porém o devorador de ratos já abocanhava seu traseiro. Mordia, arrastava-o para o suplício.

Preso aos dentes do monstro, o roedor apenas chiava. Só lhe restava esperar a morte. Nem Deus o salvaria das garras daquele demônio. Nem milagre. Talvez muita sorte. Sim, os gatos costumam praticar um ritual macabro, antes de matar e devorar suas presas. Fingem dar fim à tortura, concedendo-lhes um minuto de liberdade. A vítima tenta escapar, iludida, e recebe mais violenta mordida. É sempre assim. E quem não sabe disso?

Se tivesse sorte, aproveitaria da melhor maneira a oportunidade de fugir. Não buscaria mais a greta estreita. Esconder-se-ia debaixo da geladeira, dentro do fogão, detrás do armário. De tanto esperar, o torturador desistiria da perseguição. Cansado, dormiria, o preguiçoso.

Não havia concluído ainda seu raciocínio, e eis que o gato o libertou dos dentes, largando-o ao chão. Correr logo seria loucura. Melhor aguardar um cochilo da fera. Quando fechasse os olhos, coçasse a barriga, virasse a cabeça para alguma barata idiota.

O felino lambia os beiços, os olhos enormes fitos no rato encolhido, pensativo.

Aquele maldito não cochilava, não fechava os olhos, não coçava a barriga. Nem aparecia uma barata, uma aranha, um inseto qualquer.

E se se transformasse em gato? Por que não? Melhor ainda se aquele patife se transformasse em rato. Então a história seria outra.

Na sua ilusão, o ratinho perdeu o acanhamento, cresceu, levantou-se do chão e pôs-se a miar. Aquele animalzinho metido a valente precisava levar uma boa lição.

E partiu para o gato.

Ocorreu então a cena mais trágica da história: o felino desferiu uma tapa tão espetacular que o mísero rato rodopiou feito um pião e estatelou-se no chão. Não satisfeito, de um salto o malvado caiu sobre a inerme vítima e cravou-lhe os dentes.

— Deixa-te de ilusões, rato.

Debaixo da cadeira, o gato deu um pavoroso miado. E pôs-se a lamber as doídas ancas.

Já era noite.


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POR EM 08/09/2008 ÀS 08:56 PM

Passeio

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Se a escada parasse de súbito, eu rolava e levava de roldão todo o mundo. Talvez fosse mais engraçado do que lamentável. Não, não posso cair nem machucar essa gatinha. É mesmo um amor de garota. E por que chamar as mocinhas de gatinhas? E nós de gatos, gatinhos, gatões? Eu, um gato? Qual nada! Sou antes um macaco, um bicho qualquer. Vou me olhar direito. Mas aqui não tem espelho. A não ser os vidros das vitrines. É isso mesmo. Faço de conta que estou olhando os calçados, os preços, como um possível comprador. Que tal uns sapatos pretos? Ou marrons? Uma ruguinha aqui, uns pés de galinha. Que sapato mais gaiato! E caro.

— Diga, freguês. 

— Estou só olhando.
 
Sujeito mais chato! Então não se pode mais olhar uma vitrine? Ui! Quase atropelo o menininho. Ele e a mãe. Deve ser a mãe, apesar de ser ainda muito nova. Ou então irmã. Até que se parecem. Bem parecidos, sim. Ela então é uma gatinha. De novo o assunto dos bichos. Não importa, é uma fofura. No mínimo, come bem, dorme bem, vive bem. Se passasse fome, morasse nos buracos da Ceilândia, do Gama, do Paranoá, eu nem reparava nela. Eu e ninguém. Mudava de vista. Mas deve morar aqui mesmo. Nas quadras mais nobres. Quem sabe, no Lago. Numa daquelas mansões. Não, madame do Lago não deve andar pelo Conjunto Nacional. Ainda mais arrastando um filho pelo braço. Cansando, suando à toa. Podia estar em casa, na beira da piscina, tomando suco. Deve estar com sede. Não sei. Eu estou. Que tal um chopinho? Ali adiante tem uma pizzaria. Um chope e só. Nada de ficar sentado por muito tempo. Já basta o serviço. É bom passear, andar, olhar as pessoas. Quem sabe, encontro um conhecido, um velho amigo, um conterrâneo. Então a gente toma dois chopes. Ou quatro. Enquanto conversa. Assuntos variados: futebol, mulher, política, trabalho. “E Brasília, você gosta daqui, doutor Lima?” “Não; mas para que isso de doutor? Aqui eu sou apenas o Lima. Deixe de cerimônias”.
 
— Um chope, por favor.
 
— Sim, senhor.
 
Acho que estive aqui um dia desses. Sim, no mês passado. Não, foi noutro lugar. Mas aqui mesmo no Conjunto Nacional. Havia um desenhista bebendo e retratando os fregueses. Um velho, meio desarrumado, com cara de quem vive bêbado. Na parede, uns retratos expostos. Tudo feito a lápis ou coisa parecida. Desenho é uma coisa, pintura outra, não é? Pintura é aquilo dos quadros da Torre. Ruelas do interior, casarões, paisagens. Tudo colorido, pintado, artístico. Obras de arte finalizadas. Está geladinho. Para matar a sede e passar o tempo. Depois peço outro. Não, eu disse que ia tomar só um. Olhe, conheço aquele sujeito. Pelo menos tem a mesma cara, as mesmas feições do... Quem é mesmo? Deixe ver. Do Ministério da Justiça. É ou não é? Não, é só parecido. Uma vez, no Beirute, aconteceu um caso assim. Eu pensava que era a Martinha, cheguei a falar com a pessoa e tive a maior decepção. A garota devia estar cheia de maconha. E a Martinha nem de chope gostava. Essa juventude de hoje só quer saber disso. Filhinhos-de-papai, de deputados, ministros, juízes. Eu, não, fico no meu chopinho e não tem perigo de nada. É legal e ajuda. Embora seja droga também.
 
— Garçom, por favor.
 
Esse parece que não comeu nada hoje.
 
— Fique com o troco.
 
Fique com o troco ou fique com o troço? Troçar é bom. Quem acha ruim é quem é troçado. “Olhando para mim, beleza? Não quer me conhecer? Que tal tomarmos um chopinho? Com pizza. Pago com o maior prazer. Quer não, é? Orgulhosa! Não importa, tem muitas por aí”. Aqui deve estar circulando agora umas duas mil pessoas. E eu talvez não conheça nenhuma. Todo mundo vivendo sua vidinha, comprando, pagando, passeando. Será que há alguém como eu? Não, todos têm um rumo certo, horário de voltar para casa, família, tudo. Mais hora, menos hora, pegam o carro ou o ônibus e voltam para os seus. A mãe para o filho, o marido para a mulher, a mocinha para os pais. Deixa esse povo para lá. Que tal subir outra escada? Pode ser que em cima encontre algum conhecido. Ou conheça alguém. Aquela deve ser excelente garota. Bonita é. Mas nem olha para mim. E os filmes de hoje? Como sempre, mulheres e homens nus. A maior sacanagem do mundo. Talvez fosse bom assistir. Passar o tempo. Não, é melhor passear, olhar as pessoas. Tantas mulheres sós. E todas lindas. Muito mais do que as do filme. Aquela ali então nem se compara com aquelas depravadas. E olhou para mim. “Que tal irmos agora para o meu apartamento? Fica na Asa Norte. Garanto que você vai gostar. Você e eu. Quem sabe até a gente leva adiante essa aventura. Casamento, filhos, um lar. Ou só uma união mais ou menos passageira. Todo dia a gente vem passear pelo Conjunto Nacional. Ou então viaja para o litoral, de férias. Lua-de-mel em Guarapari. Ou aqui mesmo no Hotel Nacional”.
 
— Como é seu nome, gatinha?
 
Fez que nem ouviu, a cadela. Deve se julgar intocável. Ih! está falando com o guarda. Mas eu não sou um peão qualquer. Além do mais, estou só passeando comigo mesmo. Pacificamente.

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POR EM 26/08/2008 ÀS 09:03 AM

Literatura e Internet

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Os sites literários devem ser grandes depósitos de textos, bibliotecas universais? Devem abrir espaço para a discussão de problemas editoriais no Brasil? Os catálogos das editoras e as estantes das livrarias brasileiras revelam que os escritores brasileiros contemporâneos (poetas, contistas e romancistas) são minoria no imenso universo do livro. Estão espremidos (quando muito) entre livros didáticos (a maior fonte de lucro), clássicos da literatura universal e brasileira (domínio público), traduções, biografias, livros de auto-ajuda, etc. O ideal seria a elaboração de uma lei que criasse um fundo, cujos recursos proviessem dos lucros obtidos pelas editoras com a publicação dessas obras de domínio público. Esse fundo poderia patrocinar concursos públicos para publicação de obras inéditas ou mesmo editar (como o fazia o Instituto Nacional do Livro) livros selecionados em concurso ou em outra modalidade de seleção.
 
Os poetas, contistas e romancistas contemporâneos brasileiros estão fora do mercado. Entretanto, na opinião de livreiros, editores, dirigentes de câmaras do livro, a indústria editorial no Brasil vai muito bem, obrigado. Ora, só o governo compra 40% da produção de livros. Isto significa que está tudo muito bom (para eles). Todos nós (ou quase todos) publicamos nossos livros (quando publicamos) por editoras universitárias ou por conta própria. Ou seja, somos lidos apenas pelos amigos. A grande maioria escreve para as próprias gavetas. Um ou outro escritor consegue pôr a cabeça fora da água, a muito custo. Alguns conseguem organizar antologias e, assim, tirar do limbo, uns poucos escritores. É o caso de Nelson de Oliveira, Rinaldo de Fernandes e outros. Louve-se também o trabalho de Rogério Pereira, à frente do jornal Rascunho.
 
Realizei pesquisa no dia 13 de março de 2006, no “Google”. Fiz busca das seguintes palavras, em ordem alfabética: amor, arte, Bíblia, conto, cultura, guerra, Jesus, literatura, livro, paz, poesia, revista, saúde, sexo e vida. Pela ordem de grandeza, são os seguintes os números de páginas, no Brasil, de cada uma das palavras acima: Saúde – 37.600.000; Vida – 24.300.000; Cultura – 19.200.000; Livro – 16.500.000; Revista – 15.100.000; Arte – 13.600.000; Amor – 13.200.000; Literatura – 9.440.000; Sexo – 9.440.000; Guerra – 6.520.000; Jesus – 6.130.000; Poesia – 6.000.000; Bíblia – 5.130.000; Paz – 2.370.000; Conto – 1.690.000.
 
O elevado número de páginas dedicadas ao livro é sintomático. Como falar em “morte do livro”, se na própria Internet ele está mais vivo do que nunca? Eduardo Diatahy B. de Menezes, no artigo “A morte do livro na era virtual?”, observa: (...) “em nossa época de avanço exponencial das tecnologias de comunicação e informação, resumidas na presença avassaladora da Internet, surgem novos profetas anunciando a morte do Livro! Felizmente, o que se tem presenciado é o processo contrário: nunca se produziu tanto livro e jamais houve um acesso tão amplo a informações de toda ordem, contidas nas maiores bibliotecas e museus do mundo; jamais existiu uma livraria com um acervo de 3 milhões de livros como a `Amazon.com`, e criações generosas como a Biblioteca Virtual do Estudante produzida pela USP ou o Jornal de Poesia realizado por Soares Feitosa, que põem enorme volume de livros à disposição na Internet. Nossos velhos hábitos mentais não nos fazem capazes de vislumbrar sequer as mudanças que ainda virão nesse rumo sem limites”.
 
E “crise da literatura”? Pode-se falar em crise, num sentido amplo. Certamente a crise não será de criação, mas de editoração, de mercado editorial. Pois os poetas, contistas e romancistas não param de escrever. Se não conseguem publicar (em forma de livro), a causa não está neles. Ou está? Os leitores estariam mais interessados em Paulo Coelho do que em Francisco Carvalho? Ou tem sido sempre assim? Dizem que os editores esperam por novos transgressores da linguagem. Novos Guimarães Rosa, James Joyce, Franz Kafka. Não, eles esperam por novos O Nome da Rosa, Harry Potter, O Código da Vinci, que vendem antecipadamente milhões de milhares. O que é perfeitamente lógico, do ponto de vista do mercado. Eles estão interessados em quem vende mais. Em razão disso, poetas como Anderson Braga Horta, romancistas como Carlos Emílio Corrêa Lima, contistas como Emanuel Medeiros Vieira, e outras centenas de bons e excelentes escritores continuarão com seus livros nas gavetas ou nas páginas da Internet.
 
Como afirmar que poesia não é lida? Há dezenas ou centenas os sites e blogs de pura poesia. Pelos comentários dos leitores, percebe-se que há uma avidez de leitura. Então por que são raros os livros de poesia nas prateleiras das livrarias?

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POR EM 19/08/2008 ÀS 11:43 AM

De heróis e bandidos

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Eu não sabia direito o que havia nos gibis. Sabia, sim, da proibição de os ver, folhear, tocar, ler. Apesar disso, na rua, nas calçadas os gibis andavam de mão em mão, sebentos, sujos, rasgados, lidos às escondidas. Como surgiam, quem os vendia, quem os adquiria? Os meninos mais velhos, mais calejados, mais danados tinham o primeiro acesso a esses objetos tão desejados. Os outros, como eu, ficávamos para depois.
 
Não sei quando me aproximei do primeiro gibi. Lembro, sim, de Búfalo Bill, Tom Mix, Roy Rogers, Bill Elliott, Rocky Lane, Durango Kid, Hopalong Cassidy, Flecha Ligeira, Cavaleiro Negro, Zorro, O Fantasma, Capitão Marvel, Tarzan, Sobrinhos do Capitão, Mandrake e tantos outros heróis.
 
As histórias em quadrinhos seriam reproduções mais baratas, condensadas das histórias do far-west cinematográfico. Seja como for, fascinei-me pelos heróis dos gibis desde a primeira visão-leitura e durante muito tempo me deliciei com as suas aventuras. Eu odiava os índios americanos, apaches, comanches, sioux e outros. Seriam comparsas de bandidos, assaltantes de diligências, carruagens, assassinos. E na escola aprendíamos a louvar e admirar Borba Gato, Raposo Tavares, Anhanguera, entradas e bandeiras. Os índios – selvagens, brutos – significavam estorvo à civilização. Ensinaram-nos isso: matar índio resultava em novos caminhos. Índio representava atraso, fraqueza. Bandeirante significava progresso, força. Todos super-homens. Matavam mil índios num minuto.
 
Quando menino, poucas vezes freqüentei cinema, embora houvesse uma sala de exibição em Baturité. Se não me engano, o Cine Odeon. Meus amigos, no entanto, conheciam todos os cow-boys, os far-west. Um deles descobriu uma maneira de ver pedaços de filmes. Conseguia, talvez no lixo, alguns centímetros de fitas. De lâmpada comum queimada arrancava-se a tampa e retirava-se o conteúdo. A seguir, enchia-se com água o pequeno recipiente. Contra a luz de uma lâmpada acesa, punha-se a fita junto à lâmpada queimada, resultando a projeção do negativo na parede. Como uma simples fotografia.
 
Uma noite a direção do Colégio Salesiano comemorou não sei que data. E apresentou um filme aos alunos. Um documentário sobre a Revolução Cubana. Produção do governo norte-americano. Cadeiras e bancos foram dispostos no pátio, ao ar livre. O serviço de alto-falante transmitia valsas de Strauss. Enquanto isso, eu e alguns amigos "descobríamos" o outro lado da escola. Aproveitamos a escuridão (como a dos cinemas) e, sorrateiramente, descemos uma escada. Chegamos a outro pátio, reservado aos alunos internos. De um lado havia um conjunto de salas. Talvez dormitórios. Não tenho certeza de termos arrombado armários. Mas aquilo nos emocionou sobremaneira. E fomos bandidos por alguns minutos.
 
Em Fortaleza, adolescente, vivia nos cinemas. Todos os sábados e domingos íamos eu e meus irmãos assistir a filmes nos cines Moderno e Majestic. Com a maior gravidade, como se fôssemos à igreja. Era um passeio, uma diversão. Saíamos de casa cedo. E não nos importávamos com o tipo de filme. Geralmente westerns, faroestes, tarzans, filmes sobre guerras. Aprendi a odiar japoneses e alemães — os bandidos da 2ª Guerra. E a venerar norte-americanos. De volta, brincávamos de imitar os atores. Falávamos inglês, como eles: "What's your name?" "My name is Barrabás."
 
No entanto, meu fascínio maior cedo se voltou para as histórias nas selvas africanas, terras de pigmeus e animais ferozes. E para ambientes sombrios, fantásticos, irreais, de seres como o Fantasma.

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POR EM 12/08/2008 ÀS 06:16 PM

A literatura fantástica no Brasil

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Para Tzvetan Todorov, "a expressão ‘literatura fantástica’ refere-se a uma variedade da literatura ou, como se diz comumente, a um gênero literário".
 
Segundo ele, "o fantástico teve uma vida relativamente breve. Ele apareceu de uma maneira sistemática por volta do fim do século XVIII, com Cazotte; um século mais tarde, encontram-se nas novelas de Maupassant os últimos exemplos esteticamente satisfatórios do gênero." E pergunta: "...por que a literatura fantástica não existe mais?"
 
Todorov estudou, basicamente, a literatura européia, com ênfase na francesa. Poe apenas estaria "muito próximo dos autores do fantástico". Suas novelas se prenderiam quase todas ao estranho (sobrenatural explicado) e algumas, ao maravilhoso (sobrenatural aceito). As Mil e uma Noites se situariam numa das sub-divisões do maravilhoso – o hiperbólico. Bierce e Carr são pouco citados.
 
Teríamos, então, o gênero fantástico e alguns sub-gêneros dele: o fantástico-estranho, o fantástico-maravilhoso, o estranho puro e o maravilhoso puro. Todorov não os denomina sub-gêneros, embora afirme: "O estranho não é um gênero bem delimitado, ao contrário do fantástico." E dá como exemplos dele os romances de Dostoiévski. O maravilhoso seria, ainda, subdividido em hiperbólico, exótico, instrumental e científico (a science fiction).
 
Além disso, o fantástico teria dois importantes gêneros vizinhos: a poesia e a alegoria.
 
Os autores estudados por Todorov são "criativos", para usarmos uma expressão de Freud. Ou escritores singulares. Não se enquadravam nos limites do Romantismo nem do Realismo, salvo uns poucos: Balzac, Mérimée, Hugo, Flaubert e Maupassant. Há, ainda, aqueles que os manuais de literatura incluem quase que arbitrariamente nesta ou naquela escola. Gautier é tido como romântico e parnasiano. No entanto, foi um rebelde, ao lançar o movimento estético da "arte pela arte". Mérimée é tido como simplesmente realista. Nerval é posto ao lado dos grandes românticos, embora tenha sido um precursor do simbolismo e do surrealismo. Nodier, também chamado de romântico, e’ precursor do próprio Nerval e do surrealismo.
 
Alguns nem sequer são lembrados, como Jacques Cazotte, o autor de Le Diable Amoureux. E veja-se que ele é muito anterior a Balzac. Quando morreu (1792), o fundador do Realismo nem havia nascido.
 
De análise em análise, Todorov chegou a outra conclusão: a de que a literatura fantástica nada mais é do que a má consciência do século XIX positivista. E como interpretar ou explicar Kafka? Assim: "as narrativas de Kafka dependem ao mesmo tempo do maravilhoso e do estranho, são a coincidência de dois gêneros aparentemente incompatíveis."
 
Com o aparecimento de Tirano Banderas, de Valle-Inclan, seguindo-se O Senhor Presidente, de Astúrias, e depois as obras de García Márquez, Juan Rulfo, Scorza, Cortázar, Fuentes e outros, os críticos necessitavam cunhar essa nova tendência da literatura. Para uns o nome deveria ser "realismo fantástico"; para outros, "realismo mágico".
 
E no Brasil?
 
Durante o século XIX poucos foram os escritores brasileiros que enveredaram pelo fantástico. Álvares de Azevedo, em Noite na Taverna, e Machado de Assis, em alguns contos, são os mais conhecidos. Apesar disso, historiadores como Sílvio Romero e José Veríssimo não se detiveram na análise dessas páginas enquanto literatura fantástica. O primeiro, na monumental História da Literatura Brasileira, embora se refira, aqui e ali, a Poe, Gautier, Perrault e outros cultores do gênero, mesmo nesses momentos fala apenas de "imaginação ardente" e "fantasia". Edgar Allan Poe é um "desequilibrado".
 
Como ainda hoje em muitos estudiosos da Literatura, o vocábulo "fantástico" não passa de derivado ou sinônimo de "fantasia" e "imaginação", que, por sua vez, estão associados aos adjetivos "misterioso", "sobrenatural" e "grotesco".
 
Massaud Moisés se detém neste último vocábulo: "Confundido não raro com o fantástico, o burlesco, o gótico, o cômico de baixa extração, o grotesco ergue-se, no entanto, como categoria estética autônoma..." E relaciona o grotesco aos autores românticos, citando Schlegel, Hoffmann, J.Paul, Poe, Cousin e Victor Hugo.

 

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POR EM 05/08/2008 ÀS 11:13 AM

Literatura e Mídia

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Publicam-se todo ano no Brasil milhares de livros de poesia e prosa de ficção, quase sempre à custa dos próprios autores e em pequenas tiragens. A maioria desses livros não chega às livrarias, que hoje se dedicam a vender obras científicas (literatura médica, por exemplo), jurídicas, religiosas, filosóficas, infantis, ao lado de livros de auto-ajuda, política, amenidades, romances norte-americanos de segunda categoria e os clássicos da literatura universal e nacional.
 
O fim da editora tradicional talvez já tenha chegado. A literatura já estaria praticamente fora dos interesses dos editores e livreiros. A exceção a esta regra seriam os clássicos, que têm, como leitores, estudantes e escritores. A literatura nova (presente e futura) será editada por conta dos próprios autores ou pequenas editoras.
 
Para alguns escritores, as editoras não investem em literatura (daqui em diante empregarei o termo literatura apenas para me referir à poesia e à prosa de ficção), a mídia não dá a mínima importância ao livro, não há editoras e livrarias em número suficiente para acolher todas as obras escritas etc. E aí estaria o grande problema do escritor. No entanto, críticos e jornalistas acreditam mais na incapacidade de comunicação da maioria dos escritores com o leitor, uns por serem pobres de talento e conhecimento, outros por terem muito talento e conhecimento e se isolarem na torre de marfim da poesia para poetas, do romance para romancistas etc. Muitos escreveriam para si mesmos ou para outros escritores. Seria uma literatura para iniciados, como se a literatura fosse a linguagem de uma sociedade secreta, com seus símbolos próprios. Seria a literatura fora de mercado, não-mercantil, em contraposição à subliteratura e a uma literatura "popular", do gosto das massas.
 
Edgar Morin, em Cultura de Massas no Século XX (O Espírito do Tempo), teoriza: "A corrente média triunfa e nivela, mistura e homogeneíza, levando Van Gogh e Jean Nohain. Favorece as estéticas médias, as poesias médias, os talentos médios, as inteligências médias, as bobagens médias. É que a cultura de massa é média em sua inspiração e seu objetivo, porque ela é a cultura do denominador comum entre as idades, os sexos, as classes, os povos, porque ela está ligada a seu meio natural de formação, a sociedade na qual se desenvolve sua humanidade média, de níveis de vida médios, de tipo de vida médio."
 
E acrescenta: "Um exemplo de vulgarização ininterrupta esclarecerá esse propósito: O Vermelho e o Negro de Stendhal se torna um filme adaptado aos padrões comerciais; desse filme nasce O Vermelho e o Negro, folhetim em quadrinhos publicado num diário."
 
Esses escritores não-mercantis não estariam voltados para o leitor, para o outro, mas para si mesmos. Segundo Emanuel Medeiros Vieira, "escrevemos para perdurar, para vencer a poeira do tempo, para despistar a morte, para regar nossos fantasmas e obsessões, para nos comunicar". Porém como vamos os escritores nos comunicar com os leitores? Se escrevermos para nós mesmos, não haverá comunicação, e escrever será apenas catarse, psicoterapia, auto-análise.
 
Haveria, então, uma literatura sem mercado ou fora dele e uma literatura produzida especialmente para o mercado. Os livros produzidos para o mercado têm cotação: os mais vendidos, os best sellers, os que interessam diretamente às editoras, aos livreiros e à mídia. Segundo Juan Liscano, em entrevista a Floriano Martins, no livro Escritura Conquistada: "Enquanto o best seller, um produto para o mercado, constitui hoje em dia a meta da literatura, a poesia situa-se no extremo contrário, representando, portanto, o não mercantil literário, o trabalho nobre artesanal, o ofício tradicional, mesclado com as funções xamânicas de expressar o humano em transe de universalização arquetipal (a tribo de que falou Mallarmé)." Não está descartada a hipótese de uma obra literária tornar-se best seller. Porém isto se dará quase que por acaso ou dependendo do merchandising do editor. Assim, um grande romance pode, em determinado tempo, tornar-se o mais vendido em algum país ou em parte do mundo. Foi o caso dos Versos Satânicos, de O Nome da Rosa e outros.
 
São ainda de Edgar Morin as seguintes observações: "Em certo sentido aplicam-se as palavras de Marx: 'a produção cria o consumidor... A produção produz não só um objeto para o sujeito, mas também um sujeito para o objeto'".
 
De fato, a produção cultural cria o público de massa, o público universal. Ao mesmo tempo, porém, ela redescobre o que estava subjacente: um tronco humano comum ao público de massa.
 
Em outro sentido, a produção cultural é determinada pelo próprio mercado. Por esse traço, igualmente, ela se diferencia fundamentalmente das outras culturas: estas utilizam também, e cada vez mais, as mass-media (impresso, filme, programas de rádio ou televisão), mas têm um caráter normativo: são impostas, pedagógica ou autoritariamente (na escola, no catecismo, na caserna) sob forma de injunções ou proibições. A cultura de massa, no universo capitalista, não é imposta pelas instituições sociais, ela depende da indústria e do comércio, ela é proposta. Ela se sujeita aos tabus (da religião, do Estado etc.), mas não os cria; ela propõe modelos, mas não ordena nada. Passa sempre pela mediação do produto vendável e por isso mesmo toma emprestadas certas características do produto vendável como a de se dobrar à lei do mercado, da oferta e da procura. Sua lei fundamental é a do mercado."
 
Em outra página o filósofo francês acrescenta: "No entanto, se nos colocarmos do ponto de vista dos próprios mecanismos do consumo e do ponto de vista do tempo, podemos considerar que ao longo dos anos, os temas que desabrocham ou desfalecem, evoluem ou se estabilizam no cinema, na imprensa, no rádio ou na televisão, traduzem uma certa dialética da relação produção-consumo.
 
Não se pode colocar a alternativa simplista: é a imprensa (ou o cinema, ou o rádio etc.) que faz o público, ou é o público que faz a imprensa?
 
A cultura de massa é imposta do exterior ao público (e lhe fabrica pseudo-necessidades, pseudo-interesses) ou reflete as necessidades do público? É evidente que o verdadeiro problema é o da dialética entre o sistema de produção cultural e as necessidades culturais dos consumidores. Essa dialética é muito complexa pois, por um lado, o que chamamos de público é uma resultante econômica abstrata da lei da oferta e da procura (é o "público médio ideal" do qual falei) e, por outro lado, os constrangimentos do Estado (censura) e as regras do sistema industrial capitalista pesam sobre o caráter mesmo desse diálogo.
 
A cultura de massa é, portanto, o produto de uma dialética produção-consumo, no centro de uma dialética global que é a da sociedade em sua totalidade."
 
Na verdade, o grande problema do livro não está na distribuição, ao contrário do que afirmam algumas pessoas. Porque mesmo que as livrarias – que são poucas no Brasil – aceitassem os livros de todos os escritores, ou de grande parte deles – mesmo assim não estaria garantida a comercialização dos livros editados. Não há leitor para literatura, especialmente poesia e prosa de ficção. A circulação das obras literárias é e deverá ser sempre restrita a outros escritores, estudiosos, pesquisadores, críticos, estudantes etc. Livros com distribuição garantida a todas as livrarias e bancas de revistas são aqueles livros produzidos com os ingredientes da violência, cenas de sexo, drogas etc. Os best sellers norte-americanos são o melhor exemplo desse tipo de "literatura".
 
As livrarias não aceitam livros editados por pequenas editoras, geralmente criadas por um escritor para editar os próprios livros. E quem são os escritores que têm leitores? Os melhores? E quem são os melhores? Geralmente os melhores são eleitos pelos professores de literatura e pelos críticos. Os primeiros, talvez por falta de tempo, já chegam às cátedras das Faculdades de Letras com os mesmos nomes de sempre, os escritores que leram e estudaram: Fernando Pessoa, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Carlos Drummond, Manuel Bandeira e poucos outros. Mesmo grandes poetas e prosadores são esquecidos, como Jorge de Lima. Dirão: daqui a 50 anos outros nomes serão incluídos nessa lista dos melhores. Será a sua vez – dizem, como consolo ao escritor de hoje. O grande público, porém, não conhece esses bons escritores. Isto é, um pequeno número de pessoas, ilustres leitores e estudiosos, seleciona os melhores.
 
Moacyr Scliar resumiu a questão escritor-leitor, valendo-se de palavras de outros grandes escritores: "Quem não espera um milhão de leitores não deveria escrever, dizia Goethe, mas desde então as expectativas têm sido mais modestas. Stendhal: "Escrevo para apenas cem leitores, e desses seres infelizes, amáveis, encantadores, conheço apenas um ou dois". Arthur Koestler levou mais adiante a fórmula dos "cem leitores": uma centena, sim, mas que possam ser trocados por dez ao cabo de uma década e por um único no fim de um século." (Revista Literatura, n.º 3, dezembro, 1992).
 
O público de jornal, de revista semanal e de televisão não tem interesse por literatura. Mesmo a literatura mais banal, mais popularesca, mesmo essa não tem grande público. Daí a mídia não ter interesse nela. Ora, a política, nacional e internacional (agora mais do que nunca, com a globalização da informação), os esportes, o crime, a música pop têm público, grande público. Daí as muitas páginas nos jornais. E os melhores horários na televisão.
 
Eloésio Paulo, em seu recente Teatro às Escuras - Uma Introdução ao Romance de Uilcon Pereira, afirma: "A propósito das relações entre o texto literário e o padrão de comunicação estética estabelecido pelos veículos de comunicação de massa, o poeta João Cabral de Melo Neto já apontava em 1954 para a necessidade de um comércio maior entre as formas poéticas e novos meios de difusão. Cabral destacava principalmente as virtualidades do rádio como difusor da poesia; apresentava, como uma direção inevitável para o poeta moderno, reformular sua posição enquanto agente de um processo de comunicação, ao mesmo tempo mantendo a alta elaboração estética na base de seus objetivos e procurando abrir-se à possibilidade de atingir o grande público. Via-se o poeta, portanto, diante de um impasse representado pela concorrência dos mass media, que por outro lado encerrava, dialeticamente, a própria saída ou solução, já que tornar a poesia capaz de "entrar em comunicação com os homens nas condições que a vida moderna oferece" era, para Cabral, a "contraparte orgânica" da luta pela expressão poética desobstruída do tom oratório característico do lirismo tradicional."
 
E diz mais: "Se a ficção do período (anos 50 e 60) não ignorava a cultura de massas, é certo que encerrou a problemática em outros termos, distanciando-se do mundo racionalmente administrado da sociedade em industrialização para mergulhar nos impasses da consciência individual e nas indagações metafísicas, coincidindo os escritores mais importantes numa pesquisa estética em nada dirigidas para a massificação da literatura."
 
Há alguns anos os jornalistas eram, antes de tudo, escritores, como Machado de Assis e outros. Os donos dos jornais ou os editores-chefes precisavam desses escritores. Sem eles, não teriam como editar seus periódicos. Daí também os suplementos literários, que certamente nunca ressurgirão. Não havia ainda os cursos de comunicação. Mesmo assim, ainda hoje temos os artigos assinados, sim. Porém seus autores geralmente são políticos profissionais, sociólogos ou economistas, que eventualmente podem ser escritores.
 
Edgar Morin cita um trecho de Robert Musil, em O Homem sem Qualidades, quando o personagem Arnheim pergunta: "Você não notou que nossos jornalistas ficam sempre melhores e nossos poetas sempre piores?" E tira sua conclusão: "Efetivamente, os padrões se enchem de talento, mas sufocam o gênio. Um copy desk do Paris-Match escreve melhor que Henri Bordeaux, mas não saberia ser André Breton."

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