revista bula
POR EM 18/02/2013 ÀS 12:12 PM

Cadeia, o grande sertão de Graciliano

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Cigarros ordinários acesos um no outro para economizar fós­foro, um restinho de iodo para desinfetar um ferimento no dedo, papel e caneta embrulhados em pijamas e outros trapos numa valise que carrega por todo lado, por mais de cinco prisões para onde foi jogado junto com milhares de outros presos políticos, misturados a vigaristas, ladrões e malandros, acompanham o escritor na sua faina: o de escrever notas que mais tarde vão continuar a literatura iniciada nos confins do Brasil seco e violento. Os livros que esmerilha na sua rotina brutal são narrados como personagens ocultos, um amontoado de letra miúda, mal alinhavadas e passíveis de todas as correções. O protagonista é o livro — pode ser “Angústia”, publicado em 1938, ou as anotações que geraram mais tarde “Memórias do Cárcere”. Ele está sendo esmiuçado nos apertos sem conta, em meio ao pavor, o horror, a miséria, a sujeita e o escândalo. O que lemos em “Me­mórias do Cárcere” é uma obra sobre literatura, que começa a ser esboçada na cadeia. A s notas se transmutam mais tarde, reescritas e editadas (dez anos depois de sua soltura, em 1938) para a posteridade — foi publicado em 1953 pelo seu filho Ricardo, que mudou o título original, “Cadeia”.


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POR EM 03/01/2013 ÀS 12:48 AM

Woody Allen, o escritor de filmes

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A sobrevida de um novelista de costumes, que usa a câmara como teclado e conta histórias baseadas na sua paixão

Um veterano que já está no lucro, o cineasta americano que um dia foi comediante e en­veredou pelos caminhos do cinema radical, tem feito sucessivas obras que geram polêmicas por motivos diversos do que acontecia no início da sua carreira. Antes, era preciso celebrar o gênio do texto enxuto, perfeito e hilário, que contradizia o humor tradicional e instaurava o riso cerebral no ambiente hiperurbano da sua Nova York. Hoje é o rodízio de cidades europeias que abraçam seu trabalho sempre impecável, mesmo que digam o quanto perdeu em criatividade. Allen está acima de enquadramentos. Precisamos abordar alguns dos seus filmes para mergulhar na sua diversidade autoral, como fazemos neste ensaio.


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POR EM 26/12/2012 ÀS 10:29 PM

Drummond, Quintana, Cabral: diversidade no cânone

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O Drummond erótico do livro “O Amor Natural”, o Quintana malvado, longe do farisaísmo a que foi condenado na era da internet, o Cabral lírico de “A Escola das Facas”, desafiando a secura dos seus epígonos: estranhas porções da diversidade literária, opostas à percepção consagrada nas obras de grandes poetas.


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POR EM 19/12/2012 ÀS 09:28 PM

John Ford e o renascimento de uma nação

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Trata-se da América clássica, dos founders fathers, que se partiu na Guerra da Sec­essão e que em dois filmes de John Ford é recosturada por meio de princípios como a tolerância, a justiça, a paz e a coragem. Praticamente um é refilmagem do outro. Ambos têm como protagonista o judge priest (personagem do escritor Irving S. Cobb) disputando uma eleição em Kentuky, terra de linchadores e de intolerância racial. O primeiro é de 1935 e tem como título o próprio juiz, “Judge Priest”, e o segundo de 1953, com título tirado de uma canção do Sul, “O Sol Brilha” (The Sun Shines Bright).

Fiquei apavorado com a campanha difamatória contra John Ford por parte dos pseudo politicamente corretos na rede, que o acusam de tirano, invejoso e racista. É próprio da mediocridade tentar destruir o gênio, que a desmoraliza. Felizmente alguns ensaístas consideram “O Sol Brilha” mais uma obra-prima do grande cineasta. Confirmei vendo o drama de uma jovem adotada e alvo do desprezo social recuperando sua identidade e sua honra graças à ação enérgica do juiz e de todos que o admiram e seguem seus passos. Em “Judge Priest”, o foco está mais no pai da moça adotada, um herói do sul que ficou livre depois de lutar na guerra e consegue escapar de uma acusação de agressão numa briga de bar.


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POR EM 14/12/2012 ÀS 08:19 PM

Borges e Neruda: o gênio além da ideologia

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De perto somos todos normais: de esquerda, de direita, de centro, alienados. De longe, quando a persona é vista em sua inteireza, que só pode ser expressada pelo talento de cada um, o bicho pega. Jorge Luis Borges e Pablo Neruda causam desconforto quando se fala neles. Um porque apoiou a ditadura argentina, outro porque foi ministro do governo de Salvador Allende. Essa maldição que persegue o gênio nos afasta da essência de suas obras. Neste ensaio, alguns pontos focais do trabalho inumerável de dois mestres da literatura universal. Um exercício de ver com os olhos livres e deixar de lado o que é datado e perecível, mesmo que o talento se expresse às vezes sob a ótica contaminada por convicções ideológicas. 


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POR EM 11/12/2012 ÀS 05:11 PM

Michelet: um poeta inventa a história

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O truque narrativo de Jules Michelet no seu clássico “História da Re­volução Francesa — Da Que­da da Bastilha à Festa da Fe­deração” ainda pode ser encontrado hoje no cinema americano: o herói só radicaliza depois que sofre a brutalidade dos inimigos, depois que se decepciona, quando sua boa fé vira do avesso e se transforma em arma de guerra. Trata-se de uma visão romântica e ao mesmo tempo moderna da história, uma ciência hoje em crise de identidade, abordada neste livro com a oratória poética do mito. Lendo sua obra com olhos livres e com o apoio de Lucien Febvre e Jacques Ran­cière, pode-se identificar os elementos principais deste livro, sua gênese e atualidade. Vamos seguir o conselho de Ma­rio Quintana, que respondeu à pergunta de uma professora “O que é preciso ler para entender Shakespeare?” assim: “Leia Shakespeare”.

A razão vence a loucura

O povo foi convocado pela aristocracia para as eleições de 1789. O objetivo era servir de massa de manobra no jogo político da corte. Michelet destaca a inocência do povo, que atende ao chamado votando maciçamente, de maneira correta, nos eleitores certos, esperando deles a solução para os problemas gerais. O texto tece essa inocência para imantar o povo — que ao agir atrai para si a razão. O povo jejuava — com a crise — e aguardava pacientemente, pois tinha esperança nos Estados Gerais.


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POR EM 10/12/2012 ÀS 10:40 PM

Somewhere, de Sophia Cop­pola

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“Somewhere” (“Um Lugar Qualquer”), o premiado filme de Sophia Cop­pola, é sobre os bastidores da vida de um ator célebre (Stephen Dorff, no papel exemplar do paspalho que parece ser), dividido entre festanças, entrevistas, premiações, viagens e eventos variados. A matéria-prima de um cinema de espetáculo, que por motivos misteriosos atrai multidões. Não há dúvida que é uma representação do pai ausente de Sophia, o gênio Francis Ford Coppola, que carregava os filhos pelos hotéis afora enquanto fazia obras-primas. Não tinha tempo para a família, mas até hoje paga o tributo, já que precisa render-se à sua vocação de italiano, apesar de ser essencialmente um americano (aquele tipo que expulsa os filhos de casa mal saem da puberdade). Ele é a presença constante dos filmes da filha, que já nos deu grandes obras como “Lost in Translation”.

Para onde leva esse cinema que dá voltas sobre si mesmo? Para o vazio ou para gestos pretensamente libertadores (por que, em vez de abandonar sua Ferrari no deserto depois de fechar a conta no hotel de luxo, o bobalhão não me dá as chaves do carro e do apartamento enquanto ele torra no solaço? Ora, porque tudo não passa de ficção da pior qualidade). Trata-se de uma denúncia ou de uma entrega? Acho que as duas coisas. Sophia já tinha escrito um conto de fadas da menina que era filha de pais separados ricos e a deixavam vivendo com um mordomo num hotel (“A Vida sem Zoe”, episódio dirigido pelo pai na obra coletiva de “New York Stories”). “Lost in Translation” também se passa num hotel. Ou seja, ela não sai do reduto onde foi criada.


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POR EM 08/12/2012 ÀS 09:16 PM

Contos russos, nossos contemporâneos

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O que há em comum entre o país narrado pelos grandes autores russos do século 19 e início do 20 e o Brasil? Muita coisa, como a tirania, a servidão, a miséria, o povo ao relento. Falta apenas o talento, fonte de gênios da literatura, que souberam transformar a nação reportada num cenário inesquecível do drama humano. Neste ensaio, abordamos contos de Tolstói, Górki e Turguêniev, entre os mais conhecidos, e outros nomes mais ocultos, como Kuprin, Sologue, Búnin, Andreiév, Garshin, Ko­rolenko e Tchirikon. Eles expressam com lucidez e impiedade o que há de mais valioso num país diante do seu destino: a população que luta pela sobrevivência e sonha para se manter à tona.


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POR EM 02/12/2012 ÀS 03:16 PM

David Toscana, Francisco Coloane e Carlos Maria Dominguez: três paisagens literárias

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A geografia literária de três países de língua espanhola que nos cercam com sua presença em muitos outros vetores — do comércio à História e ao turismo — nos diz mais sobre eles do que um contato direto. Seus autores, mais recentes como o mexicano David Toscana, ocultos como o uruguaio Carlos Maria Dominguez ou clássicos como o chileno Fran­­cisco Solano, relatam seus universos imaginários fortemente arraigados em paisagens que sobram. No deserto, na beira rochosa do mar ou no descampado, paisagem é ficção, tão real quanto um sonho ou a imagem num espelho.


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POR EM 22/11/2012 ÀS 08:27 PM

Especial Alain Resnais

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O amor pode perdoar sem esquecer, nos diz o diretor Alain Res­na­is e a roteirista Mar­gue­rite Duras no filme fundamental de 1959, “Hiroshima, Mon A­mo­ur”. É, como todos, um filme so­bre cinema: a mulher francesa participa de um documentário sobre a necessidade da paz depois da hecatombe nuclear, mas ela mesma é a protagonista do filme que estamos vendo, e que vai mais fundo do que os falsos apelos pacifistas, já que joga pesado com a necessidade real de convívio depois do massacre e a única saída para isso é resgatar o amor perdido e abrir-se para uma nova relação.

Ela precisa ficar em dia com uma dívida com o passado. Tinha soterrado na memória o episódio em que amou um soldado alemão na Segunda Guerra, em plena Fran­ça ocupada e por isso foi punida com o encarceramento e a loucura. Por ter essa ferida aberta dentro de si, tornou-se incapaz de amar. O encontro com um arquiteto japonês, que tem tudo para ser um momento descartável de sexo, se transforma numa sessão psicanalítica, em que o amante/doutor encarna o personagem assassinado, o soldado alemão, e faz com que ela re­cupere cada instante do desejo que enfrentou barreiras e preconceitos e jogou-a na condenação por parte dos seus conterrâneos.


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