revista bula
POR EM 08/10/2012 ÀS 07:44 PM

Intocáveis: Pretty Woman da era Facebook

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O megassucesso francês “Intocáveis” (de Olivier Nakache e Eric Toledano) tem várias sintonias com outro preferido do público: o americano “Pretty Woman” (de Garry Mar­shall). É a sempre bem aceita síndrome de Cinderela, quando alguém muito pobre tem acesso a um palácio, a um personagem rico e pinta um clima que acaba emocionando a plateia e acaba sempre bem. A prostituta (Julia Roberts) contratada como scort pelo multimilionário depredador de empresas (Richard Gere) é, na versão francesa, o afrodescendente (Omar Sy) que é escolhido como acompanhante do ricaço (François Clu­zet) com todo o perfil do nobre europeu, já que não sabemos qual a origem da sua fortuna.

Em ambos os filmes, o personagem carente acaba experimentando um banho de loja e de cultura. Até a cena da ópera é idêntica. A solenidade do evento artístico é quebrada pelo furão ignorante divertido, para espanto da seleta convivência. Há ainda o contraponto óbvio entre o vazio de quem tem di­nheiro e a alegria de viver de quem não tem. Sim, tolinhos espectadores, di­nhei­­­ro não traz felicidade a não ser que entre no circuito alguém que jamais teria acesso a tanta riqueza e faz tudo ficar com al­gum sentido. A grana, enfim, vale para alguma coisa, desde que o emergente traga de suas origens aquele visgo que só a escravatura é capaz de dar com seu rebolado e seu sapateado. E que ganha o olhar complacente dos funcionários bem postos do privilégio, como o gerente de Hotel de “Pretty Woman” ou as secretárias de “Intocáveis”, todos no papel da fada madrinha que incentiva a presença do ungido no baile.


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POR EM 05/10/2012 ÀS 08:31 PM

Livro cúmplice

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O livro é cúmplice quando revela o que ninguém sabe. A narrativa nos empolga porque, acreditamos, somos testemunhas de segredos só a nós revelados. É como um tesouro escondido, do qual possuímos a exclusividade do mapa. O autor dormia em seu anonimato de papel antigo até que fôssemos lá abrir uma fresta na sua solidão e degredo. Levamos esse tipo de livro de maneira disfarçada, misturado a coisas comuns, como uma revista ou um impresso qualquer. Se formos flagrados, sacudimos os ombros e pegamos a brochura na ponta dos dedos, com desdém.

Aprendemos coisas como a palavra desdém nessa literatura que não deixou marcas, essa memória oculta, essa única edição sobre o que para sempre foi perdido. Ninguém pode desconfiar do que trazemos embaixo do braço como se fosse uma côdea de pão. Exatamente, côdea é também esse tipo de palavra enterrada em páginas esquecidas. Nós, os leitores oblíquos, costumamos ler obras atiradas no tempo, antes que descubram o quanto é cult, ou importante, ou fundamental. No momento da descoberta, ninguém à vista sabe do que se trata. Você vira o mundo atrás de algumas pistas e não encontra uma só pegada de uma possível leitura. Então, satisfeito, embaixo de cobertas, na curva do quintal, na praça vazia em feriado, você abre, trêmulo, aquela mina anônima, aquele território sagrado onde somos ouvintes de sinetas, passos em castelos, sons de metralha.


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POR EM 03/10/2012 ÀS 10:20 PM

Tetro, de Francis Ford Coppola

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Toda arte é a sua contingência. Transcender não é ignorar os limites, ao contrário, é ter consciência deles. Um filme não existe fora do cinema. Antes de ser um gênero, é um filme e disso ele não escapa. Seu foco é a sua própria natureza: seja qual for o desdobramento, volta para si mesmo. É preciso abordar o cinema para fazê-lo. Grandes cineastas transformam esse destino, essa camisa de força, em grande arte. Como Francis Ford Coppola, por exemplo, tanto como diretor contratado em estúdio de “O Po­deroso Chefão” quanto no independente “Tetro”. Entre esses dois polos, ele trafega entre a celebração e maldição procurando manter o foco. O gênio que acaba transgredindo faz filmes, não sucessos ou fracassos.

O que é Godfather? Cinema. Marlon Brando imita Eward G. Robinson, paradigma do chefão mafioso de Hollywood desde Little Cesar (1931), colocando bochechas falsas para convencer os chefões de que ele era o ator certo. Gestos étnicos como bater na cara do interlocutor e que são confundidos com a italianidade. O clipe do batismo coincidindo com a eliminação da concorrência. A música pontuando a narrativa. Assim também, “Tetro”, colagem cinematográfica em que o cineasta busca a própria identidade, que em vez de estar na família, está no próprio cinema. As chamadas citações de filmes fazem parte da carne de que é feito “Tetro”. Duas obras da dupla inglesa Michael Powell e Emeric Pressburger , “Red Sho­es” (1948) e “Os Contos de Hof­fmann” (1951), fazem parte da memória doméstica, mas no filme é a substância da postura artística assumida pelos Tetrocini, em que a originalidade e o talento convivem com grandes obras, da música à dança, a literatura e ao cinema. O tempo presente é em preto e branco, origem do cinema, e a memória é em cores, a ilusão de uma vida equilibrada e perfeita que se estilhaça em acidentes, concorrência, retaliações, vinganças, separações, dor e morte.


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POR EM 02/10/2012 ÀS 11:03 PM

Gabriel García Márquez: o escritor em seu labirinto

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Um trabalho acadêmico sobre Gabriel García Márquez serviu para resgatar memórias pessoais e ao mesmo tempo mergulhar na representação dos mitos do heroísmo sul-americano. García Márquez, mestre em desvendar o imaginário de uma cultura pontuada pelo exagero, nos dá no seu livro “O General em Seu Labirinto” um quadro terrível de Símon Bolívar, o ex-líder que faz uma descida aos infernos ao longo de um rio. Exatamente o contrário da ascensão que sua lenda experimenta hoje, cercada de equívocos por meio de eventos políticos.

Por isso, é bom resgatar a literatura no que ela tem de mais contundente, a capacidade de nos abrir os olhos e o coração para as muitas faces da opressão.

Onde andará meu Quixote? A edição espanhola de bolso, em papel bíblia, cheia de ilustrações, que alguém me deu de presente nos anos 1960, deve andar perdido em algum canto da biblioteca improvisada ao longo do tempo na minha casa. Especialmente as ilustrações desse primoroso exem­plar são a pista fundamental para analisar o livro de García Már­quez. Um quadro representando de Bolívar deitado fez emergir na minha memória os desenhos e pinturas dessa edição comemorativa do romance de Miguel de Cervantes. Nessas imagens, o cavaleiro da triste figura jaz, no fim da vida, enlouquecido e alquebrado pelas lutas contra gigantes imaginários.


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POR EM 27/09/2012 ÀS 08:32 PM

Ver, o verbo do cinema

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Filme é o que enxergamos, inclusive a elipse, quando a cena nos remete a algo fora da tela. O exercício de ver serve para abordar o cinema pelo que ele é, quando estão dispostos os elementos chave para decifrarmos o que é visto. Limpar a obra da Sétima Arte de intenções adventícias é uma atividade valiosa, principalmente quando assistimos o trabalho de cineastas como Kubrick, Spielberg ou Chaplin. Ou quando conseguimos nos esclarecer sobre filmes aparentemente banais que provocam insights importantes para o trabalho ensaístico. Nesta coletânea de textos, aprofundamos essa percepção sobre o que o cinema nos mostra de mais impactante.


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POR EM 25/09/2012 ÀS 03:40 PM

Especial cinema argentino

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“O Segredo dos Se­us Olhos”, de Juan José Cam­­panella, é a composição de uma peça clássica em três movimentos. É um filme de amor dentro dos parâmetros conhecidos, ou seja, um casal próximo demais que não consegue se tocar durante o filme todo e só encontra uma solução no final. É um filme policial seguindo os trilhos do filme noir, onde um investigador solitário procura saber algo que todos querem esconder. E é um filme político, na linhagem das grandes obras do gênero, pois denuncia a origem da injustiça nas tramas do poder, e não na natureza humana.

A demonstração de força de um assassino estuprador diante de dois funcionários da Justiça, num elevador fechado, é a cena mais assustadora do filme. O bandido foi descoberto numa investigação criminal, mas está solto graças aos bons serviços de deduragem para a ditadura argentina. Quem treme não é o criminoso, mas as pessoas pagas pelo Estado para fazer valer a lei. Essa é a fonte da tragédia: o país condena as vítimas e estimula os algozes. O resultado é uma sociedade amordaçada, amores frustrados, casamentos partidos, processos arquivados.


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POR EM 20/09/2012 ÀS 08:27 PM

Qual a relação entre William Faulkner e John Ford?

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Descubro que William Faulkner, Nobel de Literatura de 1949, está citado no elenco de roteiristas de mais um John Ford, “Ao Rufar dos Tambores”, ou “Drums Along the Mohawk”, de 1939, com Henry Fonda e Claudette Colbert. O site IMDb, que costuma ser completo nas suas fichas, coloca o grande escritor como “não creditado”. Fui atrás, armado de Wikipédia e Google Books (que reproduz páginas remotas específicas sobre o assunto que nos interessa). Leio que Faul­kner esteve presente no início do processo de adaptação da novela de Walter D. Edmonds (maior best-seller da época depois de “E O Vento Levou”, de Margaret Mitchell), sobre o casal de pioneiros na Guerra da In­de­pendência americana. Mas foi considerado muito denso, inapropriado para o que os produtores queriam.

Há um folclore que os pesquisadores demoliram nos últimos anos de que Faulkner sofria em Holywood, o que não é verdade, só em parte, em alguns momentos. Ele ganhava bem, 500 dólares semanais no início, chegando a mil depois de alguns anos. Quatro mil dólares por mês no final dos anos 1930 não eram pouca coisa. Testemunhos confirmam que Faul­kner levava a sério os encargos dos scripts, apesar de ter tido dificuldades, pois não se sentia à altura do que esperavam dele. Chegou a sumir por uma semana logo depois de ter sido introduzido numa sessão exclusiva em que se decidiam os rumos de um filme.


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POR EM 17/09/2012 ÀS 09:23 PM

Sho­sha, de Isaac Bashevis Singer

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Todo romance é sobre literatura. Todos os que contam, pelo menos, como nos lembra “Sho­sha”, de Isaac Bashevis Singer, lançado originalmente em 1978, o mesmo ano em que o autor ganhou o Prêmio Nobel. A linhagem é conhecida. “O Qui­xote” que se debruça sobre si mesmo na segunda parte do texto de Cervantes é o exemplo canônico da ficção com autoconsciência. O jogo não tem fim e chegou ao auge com as experiências do século 20, de James Joyce a Guimarães Rosa.

Mas, longe de ameaçar a sobrevivência da arte, monumentos da conflagração literária como “Ulisses” e “Grande Sertão” be­beram na fonte dos clássicos, sinal de que a criação literária, há tempos, alimenta-se da reflexão sobre o que se escreve e dela faz sua principal trama. Nas “Mil e Uma Noi­tes”, o núcleo do drama não são as histórias contadas por Sherazade, mas sim o fato de contá-las, o que representava a anulação da pena de morte decretada pelo rei. Em Rosa, o livro é o confronto entre o contador e o ouvinte fictício. O objetivo é nobre. A arquitetura da narração, por mirar-se no espelho, torna-se real, só para contaminar os personagens. Riobaldo e Diadorim tornam-se de carne e osso, enquanto acontece o reverso no projeto, pois não existe nada mais inventado do que o doutor que chega de longe para escutar o velho jagunço. Esse é o segredo do romance, que jamais se entrega ao que quer contar, antes denuncia a sua impossibilidade. Ao desistir (sem se entregar) ele consegue atingir a essência da produção de um escritor de verdade.


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POR EM 12/09/2012 ÀS 09:38 PM

O livro censurado de Henry Miller

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“Pesadelo Refrigerado”, de Henry Miller, é um livro que ficou muito tempo censurado e, quando veio à tona, mostrou a América virada pelo avesso num tour radical. De olho clínico e com narração enxuta, o autor leva o leitor para o núcleo do drama — a formação de um país voltado para a dor e que tenta em vão mascarar essa evidência

Henry Miller

Não são os vestígios que importam, mas suas fontes humanas. A arqueologia não deveria se ocupar das ruínas, mas do es­plendor das mãos anterior a elas. Isso poderia tirar do estudo do passado remoto sua roupagem funerária, sua obsessão por túmulos, suas descobertas que se transformam em museus suntuosos. Descobrir um gesto numa fogueira extinta é mais importante do que ver imobilizado um trono de ouro a­companhando múmias.

A função civilizatória da arqueologia não é o deslumbramento provocado pela precocidade dos ancestrais, mas enxergar o que qualquer civilização esconde quando for comparada ao verdadeiro enigma, a natureza. O que faz o projeto esquecido de uma pirâmide no alto da montanha? Qual o sentido de uma cidade industrial americana colocada ao lado do Grand Canyon? Esses eventos poderão revelar toda a fuligem, precariedade, escândalo e horror que acompanham a modernidade?

É disso que se ocupa Henry Miller no seu clássico livro de viagens, “Pesadelo Re­frigerado” (tradução de José Rubens Si­queira, Francis, 320 páginas), um trabalho arqueológico que despreza os vestígios, a não ser que sirvam para provar sua tese sobre a sujeira da América. Ao detectar a origem do pesadelo — o divórcio entre homem e natureza no país que despreza a arte e a cultura — ele vai atrás do tesouro verdadeiro oculto a quilômetros abaixo das aparências: os gênios, anônimos ou simplesmente desprezados e perseguidos, que fazem a grandeza da sua época e que passam despercebidos pela brutalidade de uma nação que aposta nas vantagens da guerra. Esta, já estava desencadeada na Europa na época em que foi escrito o livro, mas ainda não havia o engajamento, vislumbrado como iminente, do governo Roosevelt, em 1941.


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POR EM 28/08/2012 ÀS 10:30 PM

Monteiro Lobato: alma de boxeador

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Os originais do livro de estreia do polemista Monteiro Lobato, “Urupês”, uma coletânea de textos analisados neste ensaio, dormiu algumas noites, esquecidos, na garçonière usada pelos modernistas liderados por Oswald de Andrade, em São Paulo. Foi em 1917, muitos anos antes da semana de 22. Depois foram devolvidos ao autor, que conseguiu definir um papel transgressor nesta obra que mudou a literatura brasileira por vários motivos, especialmente por um: o de ter inventado o povo no genial perfil do Jeca Tatu, personagem vítima do latifúndio e do colonialismo que foi apropriado pela cultura brasileira como um vetor de visibilidade e insurgência.

O modernismo é um movimento amplo, que extrapola a Semana e o enfoque paulistano (da capital). Nasceu do inconformismo do talento diante da mesmice da cultura, que estava amarrada a velhos esquemas agrários, culturais, políticos. É pioneiro mais no Rio de Janeiro do que em outros lugares, e não se circunscreve apenas à literatura, mas à caricatura, ao panfletarismo, ao deboche e à denúncia pura e simples. Vejo Monteiro Lobato como um dos primeiros modernistas e sua importância revolucionária foi reconhecida mais tarde pelo próprio Oswald de Andrade, quando se reconciliou com ele depois de anos de rusgas e ressentimentos. Mas Lobato era turrão e inconformado demais, e além disso, vivia no interior, para fazer parte de um movimento de inspiração europeia. Lobato bebia em fontes abundantes da literatura universal e aferrava-se à narrativa coesa, eficiente e encantadora, inspirada pelo mato que o cercava. 


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